quinta-feira, 2 de julho de 2026

O silêncio de araque, por William Waack

O Estado de S. Paulo

O tempo está ficando curto para a candidatura do senador Flávio Bolsonaro

Na fotografia do momento não há boas notícias para a candidatura de Flávio Bolsonaro, a não ser que se considere boa notícia o fato de não ter aumentado ainda mais sua desvantagem em relação a Lula. O que os números mais recentes das pesquisas parecem demonstrar é que o “piso” da candidatura está virando “teto”.

Já era preocupante a convergência de pesquisas indicando que outros nomes de oposição fariam tão bonito (ou tão feio, como se quiser) como Flávio caso alcançassem um segundo turno. Muito pior é constatar, segundo a AtlasIntel, que outros nomes no lugar de Lula na cédula (Haddad ou Alckmin) levariam vantagem sobre o ungido por Jair Bolsonaro.

Este é o retrato nítido de uma situação na qual um lado votaria em qualquer um do mesmo lado, e de jeito nenhum em qualquer um do outro. Ocorre que a pequena margem de “independentes” que decidiram as eleições de 2022 continua exígua, e claramente desfavorável a Flávio. Figura central aqui é o eleitorado feminino, especialmente de baixa renda – a parcela considerada crucial na derrota de Jair há quase quatro anos.

Neste ponto a briga de Flávio com a madrasta pode energizar trogloditas no cantinho do espectro político, mas nada acrescenta à própria candidatura, que, no máximo, permanece onde está entre as mulheres – ou seja, sem brilho. O único destaque até aqui para o principal candidato de oposição é a vantagem direta que tem sobre Lula na questão de criminalidade, mas perde ou empata em várias outras, incluindo temas fiscais e tributários.

Nesse sentido, as sanções que o governo americano começou a aplicar a cidadãos e empresas brasileiros sob a suspeita de envolvimento com organizações criminosas – a primeira consequência direta da classificação do PCC como grupo terrorista – provavelmente darão um argumento forte para a campanha de Flávio. E um ponto destacado de contraste com o governo Lula, que sempre se opôs à classificação.

A julgar por declarações do pré-candidato exaltando o “homem forte” de El Salvador – tido hoje como principal inspiração das mudanças eleitorais batizadas de “onda azul” de direita –, é o único caminho que se oferece. A candidatura permanece no alto nas pesquisas, mas não empolga, tem escassa capacidade de mobilização além dos convertidos ao bolsonarismo e oscila entre falta de ideias e ideias muito ruins, como as que se referem à política externa.

Não é à toa que a candidatura alterna entre escândalos e brigas familiares num permanente estado de apreensão. A declarada opção de Michelle Bolsonaro por um “silêncio obsequioso” é de araque. Ela está escancarando que tem muito a dizer.

 

Nenhum comentário: