quinta-feira, 9 de julho de 2026

Três lições da Copa, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Permitimos que todos joguem futebol com bolas igualmente redondas, mas não oferecemos escolas com a mesma qualidade para todas crianças. O futebol venceu o racismo; a educação ainda não venceu o rendismo

A primeira lição desta Copa é seu papel na luta contra o racismo. Os torcedores brancos europeus tratam seus atletas como heróis, independentemente da raça. Esse reconhecimento ajuda a quebrar o preconceito, na medida em que o país passa a dever suas conquistas a jogadores negros ou árabes. Há algumas décadas, até mesmo no Brasil, exigia-se que jogadores negros usassem pó de arroz no rosto para embranquecê-los. Se esse preconceito tivesse continuado, o Brasil não teria conquistado Copas do Mundo, pois grande parte de nossos jogadores é formada por afrodescendentes.

Nos beneficiamos ao abrir os alambrados para os jogadores negros, mas ainda não retiramos as catracas na entrada das escolas de qualidade. Para entrar nelas, no lugar do pó de arroz, é preciso pagar mensalidade, ou fazer um concurso. Orgulhamo-nos de cinco taças mundiais de futebol, mas ainda não conquistamos um único Prêmio Nobel porque dezenas de milhões de cérebros talentosos nunca tiveram oportunidade de estudar. Já deixamos que negros entrem em campo, mas ainda não deixamos que pobres entrem nas melhores escolas; permitimos que todos joguem futebol com bolas igualmente redondas, mas não oferecemos escolas com a mesma qualidade para todas crianças. O futebol venceu o racismo; a educação ainda não venceu o rendismo.

Na segunda lição, a Copa revela a atual geopolítica do mundo contemporâneo: o mundo já não é a soma de países separados, agora cada país é um pedaço do mundo. Países cuja população é majoritariamente de baixa renda disputam o futebol em condições de igualdade com países cuja população é majoritariamente de alta renda, porque as fronteiras geográficas e econômicas nacionais já não determinam a "nacionalidade" dos jogadores. Eles nascem em países desiguais em riqueza, mas vivem em um mesmo circuito internacional. O livro, de 1994, "A cortina de ouro: os sustos do final do século e um sonho para o próximo" propôs a ideia de que o enfraquecimento das fronteiras nacionais deu lugar a um mundo integrado, mas com a uma fronteira social que divide cada país, separando os habitantes do primeiro mundo internacional dos ricos e os moradores do arquipélago mundial dos pobres: a "cortina de ferro", política, foi substituída por uma "cortina de ouro", social, que segrega a população de cada país entre uma parcela integrada mundialmente — no futebol, na saúde, na cultura e na educação — e outra de pobres, espalhados pelo mundo.

A Copa de 2026 confirma essa nova geopolítica: independente de sua origem, cada jogador é, ao mesmo tempo, nacional e internacional. No fim das partidas, jogadores de países diferentes confraternizam não apenas por cortesia esportiva, mas também pela amizade construída ao longo de campeonatos disputados entre seus clubes. Usam camisas diferentes, mas são compatriotas do mesmo país social, com salários semelhantes e padrões de vida próximos. Pertencem a nacionalidades geográficas diferentes, mas à mesma nação social e cultural.

A terceira lição está nas camisas: já não representam apenas um país, também uma empresa. Não é difícil imaginar que estamos assistindo a uma das últimas Copas disputadas por seleções nacionais. No futuro, cada equipe poderá representar uma das grandes corporações mundiais, e não mais um país. A Seleção Brasileira já sinalizou essa tendência ao compartilhar seu símbolo nacional com o símbolo da Nike. Em algum tempo, não sobrará espaço para o símbolo nacional, nem ele se justificará para reunir jogadores internacionalizados.

Atualmente, já existem crianças torcendo por clube estrangeiro. Seus netos, talvez, não torcerão pela seleção nacional de seu país, mas por uma "escuderia". A maneira de evitar esse mundo impessoal é oferecer uma educação de qualidade que forme cada criança para aceitar a marcha integradora da civilização global, mas lhe permita sentir-se parte do mundo sem perder sua identidade nacional; seja humanista sem perder o gosto de ser brasileiro. Para tanto, é preciso fazer agora com as escolas o que no passado fizemos com o futebol: abrir os alambrados, tirar as catracas que barram alunos conforme o CPF ou CEP e, em consequência, ainda por cor. Porque, no futebol, os negros jogam com bolas igualmente redondas nos campos oficiais, mas os pobres ainda frequentam escolas com qualidade desigual.

*Cristovam Buarque - Professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) 

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