Valor Econômico
Ano eleitoral é momento para pensar o Brasil além de questões econômicas de curto prazo, como inflação, juros estratosféricos e responsabilidade fiscal
Mais cedo ou mais tarde, não muito tarde, o
Brasil e outros países terão de enfrentar o problema do desemprego estrutural.
Vários fatores, principalmente as inovações tecnológicas, aceleradas pela
inteligência artificial (IA), indicam que o simples crescimento econômico não
será suficiente para gerar postos de trabalho que garantam ocupações dignas e o
sustento das famílias.
A despeito dos baixos níveis atuais de
desemprego, a informalidade é uma marca do mercado brasileiro, com 40 milhões
de trabalhadores, muitos deles iludidos pelo discurso do empreendedorismo.
A constatação da incapacidade de o sistema capitalista prover pleno emprego não é nova. O excedente estrutural de mão de obra sempre foi uma arma para redução de custos. Já nos anos 1960, o economista Hyman Minsky defendia a tese do “Estado como empregador em última instância”. Mas a constatação de que há uma emergência no enfrentamento desse problema fez ressurgir nos meios acadêmicos do país o debate sobre a criação de um Programa de Garantia de Emprego (PGE).
A ideia de garantir emprego a todos que
queiram trabalhar, aparentemente utópica, está aprofundada em uma série de 11
artigos publicados pela Fundação Friedrich Ebert Stiftung após pesquisas do
Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho do Instituto de Economia da Unicamp.
O professor Marcelo Manzano e a professora Simone Silva de Deos, autores de
artigos da série, expuseram as propostas em recente seminário na Fespsp.
Como seria o PGE?
Para não assustar fiscalistas radicais, um
dos títulos da série é “Programa de Garantia de Emprego com Estabilidade de
Preços”. Ou seja, não se pretende sugerir nenhuma irresponsabilidade no combate
à inflação.
Manzano divide as atividades da economia
brasileira em quatro núcleos: um, tipicamente capitalista e mercantil, absorve
cerca de 35% da força de trabalho; o segundo, da administração pública em
geral, 15%; o terceiro, dos chamados arranjos de subsistência, da
informalidade, 40%; e o quarto, das ocupações sociais, em áreas de cultura,
cuidados, produção urbana de alimentos etc., 8% a 10%.
A ideia é a expansão dos programas de geração
de vagas no quarto núcleo, de ocupações sociais, com recursos públicos, para
dar emprego a quem precise ou deseje trabalhar. Parte-se da premissa de que os
setores tradicionais não serão suficientes para absorver, em condições dignas,
a força de trabalho do país nos anos vindouros.
O argumento principal da proposta é que seria
possível e justificável do ponto de vista econômico-social utilizar recursos
fiscais para criar ocupações de trabalho que não concorram com o circuito
produtivo capitalista, mas sirvam para a inclusão social de segmentos
importantes da população estruturalmente marginalizados do mercado de trabalho.
São atividades não econômicas, que, embora importantes para o bem-estar
coletivo, não atraem o interesse dos negócios privados. As pessoas que se
dedicassem a essas ocupações sociais, previamente treinadas, receberiam renda
mensal que lhes permitiria viver com dignidade.
Manzano cita entre essas atividades oficinas
de música, dança e teatro, rodas de literatura, restauração de patrimônio
histórico urbano, brigadas de reflorestamento, agentes ambientais de parques,
jardins e agricultura urbana, educadores ambientais, atividades de esportes e
cuidados. Ou seja, muitas carências ou ausências da vida coletiva
contemporânea, que não interessam às empresas capitalistas porque não oferecem
oportunidade de lucro, passariam a ser supridas por meio de pessoas que se
encontram descartadas no mercado de trabalho.
A proposta é bonita, mas, ao ser apresentada,
a primeira pergunta é: “De onde viriam os recursos?”.
Resposta: teriam que estar nos orçamentos da
União, Estados e municípios. O Bolsa Família poderia coexistir, mas certamente
muitos dos beneficiados sairiam do programa porque teriam salários fixos mais altos
e outra grande vantagem: engajamento social por meio do trabalho. Uma parte dos
recursos viria, portanto, do orçamento atual do Bolsa Família e de outros
programas sociais. Outra, de cortes de dispêndios em áreas hoje propícias à
gastança, como emendas parlamentares, supersalários, despesas tributárias e
subsídios setoriais. O programa custaria uns R$ 250 bilhões anuais, segundo
Manzano, e poderia ser implementado em fases para minimizar eventual impacto
inflacionário. Diferentemente de políticas de transferência de renda, o PGE
reduziria o desperdício de potencial humano.
Os professores Simone Silva de Deos e Pietro
Borsari, em artigo, calculam que a remuneração oferecida aos trabalhadores do
PGE seria inferior ao salário médio vigente no mercado, para não haver
competição com o próprio mercado de trabalho. No desenho deles, o programa
seria uma alternativa ao “trade off” entre inflação e desemprego: atualmente, a
política de meta de inflação escolhe desempregar como forma de atingir a
estabilidade monetária. Economistas chamam essa política de “âncora do
desemprego”, que seria substituída por um estoque regulador de empregos
públicos.
O Brasil, pela primeira vez, entrou na faixa
dos países com desenvolvimento humano “muito alto”, segundo o IDH, da ONU. Isso
só foi possível por aumento da longevidade, melhora na educação e na renda
familiar graças ao Bolsa Família. Há, porém, um longo caminho a percorrer na
redução das desigualdades. Pensadores da academia acham que o trabalho para
todos não é uma utopia e pode abrir esse caminho.
Eis um debate que não deve ser interditado num ano eleitoral e quando a IA ameaça extinguir milhões de empregos em todos os setores. É um momento para pensar o Brasil além de questões econômicas de curto prazo, como inflação, juros estratosféricos e responsabilidade fiscal.

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