Justiça tem de deter roubo de conteúdo por robôs de IA
Por O Globo
Quase 400 jornais americanos abrem processo
contra OpenAI por violação de direitos autorais
Editoras de quase 400 jornais e sites em 33 estados americanos abriram processo contra a OpenAI, criadora do ChatGPT, e sua parceira Microsoft pelo uso, sem autorização, de conteúdo protegido por direito autoral no desenvolvimento de seus modelos de inteligência artificial (IA). Na ação, as editoras afirmam que o empreendimento altamente lucrativo da IA cometeu “violação desenfreada” de direitos autorais. “A Microsoft e a OpenAI criaram e distribuíram reproduções das obras” ao usar tais conteúdos “para treinar seus grandes modelos de linguagem” e ao implantar produtos novos. O processo pede uma compensação financeira proporcional ao tamanho do roubo e solicita que a decisão seja tomada por um júri.
O New York Times foi a primeira grande
empresa de comunicação americana a processar OpenAI e Microsoft. Em dezembro de
2023, abriu ação contra a violação de direitos autorais no uso de artigos
jornalísticos para treinar modelos de IA, incluindo o ChatGPT. Desde a primeira
iniciativa há quase três anos, mais de 40 ações semelhantes foram protocoladas
por empresas de comunicação e escritores nos Estados
Unidos. Há também iniciativas regulatórias relativas ao uso de IA na
União Europeia e noutros países, inclusive o Brasil. Enquanto elas não avançam,
a esperança de reparação contra o roubo sistemático de direitos autorais está
na Justiça.
O processo desta semana foi aberto por
jornais locais, cuja audiência tem sido drenada por robôs de IA, sem que os
veículos sejam devidamente compensados. Na ação, eles lembram que a própria
OpenAI é ré confessa. Em comunicado entregue a uma comissão de investigação da
Câmara dos Lordes na Inglaterra em 2023, a empresa declarou que, como os
direitos autorais “hoje abrangem praticamente todo tipo de expressão humana —
incluindo posts de blogs, fotografias, postagens em fóruns, trechos de código
de software e documentos governamentais —, seria impossível treinar os
principais modelos de IA atuais sem usar materiais protegidos por direitos
autorais”. No mesmo documento, descreveu seus críticos como retrógrados:
“Limitar os dados de treinamento a livros e desenhos em domínio público criados
há mais de um século poderia gerar um experimento interessante, mas não
resultaria em sistemas de IA que atendessem às necessidades dos cidadãos de
hoje”.
Tal argumento não para de pé. Pelo motivo
mais óbvio: é perfeitamente possível treinar os modelos mais potentes de IA com
todo o material disponível, desde que se pague pelos direitos autorais para
usá-lo. Em setembro, a Anthropic, outra empresa americana na vanguarda da
tecnologia, aceitou pagar US$ 1,5 bilhão a um grupo de editoras e escritores
após decisão judicial.
A OpenAI planeja abrir seu capital na Bolsa e
cogita atingir US$ 1 trilhão em valor de mercado. Ora, se tal valor resulta de
roubo indiscriminado, a própria empresa acabará punida em suas ambições. Todos
os modelos de IA precisam operar dentro da legalidade. Do contrário, a
tecnologia que promete revolucionar a economia se tornará uma ameaça à produção
de todo tipo de conteúdo — do trabalho de artistas e profissionais criativos à
cobertura jornalística, vital para o bom funcionamento da democracia.
Expansão do metrô paulistano serve de exemplo
para todo o Brasil
Por O Globo
Persistência de projeto consistente de
transporte sobre trilhos deveria inspirar outras cidades brasileiras
A abertura da Linha 6 do metrô de São Paulo,
prevista para hoje, é um alento num país que, ao longo de décadas, tem
privilegiado o transporte rodoviário em detrimento do ferroviário, mais
eficiente. A nova extensão deverá operar inicialmente com horário reduzido, sem
cobrança de tarifa, ao longo de seis estações. Pela previsão do governo, o
ramal completo com 15 paradas deverá ficar pronto no ano que vem e transportar
cerca de 600 mil passageiros por dia, quase o volume de todo o metrô do Rio
(670 mil).
A linha foi construída totalmente por meio de
uma parceria público-privada, modelo que permite realizar obras complexas sem
sobrecarregar os cofres públicos. É verdade que o projeto havia sido anunciado
18 anos atrás pelo então governador Geraldo Alckmin, e a intenção era entregar
as primeiras estações em 2011. O calendário atrasou devido a uma série de
entraves, entre eles denúncias de corrupção, rescisões contratuais, problemas
geotécnicos, descobertas arqueológicas, interrupções e ajustes no contrato — histórico
que não difere muito de outras grandes obras públicas no país.
