quinta-feira, 9 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim do cessar-fogo cria incerteza para economia global

Por O Globo

Entendimento já era frágil. Violações iranianas e rompantes ciclotímicos de Trump ampliam as dúvidas

O fim do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos amplia a incerteza no planeta. Depois de três semanas de indefinição desde a assinatura do frustrante “memorando de entendimento” entre os dois países, o Oriente Médio se tornou mais uma vez palco de hostilidades abertas. Em resposta a ataques iranianos a petroleiros no Estreito de Ormuz, forças americanas atingiram mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa, radares e barcos. Depois dos bombardeios, bases americanas no Bahrein e no Kuwait foram atingidas.

Desde o início, parecia evidente que as premissas para o entendimento eram frágeis. O memorando extraído a fórceps de negociações tensas e inconclusivas era vago a respeito do principal — o futuro nuclear do Irã. Nem mesmo todas as concessões feitas pelos americanos foram capazes de apaziguar o regime dos aiatolás. E, de lá para cá, os vaivéns e rompantes ciclotímicos de Donald Trump só contribuíram ainda mais para aumentar as dúvidas.

O preço do barril do petróleo registrou ontem a maior alta diária desde março. A cada dia que Ormuz permanecer fechado, a conta a pagar só aumentará para todo o mundo. A desaceleração da economia global é dada como certa. Entre 2024 e 2025, o crescimento anual foi de 3,5%. Neste ano, não deverá passar de 3%, segundo a atualização do Panorama Econômico Mundial anunciada ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). “A possibilidade de um novo conflito no Oriente Médio é iminente e pode prolongar a volatilidade dos preços das commodities, ameaçar ainda mais as cadeias de suprimentos, elevar os preços e pressionar as condições financeiras. A fragmentação do comércio global pode se acelerar, prejudicando potencialmente a produção e aumentando os preços”, afirma o relatório. No caso do Brasil, a previsão foi ajustada levemente para cima (ficou em 2,4%, perto da média latino-americana).

Desde que as primeiras bombas caíram sobre Teerã em fevereiro, os preços da gasolina nos postos de combustíveis subiram 30% nos países emergentes da Ásia e 15% na América Latina. Com um mercado menos integrado globalmente, o gás natural liquefeito subiu cerca de 50% na Ásia e 25% na Europa. Alavancada pelos preços de combustíveis, a inflação global disparou. A taxa anualizada subiu quase 4 pontos percentuais entre fevereiro e abril. Os efeitos negativos na expansão econômica só não são maiores porque muitos países são hoje menos dependentes da importação de petróleo, e alguns se beneficiam da expansão da inteligência artificial (IA).

O maior incentivo para Trump encontrar uma saída para o conflito é doméstico. Durante a campanha, o então candidato republicano prometeu acabar com as “guerras sem fim”. Quando a guerra começou, sua desaprovação já era superior a 55%. De lá pra cá, a avaliação positiva caiu ainda mais. Nos primeiros 535 dias do atual mandato, Trump conseguiu obter um índice de reprovação superior ao do antecessor Joe Biden no mesmo período. Com as eleições de meio de mandato em novembro cada vez mais próximas, o preço dos combustíveis é um dos melhores cabos eleitorais da oposição democrata.

Operação integrada aponta caminho promissor no combate a facções

Por O Globo

União de forças federais, estaduais e municipais mostra que trabalho conjunto é mais eficaz contra o crime

Foi auspiciosa a união de forças de segurança na operação deflagrada ontem em 16 das 27 unidades da Federação para combater o crime organizado. O objetivo foi prender 93 investigados por tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro e ligação com facções criminosas. As ações foram conduzidas pelas Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficco), vinculadas à Polícia Federal (PF) e envolvendo também forças estaduais e municipais. É evidente que o trabalho conjunto, sob coordenação federal, é a melhor forma de enfrentar as quadrilhas.

Embora a segurança pública seja primordialmente tarefa dos estados, sozinhos eles não têm conseguido combater organizações criminosas que atuam em todo o país e no exterior. A facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e a fluminense Comando Vermelho (CV) estão presentes em diferentes estados, onde disputam o controle da venda de drogas com grupos locais. Passou a ser comum o intercâmbio de bandidos de uma mesma facção entre unidades da Federação, dificultando ainda mais o trabalho da polícia.

