sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Dilma ataca Marina com alfinetada velada

• Em encontro, presidenta evita falar o nome da candidata do PSB à Presidência da República, mas critica os critérios de escolha da oponente para a formação de ministérios

Edla Lula – Brasil Econômico

Minimizar o efeito Marina Silva (PSB), mas sem deixar de alfinetar a adversária. Esse foi o tom das ações da campanha do PT na corrida para reeleger a presidenta Dilma Rousseff, ontem, em Brasília. Dilma aproveitou o horário de almoço como presidenta para falar como candidata a uma entusiasmada platéia de trabalhadores rurais que apoiam sua reeleição. Sem citar Marina, criticou o critério a ser usado por ela na escolha de sua equipe, caso seja eleita. Marina tem dito que escolherá as melhores cabeças, sejam do PT, sejam do PSDB.

À tarde, foi a vez de o presidente do partido, Rui Falcão, convocar uma coletiva para mostrar que a candidata Marina Silva não preocupa tanto assim e assegurar que o PT não vai mudar sua estratégia de campanha em função dos índices que apontam derrota de Dilma no segundo turno.

O discurso de Dilma, que durou quase 43 minutos, parecia programático, com a presidenta falando dos feitos para a agricultura familiar ao longo dos últimos 12 anos e aquilo que pretende fazer se for reeleita. Mas os dez últimos minutos foram dedicados à batalha eleitoral.

"Essa história de que você acha os bons ou os melhores sem aferição não está certa, não", disse Dilma em discurso para os trabalhadores rurais. "Como é que eu vou fazer uma política da agricultura familiar com quem não defende a agricultura familiar? A pessoa pode ser ótima, mas ela não tem nenhum compromisso com agricultura familiar. Ela não fará". Segundo a candidata, "não é uma questão de a pessoa ser boa ou ser ruim, é uma questão de que compromisso ela tem. E melhor ter pessoas boas e compromissadas do que pessoas boas e sem compromisso".

Rui Falcão, por sua vez, convocou a coletiva para anunciar que o partido entrará com ações na Justiça Eleitoral para a retirada do ar e responsabilização dos autores de uma montagem feita no vídeo em que o ex-presidente Lula apoia a candidata do PT ao Senado por Goiás, Marina Sant" Arma. O vídeo, editado, mostra Lula apoiando Marina Silva. A marca oficial da campanha de Marina Silva abre e encerra o vídeo. Além disso, há um corte na palavra "Goiás", para que o espectador não perceba a propaganda original.

Falcão fez questão de frisar que as ações não são dirigidas ao PSB, numa tentativa de demonstrar que não é Marina que preocupa o PT. "Queremos deixar claro que não e tamos atribuindo a autoria desse vídeo fraudado a nenhum partido e a nenhum candidato", disse.

As redes sociais têm sido o principal espaço utilizado pela campanha de Marina para atingir os eleitores. " Queremos colocar um freio e deter este tipo de campanha. Comum vídeo grosseiramente fraudado e que infelizmente traz marca oficial da campanha da candidata do PSB e se atribui falsamente o apoio do presidente Lula à candidata Marina Silva", disse Falcão.

Logo após a coletiva de Falcão, a assessoria de imprensa do PSB divulgou nota afirmando que a coligação "repudia o uso indevido da imagem de sua candidata e da marca da aliança". Segundo a nota, o partido também requererá ao Ministério Público e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a abertura de inquérito para identificar a origem e o responsável pela montagem e veiculação. "Expediente dessa ordem contraria os princípios éticos que caracterizam a candidata Marina Silva e os partidos que integram nossa coligação", diz a nota.

Nos últimos dias, fontes do comitê petista disseram que faz parte da nova estratégia "desconstruir" a imagem de Marina, denunciando incoerências entre o discurso e a prática. Mas, ontem, Rui Falcão afirmou que nada mudou na estratégia da coligação governista. "O dado mais novo que tem nessa pesquisa é a comprovação de algo que eu já dizia antes, que é a realização do segundo turno", comentou, referindo-se às pesquisas do Ibope e do MDA desta semana.

Falcão citou pesquisa de outubro do ano passado, quando o Data-folha atribuiu 27 pontos a Marina. "Nessas últimas pesquisas ela se aproxima desse percentual, dando a entender que manteve parcela do seu recall e agregou a isso um pouco da comoção e subtraiu parcela de eleitores que tendiam a votar no candidato do PSDB", disse Rui.

As estratégias para o segundo turno, disse Rui, serão pensadas quando se encerrar o primeiro: "Vamos ver como será a campanha. Segundo turno é outra eleição".

Aécio diz que governo dele dará dignidade, e não 'dente de última hora'

• Tucano visitou canteiro de obras e tomou café da manhã com operários em São Paulo

Silvia Amorim – O Globo

SÃO PAULO – Numa crítica velada à presidente Dilma Rousseff, o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, disse nesta quinta-feira que um eventual governo dele dará dignidade às pessoas e não “dentes de última hora”. A declaração foi feita durante discurso a operários de um empreendimento imobiliário em São Paulo.

- É isso que nos une: uma vontade danada de fazer esse país voltar a crescer e as pessoas voltarem a sorrir. Mas sorrir de verdade, sem precisar botar dente de última hora - afirmou.

Na semana passada, o jornal “Folha de S.Paulo” revelou que uma moradora de Paulo Afonso, na Bahia, recebeu prótese dentária na véspera da visita de Dilma à comunidade. A casa da moradora foi a única visitada pela presidente, que gravou no local imagens para serem usadas no programa dela no horário eleitoral.

Por duas vezes, Aécio usou o episódio em seu discurso. A primeira referência foi feita quando Aécio falava da importância da retomada do crescimento econômico. A segunda veio quando o tucano prometeu pagar um salário mínimo para jovens que voltarem a estudar

- Isso não é dar dente, é dar dignidade - disse o presidenciável sobre o programa Mutirão Oportunidade que ele anunciou no Nordeste na semana passada caso seja eleito.

Sobre a adversária Marina Silva (PSB), Aécio disse apenas que “não entende direito para que direção ela quer levar o país”.

Numa agenda organizada por um parlamentar ligado ao setor da construção civil, Aécio chegou às 6h30 no canteiro de obras de um grande empreendimento imobiliário residencial na capital paulista para tomar café da manhã com os operários. Depois fez um minicomício do lado de fora do refeitório em que reafirmou compromisso com um reajuste real do salário mínimo e atualização da tabela do Imposto de Renda.