Considerando os novos trechos entregues na
gestão Tarcísio de
Freitas, a malha ferroviária urbana de São Paulo chega a quase 400
quilômetros de extensão, entre trens e metrôs. Pode ficar atrás de outras
metrópoles do mundo, mas não se pode ignorar a realidade brasileira.
Historicamente, o Brasil sempre incentivou a indústria automobilística, a
construção de estradas e o transporte rodoviário, tanto de passageiros quanto
de cargas. A rede de trilhos não apenas parou de se expandir, como ainda por
cima encolheu. No Rio, trens urbanos chegaram a transportar 1 milhão de passageiros
por dia. Hoje atendem menos de um terço.
Nas metrópoles brasileiras, ônibus acabaram
responsáveis por transportar a maior parte dos passageiros, numa inversão de
papéis na comparação com outros países. A greve dos rodoviários no Rio,
deflagrada a partir da última segunda-feira, mostrou quanto esse predomínio
pode ser nocivo à população. Com os ônibus parados nas garagens, os cariocas
tiveram de disputar espaço nos poucos que circularam, enfrentar metrô e trens
abarrotados ou recorrer a veículos de aplicativos, cujos preços dispararam pela
alta demanda.
A bem-vinda expansão da malha ferroviária urbana em São Paulo não começou nem deverá parar na linha 6. A persistência de um projeto consistente de transporte sobre trilhos ao longo de décadas deveria inspirar outras cidades brasileiras a seguir o mesmo caminho. É certo que metrôs são obras caras, que muitas vezes não cabem no orçamento. Por isso mesmo, os gestores precisam privilegiar parcerias público-privadas, que se mostram exitosas neste e noutros setores de infraestrutura. Ou partir para metrôs de superfície e Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs), menos onerosos. O governo federal insiste na recorrente prática brasileira de distribuir fartos incentivos a automóveis. Segue na contramão de um mundo que exige um transporte confortável, rápido, com horário previsível e não poluente. E ele anda sobre trilhos.
STF abraça o corporativismo ao regular
penduricalhos
Por Folha de S. Paulo
Regras moralizantes do começo do ano foram
sendo relaxadas pelo tribunal em decisões subsequentes
Em março, a corte criou novo limite,
equivalente a 70% acima do teto; no julgamento concluído na terça (30),
promoveu flexibilização maior
A esta altura, um observador imparcial deve
estar se perguntando se o Supremo Tribunal Federal quis de fato limitar o
alcance dos chamados penduricalhos extrassalariais em carreiras jurídicas ou se
seu intuito sempre foi o de consolidá-los e talvez até ampliá-los.
Em fevereiro, as liminares que visavam conter a
proliferação dos contracheques acima do teto constitucional,
expedidas pelos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes,
sinalizavam uma tentativa de moralizar os gastos.
O Supremo, afinal, desgastado pelo
envolvimento dos ministros Alexandre de
Moraes e Dias Toffoli no
escândalo financeiro do Banco Master,
precisava de uma agenda positiva, e a contenção dos penduricalhos despontava como
um caminho virtuoso.
Mas as decisões subsequentes representaram
retrocesso, revelando a indisposição de combater os supersalários de
uma casta do funcionalismo brasileiro.
Menos de dois meses depois das liminares
moralizadoras, o plenário da corte se reuniu para deliberar sobre a matéria e
relaxou substancialmente aquilo que a Constituição descreve
como o limite máximo do contracheque de servidores públicos —cuja referência é
o vencimento mensal dos ministros do Supremo, atualmente de R$ 46.366,19.
Em vez de aplicar a norma, o colegiado
do STF autorizou,
por unanimidade, a continuidade de pagamentos acima do teto e oficializou novos
limites para o Judiciário e o Ministério Público.
Ficou estabelecido que as verbas
indenizatórias (incluindo pagamento de férias não gozadas e acúmulo de
jurisdição) não poderiam ultrapassar 35% da remuneração do servidor.
Ademais, os ministros autorizaram a volta de um
adicional por tempo de serviço (quinquênio), que havia sido
extinto pelo Congresso em 2003. Trata-se de um repasse de 5% a cada cinco anos,
cujo valor total não pode ultrapassar 35% do teto.
Na prática, o STF inventou um novo limite
para magistrados e procuradores, equivalente a 70% acima do teto
constitucional.
Como se essa manobra já não tivesse sido
acintosa, o plenário da corte, no julgamento de embargos à decisão anterior
concluído na terça (30), procedeu a
uma flexibilização maior, liberando algumas verbas que ainda estavam
bloqueadas por força das liminares do começo do ano.