Não se trata apenas de problema interno. Em junho, o governo dos Estados Unidos classificou PCC e CV como organizações terroristas, abrindo caminho a sanções a instituições brasileiras e seus integrantes. Neste mês, autoridades americanas aplicaram punições a dois brasileiros e a três empresas do país, sob acusação de vínculo com o PCC e de lavagem de dinheiro em território americano. Em seguida, a PF deflagrou uma operação contra os acusados. O problema não pode, portanto, ser tratado de forma estanque.

Não há dúvida de que o crime organizado assumiu proporções alarmantes. Ele não está apenas nas guerras entre quadrilhas pelo controle dos pontos de droga. Está também no que geralmente não se vê: sucessivas operações têm revelado um quadro assustador de infiltração do crime na política e no mercado formal.

A Carbono Oculto mostrou que ele contaminava toda a cadeia de combustíveis e alcançava fintechs e instituições financeiras em áreas nobres de São Paulo. Nesta semana, uma nova fase da Operação Unha e Carne expôs no Rio as ramificações de uma quadrilha suspeita de lavar dinheiro com combustíveis. A operação foi deflagrada a partir de relatório apontando movimentação de mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos por uma rede de postos. Entre os alvos, estavam Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado, e o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil do Rio.

Não há como enfrentar situação tão grave e complexa sem a união dos governos federal, estaduais e municipais. Ainda que não tenha produzido resultados estrondosos, a operação de ontem aponta um caminho promissor por meio das Ficco. O governo federal sempre relutou em cumprir seu papel na segurança, e os estados temem perder protagonismo. Não há espaço para disputas estéreis. Ou todos se unem para combater a chaga do crime organizado, ou perderão todos.

Esquerda dá mau sinal ao não aceitar derrota na Colômbia

Por Folha de S. Paulo

Petro contesta vitória de candidato direitista, que, também sem evidência, o acusa de tramar golpe

No Peru, perdedor dá declaração ambígua, e na Bolívia, Morales estimula protestos agressivos; episódios afrontam essência da democracia

Na definição minimalista de Adam Przeworski, a democracia é o sistema no qual os políticos que perdem eleições entregam o poder pacificamente aos vencedores.

Outros teóricos podem apontar outros elementos relevantes para caracterizar um país como democrático, como a vigência do Estado de Direito e o respeito aos direitos humanos e às liberdades cívicas, mas poucos duvidarão de que o primordial é assegurar que a alternância no poder se dê tranquilamente e sem violência.

Sob esse critério, vai mal a democracia no subcontinente sul-americano. O caso mais grave hoje é o da Colômbia. O atual presidente, o esquerdista Gustavo Petro, e o presidente eleito, o direitista Abelardo de la Espriella, trocam acusações graves, e o processo de transição de governo se encontra suspenso.

De la Espriella afirma que Petro prepara um golpe para manter-se no poder. A acusação veio depois de o presidente ter dito que não reconhecia a legitimidade do futuro governo e que o rival não vencera as eleições.

O direitista superou por margem mínima o candidato situacionista, Iván Cepeda. A diferença foi de pouco mais de 250 mil votos num universo de mais de 26 milhões. Cepeda chegou a reconhecer a derrota, mas falou em recorrer à desobediência civil.

Apesar da retórica perigosamente inflamada, não há sinais objetivos nem de irregularidades no pleito, que foi chancelado por observadores internacionais, nem de que o atual governo prepare medidas para não entregar o poder. Pelo contrário, Petro antecipou a data em que deixará o cargo, provavelmente para não ter de passar a faixa ao sucessor.

Outro caso de revés recente da esquerda ocorreu no Peru, onde Keiko Fujimori venceu Roberto Sánchez também por margem mínima. Depois de um excruciante processo de contagem, Sánchez reconheceu nesta semana a vitória da adversária, mas de forma inquietantemente ambígua.

Disse que aceitava a proclamação do resultado oficial, mas que não abria mão do direito de denunciar irregularidades —sabe-se lá o que isso significa.

Na Bolívia, o direitista Rodrigo Paz foi eleito no final do ano passado num pleito sem contestações. O concorrente no segundo turno era do mesmo campo ideológico, mas Paz não teve direito a um período de trégua.

Poucos meses após a posse, tiveram início protestos violentos, em alguma medida orquestrados pelo ex-presidente Evo Morales, que pediam sua renúncia. As manifestações continuam, embora o antigo aliado do chavismo tenha anunciado uma suspensão dos bloqueios rodoviários.