Aécio participa de ato em Campinas com aliado de Marina

Pedro Venceslau – O Estado de S. Paulo

O candidato a presidente pelo PSDB, Aécio Neves, participa na noite desta quinta-feira, 28, de um ato político em Campinas ao lado do prefeito da cidade Jonas Donizette, que é do PSB e aliado da ex-ministra e adversária de Aécio, Marina Silva.

Ao chegar ao local, o tucano voltou a criticar Marina. Para ressaltar que o projeto de sua adversária é inconsistente, Aécio afirmou que "boas intenções são importantes", mas que é ele que apresenta "um projeto consistente e com gente capaz de transformar sonho em realidade".

O candidato foi questionado sobre uma declaração de Marina, onde ela insinuou que Aécio é um profissional das escolhas incorretas. Em discurso na Feira Internacional de Tecnologia Sucroenergética (Fenasucro), em Sertãozinho (SP), hoje, a ex-ministra afirmou que muita gente no Brasil diz que o povo não pode ser governado por amadores do sonho.

"Ou apostam no sonho, ou vamos continuar nas mãos dos profissionais, dos que fazem escolhas incorretas", disse Marina. Sobre isso, Aécio disse que se surpreende por ela ter se considerado uma amadora. "É preciso que ela diga com clareza o que significaria o seu governo. Me parece um pouco confuso", disse o tucano.

Questionado sobre sua queda na última pesquisa do Ibope, que apontou a ultrapassagem da Marina, o tucano responsabilizou o impacto da morte de Eduardo Campos. Quando perguntado se a candidata do PSB passará a ser seu alvo preferencial a partir de agora, Aécio afirmou: "Sou adversário do modelo que está ai".

Antes do evento, o prefeito Jonas Donizette disse aos jornalistas que o deputado Beto Albuquerque, candidato a vice de Marina, gravou depoimento de apoio à reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB) para ser utilizado na propaganda de TV.

Para derrotar Dilma, mercado 'marinou'

Talita Moreira e Cristiano Romero – Valor Econômico

SÃO PAULO - Marina Silva (PSB) está longe de ser a candidata dos sonhos do mercado financeiro, mas tem ganhado adesões de peso entre banqueiros e gestores de recursos, que veem nela a grande chance de derrotar a presidente Dilma Rousseff (PT) nas urnas. Respaldada pelas últimas pesquisas, que mostram a candidata do PSB vencendo a eleição em segundo turno por diferença razoável da presidente Dilma, uma ala significativa do mercado já "marinou".

"Os bancos 'marinaram', sim, neste ambiente de 'PT nunca mais'", disse ao Valor um profissional experiente.

Prevalece o pragmatismo: o sonho de dez entre dez integrantes do mercado financeiro é ver a derrota da candidata do PT. Banqueiros ouvidos pelo Valor preferem, em geral, o candidato do PSDB, Aécio Neves. O tucano agrada porque é considerado mais experiente e, sobretudo, porque teria Armínio Fraga no comando de sua equipe econômica caso fosse eleito. No entanto, Aécio não decola nas pesquisas. Além disso, foi quem mais perdeu espaço com a entrada de Marina na disputa.

O presidente de um grande banco avalia que Aécio perdeu a mão conforme a campanha começou a avançar. "Ele começou muito bem, mas depois se saiu mal no episódio do aeroporto de Cláudio e, agora que começou o programa eleitoral, fica claro que ele não consegue se comunicar com a população", comentou.

Sobre Marina Silva, esse mesmo banqueiro disse não acreditar que as propostas econômicas defendidas por ela sejam resultado de convicções pessoais. Mas ele se mostra confortável com os compromissos assumidos pela candidata, como a manutenção do tripé macroeconômico (austeridade fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante), a independência do Banco Central (BC) e um menor intervencionismo na economia.

"O mercado já vê Marina com completo conforto", atestou um ex-diretor do BC, que, a exemplo de todos os entrevistados, exigiu anonimato para dar seu depoimento. A razão seria o fato de os bancos serem um setor regulado pelo BC. "Não se vê diferença entre o grupo de Marina e o do PSDB em matéria de assuntos econômicos", disse o ex-diretor, lembrando que "a preocupação reinante no cenário econômico é a de que o país, sob Dilma, está indo pelo caminho errado" e que tanto Marina quanto Aécio prometem corrigir isso.

Muitos agentes do mercado têm preferido engrossar desde já a campanha de Marina como um antídoto para a reeleição de Dilma - que seria, na visão deles, o pior dos cenários. A candidata do PSB sabe da importância de ganhar o apoio desse segmento. Não à toa, explicitou o compromisso de restabelecer o tripé macroeconômico e tem reafirmado isso sempre que pode.

O discurso vem desde o ano passado, quando Marina e o então candidato Eduardo Campos fizeram um périplo por São Paulo, onde se reuniram com os banqueiros, investidores e gestores para deixar claro que pretendiam trilhar, na gestão macroeconômica, o caminho da ortodoxia. Segundo um banqueiro de investimentos, a escolha de Eduardo Giannetti e André Lara Resende, dois expoentes do pensamento econômico liberal no Brasil, como mentores da candidata dá o conforto necessário para se acreditar que o compromisso com o tripé não é da boca para fora.

"O fato de Giannetti estar acompanhando Marina há tanto tempo mostra que nada do que está sendo dito é uma novidade. Há uma compatibilidade de opiniões e convicções entre eles e a direção está muito clara: é preciso restabelecer o ambiente macroeconômico na direção correta", observou um gestor. "Giannetti, ao contrário de assessores econômicos de outras campanhas, nunca foi desmentido por ela."

Segundo esse gestor, nas últimas duas semanas, o grupo de Marina afinou o discurso, de forma que todos estão falando a mesma língua, ao contrário da expectativa inicial, que previa a eclosão de desencontros após a trágica morte do ex-governador Eduardo Campos.

"Houve um movimento articulado das lideranças de Marina e da própria candidata para acalmar o mercado e mesmo os setores que se sentem desconfortáveis com o antigo radicalismo dela em questões ambientais", disse uma fonte do mercado, mencionando entrevistas concedidas, em curto espaço de tempo, por João Paulo Capobianco (articulador do grupo junto ao agronegócio), Neca Setúbal (coordenadora do programa de governo), Roberto Amaral (presidente do PSB) e Eduardo Giannetti, além da própria participação de Marina no debate da Band e de sua entrevista ao Jornal Nacional, na Rede Globo.

"Há uma linearidade e uma coerência muito grande em todos os discursos", elogia um gestor. O compromisso da candidata, por exemplo, com a instalação do Conselho de Gestão Fiscal, previsto desde 2000 pela Lei de Responsabilidade Fiscal, foi percebido como algo relevante.