Ao fim e ao cabo, não só o teto do funcionalismo
é ignorado como há risco de expansão dos gastos. Além do retorno do quinquênio
aprovado em março, no julgamento desta semana decidiu-se que tal regalia vale
também para aposentados e pensionistas.
É praticamente uma fatalidade que, em nome da
isonomia salarial, outras carreiras reivindiquem o mesmo benefício —que havia
sido extinto para todos os servidores da esfera federal em 1999.
Uma das leis de ferro do serviço público no
Brasil, como o Supremo acaba de demonstrar de forma eloquente, é a de que o
corporativismo sempre triunfa.
Governo Lula acerta ao reduzir subsídio para
o diesel
Por Folha de S. Paulo
Com trégua no Oriente Médio, é preciso
reverter medidas que barateiam de forma artificial os combustíveis
Devido à gestão irresponsável, o choque de
oferta provocado pela guerra atingiu o país em momento de fragilidade no
controle da inflação
O governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
faz o certo ao dar início à retirada dos subsídios que hoje barateiam os
combustíveis. Nesta quarta-feira (1º), eliminou-se
a subvenção de R$ 0,35 por litro de óleo diesel;
a próxima medida deverá atingir a gasolina.
A permanecer o novo cenário de trégua
entre os Estados Unidos e o Irã, que restabeleceu o fluxo de petróleo pelo estreito de
Hormuz, a normalização dos preços domésticos dos dois derivados
precisa ser completa —ainda que possa haver alguma elevação para os
consumidores.
Movido pela proximidade das eleições,
o governo petista foi rápido em tomar medidas para conter os impactos locais da
guerra no Oriente Médio.
Continuam em vigor um subsídio adicional ao diesel, de R$ 1,12 por litro, e
outro de R$ 0,44 por litro de gasolina, uma subvenção para o gás de cozinha
importado e desonerações tributárias para o biodiesel e o querosene de aviação.
Calcula-se que as benesses já tenham custado
R$ 16 bilhões aos cofres do Tesouro Nacional, a serem compensados por um
imposto temporário sobre a exportação de petróleo, pelo aumento do IPI sobre os
cigarros e por ganhos de receita decorrentes do encarecimento global do óleo.
Providências do tipo podem ser defensáveis
como mecanismos temporários para amortecer choques de oferta —no caso, cotações
que passaram dos US$ 100 por barril do tipo Brent. Agora, entretanto,
trabalha-se com US$ 75 ou menos.
O maior perigo é a tentação de prolongar
subsídios por conveniências político-eleitorais, desorganizando o mercado e as
finanças públicas. O próprio Lula, no início deste terceiro mandato, teve de
extinguir tardiamente uma desoneração de combustíveis herdada de Jair Bolsonaro
(PL).
Por irresponsabilidade da administração
petista, a alta do petróleo atingiu o país em um momento de fragilidade nas contas
públicas e no controle da inflação.
De março para cá, as expectativas para o IPCA deste ano subiram de 3,9% para
5,3%, acima do teto oficial de 4,5% (meta de 3% mais tolerância de 1,5 ponto
percentual), pondo em risco o processo de corte dos juros.
Conter preços de maneira artificial é ilusão nefasta que, não raro, demanda ajustes ainda mais duros em um futuro próximo. É justificável a retirada gradual dos subsídios prevista pelo governo, dadas as incertezas que ainda cercam o conflito entre Estados Unidos e Irã, mas o realismo tarifário deve ser restabelecido tão logo quanto possível para ajustar o consumo às condições da oferta.
O Congresso precisa reconquistar a sociedade
Por O Estado de S. Paulo
Pesquisa revela que poucos cidadãos sabem
citar o nome de um parlamentar, mostrando o profundo divórcio entre
representantes e representados. É dever dos políticos reconstruir essa conexão
Uma pesquisa Datafolha divulgada há poucos
dias revelou um cenário alarmante para a democracia brasileira: 68% dos
eleitores não conseguem citar o nome de um único deputado federal em exercício,
e 75% não se lembram de nenhum senador. Quase 70% dos entrevistados também não
se recordam em quem votaram para cargos do Poder Legislativo federal nas
eleições de 2022.
Esses números estarrecedores sugerem que a
sociedade brasileira não parece interessada em exercer o controle de sua
própria representação política. A questão é saber por que razão isso acontece.
Não há uma resposta única para um problema tão complexo.
