Folha de S. Paulo
Primeira mulher nomeada para o Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha preside a corte que julga a perda de patente de oficiais envolvidos na trama golpista
Casada com um general que teve irmão morto pela ditadura, ela critica o processo de anistia e resgata memória de julgamentos históricos em coletânea
Brasília - Uma boneca de pano vestida de toga enfeita a mesa da ministra Maria Elizabeth Rocha, 66, primeira mulher a integrar o Superior Tribunal Militar (STM) e a chegar à presidência da corte mais antiga do país.
O caminho até o amplo gabinete em um tribunal
superior em Brasília foi
trilhado com foco pela mineira de Belo Horizonte. "Não vou dizer que foi o
destino, mas uma construção", diz ela, nomeada para
o cargo pelo presidente Lula em
2007.
Naquele momento, estava bem posicionada como
subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República, de
onde saíram vários indicados para os disputados cargos do topo da magistratura.
"Quando abriu uma vaga para o STM, Gilberto [Carvalho] dizia nos ouvidos do presidente Lula: ‘Coloque a Beth lá. Ela é uma constitucionalista feminista, progressista’", relata a ministra sobre a proatividade do amigo e então chefe de gabinete no Planalto.
Ela havia sido assessora jurídica na
liderança do Partido dos Trabalhadores e trazia no currículo dados que tornaram
sua escolha para a corte militar, no mínimo, ousada.
É casada há 37 anos com o general Romeu Costa
Ribeiro Bastos, hoje na reserva, cujo irmão Paulo Costa Ribeiro Bastos,
militante do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), foi morto pela ditadura
militar.
"Ele desapareceu com 27 anos. Foi preso
e torturado em 1972", relata a ministra. "Descobriram que era filho
de um general e aí jogaram o corpo no mar. É terrível não poder enterrar seus
mortos."
Foi em um ato inter-religioso na Catedral da
Sé pelos 50 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências
do DOI-CODI no regime militar, em outubro do ano passado, que Maria Elizabeth
marcou posição.
"Eu peço, enfim, perdão à sociedade
brasileira e à história do país pelos equívocos judiciários cometidos pela
Justiça Militar Federal em detrimento da democracia e favoráveis ao regime
autoritário", declarou. "Recebam meu perdão, a minha dor e a minha
resistência."
A fala empática ganhou manchetes, gerando
reações dentro da corte. O ministro Carlos Augusto Amaral Oliveira,
tenente-brigadeiro da Força Aérea Brasileira, disse que a presidente do STM
deveria "estudar
um pouco mais de história para opinar sobre a situação".
Afirmação rebatida "com todas as palavras que tinham que ser ditas, sem
eufemismo: ditadura e morte sob tortura".
A presidente considera o episódio superado e
reafirma o pedido de perdão: "Eu não falo pelos meus colegas, mas pela
instituição. E falarei sempre enquanto estiver investida do munus
constitucional da presidência".
E pontua os erros do STM. "Errou com
Aldo Arantes [ex-deputado e militante da Ação Popular], errou com Miriam Leitão
[jornalista torturada na ditadura], errou com o meu cunhado, absolvido depois
de morto. Que justiça foi essa?", indaga.
"Nós temos grandezas, mas tivemos
misérias, e foram essas misérias que me levaram a pedir perdão, até porque acho
que isso faz parte de um processo de reparação, de não repetição."
Como um dos marcos de sua gestão que se
encerra em 2027, Maria Elizabeth pretende lançar no início do próximo ano uma
coletânea com 30 processos mais relevantes julgados pela corte. Entre eles o
julgamento histórico de Luiz Carlos Prestes, sob a ótica da filha Anita
Leocádia.
Como parte do esforço de resgate dessa
memória, a presidente coordenou a digitalização de áudios de sessões secretas
na época da Lei de
Segurança Nacional.
Líder de uma agenda de modernização
institucional em um ambiente historicamente masculino e conservador, Maria
Elizabeth destaca as ações do Observatório por Equidade do STM, onde
implementou cotas para refugiados, mulheres e pessoas trans.
"Fui eleita presidente por um voto de
diferença, que foi o meu. Brinco: Tive que votar em mim. Mulheres votem em si
mesmas. Homens não têm o menor constrangimento de ocupar os nossos lugares e de
votar neles mesmos", afirma ela sobre a eleição em dezembro de 2024.
A seguir os principais trechos da entrevista
concedida à Folha, em que fala de temas delicados, como o julgamento de
militares envolvidos nos atos
golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores do ex-presidente
Jair Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes da República em
Brasília.
Questões que aborda de maneira firme e
delicada, vestida em um tailleur enfeitado por bijuterias compradas na Shein
pela apreciadora de alta-costura como os modelos em renda da alagoana Martha
Medeiros usados em solenidades.
