O Estado de S. Paulo
Formular propostas certas é a parte fácil. Fazê-las atravessar a desconfiança política e a real capacidade de execução é o verdadeiro trabalho
Com a aproximação das eleições de outubro, é curioso observar dois movimentos que parecem contraditórios. Por um lado, um sentimento generalizado de fatalismo. A polarização política, confirmada e reforçada pelas pesquisas de voto, indica que estamos fadados a ter que escolher entre os candidatos menos ruins, responsáveis, cada qual à sua maneira, pela situação em que a maior parte do País se encontra, com a economia se arrastando, as contas públicas fora de controle, a má qualidade das políticas sociais e as instituições em frangalhos.
Por outro, uma grande mobilização de
associações, organizações sociais, institutos de pesquisa e think tanks para
formular projetos e propostas a serem levadas aos ouvidos dos futuros
governantes, na esperança de que eles se dignem a ouvir e quem sabe executar o
que propõem seus futuros súditos. Será que eles estarão dispostos a prestar
atenção e agir conforme as evidências e propostas desenvolvidas com bons
métodos e racionalidade, ou continuarão a agir, simplesmente, conforme suas
ideias preconcebidas e interesses de curto prazo?
Depende, em parte, de que tipo de propostas e
do nível de governo. Duas pesquisas recentes ajudam a entender o que ocorre. A
primeira, feita com quase 2 mil prefeitos brasileiros, mostra que eles valorizam
evidência, agem para conhecer resultados de avaliações de impacto e ajustam
suas crenças de forma bastante racional. Mas só fazem o que está sendo sugerido
quando forem propostas baratas, sem custo político, sem exigir orçamento,
aprovação legislativa ou reorganização da máquina pública.
A outra pesquisa, feita na Espanha em quase 6
mil municípios, mostra que a ideologia do mensageiro importa mais do que o
conteúdo da mensagem. A proposta, no caso, era como atrair mais turistas para
os municípios melhorando as informações disponíveis sobre eles na internet,
feita por organizações alinhadas ou de oposição aos governos locais. Quando o
mensageiro era do mesmo lado, muitos prefeitos faziam o que era proposto;
quando vinha da oposição, era como se não existisse.
Propostas vindas de instituições com boa
reputação – mas não alinhadas – tinham efeitos intermediários. Não basta estar
certo: é preciso ser ouvido por quem já concorda, ou ter reputação suficiente
para atravessar a desconfiança ideológica. Mas, como no estudo brasileiro, não
basta que a proposta seja bem feita e ideologicamente alinhada, ela precisa ser
barata e simples de implementar. Na maioria dos casos, falta orçamento, quadros
técnicos, continuidade administrativa e, com frequência, disposição para arcar
com o desgaste político de uma mudança.
Se esta dificuldade existe para propostas
simples a nível das prefeituras, elas são maiores ainda para propostas
complexas para governos estaduais ou para o governo federal. Isso não torna o
trabalho de diagnóstico e elaboração de propostas um exercício inútil, mas
permite entender melhor o seu alcance. Só em casos excepcionais propostas bem
fundamentadas, mas caras e complexas, são adotadas diretamente pelos
governantes. Mas elas podem ter um efeito de longo prazo, de formação das
agendas de política pública.
Propostas bem construídas circulam pela
imprensa, alimentam colunas de opinião, aparecem em debates eleitorais e aos
poucos tornam-se parte do vocabulário comum, inclusive de adversários
ideológicos, que raramente citam a fonte original, mas acabam absorvendo os
argumentos. Para isso, além de tecnicamente bem elaboradas, elas precisam ser
claramente inteligíveis e comunicáveis em suas ideias centrais, sem se perder
em detalhes. Não basta elaborar um bom projeto e esperar que ele se imponha
pela força dos dados e dos argumentos. A comunicação não é um canal secundário,
mas, quando bem feita, é tão ou mais eficaz do que o próprio projeto ou
proposta que lhe deu origem.
O que traz um dilema para quem trabalha com
políticas públicas conhece bem: que grau de detalhe, ou especificidade, as boas
propostas precisam ter? Propostas amplas – melhorar o ensino médio,
profissionalizar a gestão municipal – são fáceis de comunicar e não assustam
ninguém, mas são vazias demais para orientar qualquer decisão. Propostas
detalhadas, com desenho de implementação, cronograma, fontes de financiamento e
identificação de quem ganha e quem perde são as únicas capazes de gerar mudança
real, mas criam mais pontos de atrito: quanto mais específica, maior a chance
de que algum detalhe desagrade mesmo a quem, por afinidade política, estaria
disposto a adotá-la.
Não há solução fácil, mas os dois estudos
sugerem um caminho: apostar menos na crença de que a evidência e a lógica falam
por si e mais numa estratégia de comunicação. Pensar quem leva a mensagem e
para quem, aceitando que o mesmo conteúdo pode precisar de portadores
diferentes conforme o interlocutor. Formular propostas certas é a parte fácil.
Fazê-las atravessar a desconfiança política e a real capacidade de execução é o
verdadeiro trabalho, e é nisso que os formuladores de propostas para o próximo
governo deveriam pensar, tanto quanto no conteúdo técnico de suas
recomendações.

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