É fato que a política institucionalizada nos
Poderes republicanos, que nunca foi lá muito popular, desperta cada vez menos
interesse dos cidadãos comuns, sobretudo porque os partidos e os políticos
parecem habitar um planeta distante, descolado da realidade brasileira. Os
tratos e acordos feitos nos corredores do Congresso ou nos gabinetes dos
ministros e governantes, não raro à sorrelfa, parecem visar somente o
atendimento de interesses privados de quem detém o poder por meio de mandato
eletivo.
A impressão que se tem – pouco importa se
justa ou não – é de que a maioria dos políticos só se sente vinculada aos
cidadãos de dois em dois anos, isto é, quando há eleições. No resto do tempo,
entregam-se a uma disputa renhida entre si por espaços de poder e pela
repartição mais vantajosa dos escassos recursos públicos. Esse confronto
poderia ter algo de virtuoso se fosse orientado pelo interesse público, resultado
de debates parlamentares que são a essência da política. Hoje, contudo, não se
debate mais nada – e tudo parece vir decidido pelas lideranças do Congresso
antes de chegar ao plenário, após articulações em reuniões fechadas.
Salvo algumas exceções, os parlamentares
comparecem ao plenário com cada vez menos frequência, votam conforme a
orientação de líderes ou de interesses pontuais e usam o tempo de fala não para
formular ideias capazes de mobilizar o eleitorado, mas para produzir os
chamados “cortes” para as mídias sociais. Os cidadãos são deixados de fora de
praticamente todas as etapas da atividade legislativa.
Como consequência óbvia disso, os eleitores
não se sentem parte desse processo que deveria traduzir a democracia. Quando
muito, interessam-se somente pelos personagens histriônicos que não raro chamam
a atenção pela virulência ou pela imoralidade, e não pelas propostas políticas.
O Datafolha mostrou que apenas meia dúzia de deputados, entre 513, foram
citados por ao menos 1% dos entrevistados – e, mesmo assim, em geral por sua
capacidade de “engajamento” no ambiente digital. Alguns desses políticos são
lembrados e ganham votos não em razão de suas ideias ou propostas, mas porque
não mostram o menor respeito pelas instituições – e, ao fazê-lo, dizem em voz
alta o que a massa apenas murmura. Esses demagogos investem na cizânia e
interditam o diálogo, reduzindo questões complexas a palavras de ordem que
excitam em vez de esclarecer. Isso é a negação da política.
Apesar de tudo, queremos crer que ainda há
políticos interessados em restaurar a conexão entre a política e o povo. É a
esses senhores e a essas senhoras que este jornal, fundado na convicção de que
a democracia não sobrevive sem o livre confronto de ideias, concita a trabalhar
urgentemente pelo restabelecimento da autêntica representação política. Não é
tarefa fácil, considerando-se que tudo hoje parece conspirar para aprofundar o
fosso entre as instituições democráticas e os cidadãos, desde a ausência
deliberada de discussões públicas sobre matérias relevantes até a apropriação
irresponsável do Orçamento. Mas é preciso ter consciência de que o poder,
quando exercido com menosprezo pelas necessidades reais da sociedade, pode até
dar ganhos de curto prazo para seus operadores, mas não dura.
Guerra cultural não educa ninguém
Por Estado de S. Paulo
Ao transformar a regulamentação do
homeschooling em mais um símbolo da disputa ideológica, abandona-se a discussão
sobre como proteger o direito da criança à educação
Voltou a crescer no Congresso a pressão da
ala conservadora pelo avanço do projeto de lei que regulamenta o ensino
domiciliar no Brasil, o chamado homeschooling. Em 2019, o ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) enviou ao Congresso uma proposta sobre o tema, como sua única
bandeira na educação, após decisão do Supremo Tribunal Federal de que a
educação domiciliar não era inconstitucional, mas só poderia ser adotada
mediante lei federal que estabelecesse suas regras.
É indiscutível que toda sociedade democrática
precisa tratar de garantir educação de qualidade às crianças. Isso inclui
debater, sem preconceitos nem dogmas, se o ensino domiciliar pode existir em
situações excepcionais e, se esse for o caso, sob quais condições.
Por isso, trata-se de uma discussão que
deveria ser eminentemente técnica. No entanto, o debate deixou de focar a
aprendizagem da criança para servir como mais um capítulo da guerra cultural em
busca de votos.
A recente condenação de um casal em Jales
(SP) por manter os filhos exclusivamente em ensino domiciliar reacendeu a
pressão para que o Senado vote o projeto já aprovado pela Câmara. Em audiência
pública, no começo de junho, parlamentares pediram que a proposta fosse levada
diretamente ao plenário, contornando sua tramitação ordinária.
Porém, mais do que uma tentativa de acelerar
o trâmite legislativo, o debate prestou-se a deixar claro qual é a real
preocupação daqueles que defendem a urgência da proposta no Parlamento.
“Estamos discutindo aqui não só um método de ensino, mas estamos falando da
liberdade das famílias brasileiras de nós, como pais, educarmos nossos filhos
em casa de acordo com nossas convicções”, disse a deputada Clarissa Tércio
(PP-PE), dando transparência ao intento do movimento. Ora, a lógica deveria ser
justamente inversa. A discussão sobre como educar filhos em casa, quando isso
se apresenta aos seus responsáveis como necessidade incontestável, deveria ser
inteiramente baseada em método de ensino, critérios de avaliação, currículo
previamente definidos – e nada mais.
Logo, tudo que o Congresso deveria discutir
seriam mecanismos para garantir que uma criança educada em casa aprenda o mesmo
conteúdo a que teria acesso na escola, e não formas de proteger as convicções
dos pais.
Naturalmente, famílias têm ampla liberdade
para educar moral e religiosamente seus filhos, e o Estado jamais deve exercer
esse papel. Ainda assim, não seria essa a primeira vez que o ensino domiciliar
é apropriado por disputas ideológicas. Embora o homeschooling tenha múltiplas
origens, parte da literatura especializada identifica que sua expansão nos
Estados Unidos também foi impulsionada por reações de segmentos conservadores à
integração racial das escolas públicas, ao lado de motivações religiosas e
pedagógicas. A História mostra, portanto, que discussões sobre educação
frequentemente acabam capturadas por conflitos identitários muito maiores do
que elas próprias.
Também é justo reconhecer que, desde que saiu
do Executivo bolsonarista, o projeto em tramitação no Congresso passou por
transformações positivas na Câmara. Trouxe, por exemplo, a obrigação de
comprovação de ensino superior por pelo menos um dos pais ou tutores da
criança, cronograma de avaliações externas e matrícula obrigatória em uma
unidade de ensino. Outro ponto acrescentado foi o cumprimento de conteúdos
curriculares referentes ao ano escolar do estudante, de acordo com a Base
Nacional Comum Curricular, admitida a inclusão de conteúdos curriculares
adicionais, entre outras garantias que deveriam ocupar o centro da discussão.
Dito isso, o homeschooling está longe de ser
a prioridade para educação brasileira e, uma vez regulamentado, provavelmente
atingirá uma parcela ínfima da população. Regular o ensino domiciliar é
discutir como preservar o direito da criança à educação fora da escola quando
esse quadro excepcional se apresenta como necessário. Enquanto esse debate
continuar sendo conduzido a partir das convicções religiosas e ideológicas dos
políticos, continuará deixando em segundo plano justamente quem deveria
proteger: a criança.
Receita cresce; gasto sobe mais
Por O Estado de S. Paulo
Não será pela via da arrecadação que a
trajetória da dívida pública será estabilizada
As contas públicas registraram um rombo de R$
53,2 bilhões em maio, uma piora expressiva em relação ao resultado de abril,
quando houve superávit de R$ 25,1 bilhões. Os principais motivos desse
desempenho foram o pagamento das emendas parlamentares e o esforço do governo
federal em reduzir a fila de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social
(INSS), ambos antecipados por motivos eleitorais.
Ao aprovar o Orçamento deste ano, além de
reservar um valor recorde para as emendas parlamentares, o Congresso teve o
cuidado de impor um calendário para concentrar o desembolso no primeiro
semestre. Foi uma forma descarada de driblar a legislação que impede
transferências nos três meses que antecedem a eleição – ou seja, a partir de 4
de julho – e de assegurar que deputados e senadores tivessem algo para apresentar
ao eleitorado durante a campanha.
O governo Lula não ficou atrás. Nomeado para
corrigir falhas internas que facilitaram a fraude dos descontos associativos
não autorizados em aposentadorias e pensões, o então presidente do INSS
Gilberto Waller Jr. não chegou a completar um ano no cargo. Foi demitido após
os pedidos de benefícios represados no órgão baterem recorde de 3,1 milhões em
fevereiro, um problema e tanto para um presidente que tentará a reeleição e que
prometeu zerar a fila na campanha de 2022.
A nova chefe do INSS, Ana Cristina Silveira,
entendeu o recado, e em dois meses na função fez com que o número de
requerimentos em análise caísse para 1,9 milhão em junho – o menor desde
outubro de 2024, segundo o jornal Folha de S.Paulo. O resultado, por óbvio, foi
um aumento de gastos da ordem de R$ 42,7 bilhões na Previdência Social entre
janeiro e maio deste ano na comparação com o mesmo período de 2025,
considerando, também, o pagamento de precatórios e o impacto do aumento do
salário mínimo, piso dos benefícios.