"Nós mulheres devemos muito à
mademoiselle Chanel, que nos libertou do espartilho, e a Yves Saint Laurent,
que nos vestiu com o smoking e nos empoderou", avalia a constitucionalista
de toga que reencarnaria feliz como jornalista de moda e estudiosa da evolução
da vestimenta e seu papel na emancipação feminina.
Como a senhora define hoje o papel do STM
dentro de uma democracia consolidada?
O STM tem julgados relevantíssimos para o Estado democrático de Direito. Todos
pensam que é um tribunal de exceção de 1964. Não. É a Justiça mais antiga do
Brasil. O STM foi criado 1808 por dom João. Nós temos toda essa história
amalgamada em processos. É bonito de ver.
Iniciamos a digitalização das fitas das
sessões secretas dos presos políticos sob a vigência da Lei de Segurança
Nacional. Gravadas em celuloide, elas apodreciam nas prateleiras. Agora, estão
acessíveis para quem quiser ouvir. Sou pesquisadora e professora, não podia
deixar essa memória se apagar. Não tem ideologia, isso é história do Brasil
para ser contada daqui a 200, 300, 400 anos.
Estamos finalizando uma coletânea dos 30
processos mais paradigmáticos da história do STM. É diferente de um livro como
"Tortura Nunca Mais", pois quem escreve sobre o processo do Rubens
Paiva é o neto dele, Chico Paiva, por exemplo. Assim como Anita Leocádia
escreveu sobre o pai Luiz Carlos Prestes. É o relato da dor de cada um.
Quando meu marido foi receber a certidão de
óbito retificada do irmão, ele disse que esses jovens que pedem o retorno da
ditadura militar não sabem o que é temer o Estado.
Por que isso ocorre? Tem a ver com o processo
de anistia?
Nossa anistia foi muito mal feita. Anistia é perdão, não é esquecimento. Certos
crimes não são suscetíveis de anistia. E justamente os de tortura e
desaparecimento forçado, que são crimes continuados.
O Brasil é signatário da Convenção
Interamericana de Direitos Humanos, que preceitua isso. Tratado internalizado
no ordenamento jurídico brasileiro com status de norma supralegal. Fica abaixo
da Constituição e acima da lei, numa construção jurisprudencial com voto
condutor do ministro Gilmar Mendes. Portanto, a Lei de Anistia estaria
presumivelmente revogada.
A anistia acabou falseando um esquecimento
que não deveria ter sido olvidado. Infelizmente, o Brasil é um país que esquece
a sua história. Para o bem ou para o mal, a Alemanha jamais esqueceu as
atrocidades do nazismo. Não admite revisionismo. Vai dizer que não aconteceu? É
punido como crime. No Brasil, não. O 8 de Janeiro é isso.
Como o STM deve atuar diante de ameaças à
democracia e de ruptura institucional?
Chegou-se ao 8 de Janeiro porque fomos deixando passar, tolerou-se o que era
intolerável. Há no bojo daquela manifestação um desencantamento e uma frustração
constitucional profunda com o Estado e o contrato social. Mas, para além disso,
teve aqueles que orquestraram tudo. Eles sabiam o que estavam fazendo.
No STM, nós julgamos crimes militares. Por
exemplo, um militar foi condenado por postar palavras agressivas contra o
comandante do Exército. Mas o que aconteceu em 8 de janeiro não foi um crime
militar, que abala a hierarquia e a disciplina. Até eventualmente abala, porque
afinal era o Estado democrático de Direito que estava em questão, mas não se
trata de um crime como definimos pela legislação especial.
Qual o status dos processos ligados ao 8
de Janeiro?
Vieram para o STM as representações de indignidade e incompatibilidade com o
oficialato. Aqui são tribunais de honra, não penais. Estamos julgando decoro e
se o militar tem condições de continuar portando a farda.
São cinco
processos de perda de patentes pelos condenados pelo STF [Jair
Bolsonaro, Augusto Heleno, Braga Netto,
Paulo Sérgio Nogueira e Almir Garnier]. Os processos estão com relatores e
revisores. Todo mundo já foi citado e apresentou defesa. Agora é
esperar os votos.
Defendo também que violência contra a mulher
praticada por militares não é crime militar. Deve ser julgado pela Justiça
comum.
Entre os processos emblemáticos que vão fazer
parte da coletânea que a sra. está organizando está o do seu cunhado?
Sim. Paulo foi absolvido, mas já estava morto. Que Justiça é essa? Meu cunhado
morreu no auge da ditadura. Meu sogro teve um AVC quando soube que o filho
havia desaparecido. Ficou em cima de uma cama. Uma outra tragédia.
