Revista Veja
Fatores ligados à política, economia e
geopolítica criam viés de alta
A normalização dos eventos extravagantes de
nossa conjuntura institucional é um grave risco. Pior do que qualquer crise
isolada é ignorar o empilhamento dos pontos polêmicos que se apresentam no
presente e se anunciam no futuro. Nos anos 1930, Winston Churchill era
ridicularizado por alertar para o perigo nazista — e por pouco a Inglaterra não
sucumbiu. O acordo do então premiê Neville Chamberlain com Hitler em 1938
parecia trazer paz à Europa; Churchill não acreditou e preparou-se para o pior.
No Brasil, guardadas as proporções de comparação com uma guerra mundial, a situação é mais ou menos parecida. Aos riscos de sempre (rombo fiscal, conflito entre os Poderes, sanha tributária e decisões contraditórias do Judiciário) soma-se a deterioração externa. A química entre Trump e Lula está em baixa: afagos e elogios deram lugar à ameaça de tarifaço e, pasmem, ao temor oficial do Itamaraty de que os EUA possam ensaiar alguma operação militar em território brasileiro.
Há conjunturas em que o país não explode nem
se acalma: apenas acumula tensão. É o que mostra o risco Brasil, que fecha
julho em 57 pontos — patamar alto, com viés de alta. Três forças se sobrepõem:
a política, a geopolítica e a economia. Nenhuma, isolada, seria decisiva;
combinadas, elevam a temperatura.
“O Brasil vive o que se poderia chamar de
governabilidade de colisão, num equilíbrio instável e caro”
O vetor político-institucional é o mais
aquecido (68). A eleição chegou com temas polêmicos na pauta, e os escândalos
reduzem a previsibilidade das decisões. A Operação Compliance Zero,
desdobramento do caso Master, alcança nomes de peso — de Ciro Nogueira a Flávio
Bolsonaro e Jaques Wagner — e tem na delação de Daniel Vorcaro, ou de seus
empregados, a maior incógnita. No STF,
alegações de favorecimento expõem ministros e alimentam um racha que ganha
corpo no plenário. Executivo e Congresso convivem em atrito permanente,
sobretudo no Senado, onde a PEC 6×1 cria polêmica. E, mesmo com agenda robusta,
a popularidade de Lula patina.
O tabuleiro externo incomoda (48). Washington
designou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas logo após
encontros de Flávio com Trump e Marco Rubio, o que lhe confere inevitável
leitura eleitoral. Some-se a isso a tarifa de 40% sobre produtos brasileiros —
e Pix, big techs e minerais críticos na mesa. O acordo em torno de Ormuz
aliviara a pressão sobre o petróleo, mas os ataques voltaram. Na economia, o
risco é fiscal (45). Pautas-bomba, gasto eleitoral, vetos sob risco de
derrubada e pressão sobre estatais e Banco Central no
ciclo de corte de juros compõem um quadro que o mercado vê com desconfiança
crescente. Há quem já projete o dólar a 5 reais no fim do ano.
Os próximos noventa dias concentram os
gatilhos. As convenções de julho definirão candidaturas; agosto trará o
vencimento dos prazos de Ormuz e da tarifa, além do Orçamento de 2027. O caso
Master seguirá produzindo escândalos, e a relação Lula-Alcolumbre continuará a
ditar o humor do Congresso.
O Brasil não caminha para o abismo, mas
tampouco repousa em berço esplêndido. Vive o que se poderia chamar de
governabilidade de colisão: instituições que se atritam sem se destruir, num
equilíbrio instável e caro. O risco não está no colapso, mas na erosão
silenciosa e contínua. E na incapacidade de os Poderes pactuaram um acordo de
convivência.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

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