sexta-feira, 10 de julho de 2026

A barreira do nojo, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Técnicos precisarão convencer habitantes da Grande São Paulo que é ok abastecer represas com água (tratada) de esgoto

Repulsa a coisas que consideramos sujas tem valor adaptativo para prevenir doenças e dá base a nossas intuições morais

Eu não queria estar na pele dos técnicos que precisarão convencer os habitantes da Grande São Paulo de que é legal usar água de esgoto, tratada, frise-se, para irrigar as represas de onde tiramos o líquido que chega a nossas torneiras. Eles terão de enfrentar uma das mais poderosas emoções humanas, o nojo.

Encastelado num planalto, o conurbado paulistano fica perto demais das nascentes dos rios adjacentes, onde a vazão de água tende a ser baixa. Compensamos isso nos abastecendo em mananciais cada vez mais distantes. Não é uma solução que possa ser estendida indefinidamente.

Num futuro que se afigura cada vez mais quente, será necessário adotar medidas de racionalização, notadamente o reaproveitamento da água de esgoto. A barreira para fazê-lo não é técnica e sim cultural/emocional. A simples menção da possibilidade de que água que bebemos tenha um dia sido esgoto já nos embrulha o estômago. É a psicologia do nojo, tema que atrai pesquisadores desde Charles Darwin.

O nojo tem enorme valor adaptativo ao nos manter afastados de potenciais contaminantes que poderiam nos custar a vida, como fezes, vômitos, coisas apodrecidas e sujeira em geral. A reação de aversão é instintiva. É a primeira linha de defesa de nosso sistema imune.

A dificuldade dos técnicos é que nossa rejeição ao que consideramos poluído é uma programação tão entranhada em nossas mentes que não costuma ser desfeita por considerações racionais. O psicólogo Paul Rozin num de seus experimentos mergulhou uma barata morta cuidadosamente esterilizada num copo de suco de laranja e o ofereceu aos participantes da pesquisa. Eles sabiam que era zero o risco de contrair alguma doença. Mesmo assim, praticamente ninguém bebeu.

Ainda mais fascinante, Rozin e Jonathan Haidt propõem que o nojo físico facilmente migra para planos mais abstratos e se torna uma das bases de nossas intuições morais. Seria a origem da noção de pureza ideológica e da repulsa a violações sociais, que vêm tornando nossas diferenças políticas tão acerbas.

 

 

 

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