Trata-se de sinais alarmantes em um panorama de polarização e eleições acirradas. Ainda que tais episódios não tenham chegado a uma tentativa de golpe como a de Jair Bolsonaro (PL) no Brasil, a recusa ao veredito das urnas e o esforço para desacreditar o sistema eleitoral afrontam a essência da democracia.

Onde assassinos ficam impunes

Por Folha de S. Paulo

Taxas de resolução de homicídios em alguns estados não chegam a 30%, enquanto as de outros superam 70%

Fatores sociais e econômicos podem dificultar preservação de provas, identificação de suspeitos e cooperação de testemunhas

A probabilidade de o criminoso ser identificado e responsabilizado é fator crucial para a dissuasão de práticas ilícitas. O Brasil, no entanto, vai mal nessa seara.

De acordo com o relatório da ONG Instituto Sou Paz divulgado nesta quarta (8), a taxa média de resolução de homicídios (quando denúncia criminal é oferecida pelo Ministério Público) entre 2020 e 2023 ficou em torno de 40% —em 2023, foram registradas 46.409 mortes violentas intencionais no país.

Na Austrália e nos Estados Unidos, os indicadores oficiais em 2024 foram de 85% e 61%, respectivamente; na Europa, segundo a ONU, 90%.

O relatório também mostra discrepâncias regionais. Foram analisados 23 estados e o Distrito Federal, porque Alagoas, Tocantins e Rio Grande do Sul não disponibilizaram dados no período.

Ceará (27%), Rio de Janeiro (23%), Piauí (23%), Bahia (14%) e Rio Grande do Norte (9%) estão nas últimas colocações. Já Goiás (86%), Distrito Federal (81%), Minas Gerais (75%), Paraná (72%) e Mato Grosso do Sul (71%) têm taxas de países desenvolvidos.

Estados que apresentam maiores padrões de resolução, no geral, têm menores taxas de homicídio por 100 mil habitantes (a média brasileira é de 21,9). A situação da Bahia é temerária, com 46,5 mortes violentas intencionais por 100 mil, a segunda maior do país, e só 14% de resolução.

Mas alguns casos fogem ao padrão. São Paulo, com a menor taxa de homicídios por 100 mil habitantes do país (7,8), tem um indicador de resolução relativamente baixo (40%); enquanto os índices de Rondônia são de 29,9 e 67%, respectivamente.

A pesquisa também verificou as correlações de alguns indicadores mais altos dos estados, como rendimento domiciliar per capita, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), urbanização e a média de anos de estudo, com maiores taxas de resolução.

Fatores socioeconômicos podem dificultar preservação de provas, identificação de suspeitos e cooperação de testemunhas, ainda mais considerando a expansão do poder das facções.

É preciso consolidar um sistema nacional de mensuração de resoluções. Ademais, estados que elevaram suas taxas passaram a priorizar o atendimento no local do crime e evitar a descontinuidade entre a equipe de agentes desse primeiro atendimento e a da investigação posterior.

Também é necessário ampliar e qualificar a inteligência e o uso de ferramentas de monitoramento, de provas digitais, de provas técnicas em balística e genética forense, entre outras ações.

Flávio Bolsonaro desserve o Brasil

Por O Estado de S. Paulo

Na chance que teve para defender os exportadores brasileiros, o senador privilegiou seus interesses pessoais em Washington e provou ser indigno da confiança do setor produtivo nacional

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, transformou em comício a audiência promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para ouvir argumentos técnicos contra a adoção de tarifas americanas a produtos brasileiros. Em vez de defender o Brasil com ponderações adequadas àquele fórum, Flávio Bolsonaro envergonhou os brasileiros ao usar os poucos minutos que tinha para atacar seu adversário na disputa eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e para sugerir que os Estados Unidos esperem a eleição para então negociar com um novo presidente – isto é, ele –, que será muito mais alinhado ao presidente Donald Trump.

Com isso, Flávio perdeu a chance de provar que está interessado em servir o Brasil – coisa que a família Bolsonaro, afinal, jamais fez. A reação do setor produtivo não poderia ser outra: ao Estadão/Broadcast, empresários presentes à audiência classificaram como “deslocada” e “constrangedora” a atuação de Flávio Bolsonaro.

