segunda-feira, 22 de junho de 2026

A última linha de defesa da racionalidade se foi, por Bruno Carazza*

Valor Econômico

Novos argumentos contra a autonomia financeira e orçamentária do Banco Central

Na semana passada expus minhas preocupações com a possível aprovação da PEC nº 65/2023, que dá autonomia financeira, orçamentária e administrativa ao Banco Central. A publicação do texto mobilizou servidores do Bacen, inclusive amigos, que me procuraram para apresentar as suas divergências aos riscos que apontei.

No artigo, embora tenha reconhecido as atuais limitações orçamentárias e de pessoal da autoridade monetária brasileira, destaquei os temores de que os superpoderes a serem concedidos pela PEC possam, no futuro, se converter em supersalários e irresponsabilidade fiscal.

Os técnicos do Banco Central que me procuraram apresentaram dois argumentos centrais para defender a autonomia plena: a experiência internacional e a existência, na proposta, de travas fiscais.

Segundo eles, o Bacen seria uma espécie de jabuticaba entre seus pares internacionais. Chegaram até a me enviar um mapa em que a maioria dos países (principalmente os desenvolvidos) está destacada como possuindo autonomia orçamentária. Já o Brasil está na companhia de algumas poucas nações africanas e asiáticas em que a liberdade para propor e gerenciar o próprio orçamento não existe.

O comparativo com as boas práticas internacionais é valioso, porém não pode ser simplista. Mesmo entre os países avançados existem diversos graus de autonomia. No Japão, por exemplo, o orçamento do Banco Central precisa ser negociado com o Ministro das Finanças, enquanto o financiamento do Bank of England depende de taxas cobradas das instituições financeiras (como sugeri na coluna anterior). O certo é que cada nação precisa adaptar suas instituições à realidade local - e o corporativismo e a possibilidade de captura são características nacionais que precisam ser levadas em conta.

E aqui reside o segundo pilar da defesa da PEC pelos técnicos do Bacen. Para eles, o texto atual prevê três travas que minimizariam as chances de a autonomia se converter em supersalários.

A primeira delas é que as despesas de pessoal do Banco Central teriam um limite de crescimento real de 2,5% ao ano. Ora, sejamos honestos: colocar na Constituição que um órgão poderá aumentar seus gastos com servidores em 2,5% acima da inflação não é trava, é garantia. No início esse acréscimo poderá até ser usado para aumentar o quadro de funcionários, mas com o tempo certamente vai virar aumento de salário.

Outra garantia seria a exigência de que a proposta de orçamento do Banco Central fosse aprovada previamente pelo Conselho Monetário Nacional e pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Quem acompanha o CMN sabe como o Bacen, apesar de ter apenas um dos três votos (os demais são dos ministros da Fazenda e do Planejamento), tem papel dominante nas decisões colegiadas.

Quanto ao controle pela CAE do Senado, imaginem os danos potenciais à independência operacional do Banco Central se o seu presidente tiver que negociar o orçamento todos os anos com um Flávio Bolsonaro, um Ciro Nogueira ou um Jaques Wagner, para citar três exemplos de senadores enrolados com o Banco Master.

Por fim, os defensores da PEC citam o dispositivo que estabelece que os servidores do Banco Central continuarão sujeitos ao limite remuneratório do serviço público. Qualquer brasileiro sabe que o teto não representa nada no Brasil. Aliás, a fonte dos penduricalhos de juízes e membros do Ministério Público está justamente na autonomia financeira e orçamentária assegurada a eles na Constituição.

É decepcionante ouvir técnicos tão bem preparados e com ótimos serviços prestados ao serviço público brasileiro colocando de lado seu compromisso com a racionalidade econômica e a responsabilidade fiscal em nome de interesses próprios.

Mesmo cientes de que a autonomia concedida ao Judiciário, ao Ministério Público e ao Legislativo agrava o déficit público, os analistas do Banco Central a defendem para si. Quando perguntados se apoiariam a mesma PEC para outro órgão, como a CVM, o Tesouro Nacional ou a Advocacia-Geral da União, a resposta é sempre a mesma: “Ah, mas o nosso caso é diferente”.

Também questionei se eles garantiriam que, daqui a dez anos, essas travas da PEC estariam de pé e evitariam supersalários. Nenhum deles quis apostar comigo. Mas não os culpo.

Na última semana, o Tribunal de Contas da União concedeu a seus servidores um penduricalho que por anos condenou em outros órgãos. Já a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que permitirá a advogados públicos, além de receber seus subsídios e honorários, trabalhar em escritórios privados.

O problema da remuneração no serviço público é sistêmico. Precisamos de soluções gerais (padronização de vencimentos, planos de carreira, teto efetivo) e não que cada órgão se lance neste vale-tudo para garantir seu próprio quinhão do orçamento.

Vivemos no Estado brasileiro a tragédia dos comuns. Quando cada um busca maximizar seu próprio interesse, não sobrará recursos para os demais.

E quando a última linha de defesa da racionalidade econômica também mergulha na disputa corporativista, não nos resta muita esperança para o país.

*Bruno Carazza é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “O País dos Privilégios (volume 1) e “Dinheiro, Eleições e Poder”, ambos pela Companhia das Letras.

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