Embora o compromisso com o tripé econômico seja um denominador comum, há nuances na forma como Marina é vista no mercado financeiro. Para alguns, mesmo sendo a melhor opção disponível, a candidata do PSB, caso seja eleita, poderá enfrentar problemas de governabilidade, pelo menos num primeiro momento, advertiu o executivo de um banco.

Outros também têm dúvidas quanto à capacidade de Marina de montar um time de peso. Isso vale, inclusive, para a equipe econômica. Para um banqueiro que trabalhou com ambos, Giannetti e Lara Resende são conselheiros "brilhantes", mas não têm perfil de gestor e talvez nem queiram atuar no dia a dia. Giannetti já deixou claro que não pretende ocupar cargo executivo. O que se sabe é que ele vai influir na definição dos nomes para a área econômica, o que ajuda desde já a tranquilizar o mercado.

Há quem aposte que Marina conseguirá agregar nomes de primeira linha - e com boa reputação no mercado - em um eventual governo. "Se ela chamar o Armínio [Fraga, hoje assessor de Aécio Neves], ele vai. O mesmo vale para todos os ministérios", afirmou um banqueiro experiente. "Por enquanto, Marina não precisa indicar quem será seu Armínio. Se ela estivesse colada no Aécio, precisaria fazer isso. Com a vantagem que tem, ganha tempo. Talvez, tenha que fazer no segundo turno, dependendo de como andarem as pesquisas. Mas, por enquanto, o mercado já 'precificou' Marina", explicou uma fonte do mercado. (Colaboraram Denise Neumann, Vanessa Adachi e Angela Bittencourt)

Merval Pereira: Contradições

- O Globo

O caso do jato Cessna que vem dando dor de cabeça à direção do PSB por ser, ao que tudo indica, produto de uma obscura transação que envolve laranjas e dinheiro não contabilizado, trouxe para a herdeira política Marina Silva uma questão adicional, que reforça as supostas contradições de sua candidatura.

Uma das empresas envolvidas na compra do jato é a Bandeirantes Companhia de Pneus Ltda, que importa pneus usados, negócio considerado como dos mais danosos ao meio-ambiente. A autorização de importação de pneus usados, por sinal, foi uma das muitas brigas que Marina travou à frente do ministério do Meio-Ambiente, e perdeu.

Em 2003, foi convencida pelo então ministro da Casa Civil, José Dirceu, a recuar em sua posição contrária à importação de pneus em nome de um “bem maior”, no caso a unidade do Mercosul. Isso por que, apesar de oficialmente proibir a importação de pneus remodelados, o Brasil acata desde 2002 uma decisão do Tribunal Arbitral do Mercosul que obriga o país a aceitar a entrada de pneus vindos do Uruguai.

Essa posição provocou decisões judiciais que trouxeram para o país pneus usados dos Estados Unidos e da União Européia. Marina sempre reclamou que a questão dos pneus era tratada como puramente comercial, sem que fosse levado em conta seu lado ambiental. Seu objetivo, dizia, era fazer com que o Brasil deixasse de ser uma "lata de lixo global" para os pneus usados em outros países.

Sabe-se agora que a então denominada Bandeirantes Renovação de Pneus foi beneficiada por um decreto assinado em 2011 pelo governador Eduardo Campos, que ampliou seus benefícios fiscais, eliminando limites de importação fixados anteriormente por decreto do ex-governador e hoje deputado federal Mendonça Filho. Um dos sócios da hoje denominada Bandeirantes Companhia de Pneus Ltda, Apolo Santana Vieira, responde a processos de sonegação fiscal estimados em cerca de R$ 100 milhões devidos pela importação de pneus pelo porto de Suape, em Pernambuco.

Unindo-se a natureza do empreendimento ao fato de que o uso do avião não fora ainda declarado como doação de campanha eleitoral, com forte cheiro de caixa 2, têm-se que a candidata Marina Silva está em uma situação no mínimo delicada. A "nova política" que ela e Eduardo Campos pregavam era transportada para cima e para baixo por um jatinho todo irregular, financiado em última instância por uma atividade comercial que a ambientalista Marina Silva repudia. E que recebeu estímulos fiscais de seu companheiro de luta política anos antes de os dois se juntarem para tentar chegar ao Palácio do Planalto.

A essa contradição da dupla anterior soma-se a atual, de ter como companheiro de chapa o deputado Beto Albuquerque, que foi um dos líderes da aprovação do uso de transgênicos no Congresso, derrotando a posição da então senadora Marina Silva. Como a própria Marina explica agora, trabalhar com quem discorda de seus pontos de vista mostra apenas que ela não é uma radical como a acusam, e que sabe conviver com contrários.

No caso de Beto Albuquerque é uma verdade, pois trata-se de um político correto que, ao que se sabe, estava em defesa dos agricultores do Rio Grande do Sul no caso dos transgênicos, e não em alguma transação nebulosa. Mas no caso da empresa de pneus usados, não há desculpa para receber doações de campanha fora da legislação e de um empreendimento que considera nocivo ao meio-ambiente.

Nem mesmo dizer que não fora informada de nada. Ao se juntar à campanha de Eduardo Campos, tinha a obrigação de se informar desses detalhes, justamente para não se ver em uma situação delicada como agora. Outra aparente contradição, mas que desta vez trabalha a seu favor, é a nota do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Xapuri (Acre), fundado por Chico Mendes, ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), que não gostou de ver Marina colocá-lo como membro da "elite" brasileira, nem quer vê-lo classificado como um "ambientalista", mas sim como "sindicalista".

O sindicato também condena a política ambiental "idealizada pela candidata Marina Silva enquanto Ministra do Meio Ambiente, refém de um modelo santuarista e de grandes Ong's internacionais". Ora, os próprios termos do debate mostram que a ex-seringueira Marina Silva saiu do Acre para ganhar uma dimensão modernizadora, com uma visão mais ampla da disputa política e da própria defesa do meio-ambiente.

Dora Kramer: O diabo a quatro

- O Estado de S. Paulo

A possibilidade de uma derrota na eleição presidencial já estava no radar do PT há algum tempo. O partido havia abandonado a esperança de vencer no primeiro turno desde que as taxas de rejeição e aprovação à presidente Dilma Rousseff se encontraram.

Os petistas consideravam que a disputa final seria um páreo duro. Perder para Aécio Neves, do PSDB, seria uma hipótese. Remota, é verdade. Principalmente diante da perspectiva de que o horário eleitoral desse à presidente uma dianteira, senão confortável, ao menos segura.

No fatídico dia 13 de agosto último, porém, tudo mudou. Eduardo Campos saiu da vida e Marina Silva entrou na disputa para presidente justamente numa quadra da história em que o País só quer saber de mudança e nada mais. A qualquer custo.