Enquanto autoridades e empresários adotaram o tom pragmático que a situação exigia, Flávio discursou sobre regulação de big techs, corrupção no Brasil e Pix – temas irrelevantes para o propósito daquele fórum. Para comprovar que seu interesse não era defender os exportadores brasileiros, e sim apenas fustigar Lula, Flávio apresentou-se ao lado de seu irmão Eduardo Bolsonaro, deputado cassado que está homiziado nos Estados Unidos conspirando dia e noite contra o Brasil e que havia defendido entusiasticamente a adoção de tarifas americanas. Nada mais precisava ser dito.

Não foram necessários mais do que cinco minutos para que Flávio Bolsonaro provasse, de uma vez por todas, que é indigno da confiança do setor produtivo nacional. Houve premeditação. O senador tinha objetivos muito bem definidos ao viajar aos Estados Unidos – e nenhum deles remotamente ligado à defesa dos produtores industriais e agrícolas do País, muito menos dos empregos de milhões de brasileiros.

O objetivo mais evidente da viagem de Flávio Bolsonaro era provar para sua própria bolha de apoiadores e correligionários que ainda é a melhor opção da oposição para desafiar Lula. O PL marcou para o próximo dia 25 a convenção que deve confirmar o nome que representará o partido na eleição de outubro. Até lá, o senador precisa desesperadamente convencer sua própria base de que, a despeito dos muitos rolos em que está metido e das inúmeras trapalhadas de sua campanha, é o nome com mais chances de derrotar o incumbente. A tarefa é árdua: Flávio Bolsonaro não goza da confiança de parte de seus correligionários, e o desgaste chegou até o seio familiar, como se viu no vídeo publicado por sua madrasta, Michelle Bolsonaro.

Somem-se a isso sua relação de “irmão” com Daniel Vorcaro, a quem Flávio Bolsonaro pediu de viva voz cerca de R$ 134 milhões, e o passado para lá de suspeito do senador, que envolve prática de “rachadinhas”, suspeita de lavagem de dinheiro por meio de loja de chocolates, compra de imóveis em dinheiro vivo e ligações com milicianos do Rio de Janeiro. É nesse contexto de fragilidade política que o senador foi a Washington para tentar reconstruir, à força de fotos e “cortes” para as mídias sociais, uma viabilidade eleitoral que os fatos vêm corroendo dia após dia.

Enquanto os Bolsonaros prejudicam o Brasil para seus propósitos pessoais, os diplomatas, líderes setoriais e técnicos brasileiros continuam empenhados em tentar minimizar os danos das tarifas que provavelmente serão adotadas contra o País. É isso o que fazem os que têm genuíno interesse em ajudar o Brasil. E aqui cabe o registro de que, na embaraçosa foto de Flávio e Eduardo Bolsonaro na sessão do USTR, aparece ao lado deles um constrangido embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, com décadas de atuação na diplomacia comercial. Ele estava lá a trabalho. Já os Bolsonaros só queriam atrapalhar.

A ficção da ‘pré-campanha’

Por O Estado de S. Paulo

Legislação continua distinguindo pré-campanha de campanha, mas a política brasileira já não reconhece essa fronteira, expondo o faz de conta de uma regra que ninguém respeita

Ao chamar de “papagaiada desgraçada” as restrições impostas pela legislação eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acabou expondo uma contradição que vai muito além de seu incômodo pessoal. O problema não é o defeso eleitoral, mas a ficção da chamada “pré-campanha”. A política brasileira já entrou em campanha há muito tempo. Só a legislação e os próprios atores políticos, quando lhes convêm, continuam sustentando essa ficção.

Não há mais nada de “pré” na disputa presidencial de 2026. Lula percorre o País anunciando obras e investimentos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) organiza viagens, mobiliza apoiadores e constrói seu palanque nacional. Partidos articulam alianças, testam discursos e ajustam estratégias. O noticiário acompanha diariamente pesquisas, movimentos eleitorais e cenários para outubro. Os tribunais já acumulam ações típicas de uma campanha em pleno andamento. Ainda assim, todos insistem em tratar seus protagonistas como “pré-candidatos”, como se a corrida eleitoral permanecesse apenas em fase de preparação.

As restrições previstas na legislação eleitoral continuam sendo indispensáveis. Democracias precisam impedir que governantes utilizem a máquina pública em benefício próprio. Precisam estabelecer uma fronteira clara entre Estado, governo e campanha, limitar o uso da publicidade institucional e evitar que quem ocupa o poder transforme a estrutura administrativa em vantagem eleitoral. O objetivo dessas normas permanece correto. O problema é que o conceito de pré-campanha deixou de corresponder à realidade política.

