quinta-feira, 9 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim do cessar-fogo cria incerteza para economia global

Por O Globo

Entendimento já era frágil. Violações iranianas e rompantes ciclotímicos de Trump ampliam as dúvidas

O fim do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos amplia a incerteza no planeta. Depois de três semanas de indefinição desde a assinatura do frustrante “memorando de entendimento” entre os dois países, o Oriente Médio se tornou mais uma vez palco de hostilidades abertas. Em resposta a ataques iranianos a petroleiros no Estreito de Ormuz, forças americanas atingiram mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa, radares e barcos. Depois dos bombardeios, bases americanas no Bahrein e no Kuwait foram atingidas.

Desde o início, parecia evidente que as premissas para o entendimento eram frágeis. O memorando extraído a fórceps de negociações tensas e inconclusivas era vago a respeito do principal — o futuro nuclear do Irã. Nem mesmo todas as concessões feitas pelos americanos foram capazes de apaziguar o regime dos aiatolás. E, de lá para cá, os vaivéns e rompantes ciclotímicos de Donald Trump só contribuíram ainda mais para aumentar as dúvidas.

Escolha de Sofia, por Merval Pereira

O Globo

Uma eleição em que os dois mais rejeitados são os escolhidos continuará levando ao impasse, independentemente de quem ganhar

É surpreendente que todos os esforços que a direita brasileira vem fazendo para perder a eleição presidencial não estejam dando certo. As desavenças familiares; as disputas pelo poder dentro do PL, maior partido do país, máquina de fazer dinheiro gerado por emendas parlamentares e fundos eleitorais; a dúvida entre mais radicalização ou uma aparente moderação — nada disso abala a posição do senador Flávio Bolsonaro, que lidera o voto da direita, que se une em torno dele num eventual segundo turno e o torna competitivo diante do presidente Lula.

Esquadrão suicida da direita, por Paulo Celso Pereira*

O Globo

Aliados provocaram o rompimento de Michelle com o enteado

‘Eu não quero que toda mulher vote. Quero fazer uma transação: faça-se a experiência, e, se ela mostrar que as mulheres não são dignas de exercer o direito do voto, então seja ele cassado’, propôs o deputado Costa Machado na tribuna da Assembleia Constituinte em janeiro de 1891. Representante de Minas Gerais, ele tentava convencer os presentes a incluir na primeira Constituição republicana o direito de voto para mulheres — desde que diplomadas, com bens e casadas.

Coube ao pintor Pedro Américo, deputado por Pernambuco, defender a posição, por fim vencedora, de que as mulheres não deveriam participar da vida pública:

— A missão da mulher é mais doméstica do que pública, mais moral do que política. A mulher, não direi ideal e perfeita, mas, simplesmente normal e típica, não é a que vai ao foro, nem à praça pública, nem às assembleias políticas defender os direitos da coletividade, mas a que fica no lar doméstico exercendo as virtudes femininas, base da tranquilidade da família e, por consequência, da felicidade social.

Quando os EUA reclamam do uso do comércio como arma, por Assis Moreira

Valor Econômico

Produtores rurais americanos tornaram-se vítimas colaterais das guerras comerciais de Trump

O governo Trump 2.0 tem se caracterizado pelo uso explícito da força no comércio internacional. A imposição unilateral de tarifaços contra o resto do mundo e de acordos ditos recíprocos, nos quais sai sempre como o grande vencedor, rompeu o sistema multilateral baseado em regras comuns.

Agora, na presidência do G20, que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes em busca de cooperação na governança econômica global, o governo Trump elaborou uma agenda comercial para trabalhar com os demais membros do grupo “no estabelecimento de uma ordem comercial global baseada em um comércio justo, recíproco e equilibrado”.

O fogo amigo que ameaça a campanha bolsonarista, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Aposta de que a crise na campanha de Flávio leve à sua substituição como candidato esbarra nas evidências de que desfecho desmoralizaria o bolsonarismo

“É fogo amigo”, respondeu o senador Rogério Marinho (PL-RN) em mensagem de celular durante um jantar tão logo recebeu a notícia de que a Gazeta do Povo publicaria pesquisa com quatro alternativas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Além de Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, foram incluídos na pesquisa a ex-primeira-dama, o astronauta e senador Marcos Pontes (PL-SP) e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Se Marinho apressou-se em dizer ao pré-candidato do PL à Presidência que nada tinha a ver com isso, Damares limitou-se a achar graça.