Em maio, as despesas totais subiram 9,4%
acima da inflação, enquanto as receitas aumentaram 5,5%. E essa diferença não é
trivial, sobretudo quando se considera que o País registrou uma arrecadação
recorde de R$ 266,8 bilhões em maio, a maior para o mês de toda a série
histórica da Receita Federal, iniciada em 2000.
De janeiro a maio, o déficit primário foi de
R$ 44,3 bilhões, o pior desde 2020, e a dinâmica não foi muito diferente. Os
gastos subiram 13% em termos reais, e a arrecadação aumentou 4,3%. Mas, segundo
o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, está tudo dentro do esperado, e
a tendência é de que o crescimento das despesas perca força no segundo semestre
– ou seja, a meta fiscal não está comprometida.
A meta, no entanto, é uma abstração. A previsão do governo é de um superávit de R$ 34,3 bilhões entre receitas e despesas, mas a margem de tolerância permite que o objetivo seja cumprido mesmo que o saldo seja zero. Além disso, até R$ 64,4 bilhões em gastos poderão ser excluídos dessa conta. Um resultado fiscal mais robusto depende necessariamente da contenção de gastos e de reformas estruturais. Não será pela via da arrecadação que a trajetória da dívida pública será estabilizada.
Trump obtém trunfos na Justiça e concentra
mais poderes
Por Valor Econômico
Com uma Suprema Corte de maioria
conservadora, com três membros indicados por Trump, a solidez dos pesos e
contrapesos do esquema constitucional sofre abalos sucessivos
O sistema americano democrático de governo
deve sua estabilidade e longevidade em grande parte graças a uma variedade de
mecanismos que garantem o equilíbrio entre poderes. Com Donald Trump na
Presidência, e uma Suprema Corte de maioria conservadora, com três membros
indicados por ele, a solidez dos pesos e contrapesos do esquema constitucional
sofre abalos sucessivos. Mais uma peça importante de sua engrenagem foi jogada
fora na terça-feira, com a decisão da Justiça de permitir ao Executivo que
demita a seu bel prazer, sem motivos, membros da direção de duas dezenas de
agências reguladoras do país. A única exceção foi o Fed, por seu papel
essencial nos mercados financeiros dos EUA e do mundo.
Em seu primeiro mandato, Trump, ao indicar
três membros da Corte, desviou o pêndulo para o lado dos conservadores, que têm
maioria de 6 diante de 3 de tradição liberal. A prova de que a distribuição de
poder nas instâncias de governo havia sido modificada para pior foi a decisão
judicial, em 1º de julho de 2024, pouco antes das eleições, de que os
presidentes dos EUA têm imunidade absoluta pelos atos oficiais praticados
durante o mandato. Foi um presságio do que viria depois. O candidato Trump, que
escapara no cargo de duas tentativas de impeachment, estava sendo processado
por tentar interferir no resultado das eleições que levaram Joe Biden ao poder,
assim como por ter insuflado uma rebelião para impedir sua posse, com a invasão
do Capitólio, pela qual 1.500 pessoas foram processadas e julgadas.
A Suprema Corte jogou para as instâncias
inferiores a decisão de separar o joio do trigo, a saber, distinguir atos
oficiais de não oficiais. A decisão teve contornos bizarros, como se um golpe
contra as instituições democráticas e contra a legítima sucessão presidencial
pudesse ser considerada um ato oficial de um presidente e, por isso, gozar de
imunidade. Depois disso, Trump foi eleito, perdoou os extremistas e ainda
tentou criar em maio um fundo de US$ 1,77 bilhão no Departamento de Justiça
para indenizar pessoas que alegam ser perseguidas judicialmente, entre elas os
extremistas de 6 de janeiro. Foram tão grandes as reações de espanto,
incredulidade e rejeição que o presidente arquivou a ideia.
Trump toma decisões erráticas, frequentemente
contraditórias, mas seus objetivos são claros. O que já é chamado de
“presidencialismo imperial” de sua gestão é antagônico às tradições mais caras
da democracia americana. A obra de demolição dos obstáculos à sua vontade pessoal
não terminou. Além da Justiça, o presidente conta com maioria no Congresso,
onde um Partido Republicano radicalizado segue suas ordens e tem maioria na
Câmara e no Senado.
