Valor Econômico
Aposta de que a crise na campanha de Flávio leve à sua substituição como candidato esbarra nas evidências de que desfecho desmoralizaria o bolsonarismo
“É fogo amigo”, respondeu o senador Rogério Marinho (PL-RN) em mensagem de celular durante um jantar tão logo recebeu a notícia de que a Gazeta do Povo publicaria pesquisa com quatro alternativas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Além de Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, foram incluídos na pesquisa a ex-primeira-dama, o astronauta e senador Marcos Pontes (PL-SP) e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Se Marinho apressou-se em dizer ao pré-candidato do PL à Presidência que nada tinha a ver com isso, Damares limitou-se a achar graça.
O incêndio que se iniciou pela lavagem de
roupa suja de Michelle e arrebanhou a governadora do DF e candidata à
reeleição, Celina Leão (PP), não se restringiu à entrada de mulheres nas chapas
estaduais do PL. Damares não se cansa de lançar pontes para além do
bolsonarismo. Na votação de uma mudança no Estatuto da Criança e do Adolescente
esta semana, cumprimentou o senador petista Fabiano Contarato (ES) pela relatoria:
“Que honra ser sua parceira e amiga”. Para não falar da própria Michelle que,
dias atrás, celebrou a apresentação da política nacional de educação de surdos
pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva como a “realização de um sonho”. Está
claro que não é por simpatia pelo lulismo, mas por provocação, que se espraiou.
O ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo
Salles (Novo-SP), que disputa com o presidente da Assembleia Legislativa de São
Paulo, André do Prado (PL-SP), o apoio do bolsonarismo à sua postulação ao
Senado, foi às redes taxativo sobre a falta de agenda, comunicação, organização
e planejamento: “A campanha de Flávio não existe.”
A luta interna ainda trouxe à tona o
mal-estar do deputado federal Zé Trovão (PL-SC) com o bolsonarismo verbalizado
na crítica do ex-caminhoneiro por Jair Bolsonaro ter contribuído, com seu
sumiço antes da posse de 2023, para um 8 de janeiro que resultou na detenção de
mais de mil pessoas, entre as quais quase 200 permanecem presas.
Até o presidente do PL, Valdemar Costa Neto,
resolveu plantar uma semente nesse pomar de dissonâncias cognitivas ao levantar
a possibilidade de Bolsonaro sair da prisão domiciliar para se candidatar, a
despeito da inviabilidade jurídica, física e psíquica do ex-presidente.
Nenhum dissenso, porém, surpreende tanto
quanto aquele protagonizado pelo próprio irmão do pré-candidato do PL. Dos EUA,
onde continua foragido, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro tem agido em dobradinha
com Paulo Figueiredo, principal ponte da família com a Casa Branca.
O influenciador, que chegou a enviar um
memorando para a Representação Comercial dos EUA (USTR na sigla em inglês), e
teve seu nome oficialmente incluído nas audiências públicas, acabou por não
comparecer. Dias antes, Flávio havia desautorizado o discurso
mulher-não-sabe-votar e negado a participação de Figueiredo em sua campanha.
Depois da audiência pública no USTR, o influenciador passou a criticar a
comunicação da campanha pela maneira como foi divulgada a participação do
senador no evento.
É da dupla, como ficou comprovado no processo
que condenou Eduardo Bolsonaro por mobilizar Donald Trump contra o Brasil, a
pressão que resultou no tarifaço. O confronto vem de sua escolha em colocar os
princípios da rede transnacional de extrema-direita acima das contingências da
campanha eleitoral no Brasil.
É possível, como diz Marcos Nobre, em “O
Partido Digital Bolsonarista” (Cebrap, 2026), que o dissenso seja a alma de um
negócio que subverte a cadeia de lealdade dos partidos convencionais para
operar - e se expandir - no contraditório, como o próprio eleitorado. No
Datafolha, mais de um terço dos eleitores de Flávio repudia a posse de armas
mas oito, entre 10, querem punir adolescentes como se adultos fossem.
Se esta ambiguidade fermenta o bolsonarismo,
não parece convencer a fatia de eleitores que não se alinham a Lula ou a Flávio
e à qual se atribui poder decisivo na estreita margem de votos que deve decidir
esta eleição. É o que tem mostrado tanto as pesquisas quantitativas sobre a perda
de fôlego de Flávio entre os independentes quanto grupos de qualitativas que
revelam o desencanto do eleitor com o vai-vem do 01.
A discórdia como fermento também não resolve
problemas reais da campanha do PL como o desmonte de uma a uma de suas candidaturas
majoritárias no Rio, berço do bolsonarismo. O ex-governador Cláudio Castro
desistiu do Senado depois de ter sido alvo de duas operações da PF e o
pré-candidato ao Senado e ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, fará
companhia na prisão ao ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, que, até então,
ocupava o panteão das pré-candidaturas bolsonaristas ao governo. O PL vai
montar o comitê de campanha de Flávio em São Paulo na tentativa de reverter o
desastre fluminense com os votos do outro lado da Mantiqueira, mas o dano,
sobretudo no discurso de combate ao crime organizado, não é desprezível.
A demora de Flávio em definir nomes para o
Senado no Rio alimenta a aposta de que o senador dispute a reeleição e seja
substituído na disputa ao Planalto. Esta hipótese, porém, ainda não faz preço
na campanha. Esbarra na evidência de que o gesto seria a capitulação de um
bolsonarismo que, se derrotado em outubro, pretende se manter a salvo em 2030.

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