O Estado de S. Paulo
Todos os dias aparece alguém para criticar a política de juros escorchantes do Banco Central. Mas, agora, é também o credor do Brasil que puxa os juros para cima, independentemente da política monetária.
Embora, no dia 17, o Copom tenha reduzido os
juros básicos (Selic) em um quarto de ponto porcentual ao ano, nas últimas
semanas os juros de longo prazo, que o mercado, e não a Selic, vem definindo,
estão aumentando quase todos os dias. Para ficar com os títulos do Tesouro, os
ativos mais seguros do País, os investidores vêm exigindo juros reais (acima da
inflação) até superiores a 8,0% ao ano.
Isso acontece porque a dívida pública está disparando e já ultrapassa os 80% do PIB e, mais, porque dispara à velocidade de 3,5% e 4,5% ao ano. E, atenção: esse crescimento da dívida não acontece apenas porque o Tesouro tem de incorporar os juros altos definidos pelo Copom, mas porque o Tesouro não consegue juros baixos na rolagem dos títulos de longo prazo.
É a situação do sujeito que deve mais de 80%
do seu salário e continua gastando mais do que ganha. Dia chegará em que os
cobradores estarão às suas portas e será suspenso seu crédito na praça.
O governo Lula insiste na enganação. Os
membros da equipe econômica repetem que as condições fiscais estão melhorando.
Mas todos os dias inventa despesa nova e enrola a opinião pública com a
alegação de que boa parte dessas despesas não entra nos cálculos do arcabouço
fiscal.
O governo está usando o Tesouro como
financiador das eleições. Aumentou as desonerações do Imposto de Renda;
despejou mais crédito habitacional; instituiu o Desenrola, que pretende reduzir
as dívidas familiares ou esticar o prazo de amortização; e multiplicou os
créditos subsidiados. O total desses presentões, apenas neste ano, vai chegando
aos R$ 220 bilhões.
Uma das alegações é a de que o avanço fiscal
multiplica a renda e, portanto, aumenta a arrecadação, que, por sua vez,
derruba o rombo. Dinheiro assim despejado aumenta provisoriamente o PIB, mas
contrata restrições do avanço para logo em seguida. É como comer sementes.
Alimenta, mas derruba safra futura.
Pior, deixa a economia do País vulnerável a
choques. Esses choques podem vir de distúrbios climáticos, como o fenômeno El
Niño; de crises políticas internas ou externas; ou de forte alta dos juros nos
Estados Unidos, como vai pintando. Isso aí é como o tombo de bêbado. Não foi o
desnível na calçada que o derrubou; foi o excesso de bebida que o deixou
propenso ao tombo. •

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