terça-feira, 23 de junho de 2026

Amigos, amigos, eleições à parte. Saída de Wagner é dilema de Lula, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Escândalos raramente são julgados pela gravidade objetiva dos fatos. Seu impacto depende da capacidade de atingir simbolicamente o poder. Foi assim no mensalão e na Lava Jato.

A permanência do senador Jaques Wagner na liderança do governo no Senado é insustentável, não apenas pelo desgaste pessoal provocado pela Operação Compliance Zero, mas pelo risco crescente de que o Caso Master ultrapasse as fronteiras de uma investigação financeira e alcance o núcleo político do governo Lula. No Palácio do Planalto, a compreensão é de que o problema deixou de ser exclusivamente jurídico. Virou uma ameaça com potencial para influenciar a sucessão presidencial de 2026.

Nos bastidores, a preocupação não se limita ao futuro de Wagner. O que inquieta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a possibilidade de novos desdobramentos atingirem personagens ainda mais influentes no governo, especialmente o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa. Embora não tenha sido citado formalmente pelas investigações, o ex-governador da Bahia aparece associado ao ambiente institucional que permitiu a expansão das operações do grupo financeiro posteriormente incorporado ao Banco Master. A oposição já trabalha para transformar essa conexão política em uma narrativa de alcance nacional.

A situação é delicada. Wagner não é um aliado qualquer. É um dos amigos mais próximos do presidente, integrante do núcleo histórico do PT e um dos principais articuladores do governo no Congresso. Sua presença na liderança governista faz com que qualquer fato novo relacionado ao Caso Master seja imediatamente associado ao Palácio do Planalto Por essa razão, a substituição do senador passou a ser tratada por auxiliares presidenciais como uma medida de contenção de danos.

O objetivo é impedir que a crise continue avançando na direção do governo e altere desfavoravelmente as condições para a disputa eleitoral do próximo ano. A pesquisa Ipsos-Ipec divulgada nesta semana mostrou que o governo interrompeu a trajetória de deterioração observada ao longo de 2025. A avaliação positiva da administração Lula alcançou 33%, enquanto a negativa ficou em 40%; outros 28% classificam o governo como regular. Em relação à aprovação pessoal do presidente, 44% aprovam sua gestão e 50% desaprovam. É uma situação limite.

Os números não são confortáveis para o Planalto, indicam ainda uma recuperação política modesta depois do período mais difícil do mandato. E revelam que a disputa eleitoral permanece aberta e será decidida por uma parcela relativamente pequena de eleitores independentes, cuja opinião continua altamente volátil. É aí que o Caso Master assume relevância eleitoral.

Jogo zerado

Até o surgimento do escândalo, o principal desafio da oposição era transformar o desgaste econômico do governo em crescimento eleitoral consistente. O senador Flávio Bolsonaro, principal herdeiro político do bolsonarismo para a disputa presidencial, já vinha enfrentando dificuldades para ampliar sua vantagem entre os eleitores moderados. Seu envolvimento com o caso Vorcaro, com a revelação de que havia pedido recursos para financiar a produção de um filme nos Estados Unidos sobre a vida de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, inclusive com gravações de suas conversas com o banqueiro, fizeram com que retrocedesse nas pesquisas.

O avanço das investigações do caso Master, porém, mudou parcialmente esse cenário. Ao deslocar o foco do debate público para suspeitas envolvendo aliados históricos de Lula, o caso ajudou a interromper a curva de desgaste do candidato de oposição e abriu uma nova frente de vulnerabilidade para o governo.

A experiência demonstra que escândalos raramente são julgados pela gravidade objetiva dos fatos. Seu impacto depende da capacidade de atingir simbolicamente o centro do poder. Foi assim no mensalão. Foi assim na Lava Jato. E pode ser assim no Caso Master. Ou seja, o centro das preocupações não é a imagem de Wagner, é o desgaste eleitoral que ela pode causar à candidatura à reeleição do presidente Lula.

Se as investigações permanecerem restritas a Jaques Wagner, o governo ainda terá condições de argumentar que adotou providências políticas e isolou o problema, que Lula não foi citado nem há conversas suas comprometedoras com Vorcaro. Entretanto, se novos elementos alcançarem Rui Costa, que por mais de três anos foi o gerentão da Esplanada, ou outros integrantes do primeiro escalão, a natureza da crise mudará completamente.

Deixaria de ser um episódio envolvendo apenas um senador, para ser um problema do próprio governo. A recuperação registrada pelo Ipsos-Ipec poderia ser rapidamente anulada. Os eleitores que migraram da rejeição para uma posição intermediária – hoje refletida nos 28% que classificam o governo como regular – constituem justamente o segmento mais sensível a denúncias de corrupção, tráfico de influência ou favorecimento político. São eles que podem decidir a eleição de 2026. O presidente Lula parece ter compreendido esse risco, mas ainda não é o caso de Jaques Wagner.

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