Os últimos dias demonstraram isso com clareza. Antes do início das restrições eleitorais, Lula participou de 19 agendas públicas em sete Estados, acelerou anúncios de investimentos, inaugurou um canteiro de obras e até um túnel ainda sem água. Em seguida, anunciou que, embora não pudesse mais inaugurar obras, continuaria visitando aquelas que ainda pretendia conhecer. “Nós temos agora o período de defeso. O defeso é para pesca. Você não pode pescar na época da desova. E agora a gente não pode inaugurar mais nada até as eleições”, queixou-se Lula. Mas não se deu por vencido: “Embora não possa inaugurar, eu vou visitar muitas coisas que ainda tenho de visitar”.

Não se trata de uma característica exclusiva do atual presidente. Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) percorreu o País em motociatas e grandes eventos públicos muito antes da campanha oficial, suscitando exatamente o mesmo debate. Agora, na Paraíba, a Justiça Eleitoral determinou a retirada de vídeos de Wesley Safadão após o cantor fazer, durante um show do São João de Campina Grande, um gesto associado à pré-candidatura do senador Efraim Filho (PL-PB) ao governo do Estado. Em ambos os casos, a controvérsia não girou em torno de pedidos explícitos de voto, mas da tentativa de definir onde termina a manifestação política e onde começa a campanha.

Os números confirmam a distorção. Antes mesmo da abertura oficial da campanha, as equipes jurídicas de Lula e Flávio Bolsonaro já haviam levado ao Tribunal Superior Eleitoral mais de uma centena de representações. Ora, se a campanha ainda não começou segundo o calendário legal, como pode já ocupar tanto os tribunais, mobilizar partidos e dominar a agenda política nacional?

É preciso discutir de forma realista como impedir que quem exerce o poder utilize a máquina pública para perpetuá-lo. Essa é a fronteira que merece proteção rigorosa. É ela que assegura igualdade entre os concorrentes e preserva as instituições acima dos interesses eleitorais de ocasião.

Não faz sentido abandonar as regras. Faz sentido abandonar a ilusão de que elas ainda regulam a realidade. A democracia continuará precisando de limites rigorosos ao uso da máquina pública e de uma fronteira inequívoca entre Estado, governo e campanha. Mas insistir em tratar como “pré-campanha” um período em que todos já fazem campanha apenas transforma a legislação num exercício de faz de conta. O Brasil precisa de regras mais realistas, claras e eficazes.

Tara golpista

Por O Estado de S. Paulo

Colombiano Petro engrossa o cordão antidemocrático dos derrotados em eleições legítimas

Em um descarado flerte com o golpismo, o atual presidente da Colômbia, o esquerdista Gustavo Petro, insiste em afirmar que o opositor de direita Abelardo de la Espriella não venceu seu candidato, Iván Cepeda, nas eleições presidenciais, ao contrário do que atestam observadores estrangeiros e as próprias instituições colombianas encarregadas do processo eleitoral.

Assim, comprova-se que a tara golpista nas democracias das Américas não se restringe à direita trumpista ou bolsonarista. A esquerda que se apresenta como salvadora da democracia contra o autoritarismo de direita também não se faz de rogada quando o resultado das urnas lhe desfavorece e trata de deslegitimar a vitória dos adversários. Seja à esquerda ou à direita, trata-se de comportamento inaceitável, que merece franco repúdio das genuínas democracias da região.

Se era séria a “defesa da democracia” que animou a “4.ª Cúpula em Defesa da Democracia”, realizada com fanfarra em abril em Barcelona e que contou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o próprio Petro, então que o Brasil faça gestões junto ao atual presidente colombiano para que a transição no país se dê sem sobressaltos antidemocráticos.

Enquanto o Brasil silencia, Petro consagra os últimos dias de seu governo a inflamar os colombianos. O presidente sugere, por exemplo, que não comparecerá à posse de Espriella, marcada para 7 de agosto.

Tradicionalmente, os presidentes de saída na Colômbia fazem seu discurso de despedida no mesmo dia em que o novo mandatário toma posse. Como não admite a vitória de Espriella, Petro agora trata o 7 de agosto como “data trágica”.