As eleições de meio de mandato, em novembro,
são uma ameaça existencial ao presidente que, caso perca maioria nas duas
Casas, se tornaria um mandatário sem poderes na metade final do mandato. No
primeiro governo, Trump pôs sob suspeição o resultado das urnas. No segundo,
tenta mudar o sistema eleitoral a seu favor. Nesta semana a Suprema Corte vetou
um de seus intentos, o de proibir a apuração de votos enviados pelos Correios
que chegassem para a apuração após o dia do pleito.
Trump tenta convencer os senadores
republicanos a levaram adiante seu Save Act, que exigirá a apresentação de documento
oficial de cidadania na hora do registro eleitoral e de documento de identidade
com foto para votar. Para que a legislação passe no Senado, precisa de 60 votos
a favor, e os republicanos dispõem de 53. Apesar de algumas derrotas na Suprema
Corte, o presidente conseguiu trunfos na semana, além de ganhar controle sobre
agências reguladoras. A Justiça reafirmou que não há limite para os gastos de
comitês de ação política, por onde fluem as doações empresariais para as
campanhas eleitorais. A Corte endossou a argumentação republicana de que
limites ao financiamento são um atentado à liberdade de expressão.
O golpe dado nas agências é profundo. Sua
independência permitiu, por exemplo, que no primeiro mandato de Trump os
reguladores de proteção ambiental freassem na medida de suas atribuições a
agenda visceralmente anti-ecológica do presidente. A estrita vinculação
partidária, com fidelidade ao Executivo, pode ter duas dentre várias
consequências nocivas.
A expertise não será mais o primeiro
critério, o que é um sinal para a deterioração do trabalho de regulação e
vigilância, algo que se observa com o leilão partidário de cargos nas agências
também no Brasil. A segunda é que a politização dos cargos acirra a polarização
política e conspira contra uma burocracia estável. A troca de governo ensejará
troca de pessoal ampla nas estruturas de governo, o que não ocorria nos EUA. A
Casa Branca já havia, além disso, feito uma limpeza nos desafetos do
Departamento de Justiça e processado procuradores que participaram do inquérito
dos processos de impeachment.
Trump tem apreço pelo poder absoluto, não pelas regras do sistema democrático, que, com ele no poder, enfrenta hoje um dos maiores testes de sua existência. E, pelo que já conseguiu em sua obra de destruição, é impossível dizer que ele será derrotado em sua missão.
Civilização na encruzilhada
Por Correio Braziliense
Neste 4 de julho, com as atenções do mundo
focalizadas na Copa, o país nascido como inspiração para sonhos de
independência e justiça estará, mais do que nunca, no centro do palco
A Copa do Mundo se apresenta como moldura
exata e oportuna para um jubileu que, pelo tempo que assinala e pelo momento em
que se insere, retrata em alta fidelidade a sociedade que o festeja. Neste
sábado, 4 de julho, os Estados Unidos completam 250 anos de vida independente e
republicana. Não apenas se perfilam como o irmão mais velho da constelação de
nações formadas nas Américas desde a chegada dos colonizadores europeus, nos
últimos anos do século 15. Historicamente, o país nasceu e se consolidou como
berço e farol de ideais de liberdade. Hoje na posição de principal potência
econômica, militar e — naturalmente — política do globo, os herdeiros de George
Washington, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin se veem diante de questões e
desafios cujo cerne é: qual caminho trilhar em um mundo em transformação
profunda, com a hegemonia ensaiada no pós-Guerra Fria ameaçada pela ascensão da
milenar civilização chinesa?
Sintomático que a sociedade estadunidense
confronte essa encruzilhada sob o governo de um presidente que, por tudo o que
representa — inclusive como empresário de sucesso no ramo imobiliário —,
contrasta em escala exponencial com os chamados Pais Fundadores. Jefferson e
Franklin, em especial, sintetizam a filiação gêmea da jovem república americana
com as ideias e ideais do Iluminismo europeu. Não se trata de coincidência que,
passada uma década da independência dos EUA, a Revolução Francesa de 1789 tenha
triunfado sobre a monarquia absolutista. O símbolo imponente dessa afinidade
uterina pode ser visto de longe por quem se aproxima de Nova York: a Estátua da
Liberdade, presente da França republicana no centenário da irmã nascida no Novo
Mundo.
Ao longo de dois séculos e meio como nação de
identidade própria, os EUA se afirmaram como a materialização dos sonhos que
moveram os peregrinos puritanos, perseguidos na Inglaterra dos anos 1600, a
cruzar o Atlântico a bordo do "Mayflower". Foi de Washington que veio
o reconhecimento pioneiro às jovens nações independentes proclamadas na América
do Sul, no início dos 1800, e, sob esse impulso, o presidente James Monroe
enunciou sua doutrina anticolonial resumida no lema "A América para os
americanos". Na metade do século seguinte, ao fim da Segunda Guerra
Mundial, o país saiu vencedor e passou a disputar a hegemonia global com a hoje
extinta União Soviética, socialista. Quatro décadas de Guerra Fria resultaram
na sua afirmação como superpotência sem rival à altura.