Veio a primeira pesquisa, a segunda, a terceira e as análises precisaram ser revistas. A derrota de Dilma já não se desenhava mais como uma hipótese remota. Enquadrava-se na moldura de uma possibilidade concreta.

Os especialistas em interpretações de pesquisas passaram a dizer que, mantida a tendência e salvo o imponderável, a candidata do PSB se elegeria presidente em segundo turno.

Observam esses mesmos analistas que em 2002 havia um clima semelhante. Na época, a tentativa de mudar começou em abril, com Roseana Sarney. Abatida em maio, com a descoberta pela Polícia Federal de dinheiro sem origem justificada em empresa de propriedade dela e do marido no Maranhão.

O eleitorado, então, fez nova tentativa voltando-se para Ciro Gomes. Subiu nas pesquisas, ficou com jeito de fenômeno em junho, dizimado pelo próprio destempero verbal. Em seguida, a ausência de opções (só havia Anthony Garotinho e o governista José Serra) levou o rio para o mar de Lula.

Hoje, visto do alto o panorama parece pior para o PSDB, que ficaria fora da disputa. Mas, olhando com visão pragmática, o partido perderia o que não tem. Contabilizaria mais uma derrota eleitoral. Péssimo para seus projetos político-partidários? Sem dúvida alguma.

Mas o dano maior mesmo seria para quem corre o risco de perder o que tem. O PT está mais perto de perder o poder do que nunca esteve antes nos últimos anos.

E por poder entenda-se não apenas o federal. Dos dez maiores colégios eleitorais só está em primeiro lugar nas pesquisas para governador em Minas Gerais. Em Estados importantes como São Paulo, Rio, Paraná e Bahia o PT fica entre os 3.º e 4.º lugares.

Nesse quadro, a perda do poder central seria especialmente desastrosa, pois enfraqueceria a legenda também no Congresso, reduzindo seu poder de fogo como força de oposição.
Por essas e várias outras questões relativas ao acomodamento dos companheiros (petistas ou aliados) máquina pública País afora, a inquietação toma conta dos que se veem ameaçados de voltar à condição de 12 anos atrás.

Essa mesma máquina está sendo mobilizada no afogadilho para trabalhar na campanha. Convoca-se o conselho político, reúnem-se assessores de segundo escalão de ministérios e empresas estatais para serem despachados a encontros e debates com o objetivo de defender o governo.

Ou seja, terror e pânico. O clima não chegou ao horário eleitoral. A presidente mantém artificialmente a fleuma e a ideia de que ainda pretende polemizar com o tucano Aécio Neves. Bobagem. Chuva que já choveu.

A inimiga real é Marina e contra ela é que está sendo feita a convocação geral para pôr em prática o uso do "diabo" anunciado pela presidente para ganhar as eleições.

Farão daqui em diante o diabo a quatro para impedir que seja interrompida não a implantação de um projeto de País, mas a execução de um plano de ocupação hegemônica de todos os instrumentos de poder.

Para isso anunciou-se a disposição de fazer "o diabo". Diante do perigo, não há dúvida: haverá de se fazer o diabo a quatro.

Eliane Cantanhêde: Dilma e o fantasma Marina

- Folha de S. Paulo

A expectativa de segundo turno entre duas mulheres, uma ex-gerentona neopetista e uma evangélica ex-petista, ambas bravas e autoritárias, promete boas emoções. Vai sair faísca.

Duas mulheres, duas histórias diferentes. Dilma Rousseff vem da classe média de Minas e entrou pela porta da frente em bons colégios católicos. Marina Silva emergiu da miséria no Acre e chegou pela porta dos fundos: esfregava chãos e lavava banheiros das freiras para ter direito às aulas.

Dilma vem da resistência armada à ditadura, era do PDT e virou presidente pelo PT. Marina nasceu com a bandeira do meio ambiente, cresceu no PT, fez fama nacional no PV, tentou sem sucesso criar a Rede e acabou candidata a derrotar Dilma pelo PSB. Ou seja: Marina, muito mais petista de raiz do que a neófita Dilma, se tornou a maior ameaça à continuidade do PT no Planalto.

Dilma e Marina conviveram no PT e no ministério do primeiro governo Lula. Foi aí que a encrenca começou. As duas encarnaram uma guerra entre "desenvolvimentismo" e "sustentabilidade" e disputaram não só espaço e poder interno, mas as graças do ídolo Lula. Dilma venceu todas, e Marina deixou o governo, o lulismo e o PT. Ganhou vida própria. E assombra os petistas.

Contrariando pesquisas e evidências de que tudo mudou com a queda do Cessna Citation, a campanha de Dilma continuou, estranhamente, desperdiçando munição contra o tucano Aécio Neves. Demorou a cair a ficha. Talvez porque Dilma e Lula tenham fixação em tucanos. Talvez porque não tenham discurso e bala para atingir Marina, com sua figura frágil e um projeto abstrato.

Dilma acordou ontem (28), tateando, improvisando para acertar a intangível Marina. Com um detalhe: passou a mirar Marina, mas sem tirar o olho de Aécio. Além do medo de perder para Marina, o pavor de Lula, Dilma e o PT é... terem de entregar o Planalto nas mãos de uma aliança da ex-petista Marina com o PSDB.

João Bosco Rabello: O ciclo populista do PT

- O Estado de S. Paulo

O populismo se serve da característica de uma população de atribuir ao Estado todas as mazelas que contribuem para seu maior ou menor sucesso pessoal e profissional. Ante os revezes, culpar o Estado aplaca a consciência, terceiriza a culpa e cria o atalho para a figura do salvador da pátria.

O Brasil tem sido vítima desse processo em ciclos raramente interrompidos, que retornam mais fortes, como a bactéria resistente ao antibiótico. Governos que se entregam à reconstrução dos efeitos populistas têm contra si o tempo de maturação das mudanças que, às vezes, aultrapassam gerações.

Transformações econômicas e educacionais, entre outras, impõem prazo para a produção de resultados, nunca inferiores a uma década, o que é exasperante para o contribuinte que clama por soluções imediatas e não percebe na falta de continuidade dos governos a fonte dos problemas.

É uma chaga que conspira contra gestões planejadas, de resultados a médio e longo prazos, impondo aos gestores conscientes o ônus do convencimento geral de que o mais demorado e bem feito é melhor que o barato que sai caro.

O imediatismo de resultados favorece a política do curto prazo que pode manter um governo forte popularmente à base de assistencialismo e discurso, sem gestão qualquer, até que a economia acuse seu esgotamento.