Trágica, na verdade, é a maneira como Petro está instrumentalizando o feriado de independência da Colômbia, celebrado em 20 de julho. O esquerdista convocou uma “mobilização geral” dos colombianos na data de forte peso simbólico, quando promete antecipar seu discurso de saída. Já Cepeda, que chegou a reconhecer a derrota para Espriella, agora prega abertamente a “desobediência civil”.

O objetivo é claro: fomentar a narrativa de fraude eleitoral para jogar os colombianos contra Espriella. Petro e Cepeda apegam-se, sobretudo, ao fato de o presidente eleito ter cidadania norte-americana, o que faria dele alguém leal à Constituição dos EUA, e não à da Colômbia.

Espriella, por sua vez, acusou Petro de fomentar um golpe e suspendeu o processo de transição governamental que vinha tocando junto à administração do atual mandatário.

Tanto pior para a Colômbia, que, uma vez mais diante de uma escalada da violência, elegeu Espriella, por margem estreitíssima, na esperança de viver dias mais seguros.

Petro despeja mais gasolina na fogueira, inviabilizando a transição e elevando a temperatura em um país de passado recente trágico, marcado pela guerra civil e pela atuação violentíssima de grupos narcotraficantes e paramilitares – o que faz da promoção de ideias golpistas algo ainda mais irresponsável.

FMI prevê que o Brasil vai crescer mais do que em 2025

Por Valor Econômico

A economia global, por sua vez, se mostrou novamente resiliente aos choques, agora da guerra no Irã

Apesar dos sucessivos choques, a economia global mostrou uma notável resistência, com o impulso dos investimentos em tecnologia (inteligência artificial) contrabalançando o freio da tensão geopolítica. Ela vai crescer praticamente ao mesmo ritmo previsto pelo Fundo Monetário Internacional em abril — 3%, ante os 3,1% anteriores. Na revisão de projeções, porém, a inflação global deu um salto para 4,7% (4,4% em abril), pelos efeitos da guerra no Irã. Nas previsões de crescimento, a revisão do Brasil foi a segunda maior de todas — após a Coreia do Sul —, de 0,5 ponto, para 2,4% em 2026. Se confirmada, o país não só não terá desacelerado o crescimento em relação a 2025 (2,3%), como crescido um pouco mais, contrariando os prognósticos privados domésticos, de 1,99% (Focus).

Três meses depois do seu início, o pior cenário da guerra lançada por EUA e Israel contra o Irã acabou não se concretizando, e o cenário base projetado pelo FMI em abril se mantém por ora, embora o órgão multilateral alerte que o balanço de riscos ainda esteja mais inclinado para o lado negativo diante do temor de “reescalada” do conflito no Oriente Médio. Horas antes da divulgação do novo World Economic Outlook (WEO) do FMI, o presidente Donald Trump afirmou que considerava o memorando de entendimento com o Irã como “encerrado” depois de o Irã atacar, na segunda-feira, navios no Estreito de Ormuz. Os EUA revidaram e, na terça, os iranianos fizeram ofensivas contra instalações militares dos EUA no Bahrein e no Kuwait. Os EUA reiniciaram ao longo do dia de ontem os bombardeios ao país.

A nova ameaça de Trump fez o barril do petróleo Brent saltar 8,5%, subindo brevemente acima de US$ 80 por barril, na máxima do dia. Trump alertou ainda que os preços do petróleo podem subir mais, uma vez que seu governo fará mais ataques ao Irã, que podem incluir como alvo importante polo de exportação da Ilha de Kharg. Os preços do Brent logo retornaram para abaixo de US$ 80, mantendo um padrão de reação limitada. Mesmo no auge do conflito, o petróleo chegou a US$ 126 o barril, bem distante das projeções mais pessimistas de US$ 200 ou mais.

O FMI atribui essa alta limitada dos preços globais do petróleo ao alívio temporário proporcionado pela utilização de estoques estratégicos e comerciais, assim como a redução na atividade econômica e do consumo em resposta ao choque nos preços — em especial na Ásia, principal importadora de energia do Oriente Médio.

No entanto, o FMI alerta que a transmissão dos efeitos da guerra nos preços das commodities ainda está em estágios iniciais. O Fundo estima que os preços da energia vão permanecer em níveis elevados, bem acima dos projetados antes do conflito, com os preços do petróleo e do gás 9% e 5% acima da projeção de referência feita em abril, respectivamente. Isso corresponde a um aumento anual de 32% nos preços do petróleo e de 22% nos preços do gás natural em 2026. Para os preços dos fertilizantes, o FMI projeta uma alta de 26%, que combinada com o encarecimento do transporte deve elevar em 8% os preços dos alimentos.