Justamente quando essa condição parece em
xeque, a Casa Branca é ocupada por um presidente que se elegeu — pela segunda
vez, embora não consecutiva — com a promessa de "fazer a América grande
novamente". Em um ano e meio, no segundo mandato, Donald Trump caçou e
deportou imigrantes, fez capturar o presidente da Venezuela, iniciou um
conflito no Oriente Médio e, paralelamente, se indispôs com os aliados
europeus. Declarou uma guerra comercial sem fronteiras e interferiu sem
disfarces em disputas eleitorais naquele que considera o "quintal"
dos EUA — a América Latina.
Neste 4 de julho, com as atenções do mundo focalizadas na disputa esportiva que mais desperta paixões mundo afora, o país nascido como inspiração para sonhos de independência e justiça estará, mais do que nunca, no centro do palco. Disputas e diferenças à parte, em cada canto do globo haverá quem olhe para lá atento a uma indicação sobre o caminho que a superpotência escolherá: o de uma liderança iluminista, como a de 1776, ou o da preservação de um mando imperial assentado na onipotência militar.
STF: a boa e a má decisão
Por O Povo (CE)
Foi uma surpresa negativa o resultado do
julgamento virtual em que o STF recuou de sua decisão inicial, liberando o
pagamento de alguns adicionais antes vetados
O Supremo Tribunal Federal (STF) tomou uma
decisão, há muito esperada pela sociedade, ao estabelecer que a aposentadoria
compulsória remunerada não pode mais ser a pena máxima aplicada a magistrados
que cometem crimes. Em sessão na terça-feira, a Primeira Turma do STF confirmou
a decisão monocrática do ministro Flávio Dino, de março deste ano.
Até o julgamento do STF, um juiz que sofresse
punição pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) devido ao cometimento de
infrações, ainda que gravíssimas, tinha como pena máxima aposentadoria,
continuando a receber o salário proporcionalmente ao seu tempo de serviço. A
partir de agora, o magistrado que cometer crimes graves perderá o cargo,
ficando sem remuneração. Nos últimos 20 anos, o CNJ condenou 126 magistrados à
aposentadoria compulsória.
A decisão do STF é mais do que acertada,
corrigindo uma situação inaceitável, pois oferecia a juízes que praticavam
irregularidades uma espécie de prêmio, em vez de punição. Um privilégio, de
fato inaceitável, que vigorou por longo tempo — e que deveria ter sido suspenso
há muito tempo.
Se o STF acertou em cheio nessa decisão, o
mesmo não pode ser dito dos chamados "penduricalhos" do Judiciário,
que elevam o salário dos magistrados e outros segmentos acima do teto
constitucional de R$ 46.366,19. A rigor, essa medida, inserida na Constituição,
nunca foi cumprida.
Por meio de subterfúgios os mais diversos,
categorias como a magistratura e o Ministério Público aumentam os próprios
salários por meio de adicionais excluídos da contagem para o teto. Esse
comportamento desgasta a imagem do Judiciário, contribuindo para o descrédito
da instituição. Para a população, é difícil entender por que, com um rendimento
que os põe entre os brasileiros mais ricos do País, esses segmentos se
autoconcedem ainda mais benesses.
Assim, foi visto como uma autocorreção a
decisão do plenário do STF em março que limitou o percentual de adicionais a
35% do salário dos magistrados, que poderia chegar a 70% com o adicional por
tempo de serviço. Apesar de não ter sido a melhor decisão, pelo menos ficou
estabelecido um limite para os penduricalhos, que teriam de ser obedecidos em
todas as instâncias.
Por isso, foi uma surpresa negativa o
resultado do julgamento virtual, entre os dias 26 a 30 de junho, em que o STF
recuou de sua decisão inicial, liberando o pagamento de alguns adicionais antes
vetados, furando o teto que os próprios ministros haviam criado. É de se
registrar que o STF ficou sob extrema pressão de entidades representantes de
setores diretamente interessados no assunto, como Judiciário, Ministério
Público, Defensoria Pública e Tribunais de Contas, além de alguns Tribunais de
Justiça.
Melhor seria se, depois de corrigir a injustiça das aposentadorias compulsórias, o STF reafirmasse a sua decisão inicial sobre os penduricalhos.

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