O Globo
Ele deu um jeito, entrou na Copa, saiu dias
depois
O presidente americano Donald Trump deu um
jeito, arrumou uma encrenca com o árbitro brasileiro Raphael Claus e virou
personagem da Copa do Mundo. Puro Trump. Afinal, ele continua dizendo que
ganhou a eleição de 2020. É verdade que parou de falar que Barack Obama nasceu
na África. No primeiro mandato, produziu 30.573 mentiras ou falsidades, 21 por
dia. De volta à Casa Branca, seguiu na mesma toada, porque esse é seu estilo, e
a encrenca com Claus é um estudo de caso de sua essência.
Na quarta-feira passada, o centroavante Folarin Balogun pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic, da seleção da Bósnia. Depois de ver o vídeo no VAR, o árbitro Claus expulsou-o do campo. (Balogun disse que aceitava a decisão.) Trump contou que, até então, não sabia o que significava a apresentação de um cartão vermelho, com a consequente suspensão para o jogo seguinte, contra a Bélgica.
Até aí, seria o jogo jogado, com um torcedor
contestando um árbitro. No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos
decidiu ligar para Gianni Infantino, presidente da Fifa, pedindo que anulasse a
suspensão. Novamente, jogo jogado, pois cartolas adoram pressões de poderosos,
e Infantino deu a Trump um inédito Prêmio da Paz depois que ele, com suas
guerras, foi esquecido para o Nobel. Conseguiu. De lambuja, estendeu a encrenca
às federações de futebol europeias.
Na segunda-feira, na Casa Branca, Trump
assumiu seu estilo. Avançou no tornozelo do árbitro. Sustentou que não houve
falta e que, pelos antecedentes, Claus é “muito suspeito”. Puro Trump. Fez a
acusação sem uma migalha de argumento.
Mais: mobilizou janízaros da Casa Branca para
contestar a honorabilidade de Claus. Não se discute mais a falta de Balogun,
nem se exibe o vídeo.
Roy Cohn, o temível litigante dos tribunais
americanos, mentor do jovem empresário Donald Trump, ensinava:
— Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é
o juiz.
Os juízes, àquela altura, eram Infantino e
alguns cartolas da Fifa. Bingo. (Em setembro, chega às livrarias americanas uma
biografia de Cohn, com o seguinte título: “Um canalha americano”.)
A realidade paralela, que Trump cultiva e
manipula, explica a encrenca. O mundo vive a festa de uma Copa. A cerimônia
inaugural do certame teve mais audiência que a ida do presidente ao sopé do
Monte Rushmore, onde estão esculpidos na rocha os rostos de quatro de seus antecessores.
Ele precisava entrar naquela festa.
Entrou defendendo um atleta negro e admirado,
parte de uma seleção festejada. Com o Brasil eliminado, falou-se mais de Trump
que da malcriação de Neymar com o goleiro norueguês. Trump não sabia o que
significava um cartão vermelho, não tem noção do que vem a ser um impedimento e
talvez ache que a meia-lua da grande área seja um enfeite, onde poderiam pôr
seu retrato. Conseguiu entrar na festa da Copa, por poucos dias.
Na noite de segunda-feira, sem telefonemas,
os deuses do futebol decidiram. Com Balogun em campo, a seleção americana foi
mandada para casa.
Futebol, jogado dentro das quatro linhas,
ainda é coisa séria.

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