Paulo era engenheiro e fazia parte do MR-8.
Foi preso e torturado. Descobriram que era filho de general e jogaram o corpo
no mar. Meu marido soube dessa história porque décadas depois um dos
torturadores foi preso por contrabando de armamento do Exército e contou a ele.
É a pista mais séria. Procuramos em Perus, na Casa dos Mortos em Petrópolis. Nada
foi encontrado.
Como foi a sua trajetória para se tornar a
primeira mulher a presidir o STM em mais de dois séculos? Quando fui para
a subchefia de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República
tracei um plano para o meu futuro. É um lugar de onde saem ministros, como Ives
Gandra, Francisco Rezek e Gilmar Mendes.
Foi lá que comecei a trabalhar com direitos
humanos e a pauta identitária. Coordenei o decreto que
regulamentou o artigo sobre terras de quilombos. Tratei da questão do Estatuto
da Igualdade Racial e do Estatuto do Indígena.
Sou uma feminista que trouxe essa pauta para
dentro da Justiça Militar. Me ajudou muito o fato de conhecer a vida na
caserna. Um somatório de fatores pesou sobre mim. Tive sorte e coragem.
O que ainda precisa avançar para ampliar a
participação feminina na Justiça Militar e espaços de poder?Agora somos
duas mulheres no STM. O presidente Lula indicou a ministra Verônica [Abdalla
Sterman] no ano passado. Meu papel foi
de abrir caminhos para novas gerações. Ela é jovem e terá mais
tempo para construir esse processo de engajamento da mulher nos espaços de
poder.
Quando era advogada e procuradora federal, nunca
fui discriminada. Senti o peso da discriminação de gênero quando entrei para
essa corte, a começar pelo discurso de saudação feito por um general para me
enquadrar. "Você pode ser progressista da porta para fora, mas daqui para
dentro é hierarquia e disciplina."
Foi chocante e agressivo ouvir isso na
presença dos meus convidados. Não esperava ser recebida daquela maneira. E
depois as dificuldades vieram, até culminar na minha eleição, uma disputa
apertada que acabou em 7 a 7. Fui eleita por um voto de diferença, o meu voto.
A sra. se define como feminista. Como essa
visão influencia sua atuação?
Minha gestão se funda em equidade, inclusão, transparência e defesa do Estado
democrático de Direito. Consegui incorporar no tribunal pessoas entendidas e
vistas como excluídas. A última foi uma refugiada venezuelana. Vamos fazer um
evento com pessoas trans.
Estou aqui para incomodar. Só assim as
estruturas se mexem. Quero trazer a dor de pessoas estigmatizadas pela
sociedade para sensibilizar, não para agredir.
sra. acha possível a indicação de uma
mulher negra para a vaga em aberto para o STF?
Eu acho que agora seria a vez de uma mulher negra no Supremo. Temos
juristas afrodescendentes maravilhosas. Cito Adriana Cruz [juíza federal pelo
Rio de Janeiro], Edilene Lôbo [jurista e ex-ministra substituta do Tribunal
Superior Eleitoral] e Vera Lúcia Santana Araújo, que também foi do TSE. Ou
seja, não faltam mulheres, temos nomes.
É preciso que essa pauta identitária
prevaleça. Se o presidente Lula não abraçá-la, quem abraçará? Essa luta é de
todas nós, porque os homens não farão isso por nós. A história ensina que os direitos
civis são arrancados a fórceps. Não são dados pacificamente. Então,
que assim seja.
Como enxerga as ameaças à democracia e os
retrocessos em pautas feministas?
Não consigo entender essa erosão democrática em todo o mundo. A humanidade
caminhou e construiu um processo civilizatório que não era perfeito, mas que se
enquadrava dentro de determinados ideais. De uma hora para outra, isso está
sendo corroído por um discurso rasteiro.
Eu fico assustada de estarem discutindo
cassação do direito de voto da mulher nos Estados Unidos. Na pandemia, surgiu
um movimento antivacina que nós tínhamos vivido na República Velha. A história
não caminha em saltos, é um processo continuado. Esse retrocesso em dimensão
global é assustador.
*Graduou-se em direito pela PUC de Minas
Gerais, onde se especializou em direito constitucional, com mestrado pela
Universidade Católica Portuguesa e doutorado pela UFMG (Universidade Federal de
Minas Gerais). Atuou como professora universitária, na Advocacia-Geral da União
e como assessora na Câmara dos Deputados. Foi subchefe para Assuntos Jurídicos
da Casa Civil da Presidência da República, quando foi escolhida pelo presidente
Lula para o STM em 2007 em vaga destinada a membro da advocacia. Tomou posse
como presidente do tribunal em 2025.

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