Valor Econômico
Calendário eleitoral é o motivo da demora, pelo que se fala nos bastidores
Faltando 191 dias para a estreia do novo
sistema tributário sobre o consumo, ainda não se sabe qual será a alíquota da
Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que começará a ser cobrada no dia 1º
de janeiro. Com isso, empresas não conseguem definir preços e estratégia para
2027.
O principal motivo da demora é o calendário eleitoral, pelo que se fala nos bastidores. Para calcular a alíquota da CBS, é preciso saber primeiro quanto será arrecadado com o Imposto Seletivo, também criado pela reforma e conhecido como “imposto do pecado”. Vai ser cobrado sobre bebidas alcoólicas, bebidas açucaradas, cigarros, veículos, aeronaves, produtos minerais e bets.
O governo hesita em enviar para o Congresso
Nacional a proposta de regulamentação do Seletivo, para não falar em novo
imposto às vésperas das eleições. O problema é que, se quiser arrecadá-lo em
janeiro de 2027, precisará regulá-lo até 90 dias antes - ou seja, ao fim de
setembro. Antes, portanto, do primeiro turno eleitoral, marcado para 4 de
outubro.
“Cedo para dizer”, respondeu à coluna um
integrante da equipe econômica, ao ser questionado sobre qual seria a opção: se
a edição de uma medida provisória (MP) no fim de setembro ou o envio da
proposta ao Congresso em 31 de agosto, junto com o Projeto de Lei Orçamentária
Anual (PLOA) de 2027. Essa segunda hipótese serve para o governo colocar as
receitas do Imposto Seletivo no Orçamento, de forma condicionada.
A calma que parece permear esse debate no
governo, que tem outras urgências, não é vista no setor privado. “Estamos a
seis meses da entrada em vigor do Imposto Seletivo e não sabemos qual será a
carga tributária”, disse o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de
Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet. “O elétrico compete com o híbrido?
O diesel tem mais ou menos imposto? Não sei.” As matrizes das montadoras
perguntam como seus produtos serão posicionados no mercado brasileiro a partir
do ano que vem, e não há resposta para isso.
Se o prazo é curto para definir como será o
Seletivo, é mais ainda para definir a alíquota da CBS, pois essa é decorrência
do primeiro.
Rubens Souza, presidente do Grupo de Estudos
da Reforma Tributária (Gert), defende que a alíquota da CBS teria de estar
definida até o fim de setembro, para cumprir a anterioridade nonagesimal. “Os
90 dias servem justamente para os contribuintes poderem se adaptar, fazer
recálculos, ir atrás de fornecedores e clientes para reprecificar, ajustar toda
a sua contabilidade, todo o seu financeiro para arcar com esse tributo novo que
está chegando”, disse.
Ele acredita que, se a alíquota não estiver
definida até lá, pode haver judicialização, ainda que a emenda constitucional
da reforma tributária tenha dispensado o prazo de 90 dias nesse caso.
Por causa desse dispositivo, é pequena a
chance de eventual questionamento sobre o descumprimento da anterioridade
nonagesimal da alíquota da CBS prosperar, avaliou Daniel Loria, do Loria
Advogados, ex-diretor da Secretaria Extraordinária da Reforma Tributária e um
dos negociadores do novo sistema no Congresso. No entanto, pontuou, há outras
indefinições que impedem o cálculo.
A regulamentação do Imposto Seletivo é a mais
grave delas, na sua visão, pois é algo que precisa ser aprovado pelo Congresso
Nacional. Ainda que o governo opte por uma MP, que tem vigor imediato, essa
precisará ser aprovada no Legislativo para ser convertida em lei.
Outra dúvida é quanto serão reduzidos
problemas de conformidade, como sonegação e inadimplência, a partir do novo
sistema de recolhimento, o split payment. Quanto mais eficiente for, menor
precisará ser a alíquota da CBS - porque ela será calibrada para manter a
arrecadação como está. Porém, a implementação do split está atrasada.
Também há dúvida porque a Lei Complementar
227/26, que regulamentou a parte administrativa da reforma, incluiu novos
itens, como leites vegetais e programas de fidelidade, entre os que pagarão
menos. Isso afeta a alíquota geral. Os acréscimos foram vetados pelo presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, mas o Congresso pode derrubá-los.
Pré-candidato do PL à Presidência da
República, o senador Flávio Bolsonaro (RJ) defendeu, em evento da Confederação
Nacional da Indústria (CNI) nesta semana, que a reforma seja suspensa por um
ano, porque considera que a alíquota, estimada em 28%, é muito elevada. Quer
reduzi-la para 20%.
A proposta original do governo Lula resultava
em uma alíquota de 21,5%. Na tramitação, aumentaram a lista de produtos e
serviços que pagarão impostos menores. Assim, o geral ficou mais elevado. Ou
seja: para chegar aos 20% Flávio terá de desfazer no Congresso o que o
Congresso fez.
“Nós cavamos um buraco muito fundo com o
nosso sistema tributário atual, e vai dar trabalho sair dele”, disse Loria, ao
comentar os percalços no caminho do novo sistema. “As obrigações acessórias, as
regras tributárias díspares, a complexidade, tudo isso decorre do nosso sistema
atual, não do futuro.”
Os seis anos à frente, no período de
transição, serão difíceis.
A coluna questionou a Receita Federal, mas
não obteve resposta.

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