domingo, 24 de maio de 2026

Fantasmas do passado, por Merval Pereira

O Globo

Lula, assim como Bolsonaro fez, está fazendo “o diabo” com o dinheiro público, e se arrisca a receber uma herança maldita, verdadeira, dele mesmo

Todo governo “faz o diabo” para continuar no poder, como já admitiu a ex-presidente Dilma Rousseff, e essa é uma das várias razões para que a reeleição seja muito contestada, tanto aos governos regionais quanto à presidência da República. Lula, assim como Bolsonaro fez, está fazendo “o diabo” com o dinheiro público, e se arrisca a receber uma herança maldita, verdadeira, dele mesmo. Já a eleição para a Câmara e o Senado obedece a uma outra concepção. Quase ninguém lembra em que candidato votou na última eleição, e o que funciona mesmo são as máquinas eleitorais regionais que, na maioria das vezes, não coincidem com quem está no comando nacional.

Mesmo que o partido do presidente da República eleja as maiores bancadas, dificilmente conseguirá uma maioria no Congresso que lhe permita governar sem grandes problemas. A coalizão partidária surge como uma maneira de unir partidos em torno do vencedor nacional, mas quando esse presidente eleito tem mais prestígio popular que parlamentar, ou ele abre mão de parte de seus poderes, ou vai ser chantageado politicamente a cada decisão importante que quiser implementar. O presidente da República é visto pela população como o grande chefe político do país, mas, ao votar, não consegue fazer a ligação desse ato com a consequência dele advinda.

Recentemente, o Congresso conseguiu, depois de anos de um trabalho persistente, avocar para si uma parte importante do orçamento, e está livre do controle do Presidente da República. Por isso, ao contrário do parlamentarismo, o presidente hoje já não tem os poderes de antigamente, embora o voto continue sendo personalíssimo. O que está acontecendo hoje no país é exemplar dessa situação anômala.

Os dois mais populares líderes políticos, o presidente Lula e o ex-presidente Bolsonaro, e também os mais rejeitados, disputam mais uma vez a presidência da República. Com Lula na cadeia e Fernando Haddad como candidato do PT contra Jair Bolsonaro, este último venceu a eleição. Em seguida, com Lula já devolvido à vida partidária por decisão do Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro foi derrotado. Agora, a situação se inverte e Bolsonaro, preso, coloca seu filho para disputar a presidência com Lula. Não é uma sequência animadora, mais parecemos uma republiqueta de banana revezando seus populistas preferidos.

Na prática, porém, as instituições democráticas vêm funcionando razoavelmente bem, embora, mais frequentemente do que seria razoável, elas tratem mais dos interesses pessoais de seus membros do que do interesse da Nação. Mas, tentemos ser otimistas, e pensemos na possibilidade de uma saída para nossos graves problemas a partir da próxima eleição. Se Lula aproveitar essa brecha que surgiu com o escândalo do Banco Master caindo no colo do bolsonarismo, poderia encaminhar uma solução pragmática para a condução econômica, e colocar em prática um verdadeiro governo de união nacional.

Mas é difícil que o PT aceite uma ampliação do espaço político de quem considera inimigo. Nem mesmo na dificuldade absurda, como aconteceu no segundo governo de Dilma Rousseff, quando ela teve que convocar Joaquim Levy para o ministério da Fazenda, o PT aceitou perder alguns anéis e acabou perdendo os dedos, com o impeachment da presidente. Já a situação do escolhido pelo clã Bolsonaro parece mais complicada com a revelação do diálogo entre ele e Vorcaro, e a falta de explicações sobre onde foi parar o dinheirão para supostamente financiar uma hagiografia de seu pai.

Para se recuperar, Flavio Bolsonaro fez uma movimentação audaciosa, e conseguiu ser convidado por Trump para ir a Washington. A visita de Lula a Donald Trump foi vista como um sucesso da relação dos dois. Trump elogiou Lula depois do encontro e foi por água abaixo a tese de que se ele ganhasse, os EUA ficariam contra o Brasil. A candidatura de Flavio Bolsonaro foi atingida, mas não inviabilizada. Não há sinais de que outros candidatos da direita tenham se beneficiado da fragilidade de Flavio. Mas há muito mais fantasmas a aparecer para assombrar ambos os candidatos.

 

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