Folha de S. Paulo
Um candidato mal avaliado pode ganhar devido
à arquitetura da escolha
A literatura também mostra que, quanto mais
intenso o partidarismo, maior o viés
É muito comum, sobretudo em contexto de eleições, que se especule sobre o impacto da economia sobre o voto. O bordão "it’s the economy, stupid" (é a economia, estúpido) será repetido ad nauseam. Que a própria percepção da economia seja influenciada pela preferência partidária ou lealdade individual do voto das pessoas não é novidade. Desconsiderar que as pesquisas embutem este problema (a avaliação é endógena) leva recorrentemente a equívocos.
Em 2022, 2/3 dos eleitores de Lula achavam que a economia havia piorado, enquanto 1 em cada 10 entre os eleitores de Bolsonaro concordava que a economia estava pior (Nunes e Traumann, 2024). Há evidências dessa natureza literalmente em todo o mundo. O que não sabemos ainda é se esse efeito de torcida será maior em 2026 do que em 2022.A literatura já discutiu o fenômeno como uma
forma de "partisan cheerleading" (efeito torcida
partidária). Avaliações de governo e da economia não refletem apenas
julgamentos objetivos sobre desempenho; são uma forma de comportamento
expressivo em que eleitores sinalizam lealdade política. As respostas em
pesquisas são contaminadas por essa torcida partidária, levando simpatizantes a avaliar
melhor governos com os quais se identificam politicamente. A literatura também
mostra que, quanto mais intenso o partidarismo, maior o viés. É uma extensão do
chamado "efeito halo": a percepção das características positivas de um
político ou partido influenciando a avaliação de seu desempenho pelos
eleitores.
Há evidências fortes de que o efeito do partidarismo sobre percepções
econômicas aumentou muito, especialmente nos EUA, mas com uma nuance importante: o
aumento é mais claro nas avaliações sociotrópicas —"como está a economia
nacional?"— do que nas avaliações egotrópicas —"como estão
minhas finanças pessoais?".
Pesquisas mostram que a brecha entre
democratas e republicanos na percepção de melhora da economia aproximadamente dobrou
entre 1999 e 2020. No primeiro mandato de Trump, a diferença estimada era de
impressionantes 73%! A correlação entre indicadores econômicos e avaliação de
desempenho tem diminuído.
A implicação mais imediata desses achados de pesquisa é que o comportamento
real da economia tende a perder importância relativa no voto. Pode estar
acontecendo no Brasil também. Com isso, a responsabilização (por mau desempenho
ou corrupção) tende a enfraquecer. Isto se sobrepõe ao conhecido viés de
disponibilidade (a heurística dá mais peso a informações recentes na tomada de
decisão). Nos EUA, nos últimos 70 anos, o desempenho da economia nos três anos
anteriores do mandato não importa para o voto nas eleições presidenciais:
segundo pesquisas, apenas o último semestre ou ano é decisivo. O eleitor olha
pelo retrovisor apenas nos últimos metros da corrida.
Mas há outras questões fundamentais que não devem ser esquecidas. Primeiro, o
grupo de independentes —o único sem torcida partidária— tem crescido no país,
algo que também ocorreu nos EUA, onde hoje representa a maior fatia do
eleitorado. É aqui que estão os eleitores voláteis. E é nele que se deve focar
a análise. Segundo, o que efetivamente interessa ao fim e ao cabo é a
arquitetura da escolha. Mesmo muito mal avaliado, um candidato pode ser eleito.

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