A guerra no Oriente Médio definitivamente inverteu a tendência global de desinflação. No entanto, o FMI ressalta que apesar da maior pressão nos preços, até o momento há poucas evidências de descolamento nas expectativas. Segundo o novo WEO, o aumento nos preços de energia e alimentos deve elevar a inflação global para 4,7% este ano, 0,3 ponto percentual acima da previsão de abril e acima dos 4,1% em 2025.

O FMI elevou as projeções de crescimento para os quatro maiores exportadores de hardware relacionado à IA — Taiwan, Coreia do Sul, Tailândia e Malásia —, em média, em 4,4 pontos percentuais, enquanto para os demais países do mundo o ajuste médio foi de -0,3 ponto percentual. A Coreia do Sul, apesar de sua forte dependência de energia importada do Oriente Médio, surpreendeu com uma taxa de crescimento anualizada de 7,5%, mais de quatro vezes o 1,8% projetado em abril e acima da previsão de expansão anual de 2,6%. Outro destaque asiático, o Vietnã teve sua projeção elevada em 0,4 ponto percentual, para 7,5% este ano, impulsionada por exportações de tecnologia acima do esperado — na lista do FMI é o país que mais cresce no mundo hoje.

O FMI aponta que a economia global se debate entre duas forças, a do choque de energia e a do choque de tecnologia, que “empurram em direções contrárias, mas com efeitos assimétricos sobre os países”. Além da continuidade da guerra, outro risco de peso é a reversão do ciclo de investimentos e valorização de ações da IA. Ela provocaria uma forte reação em cadeia nos preços dos ativos, eliminaria o efeito riqueza atual, e teria efeito contracionista sobre as economias, com possíveis impactos sobre o sistema financeiro e os títulos soberanos de países em geral hoje muito mais endividados que na crise financeira de 2008.

A elevação do crescimento do Brasil foi uma surpresa, pois ela não decorre de investimentos em tecnologia, mas do crescente pacote de bondades do governo federal em ano de eleições. Manter o ritmo da economia com anabolizantes, além de impedir a queda da inflação, tem efeitos limitados e nocivos sobre a dívida pública. Falta sustentabilidade à atual expansão.

Atrasos no combate à escravidão contemporânea

Por Correio Braziliense

Além de persistir, a escravidão é camaleônica, se adapta impulsionada pela sobreposição de vulnerabilidades que facilita a violação de direitos neste país

Resgatada neste mês em um condomínio de luxo no Ceará, uma mulher de 62 anos é vítima de enredo que derruba qualquer argumento de que mentalidade e práticas escravocratas ficaram em um passado sombrio da história brasileira. Ela trabalhou para três gerações de uma mesma família, a partir dos 7 anos de idade, sem nunca ter recebido salário por isso. A jornada mais recente começava às 4h30 da manhã e combinava funções de babá, faxineira e cozinheira, entre outros afazeres domésticos, e tinha como contrapartida R$ 600 mensais, fruto da inscrição no Bolsa Família que também estava sob controle dos empregadores. Livre do regime análogo à escravidão, a idosa enfrenta, agora, outra faceta do racismo estrutural que engrena as relações no Brasil. Não há prisões, reparação à altura e muito menos surpresa com tamanha perversidade. 

É rotina para profissionais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) se depararem com relações de violência extrema incompatíveis com sociedades que se dizem civilizadas. No ano passado, 2.772 pessoas foram resgatadas da condição de trabalho análoga à escravidão — um aumento de 27% em relação a 2024. O recorte apenas do trabalho doméstico revela avanço ainda maior: 80%, de 19 para 34 resgates no mesmo período. Chama a atenção ainda o fato de que, considerando as operações de 2025, praticamente uma em cada quatro vítimas (24%) tinha o ensino médio completo e que, pela primeira vez, o número de trabalhadores resgatados no meio urbano (68%) superou o do meio rural.

Além de persistir, a escravidão é camaleônica, se adapta impulsionada pela sobreposição de vulnerabilidades que facilita a violação de direitos neste país. As correntes da servidão seguem nas lavouras e, cada vez mais, se cravam em oficinas de costura clandestinas, nas construções irregulares de edifícios, sobre as rodas dos serviços de entrega, nas garras de traficantes, nas falsas comunidades terapêuticas e nos quartos ocupados por quem é "praticamente da família". De tão entranhadas, só serão rompidas com uma resposta integrada do poder público e o entendimento aprofundado da inadmissibilidade dessas práticas.