Qualquer semelhança com o governo do PT em seus suspiros finais, não é mera coincidencia. Lula se beneficiou dos efeitos do plano de estabilização de seu antecessor, manteve-o, e, com ele, pôde ampliar os programas sociais, dos quais também não teve a iniciativa, apenas a continuidade.

Mas, pelo menos, manteve em seus oito anos o compromisso com a estabilidade econômica, entregando o comando da economia a perfis que a garantiram, na Fazenda e no Banco Central, contra a vontade do PT, que teve de esperar por Dilma Rousseff para concretizar a imolação do modelo vitorioso.

Ao resultado desastroso desse comportamento, somou-se a colheita da omissão do governo Lula nas áreas de infraestrutura, Saúde, Educação e Segurança, que representam hoje a demanda da população por mudanças.

Aqui vale o parêntese: Lula exerceu o populismo em grau tão explícito que não hesitou em criticar o governo que ele mesmo representava, em diversas ocasiões. Como agora repete Dilma, atribuindo aos antecessores a culpa pelos problemas de gestão, contando com a desimportância do eleitor para com o fato de que o governo é do PT há 10 anos.

Viveu-se uma década de discurso e distribuição farta de direitos civis já garantidos pela Constituição de 88, cuja aplicação não depende de mais legislação, mas de eficiência gestora. Talvez tenha sido o único governo a desfrutar de prazo e otimismo da população para concluir um modelo que recebeu iniciado, testado e aprovado, como mostram as duas eleições do PSDB no primeiro turno.

Uma década também de fartura para o PT a confirmar o dito popular seguno o qual “quem nunca come mel quando come se lambuza”. Um tempo de deterioração do capital político do partido, cuja trajetória no poder levou à cadeia seus dirigentes históricos mais emblemáticos.

Sem biografia partidária no PT, mas eleita por ele, a presidente Dilma Rousseff tentou em vão sugerir a existência de um distanciamento entre ela e o partido, mas o marketing era falso como as declarações ciclícas de reconhecimento ao mercado , o que manteve a desconfiança deste.

No plano ideológico Dilma aplicou ao país aquilo que o PT quis desde o primeiro momento, mas que a Carta aos Brasileiros inviabilizara. Pregou desenvolvimento acima da inflação, privatização a taxas cubanas de lucro, ou seja, zero, e intervenção na economia. Colheu a recessão que hoje desfaz o sonho da reeleição.

É nesse contexto que tenta durar na campanha em segundo lugar, vendendo um país maravilhoso no plano cinematográfico, como registrou sua nova adversária, Marina Silva, no primeiro debate dos presidenciáveis realizado pela TV Bandeirantes.

Pedro Floriano Ribeiro: Racionalidades adaptativas

• Para PT, fracasso de Marina levaria à volta com tudo em 2018

- Valor Econômico

Muitas das análises que se seguiram à tragédia em Santos repisaram o óbvio: tudo podia acontecer com a candidatura de Marina Silva, inclusive nada. A última pesquisa Ibope indica que a candidata pessebista atraiu, primeiro, boa parte dos eleitores disponíveis (indecisos e nulos/em branco), para depois começar a avançar sobre os votos de Aécio e Dilma, convertendo a bipolaridade prevista em um cenário triangular. No entanto, a grande maioria das contendas para o Executivo, seja na cidade paulista de Borá, com seus 1.060 eleitores, seja na eleição presidencial, se reduz a uma dinâmica quase inescapável: uma batalha retórica entre representações da realidade, em que o governo afirma que o presente é bom, mas que o futuro será ainda melhor se o trabalho não for interrompido, enquanto a oposição sustenta que o presente é tenebroso, mas o paraíso na terra se dará a partir da mudança no comando do governo. Essa lógica aceita adaptações conjunturais, como a retórica governista sacando o slogan de "mais mudanças", ao mesmo tempo em que admite alguns problemas na gestão atual somente se situados na lembrança de que na era FHC tudo era muito pior - têm-se então o mundo em preto e branco e as pessoas invisíveis da propaganda petista, era das trevas em que o sol mal se punha. No outro campo, temendo a popularidade de Lula, tanto Aécio quanto Marina se enchem de dedos para criticar seus oito anos na Presidência, centrando fogo nos quatros anos de Dilma.

Apesar dos muitos tons de cinza, a lógica governo x oposição permanece, e a consolidação de Marina como candidata "não governo" leva a uma conclusão óbvia, que coloca Aécio em posição extremamente desconfortável. De candidato quase garantido no segundo turno, quando planejava capitalizar os sentimentos antipetistas e a rejeição a Dilma, passou a enfrentar uma disputa mano a mano com Marina. Por mais que os tucanos insistam em manter uma postura olímpica de única alternativa viável, a nova situação agora já se impõe. E o nível de desconforto se eleva pela dificuldade em atacar uma candidata de aparência frágil, que canaliza o sentimento antipolítica e é vista por parte dos eleitores, em algumas pesquisas qualitativas, como uma espécie de segunda viúva de Campos.

Os tucanos esperam que os petistas façam o serviço sujo, já que o enfrentamento com Marina tampouco se mostraria a opção mais segura de vitória do governo na rodada final. Porém, o não muito tempo que resta de campanha (37 dias) passou a jogar contra Aécio. Além disso, o PSDB despreza cálculo que começa a rondar as fileiras petistas. Um segundo turno contra Marina talvez realmente leve à derrota após 12 anos. No entanto, a falta de quadros do Rede/PSB, o personalismo de Marina e a ausência de bases e alianças sólidas no meio político e em diversos segmentos sociais são fatores que levam parte do PT a apostar que um eventual governo marineiro seria um grande desastre, abrindo as portas para o partido voltar com tudo (e com Lula) em 2018, com a típica cara do "eu bem que avisei". Já a eleição de Aécio poderia significar o início de um novo ciclo tucano em Brasília.

Não seria a primeira vez que a cúpula petista apostaria no "quanto pior melhor" como cálculo eleitoral. Em meio à crise do governo Collor em 1991-92, os dirigentes do partido resistiram o quanto puderam a engrossar o coro que pedia a destituição do presidente. Um governo sangrando até as eleições de 1994 se mostrava um cenário mais favorável à vitória de Lula do que a solução institucional com a posse do vice, que poderia fazer emergir um novo salvador da pátria. Atropelada pelas ruas e pelas próprias bases do partido, somente em meados de 1992 a direção petista adotaria um discurso mais agressivo.

