domingo, 21 de junho de 2026

E La Nave va, por Merval Pereira

O Globo

Temos que esperar o que os fatos vão dizer, em uma eleição em que não há programas e projetos em jogo, mas acusações e denúncias entre dois candidatos rejeitados pela maioria da sociedade

Do jeito que vai a política nacional, não é possível afirmar que o presidente Lula atingiu seu teto eleitoral, nem que o senador Flavio Bolsonaro está mantendo seu piso. A pesquisa do DataFolha indica, porém, a possibilidade de que a eleição se resolva no primeiro turno, ou que chegue ao segundo com os dois candidatos empatados na margem de erro. Os demais candidatos, tanto à esquerda quanto, especialmente, à direita, não parecem ter fôlego para dar uma arrancada nos próximos dois meses. A eleição dos rejeitados parece ser também a dos envolvidos em questões de corrupção.

As investigações, tanto do caso Master como a das falcatruas do INSS, estão em pleno andamento, e podemos, nós mais do que os candidatos, ser surpreendidos com novas descobertas. Caminhamos para uma campanha política de baixíssimo nível, afetada por denúncias de corrupção. Vai ser um candidato acusando o outro, com fatos novos aparecendo a toda hora. Assim como o senador Flávio Bolsonaro caiu depois da divulgação de conversas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, vamos ver o que vai acontecer com a candidatura do presidente Lula depois do episódio em que o senador Jacques Wagner, líder do governo, se viu envolvido em negócios nebulosos que lhe renderam um apartamento para a filha, quase cem mil dólares e euros armazenados em casa, viagens e vantagens luxuosas para o exterior.

Acredito que muita coisa vai surgir, nenhum lado está livre, porque Vorcaro estendeu seus tentáculos apartidariamente, o negócio dele era dinheiro e influência. Comprou influência e prestígio em todos os partidos e instâncias governamentais, até mesmo onde a corrupção não havia chegado tão escancaradamente, como o Banco Central. Há ainda a investigação da fraude do INSS, da qual o ministro André Mendonça também é o relator no STF. Se aparecer algo a respeito do filho do Lula, o Lulinha, que está morando na Espanha, vai ser outro baque na campanha da reeleição.

Temos que esperar o que os fatos vão dizer, em uma eleição em que não há programas e projetos em jogo, mas acusações e denúncias entre dois candidatos rejeitados pela maioria da sociedade. Este é o paradoxo da democracia, candidatos desprezados por seus históricos ligados à corrupção disputam um eleitorado que, em parte decisiva, os rejeita, mas pode dar a um deles o poder de realizar aquilo por que são rejeitados. A corrupção está muito entranhada na política brasileira, nas elites de Brasília, em todos os poderes. É uma vergonha que o presidente da Câmara, Hugo Motta, diga não ver nada demais em receber de Daniel Vorcaro carona em jatinho particular e pagamento de hotéis de luxo no exterior. É querer normalizar coisas que o senso comum diz que são erradas, que são corrupção. Fingem não entender que são funcionários públicos, recebem dinheiro público, são funcionários da sociedade, não podem ficar se dando a esses luxos.

São presidentes da Câmara, do Senado, líderes do governo, presidentes de partido, todos usufruindo de benefícios indevidos. Vai chegar o momento em que Vorcaro vai entender que, se não fizer uma delação completa e profunda, vai ficar 30 anos na cadeia. Até agora, está achando que vai se safar, e o histórico brasileiro dá razão a ele - pode ficar alguns anos na cadeia e ser absolvido. Ou nem isso, porque nem julgam mais, anulam e acabou. Mas é uma jogada arriscada.

O senador Jacques Wagner indicou os ex-ministros petistas Guido Mantega e Ricardo Lewandowski para assessorar Vorcaro no Banco Master, e por aí se mede a influência que tinha dentro do esquema. Foi Mantega quem conseguiu que Lula recebesse, fora da agenda no Palácio do Planalto, o banqueiro Daniel Vorcaro, tendo a seu lado o futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galipolo. E la nave vá

 

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