Nesse sentido, o recorde de denúncias recebidas em 2025 contrasta com a condução do caso mais recente que chegou aos noticiários. Pelos cálculos dos auditores fiscais, os créditos trabalhistas dos serviços que a idosa prestou à família no Ceará durante mais de 50 anos ultrapassam R$ 1,5 milhão. Conforme o Termo de Ajuste de Conduta assinado, ela vai receber R$ 50 mil de verbas rescisórias, um imóvel no valor de R$ 150 mil e o custeio das contribuições previdenciárias até a sua aposentadoria. O recado é claro: sai barato subjugar o trabalho alheio.

Na avaliação de especialistas, o Brasil tem uma legislação considerada referência internacional na proteção dos direitos humanos e do trabalho. Além disso, é signatário de diversos instrumentos internacionais voltados à erradicação do trabalho escravo contemporâneo. A realidade dos campos e das cidades, porém,  revela a complexidade de transformar esses pactos legais em prática cotidiana. Em um momento em que o debate sobre como as jornadas afetam a qualidade de vida dos trabalhadores mobiliza autoridades e figuras públicas, é oportuno — e necessário — que os olhos também se voltem para as condições que, travestidas de oportunidade de emprego, destroem a dignidade humana e transformam pessoas em mercadorias.

Anuário do Ceará celebra o Cariri

Por O Povo (CE)

Esta quinta-feira, 9, marca mais um capítulo relevante na conexão do Grupo de Comunicação do O POVO com a Região do Cariri. Será lançada, em solenidade em Juazeiro do Norte, o Anuário do Ceará 2026-2027. A obra, que é produzida pela Fundação Demócrito Rocha (FDR), em promoção com O POVO, apresenta um capítulo especial que celebra a Região intitulado "Anuário do Cariri". O evento desta quinta será realizado no Espaço Sirigado do Pedro, na Lagoa Seca, em Juazeiro do Norte, às 19h, para convidados. A ideia é reunir prefeitos da Região, vereadores, empresários e demais personalidades dos âmbitos político, econômico e cultural. A solenidade terá a presença do presidente-executivo do Grupo de Comunicação O POVO, João Dummar Neto.

Com mais de 150 anos, o Anuário do Ceará é considerada a publicação impressa mais antiga em circulação no Ceará. Está dividida em 14 capítulos de dados jornalísticos, que abrangem administração política, infraestrutura, setores econômicos, divisão dos poderes, educação superior, bens culturais e guia do futebol cearense. Esta edição homenageia os 300 anos da capital cearense. Em 680 páginas, o livro atualiza os dados e as análises do Estado, com a publicação de informações dos 184 municípios cearenses com estatísticas, gráficos e tabelas. A obra tem a edição-geral do jornalista Jocélio Leal.

No capítulo "Anuário do Cariri", destacam-se o Guia dos Municípios, com um raio x dos 29 que compõem a Região, além do perfil dos 29 prefeitos e dos 29 presidentes das Câmaras Municipais. Ressaltam-se também os 40 anos da Universidade Regional do Cariri (Urca) e os 20 anos do Geopark Araripe. O Cariri conta com um polo educacional que abrange diversas faculdades privadas e públicas, o que fomenta ainda mais o desenvolvimento da região. Eventos marcantes, como a Expocrato e a Festa do Pau da Bandeira em Barbalha, também estão entre os destaques do capítulo.

O projeto gráfico é sempre um deleite à parte. Merece ser contemplado na medida do zelo com que é produzido. Assinado pela editora de Arte Andrea Araujo, faz referência à memória, à cultura e à identidade da capital cearense ao longo de sua história. Desde a capa por todo o livro, estão ilustradas figuras icônicas da história cearense, que permanecem vivas no imaginário e na construção cultural da cidade. Os desenhos são assinados por Rafael Limaverde. A escolha desses nomes reforça a ideia de continuidade, conectando passado e presente por meio de trajetórias que ajudaram a definir a identidade de Fortaleza.

Assim, festejar o lançamento do Anuário do Ceará no Cariri é também celebrar a riqueza cultural, econômica, religiosa e social de toda uma gente. É mostrar a diversidade de um Ceará que tem ainda muito a crescer, mas que indubitavelmente tem muito do que se orgulhar. 

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