Os desafios de Marina são proporcionais às crescentes expectativas em torno de seu nome. Ela será chamada a se posicionar no debate a todo o momento, pois seu eleitorado possui um perfil ambíguo. De um lado, estratos de classe média com escolaridade acima da média, sobretudo jovens, muitos deles com posturas mais liberais em relação a temas como união homoafetiva, aborto e drogas. De outro, setores evangélicos que mal podem ouvir falar de alguns desses temas. Em segundo lugar, Marina será desafiada a construir pontes com vários setores, muito além do agronegócio. A "Carta ao Povo Brasileiro" de Lula terá que se desdobrar em diversas cartas, não só para amainar segmentos receosos de suas ideias, mas também para mostrar que por trás do salvacionismo messiânico que muitas vezes ronda suas falas existe uma liderança com racionalidade, adaptável e pragmática.

Por fim, Marina será instada a fazer política mais com o estômago e menos com o fígado, aceitando adesões e alianças impensáveis até ontem; mais que isso, terá que se mostrar a agregadora que não foi até aqui, começando - e talvez principalmente - por evitar o despedaçamento do PSB. O enfrentamento (e derrota) com os dirigentes do PV parece não ter sido suficiente para ensinar a Marina que os partidos têm seus "donos". Uma família dá as cartas no PSB desde 1992, quando Miguel Arraes assumiu a presidência da legenda, sendo substituído pelo neto apenas com sua morte em 2005. Se por um lado Marina recebeu o apoio público da família, por outro comprou briga com um dos dirigentes mais influentes e com maior domínio sobre a máquina, Carlos Siqueira, primeiro-secretário nacional do PSB desde 1995 (oito gestões seguidas), o que demonstra sua intimidade com aquela mesma família. Para quem tem tantos desafios pela frente, talvez não tenha sido das atitudes mais sensatas.

Pedro Floriano Ribeiro é professor de ciência política na Universidade Federal de São Carlos, onde coordena o Centro de Estudos de Partidos Políticos

Fernando Gabeira:As regras do jogo

- O Estado de S. Paulo

A morte de Eduardo Campos inaugurou uma nova realidade na campanha eleitoral. Mas é uma ilusão pensar que tudo mudou.

Há elementos que permanecem, como, por exemplo, a força eleitoral do governo federal, baseada na sensação de que os tempos de prosperidade e crescimento econômico não acabaram. Para muitas pessoas, a crise ainda não é um fato. Na verdade, ela é um conjunto de índices e perspectivas sombrias que somente os mais atentos conseguem captar.

Dilma Rousseff, por exemplo, deixou de negar a crise e espantar os urubus que rondam o seu discurso triunfal. Agora admite sua existência e ressalta: "Mantivemos empregos e salários". Ela se dirige precisamente àqueles que ainda não sentiram a crise. Seu ministro do Trabalho disse que, em termos de emprego, o Brasil tinha chegado ao fundo poço. Depois desmentiu: o buraco não seria tão fundo como a sua frase dera a entender.

Isso se parece com aquela piada do Millôr, a de um homem caindo de um décimo andar que, ao passar pelo oitavo, diz: "Até aqui, tudo bem".

O cara da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, parece ter decidido pela delação premiada. Ele é o cara porque articulava tudo, tinha milhões de dólares na Suíça. Antes ele havia dito, na cadeia, que não poderia abrir a boca porque, caso falasse o que sabe, não haveria eleições no País. É uma força de expressão. As eleições brasileiras podem renascer, como após o desastre que matou Eduardo Campos. Não importa o que Paulo Roberto diga, elas vão ser realizadas no dia 5 de outubro.

A morte de Campos e a entrada de Marina Silva na disputa pela Presidência reafirmaram a tendência de segundo turno. Mas ela não é novidade. O PT, com Lula ou Dilma, sempre ganhou no segundo turno.

A novidade é que a oposição pode triunfar. Para isso é preciso que demonstre, com clareza, que a sua proposta é a que melhor protege salários e empregos. Ela precisa encontrar uma unidade entre sua proposta econômica e a disposição de combater o fisiologismo e reduzir a corrupção no Brasil a níveis administráveis.

Não acredito em longos programas de governo, embora esteja sempre disposto a discuti-los e a sintetizá-los, como fiz com o seminário de três dias realizado pelo PPS em Brasília. O ideal seria fixar em alguns pontos comuns. Isso é possível. Basta analisar o discurso dos candidatos de oposição para perceber que convergem em várias questões essenciais.

Eduardo Campos e Aécio Neves tinham uma relação cordial, trocavam ideias constantemente. Isso não impediu que procurassem singularizar-se na campanha eleitoral, marcando suas diferenças.
Essa troca de ideias é fundamental. É uma ilusão supor que se governa um país tão complexo como o Brasil sem criar uma base de sustentação técnica e política.

A maioria das pessoas quer mudança. Mas ainda não está muito claro que mudanças querem. Suponho, pela constância das denúncias, que se queira estancar a corrupção. E, naturalmente, a julgar pelas manifestações de junho de 2013, melhores serviços públicos.

Tão amplo desejo de mudança exige clareza de ideias, mas, sobretudo, humildade. Segundo as pesquisas, metade dos eleitores de Dilma também quer mudança. Isso significa que, potencialmente, eles podem abandonar a candidatura dela se as propostas de mudanças forem diretas. E se o bloco que disputar com o PT, no segundo turno, der claras indicações de que a governabilidade não estará ameaçada.

Todos esses palpites são de um simples eleitor. Não estou dentro das eleições, não conheço seus bastidores, não me informei sobre afetos e rancores que as movem neste instante.

Muitos analistas reclamam que o quadro está confuso. Lamentam que as decisões possam ser tomadas num clima emocional. Ao longo destes anos vimos o processo político degradar-se, o abismo se abrindo entre instituições e eleitores. Mesmo as eleições de 2010, marcadas por fortes votações em candidatos folclóricos, como Tiririca, já eram inquietantes. Depois disso vieram as manifestações de 2013, mostrando mais claramente como o povo estava insatisfeito com o governo, com a oposição e com todo o sistema político.

Observo apenas a contradição de alguns setores que não se importaram em degradar a política e afastá-la do povo, na crença de que a máquina de governo e a propaganda tudo resolvem. Agora clamam por racionalidade, frieza e um roteiro seguro para dirigir o País.

Não creio que Marina vá subir nos fios e fazer milagres, como aquela santa no filme de Pasolini. Mas terá a oportunidade de apresentar suas ideias, responder às questões mais delicadas, enfim, oferecer também uma base racional para ser aceita ou rejeitada.

Tanto para ela como para Aécio, creio, um dos temas centrais é como se relacionar nesse conjunto de candidatos que propõem mudança, querem construir algo diferente do que fizeram o PT e seus aliados nestes 12 anos. A proposta de uma nova política não é esotérica se analisamos o discurso dos candidatos de oposição. Eles condenam o fisiologismo, o toma-lá-dá-cá, o balcão de negócios em que se transformaram governo e Congresso Nacional.