Flávio Bolsonaro põe o clã acima de tudo, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

É clara a intenção dos Bolsonaros de mobilizar o apoio americano a seu candidato

Em julho passado, ele celebrou as tarifas de 50% sobre produtos nacionais

A relação com os Estados Unidos é o maior desafio enfrentado pela política externa brasileira —pela importância que a potência sempre teve para nós e pela imprevisibilidade de seu prepotente presidente.
Desde a volta de Donald Trump, especialistas de diferentes quadrantes discutem a melhor maneira de defender seus países do ocupante de turno da Casa Branca.

Em artigo publicado na Cebri-Revista, há cerca de um ano, o professor da USP Feliciano de Sá Guimarães já defendia que o Brasil adotasse, diante da potência do norte, uma estratégia sofisticada, que combinasse contenção e engajamento em diferentes frentes, evitando seja o confronto total, seja a completa submissão. Discernindo quando e em torno do que é possível negociar e respondendo com firmeza à pressão exorbitante. Sobretudo, procurando não reduzir a relação a um tópico específico —comércio, conflitos mundiais ou segurança regional.

A fadiga de velhas propostas econômicas nas eleições, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Presidenciáveis e auxiliares são pródigos em repetir diagnósticos robustos sobre as razões dos problemas crônicos da economia brasileira, mas falta oxigenação de ideias

Na ausência de propostas, vai sobrar fake news; Pix é candidato número um a alvo

O debate de medidas econômicas pelos presidenciáveis nas eleições deste ano já nasceu pobre antes de começar para valer.

Os candidatos são pródigos em repetir diagnósticos sobre as razões dos problemas crônicos da economia brasileira, mas falta oxigenação de ideias de como resolvê-los por meio de uma abordagem moderna e inovadora.

Há uma fadiga de velhas propostas. É perceptível que as campanhas não estão preparadas para enfrentar o debate de ideias. Desenhar o plano de governo é apenas cumprir tabela.

A audiência, que são os eleitores, também não cobra profundidade e prefere se lambuzar no caminho fácil do Fla-Flu da polarização barata a serviço dos cliques das redes.

Mulheres que me ensinaram a votar, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Paulo Figueiredo disse que as mulheres 'votam mal pra c...'; não livrou nem as bolsonaristas

Eu, ao contrário, sou grato a muitas mulheres que me tornaram mais adulto e responsável

O blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, condenado no Brasil por fraude financeira e foragido nos EUA, não saiu a seu avô, João Baptista de Figueiredo, o último feitor da ditadura (1979-85). A seu jeito cavalar, o velho Fig gostava das mulheres —até nomeou uma ministra. Já, para Paulo Figueiredo, elas não servem nem para votar. "Mulher vota mal pra c...", declarou. "Devia ser proibida de votar."

Paulo Figueiredo é cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro. Antes de sua frase, o asco feminino por Flávio Bolsonaro já era de quase 60%. Agora, as 40% restantes vão pensar se ainda votarão nele, já que Paulo Figueiredo despreza o voto delas. Flávio Bolsonaro, assustado com o prejuízo, "repudiou" a fala de Paulo Figueiredo, mas não o demitiu do cargo de seu guru.

Onde falta cair a ficha, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A campanha eleitoral caminha para bater o recorde de mediocridade política

No futebol a ficha para o Brasil caiu logo, pois é impossível ignorar mais uma desclassificação. É consenso que o mau resultado na Copa não foi produto de questões fortuitas. A decadência do futebol brasileiro vem de muito tempo, mas agora a ficha caiu sobre nossa mediocridade.

Falta muito para que isso aconteça também na política. Talvez nem aconteça, apesar da mediocridade da disputa em torno de eleições que prometem tornar ainda mais difíceis os grandes problemas. O mais crítico e imediato é o da crise político-institucional, cujo risco está subindo.

A pátria apostadeira, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Nosso problema de saúde pública é que a sociedade, hoje, remunera aqueles que levam os filhos dos outros a um vício que não deseja para os seus próprios filhos

A explosão das apostas online durante a Copa do Mundo gerou três efeitos visíveis. Em primeiro lugar, o impulsionamento dos lucros de um punhado de milionários sagazes, tão sagazes que sabem se manter invisíveis (a gente deduz que eles se locupletam, mas não consegue enxergar quem eles são). O segundo efeito visível é a ruína dos mais pobres, tão pobres que ficaram irremediavelmente invisíveis. Em terceiro lugar, surge um debate nas páginas dos jornais acerca da legalidade desse tipo de jogatina e de sua máquina de propaganda. O questionamento que se lê na imprensa é legítimo, mas não tem sido suficiente para mudar a situação. Seu resultado prático não está entre as coisas que são visíveis.

