segunda-feira, 25 de maio de 2026

Flávio Bolsonaro reforça discurso religioso em meio à desconfiança de lideranças evangélicas, por Beatriz Roscoe

Valor Econômico

Pastor Silas Malafaia tem sinalizado desembarque da candidatura e defendido, nos bastidores, o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro

Com a imagem arranhada após a crise desencadeada pelo vazamento de mensagens trocadas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ), tem buscado se ancorar na religião para tentar reverter danos. O movimento ocorre em meio à sinalização de lideranças evangélicas de descontentamento com os fatos que vieram à tona e diante da queda do senador nas pesquisas eleitorais.

Em vídeos publicados nas redes sociais, Flávio aparece citando passagens bíblicas, participando de cultos e usando personagens religiosos para buscar sair da crise. Em um aceno ao eleitorado evangélico, o senador também passou a intensificar discursos sobre “batalha espiritual” e perseguição política, associando sua trajetória à do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Como mostrou o Valor, Flávio enfrenta resistências em setores ligados às lideranças evangélicas. O pastor Silas Malafaia, por exemplo, tem sinalizado desembarque da candidatura e defendido, nos bastidores, o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Em um dos vídeos publicados nas redes sociais, Flávio afirma que sua força para enfrentar a campanha vem de Deus. “Eu sei que essa não é uma batalha só aqui, na Terra. É uma batalha espiritual, acima de tudo”, disse.

Outra gravação mostra o pré-candidato recorrendo à figura bíblica do “manto de Elias” para associar sua candidatura a uma espécie de missão herdada do pai. “Hoje a mensagem foi sobre isso, né? Foi sobre eles, eu, receber o manto de Elias. Nunca escolheu aquilo, nunca pediu nada, mas recebe o manto e é isso que eu acredito que está acontecendo”, declarou.

“O pai passou esse manto pra mim, a experiência dele, o que já aconteceu com ele, a gente absorve, aprende e faz duas vezes melhor se possível. Porque quando estive conversando com o meu pai nesse processo todo, me questionando, [ele perguntava]: ‘Você sabe o que você vai enfrentar, você está disposto, você vai pra cima, vão tentar fazer de tudo para impedir a sua eleição, você está preparado?’ Eu falei: ‘Pai, estou preparado, esse é propósito de Deus, nada vai tirar isso da gente’”, completou Flávio.

A estratégia também passa por tentar associar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que deve disputar a reeleição, à figura do diabo. “O Lula falou que ia fazer o diabo para ficar no poder. Ele só esqueceu de uma coisa: enquanto ele está com o diabo, eu estou com Deus”, declarou o senador em uma das publicações.

Uma ala do PL admite a possibilidade de rever a candidatura e colocou um “prazo implícito” entre 10 a 15 dias para Flávio se recuperar da crise. A faixa que acende o alerta, dizem aliados, é se o senador cair entre nove e dez pontos percentuais nos levantamentos. Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (22) mostra que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro caiu quatro pontos, passando de 35% a 31% das intenções de voto.

A queda está dentro da margem estimada por integrantes da campanha do pré-candidato, mas o levantamento confirma o impacto negativo da revelação de que Flávio pediu a Vorcaro dinheiro para financiar o filme sobre seu pai.

Em nota, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, negou ter dado um prazo de 15 dias para avaliar a resiliência da pré-candidatura de Flávio. “De forma oportunista e distorcida tentaram inverter completamente o sentido da minha fala. Em nenhum momento tratei de testar a resistência de Flávio Bolsonaro”, disse.

Se houver um “derretimento” de Flávio, bolsonaristas e aliados de Malafaia avaliam que um caminho é apostar em Michelle. Entre os argumentos usados, está o apelo popular maior da ex-primeira-dama em comparação ao enteado, sobretudo entre mulheres. Desde o fim do governo Bolsonaro, Michelle passou a construir uma base política própria.

Embora Malafaia tenha ensaiado uma reaproximação com Flávio nas últimas semanas, o religioso sempre deixou claro que era contra a pré-candidatura do senador por avaliar que ele tem um “teto de vidro” elevado e ficaria fragilizado em uma disputa contra Lula.

O líder religioso preferia que o candidato fosse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mas o chefe do Palácio dos Bandeirantes não se desincompatibilizou para disputar a Presidência e ficou fora do páreo. Assim, o pastor passou a defender Michelle como principal alternativa.

Na última semana, Malafaia admitiu que a crise pode afetar a imagem de Flávio Bolsonaro no eleitorado evangélico. “A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto, estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se não tiver, vamos com Flávio”, declarou o pastor ao jornal O Globo.

Flávio confirmou, após reportagem publicada pelo portal Intercept Brasil, que pediu dinheiro a Vorcaro para patrocinar um filme ligado ao bolsonarismo. O acordo envolveria R$ 134 milhões, mas, segundo o senador, foram repassados R$ 61 milhões.

Na semana passada, também veio à tona que ele se encontrou pessoalmente com Vorcaro após a primeira vez em que o ex-banqueiro foi preso, em novembro de 2025. Vorcaro usava tornozeleira eletrônica na ocasião. Flávio, no entanto, nega qualquer irregularidade ou troca de favores na relação entre os dois.

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