sábado, 11 de julho de 2026

Uma nuvem que pesa toneladas, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A IA está mudando a economia mundial, mas, para fazê-lo, usa uma quantidade gigantesca de capital

Se alguém dissesse, poucos anos atrás, que a infraestrutura e os computadores usados para desenvolver a inteligência artificial (IA) consumiriam mais eletricidade do que todo o Japão, provavelmente pareceria exagero. Mas não é.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers dedicados à IA deverão consumir cerca de 945 TWh em 2030 – mais do que todo o consumo anual de eletricidade da terceira maior economia do mundo. Durante anos fomos levados a acreditar que a economia digital era leve. O termo usado era “nuvem” e imaginávamos algo virtual, quase sem peso.

A inteligência artificial está revelando o contrário. Descobrimos, agora, que a nuvem pesa milhões de toneladas de concreto. Não estamos falando apenas de algoritmos. Mas de usinas de energia, linhas de transmissão, data centers, sistemas de refrigeração, cabos submarinos. A IA deixou de ser apenas software. Tornou-se uma das maiores obras de infraestrutura econômica do século 21.

Um exemplo foi o anúncio da Meta, que vai investir US$ 9,1 bilhões no primeiro grande data center no Canadá, com potência de 1 gigawatt, expansível para 1,8 GW, e para isso precisará de uma usina própria movida a gás natural. Uma única instalação de IA já exige infraestrutura energética comparável à de uma cidade.

Até recentemente a pergunta era qual seria a produtividades trazida pela IA. Agora, surge outra, talvez mais incômoda: como essa infraestrutura será financiada – e se ela será capaz de gerar retorno compatível com o volume de capital que está absorvendo.

Em seu último relatório semestral, a OCDE afirma que a economia mundial ainda parte de uma base sólida com os investimentos em IA. Mas esse ponto precisa ser visto com cuidado. Diante da desaceleração global apontada pelo FMI, os investimentos em IA não eliminam os riscos nem impedem a perda de ritmo da economia. Funcionam como um dos principais amortecedores da desaceleração. E aqui surge um paradoxo.

O mesmo ciclo de investimentos que ajuda a manter a economia em movimento também pode se transformar em fonte de instabilidade financeira. Talvez estejamos diante de duas revoluções distintas. A primeira, é tecnológica. A segunda, financeira.

A IA já está transformando a economia mundial. Mas, para fazê-lo, exige uma quantidade gigantesca de capital físico e financeiro, antes que seus retornos estejam plenamente comprovados. Nesse momento, o entusiasmo costuma ser mais acelerado do que o cuidado de medir riscos. A IA mudará o mundo, com certeza. Mas isso nos traz uma pergunta: qual parte dessa infraestrutura permanecerá quando a euforia passar – e quem vai pagar a conta até lá?

 

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