Folha de S. Paulo
Reivindicar que pessoas vivam sem fome e sem
medo é tratado como mera opinião política
Extremistas veem demandas de dignidade como excessos e ameaças ideológicas
É estranho nascer, crescer e viver em um país
como o Brasil. A cada novo dia sinto que defender a dignidade humana é visto
como um posicionamento "ideológico" questionável, e não um mínimo
princípio ético. Como se reivindicar que as pessoas vivam
sem fome, sem medo, sem abandono do Estado ou sem violência
estrutural fosse apenas mais uma opinião política dentro do mercado
eleitoreiro, e não um princípio básico de convivência.
Sabemos que a democracia implica debater e disputar ideias, até persuadir pelo diálogo. Mas há uma enorme diferença entre discutir modelos econômicos ou formas de administração do Estado e precisar esclarecer alguém de que certos grupos humanos merecem direitos, proteção e condições materiais mínimas. Dignidade.
A desigualdade se
tornou tão comum que muita gente já não percebe a injustiça como uma emergência
moral, mas como algo que nunca vai mudar. E se acomoda nesse pensamento
individualista, criticando governos que combatem a fome e criam reais
oportunidades para todos na saúde, educação, trabalho, segurança, moradia.
Parece normal ver regiões inteiras
abandonadas, crianças desnutridas, líderes sociais assassinados, pessoas
deslocadas, trabalhadores explorados e sistemas públicos em colapso, enquanto o
debate político gira em torno do medo, da suposta ameaça à propriedade privada
ou da fantasia de um inimigo ideológico que "destruirá o país". E se
esconde atrás de factoides, como: a preocupação social vai "dividir
casas", "criar banheiros únicos" e "fechar templos
religiosos".
O que mais chama a atenção não é a existência
de cada uma dessas absurdas violências, mas a naturalidade com a qual parte da
sociedade aprendeu a conviver com elas desde que não mude sua sensação pessoal
de tranquilidade. Ironicamente, até entre os mais necessitados há os que pensam
assim. Lembro Simone Beauvoir: "O opressor não seria tão forte se não
tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos".
Por isso, incomoda escutar que é preciso
"convencer" o povo a escolher candidatos que defendam o lema
"Brasil acima de tudo, Deus acima de todos", (Deutschland über
alles), e outros slogans usados pelos nazifascistas.
Deus seria amor, não ódio. Estaria em todos, até nos que não têm fé.
O problema não é apenas político, é moral.
Mesmo depois de termos sofrido décadas de uma ditadura militar, com torturas,
mortes, exclusão e desigualdade extremas, ainda não há um entendimento básico
sobre o efetivo valor da vida humana, em especial quando diante de grupos
historicamente marginalizados: mulheres, idosos, crianças, indígenas, pretos,
LGBTQIAPN+, deficientes físicos e mentais, migrantes, refugiados e outros em
situação de vulnerabilidade.
No Brasil, várias pessoas defendem de modo
abstrato a democracia. Por outro lado, consideram suspeita qualquer iniciativa
responsável por reparação da crônica dívida social, justa distribuição de
riquezas, melhoria de direitos humanos. O discurso fácil de liberdade precisa
ir para a prática, o tema é usado sem compromissos com as mínimas condições de
existir. Liberdade implica respeito, equivalência na diversidade, chances reais
para todos, qualidade de vida.
Não há democracia onde as pessoas não vivem,
apenas sobrevivem.
O relato público dos extremistas insiste em
trazer demandas de dignidade como se fossem excessos, populismo, ameaças
ideológicas. Porque reconhecer a injustiça estrutural obriga reconhecer os privilégios
construídos sobre ela, além dela.
Nesse contexto, aparecem as narrativas já
conhecidas, o "mais do mesmo" que sabemos bem: falar de direitos
divide o país; clamar por igualdade gera ressentimentos; pobreza é problema
individual; protestos são perda de tempo; propor mudanças mais profundas é
polarizar. Como se a polarização a que se referem tivera nascido de quem se
indigna e denuncia a desigualdade, e não de uma trajetória nacional brasileira
sustentada por violências e exclusões.
Há coisas que deveriam ser discutidas sob o
legítimo princípio da democracia. Como há outras que deveriam ser
inadmissíveis: a indiferença diante do sofrimento; a naturalização da
desigualdade extrema; a ideia de que a vida de alguns vale menos que a
tranquilidade econômica de outros.
É hora de pensar, entender e agir. Seu voto é
ferramenta, não arma
*jornalista, professor e escritor, é doutor em educação, arte e história da cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

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