Folha de S. Paulo
Parlamentares comparecem ao Congresso
basicamente às terças e quartas-feiras
Magistrados e membros do Ministério Público
podem parcelar descanso em cotas de cinco dias
No país onde o fim da escala
6x1 é tratado como heresia por setores da economia, ameaça aos
empregos e ao crescimento do país, os homens da lei
e da Justiça deitam e rolam com seus 60 dias de férias, fora os
recessos, as licenças, as benesses e tudo o mais que a criatividade permitir.
É no Congresso, onde os recessos somam 55 dias por ano e parlamentares comparecem, basicamente, nas terças e quartas-feiras, que está o destino de quem labuta de segunda a sábado.
No mundo dos privilégios, as cores são tão
sortidas que há até quem se esqueça deles. Em entrevista à Folha, o
presidente do Tribunal de Contas da União, Vital do Rêgo,
que trabalha há 12 anos na corte, disse que só tinha 30 dias de férias.
Corrigido pela reportagem, admitiu que tinha 60 dias, mas que se enganou porque
costuma tirar, no máximo, cerca de 20 dias de descanso.
Na realidade, Vital se referia a seu recesso.
Os 60 dias de férias seguem intactos em seu contracheque, que ele pode tirar ou
guardar para a aposentadoria. À queima-roupa, Vital disse que, se pudesse,
acabaria com o benefício, que considera uma "generosidade excessiva".
Na contramão desse raciocínio, porém, o que
se vê são juízes e integrantes do Ministério Público mexendo com as próprias
regras, para parcelar o descanso de 60 dias, fracionando esse tempo em até 12
vezes. Com cotas de cinco dias, é possível juntar dois fins de semana. São nove
dias de pernas para o ar. Desconta-se apenas cinco.
Noves fora, a turma da toga poderá folgar
seis meses por ano, o que pode ficar ainda generoso, com outras licenças já
criadas.
Hoje, a escala 6x1 atinge 33% dos empregos no
país. São cerca de 20 milhões de pessoas que acordam e dormem com essa carga de
trabalho. Cada uma delas tem direito a 78 dias de folga por ano, somando seus
30 dias (isso quando conseguem tirar) e os fins de semana.
Com a caneta na mão, magistrados e afins se
regozijam com 178 dias sem trabalho. Os números deveriam bastar para expor o
escárnio.

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