Não se navega nessas águas turvas sem apoio dos políticos. Não é possível discriminá-los, afastando-os do governo. O que é desejável é que se escolham apenas os honestos e que tenham competência específica para o cargo que vão ocupar.

Diante do segundo turno, emerge a possibilidade real de conduzir o País por um caminho mais sólido na crise econômica, menos corrompido na política, mais próximo dos grandes centros tecnológicos nas relações exteriores, mais sério na gestão dos serviços públicos.

Há quem queira disputá-lo sozinho na oposição. Há quem prefira Dilma por achar o PT previsível.

Mas assim mesmo teremos um ano de 2015 cheio de surpresas.

Façam o seu jogo.

*Fernando Gabeira é jornalista

Riscos do uso do Estado para a reeleição: O Globo - Editorial

• Convocar secretários dos ministérios para se empenhar na campanha da presidente é ato de assustador patrimonialismo e de espantosa ousadia, mesmo no PT

Em uma democracia longeva e sólida como a americana, o presidente pode se candidatar à reeleição e manter-se na Casa Branca, sem patrocinar escândalos sobre o uso da máquina do Estado na campanha. Não apenas há uma arraigada cultura de obediência às regras do jogo, como os desvios são punidos sem tergiversações.

O Brasil fez bem ao copiar o modelo americano de dois mandatos consecutivos de quatro anos cada. Na prática, é como se fosse um mandato possível de oito anos, com a chance de interrupção, à vontade do eleitor, passados os quatro primeiros.

Campanha com candidato no Planalto e no Alvorada, porém, tem criado, nos últimos tempos, várias situações em que a oposição recorre à Justiça Eleitoral, com denúncias do uso de prerrogativas do cargo de presidente com fins eleitorais.

Na reeleição de Lula, em 2006, foi notória a antecipação da campanha pelo presidente. O mesmo ocorreu na candidatura de Dilma Rousseff, em 2010, e desvios se repetem em 2014. Registrem-se, por exemplo, discutíveis convocações de rede nacional para pronunciamentos oficiais de suposto interesse geral, mas que eram, na verdade, atos de cunho eleitoral.

O chamado “efeito Marina”, deflagrado com a morte de Eduardo Campos e a passagem para a cabeça da chapa do PSB da idealizadora da Rede, abala, como era previsível, as candidaturas de Dilma e Aécio Neves. Cada um deles terá de reagir à ameaça representada por Marina Silva, por óbvio. O perigo está na forma como a candidata à reeleição e seu partido, o PT, tratarão de combater a candidata do PSB. E as primeiras notícias sobre movimentações na campanha petista são preocupantes.

Logo na noite do primeiro debate, na Bandeirantes, terça-feira, já conhecida a pesquisa do Ibope em que o destaque foi Marina, a coordenação da campanha de Dilma fez a descabida convocação de uma reunião com secretários executivos e secretários nacionais dos ministérios, para pedir-lhes empenho no apoio ao projeto da reeleição.

Há, nisso, um gritante desvio de função, o indiscutível uso de funções públicas no trabalho privado a favor de uma campanha política. Não importa se da presidente da República. Ela é tão candidata quanto todos, e nenhum pode ter privilégios.

O encontro foi conduzido por Cezar Alvarez, responsável pela articulação da campanha com estados e municípios, e dele participou até o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência.

Os secretários em geral tocam o cotidiano dos ministérios. Convertê-los em cabos eleitorais é transferir parte da máquina pública para o palanque de Dilma, estridente crime eleitoral e ato de assustador patrimonialismo.

É conhecida a prática aparelhista do PT, a sua capacidade de se infiltrar no Estado. Mas esta manobra, embora não surpreenda, é de espantosa ousadia.

Petrobrás na campanha:O Estado de S. Paulo - Editorial

Dilma Rousseff, candidata à reeleição, anda reclamando de "ataques" à Petrobrás. "Eu acho extremamente equivocado colocar a maior empresa da América Latina, sempre durante a eleição, como arma política", afirmou recentemente. Para ela, a instituição "está acima" de escândalos. Mas não é a oposição ou a imprensa que ataca a Petrobrás, como quer dar a entender a candidata à reeleição. O ataque à maior estatal brasileira está continuamente vindo do próprio governo, ao envolver a Petrobrás em "erros, malfeitos, crimes, atos de corrupção", conforme listagem da própria candidata.

O episódio mais recente, que fez Dilma voltar ao tema, é a possibilidade de o ex-diretor Paulo Roberto Costa, preso por suspeita de corrupção, utilizar o recurso da delação premiada: falar o que sabe em troca de diminuição da pena. Atualmente, a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, investiga 13 empresas ligadas a Costa que, segundo a Procuradoria da República, obtiveram "vertiginoso acréscimo patrimonial" na época em que ele foi diretor da Petrobrás.

Nas palavras da candidata, "a Petrobrás é muito maior do que qualquer agente dela, seja diretor ou não, que cometa equívocos (...) isso não significa uma condenação da empresa. Não se pode confundir as pessoas com as instituições". Não se está fazendo essa confusão nem condenando a Petrobrás. O País quer é responsabilizar pessoas pelos "erros, malfeitos, crimes, atos de corrupção" que possam ter cometido.

Se houve confusão entre pessoas e instituições, foi a própria candidata quem a fez. Em seu característico estilo, Dilma pontificou: "Veja bem, ó: a Graça Foster e a diretoria inteira da Petrobrás representam a União. (...) É de todo interesse da União defender a Petrobrás, a diretoria da Petrobrás". Aqui, se tratava de outro escândalo - Dilma e sua turma têm sido pródigas em proporcionar escândalos envolvendo a estatal -, quando se revelou que Graça Foster havia transferido imóveis para os filhos em meio à crise sobre a Refinaria de Pasadena. Neste caso, a candidata à reeleição tinha todo interesse eleitoral em que a estrutura do Estado - o Ministério da Justiça e a Advocacia-Geral da União - fosse utilizada para agir em favor de diretores cuja atuação na Petrobrás está sendo estudada pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Quando lhe interessa calar, Dilma utiliza o cargo de presidente da República como motivo para silenciar. "Eu não tenho o que comentar sobre a decisão de uma pessoa presa fazer ou não delação premiada, isso não é objeto do interesse da Presidência da República." Mas ela se adiantou na defesa de Graça Foster, quando esta corria o risco de ter seus bens bloqueados pelo TCU. A candidata disse que seria um "absurdo" o bloqueio dos bens da presidente da Petrobrás. Absurdo seria o País ter de engolir inerme uma operação que, segundo o TCU, gerou prejuízo de R$ 792,3 milhões à estatal.