A esticada dos juros da dívida, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Todos os dias aparece alguém para criticar a política de juros escorchantes do Banco Central. Mas, agora, é também o credor do Brasil que puxa os juros para cima, independentemente da política monetária.

Embora, no dia 17, o Copom tenha reduzido os juros básicos (Selic) em um quarto de ponto porcentual ao ano, nas últimas semanas os juros de longo prazo, que o mercado, e não a Selic, vem definindo, estão aumentando quase todos os dias. Para ficar com os títulos do Tesouro, os ativos mais seguros do País, os investidores vêm exigindo juros reais (acima da inflação) até superiores a 8,0% ao ano.

Isso acontece porque a dívida pública está disparando e já ultrapassa os 80% do PIB e, mais, porque dispara à velocidade de 3,5% e 4,5% ao ano. E, atenção: esse crescimento da dívida não acontece apenas porque o Tesouro tem de incorporar os juros altos definidos pelo Copom, mas porque o Tesouro não consegue juros baixos na rolagem dos títulos de longo prazo.

Isolamento político de Lula pode favorecer oposição no 2º turno, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O presidente Lula continua competitivo, mas seu desempenho está estagnado. A pesquisa Meio/Ideia mostra como esse equilíbrio é mais frágil do que parece

Divulgada nessa quarta-feira, a pesquisa Meio/Ideia de julho permite uma leitura incômoda para o Palácio do Planalto: por ora, o risco para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é o surgimento de um adversário competitivo carismático ou capaz de atrair o centro político e viabilizar a terceira via no primeiro turno, mas a persistência do seu próprio isolamento político.

O problema central do presidente não é apenas a existência de um campo oposicionista numeroso e ideologicamente alinhado contra ele; é a combinação entre um teto eleitoral aparentemente consolidado e o não surgimento de uma candidatura com a qual possa se alinhar no segundo turno.

Os custos implícitos da comunicação do BC, por Benito Salomão *

Correio Braziliense

A incapacidade de o Banco Central produzir a convergência da inflação para o centro da meta talvez possa ser explicada na escolha das palavras contidas nos seus instrumentos de comunicação

Na sua última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu cortar a taxa básica de juros para 14,25% ao ano. Essa decisão já era esperada pela ampla maioria dos agentes e, portanto, não causou surpresas. Surpreendente mesmo é a imensa dificuldade encontrada pelo Comitê de explicar a sua decisão. A inflação no país voltou a performar acima da meta nos meses recentes, fruto de choques em preços de energia. No entanto, o atual nível de contração da política monetária deveria ser capaz de produzir a convergência em horizonte razoável.

Três lições da Copa, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Permitimos que todos joguem futebol com bolas igualmente redondas, mas não oferecemos escolas com a mesma qualidade para todas crianças. O futebol venceu o racismo; a educação ainda não venceu o rendismo

A primeira lição desta Copa é seu papel na luta contra o racismo. Os torcedores brancos europeus tratam seus atletas como heróis, independentemente da raça. Esse reconhecimento ajuda a quebrar o preconceito, na medida em que o país passa a dever suas conquistas a jogadores negros ou árabes. Há algumas décadas, até mesmo no Brasil, exigia-se que jogadores negros usassem pó de arroz no rosto para embranquecê-los. Se esse preconceito tivesse continuado, o Brasil não teria conquistado Copas do Mundo, pois grande parte de nossos jogadores é formada por afrodescendentes.

Personagem de si mesma, por Ivan Alves Filho*

Em 1926, aos 36 anos de idade, uma mulher faz as malas, pega seu carro e sai em viagem. Estamos na Inglaterra. Horas depois, seu veículo é encontrado, dentro de um lago. Não há ninguém dentro, nenhum corpo é achado na água. 

Seu marido, notificado do acidente, inicia uma busca desesperada por sua mulher.  A Polícia inglesa investiga o mistério, a imprensa também se debruça sobre o assunto. Há muita especulação em torno daquele desaparecimento: terá sido um assassinato? Um suicídio? Um sequestro? Ou a mulher simplesmente decidiu sumir no mapa? 

Poesia | O Guardador de Rebanho parte VIII, de Fernando Pessoa, por Paulo Autran

 

Música | Chico Buarque - Sou Eu / Tereza da Praia