Folha de S. Paulo
Técnicos precisarão convencer habitantes da
Grande São Paulo que é ok abastecer represas com água (tratada) de esgoto
Repulsa a coisas que consideramos sujas tem valor adaptativo para prevenir doenças e dá base a nossas intuições morais
Eu não queria estar na pele dos técnicos que
precisarão convencer os habitantes da Grande São Paulo de que é legal
usar água de esgoto, tratada, frise-se, para irrigar
as represas de onde tiramos o líquido que chega a nossas torneiras.
Eles terão de enfrentar uma das mais poderosas emoções humanas, o nojo.
Encastelado num planalto, o conurbado paulistano fica perto demais das nascentes dos rios adjacentes, onde a vazão de água tende a ser baixa. Compensamos isso nos abastecendo em mananciais cada vez mais distantes. Não é uma solução que possa ser estendida indefinidamente.
Num futuro que se afigura cada vez mais
quente, será necessário adotar medidas de racionalização, notadamente o
reaproveitamento da água de esgoto. A barreira para fazê-lo não é técnica e sim
cultural/emocional. A simples menção da possibilidade de que água que bebemos
tenha um dia sido esgoto já nos embrulha o estômago. É a psicologia do nojo,
tema que atrai pesquisadores desde Charles Darwin.
O nojo tem enorme valor adaptativo ao nos
manter afastados de potenciais contaminantes que poderiam nos custar a vida,
como fezes, vômitos, coisas apodrecidas e sujeira em geral. A reação de aversão
é instintiva. É a primeira linha de defesa de nosso sistema imune.
A dificuldade dos técnicos é que nossa
rejeição ao que consideramos poluído é uma programação tão entranhada em nossas
mentes que não costuma ser desfeita por considerações racionais. O psicólogo
Paul Rozin num de seus experimentos mergulhou uma barata morta cuidadosamente
esterilizada num copo de suco de laranja e o ofereceu aos participantes da
pesquisa. Eles sabiam que era zero o risco de contrair alguma doença. Mesmo
assim, praticamente ninguém bebeu.
Ainda mais fascinante, Rozin e Jonathan Haidt
propõem que o nojo físico facilmente migra para planos mais abstratos e se
torna uma das bases de nossas intuições morais. Seria a origem da noção de
pureza ideológica e da repulsa a violações sociais, que vêm tornando nossas
diferenças políticas tão acerbas.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário