Valor Econômico
Ex-primeira-dama agora se coloca como líder de um movimento político amplo, e quer dialogar com homens e mulheres
Se o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é o
autodeclarado “imbrochável”, com direito a distribuir medalhas com o título aos
aliados, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro dobrou a aposta na rebeldia, e
avisou que será “imparável”.
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, declarou na quarta-feira (8) que em até 20 dias fincaria a bandeira branca no partido, reconciliando-a com o enteado, o presidenciável da sigla, senador Flávio Bolsonaro (RJ). Contudo, a ex-presidente do PL Mulher foi a público comunicar que tem outros planos. Para além de liderança feminina, ela agora se coloca como líder de um movimento político amplo, e quer dialogar com homens e mulheres.
Sem alarde, entrou no ar há poucos dias, nas
redes sociais, o perfil “imparaveis.mb”, lançado por aliados da
ex-primeira-dama e pela equipe que a acompanhava na presidência do PL Mulher.
Salta aos olhos como a figura suave da mulher cristã e esposa dedicada,
cultivada por todos esses anos, sai de cena para dar lugar à heroína da DC
Comics, a “Mulher Maravilha”, na pele da atriz Gal Gadot.
Uma das primeiras publicações traz uma cena
de ação do filme “Mulher Maravilha”, na qual a heroína surge em uma luta campal
com sua mentora. Ela aprende a “nunca abaixar a guarda” porque terá de lutar
por justiça: “Você acha que uma batalha será justa? Uma batalha nunca será
justa”. No fim, sobe a legenda: “As batalhas nos fazem imparáveis”.
Michelle tem uma equipe afiada de comunicação
digital, com integrantes que já trabalharam com o maior “influencer” político
do país, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Por isso, ele chegou a ser
acusado de auxiliar a ex-primeira-dama no vídeo explosivo, no qual ela diz que
Flávio a destratou e a humilhou. Nikolas negou qualquer envolvimento com o
vídeo.
O perfil ainda não correspondeu ao potencial
de engajamento do nome de Michelle, mas faz barulho. A primeira postagem é
embalada por “Twist and Shout”, dos Beatles. A conta oficial da senadora
Damares Alves (Republicanos-DF), aliada de Michelle, comentou: “Kkk tô aqui
rindo e na expectativa”.
Um aviso no perfil do PL Mulher explica que
com a desestruturação do gabinete da presidência, diante da saída de Michelle,
outra equipe assumirá a conta. No entanto, afirma que “as sementes lançadas por
Michelle” despertaram mulheres e homens para a atuação política, e dá o recado:
“Michelle não vai parar. Vocês não vão parar. O Brasil não vai parar. Porque
quando pessoas de bem se unem, elas se tornam imparáveis!”
A ex-primeira-dama é apresentada como líder
dos “imparáveis”, disposta a enfrentar “mentiras” e a lutar por justiça. “Se
quiser ser parte deste grupo e acompanhar as novidades do movimento capitaneado
por Michelle”, o interessado deverá seguir o novo perfil, diz o comunicado.
A novidade contrariou Valdemar, Flávio e a
cúpula de sua campanha. A iniciativa da ex-primeira-dama foi interpretada como
um desafio dirigido a Valdemar, que deu entrevistas afirmando que até a
convenção nacional da legenda, programada para 25 de julho, iria reaproximar
Michelle e Flávio.
A rebelião de Michelle extrapolou, até mesmo,
a fronteira do PL, tumultuando os arranjos para a eleição no Distrito Federal.
A sinalização de que ela desistiria de concorrer ao Senado na chapa encabeçada
pela governadora Celina Leão (PP), de quem é aliada, somada ao anúncio do
ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) de que também não disputará a vaga, agitou o
tabuleiro local. A deputada Bia Kicis (PL) deve ficar com uma das vagas,
enquanto o senador Izalci Lucas (PL) cogita abdicar da eleição para o governo,
e buscar a reeleição. Michelle, entretanto, ainda pode se candidatar.
Nos bastidores, a posição de Jair Bolsonaro
sobre o levante da esposa é desconhecida. Racionalmente, ele seria contrário ao
movimento, porque ao prejudicar a campanha de Flávio, especialmente, junto ao
voto feminino, as consequências recaem sobre ele, como alertou Valdemar: “São
os filhos contra a mulher; [mas] eles têm que se entender, porque senão nós
vamos perder a eleição, e ele vai ficar mais dez anos preso”.
O presidente do PL manifestou alta
expectativa com eventual decisão do ministro Nunes Marques do Supremo Tribunal
Federal (STF) na ação protocolada pela defesa de Bolsonaro em maio, que requer
a anulação do julgamento da Primeira Turma que o condenou a mais de 27 anos de
prisão. Valdemar sugeriu que uma decisão de Nunes Marques, mesmo monocrática,
teria o condão de revogar a condenação e tornar Bolsonaro elegível, o que é um
equívoco. Citou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para justificar o
desejo: “Quando o Lula estava preso 580 dias, você imaginava que ele fosse
candidato à Presidência? Tudo pode acontecer”.
Em meio à contagem regressiva para a
convenção, o projeto “imparáveis” surge como uma incógnita, bem como os
verdadeiros planos de Michelle. Pode ser a plataforma de lançamento do nome
dela para a corrida presidencial de 2030, como herdeira do bolsonarismo, caso
Flávio saia derrotado do embate com Lula em outubro. Essa hipótese, entretanto,
não a impede de concorrer a uma vaga de senadora ainda neste ano, com alta
probabilidade de vitória. As poucas centenas de seguidores do perfil se dividem
entre louvar a iniciativa, e acusá-la de traição. Hora de conferir se além de
boa de briga, a “Mulher Maravilha” é boa de voto.

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