A candidata Dilma não faz reparos a que a Petrobrás esteja presente na campanha eleitoral. Em 2010, ela utilizou largamente a estatal e a descoberta do pré-sal como matéria política. O que ela não gosta - como se vê pelas suas falas - é que informação independente sobre a Petrobrás, sem os filtros do governo, chegue ao público nesse momento pré-eleitoral. Mas isso, longe de ser um ataque contra a Petrobrás, é a sua mais genuína defesa, especialmente quando aqueles que deveriam fazê-lo não o fazem.

Não é a Petrobrás, mas o governo que está sendo julgado, o que é legítimo - e desejável - numa democracia. As eleições devem ser uma prestação de contas sobre o que foi feito e como foi feito pelo governo. E ninguém mais do que Dilma pôs a Petrobrás nessas eleições ao reconhecer, em março, que a sua decisão de aprovar a compra da Refinaria de Pasadena tinha como base um parecer "técnica e juridicamente falho". Ela mesma, com suas ações e palavras, desconstruiu a imagem eleitoreira de que seria uma eficiente gestora. Por isso, a Petrobrás - e seus sempre prejudicados acionistas minoritários - tem todo o interesse em estar nas eleições. É sua chance de conseguir outros gestores.

Eduardo Giannetti: Imbróglio fiscal

- Folha de S. Paulo

Impossível ler a recente declaração do ministro Guido Mantega ao "Valor" (22/8) --"as nossas contas públicas estão absolutamente organizadas"-- e não lembrar do que os ingleses definem como a primeira lei do jornalismo: "não acredite em nada até que tenha sido oficialmente negado".

O que já era ruim está se tornando ainda pior. Além dos problemas de execução da política fiscal, com resultados cada vez mais distantes das metas definidas pelo próprio governo, há fortes indícios de que o repertório de truques e malabarismos contábeis vem se ampliando perigosamente nos últimos meses.

No início do ano, o governo anunciou com estardalhaço que aumentaria o esforço fiscal. O compromisso era produzir um superávit primário de 1,9% do PIB ou R$ 80,8 bilhões em 2014. Seria um resultado digno de respeito, tendo vista tratar-se de um ano eleitoral em que a pressão sobre os gastos tende a crescer.

O resultado do primeiro semestre, contudo, torna praticamente nula a probabilidade de que a meta seja cumprida. Premido pela queda de arrecadação causada pelo retração da economia e pela pletora de desonerações e subsídios espalhados a esmo nos últimos anos, o saldo primário fechou o semestre em R$ 17,4 bilhões. O resultado estrutural --que exclui do cálculo os efeitos do ciclo e das receitas e despesas não recorrentes-- deve terminar o ano próximo de 0% do PIB.

O aspecto mais preocupante, entretanto, são os indícios de que ao invés de abandonar o recurso à "contabilidade criativa", como chegou a anunciar, o governo vem de fato se enredando ainda mais em práticas de disfarce e manipulação dos números.

Além dos "restos a pagar", subsídios ocultos, operações casadas com estatais e atrasos em repasses aos entes federativos, a novidade agora é o uso dos bancos oficiais como financiadores do Tesouro.

O expediente foi revelado por fiscais do Banco Central e consiste na prática de servir-se da Caixa e do Banco do Brasil a fim de efetuar pagamentos a descoberto de obrigações do Tesouro junto a beneficiários de programas sociais e produtores rurais, entre outros. Nos balanços do primeiro semestre, o saldo negativo do "cheque especial" do governo era de R$ 3,9 bilhões na Caixa e R$ 9,8 bilhões no BB.

Além de violar a Lei de Responsabilidade Fiscal, que proíbe esse tipo de operação, o expediente causa enorme prejuízo aos bancos estatais e nos aproxima mais alguns passos de perder a condição de "grau de investimento".

Como um alcoólatra que jura largar o vício, mas sucumbe a cada nova tentação que se oferece, o governo Dilma repete a sina da oração do jovem Santo Agostinho: "Dai-me, Senhor, a temperança e a virtude, mas não já".

Claudia Safatle: BC não se precipitará nos juros e no câmbio

• Aumento dos juros nos EUA pode vir antes do previsto

Valor Econômico

A política monetária está no ponto certo para o Brasil enfrentar os efeitos do aumento dos juros americanos, no ano que vem; e o programa de "swap cambial", previsto para vigorar até 31 de dezembro, durará o tempo que for necessário para que o mercado de câmbio encontre as "condições ideais". O Banco Central trabalha, hoje, com essas premissas na administração de dois importantes preços da economia - os juros e o câmbio - e sugere que elas independem do calendário eleitoral doméstico.

Avalia, também, que a normalização da política monetária nos Estados Unidos - e o consequente aumento dos juros - pode ocorrer antes do segundo semestre de 2015. Os efeitos de uma elevação da taxa de juros americana sobre o Brasil tendem a ser neutralizados, mas pouco, por um novo estímulo na zona do euro, como acenou Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), no simpósio de Jackson Hole há uma semana. A resistência da Alemanha a um "quantitative easing" adicional, porém, não foi vencida.

A economia americana prossegue avançando na recuperação, a Europa patina, o Japão decepciona e a China, com crescimento estável na casa dos 7,5%, saiu do primeiro plano.

A retomada da atividade econômica nos EUA é uma realidade. Os dados do mercado de trabalho ainda sustentam os argumentos do Federal Reserve Bank (Fed), mas estão melhorando em todos os seus ângulos. Isso leva a autoridade monetária brasileira a considerar que o aumento dos juros, lá, pode ser antecipado. E uma eventual redução da Selic, aqui, não deve ser precipitada.

A presidente do Fed, Janet Yellen, no encontro de Jackson Hole, disse que apesar dos sinais indicarem recuperação, faltam provas concretas de uma retomada efetiva do mercado de trabalho. Economistas do BC procuram esmiuçar os argumentos de Yellen, mediante análise detalhada das informações do mercado de trabalho americano.

A meta de redução do desemprego para 6,5% foi alcançada e hoje a taxa é de 6,2%. Isso, porém, não seria suficiente para dar conforto ao Fed, porque continua elevado o desemprego de longo prazo, que mede o número de trabalhadores sem emprego há mais de seis meses. Essa taxa era de 45% em 2011 e caiu para 32,8% este ano. O emprego temporário - quem procura trabalho em período integral mas só consegue de meio período - está elevado, mas também em queda. A taxa de participação, que saiu de 67% em 2011 para 62,9% este ano, responde por parte da queda do desemprego.

A presidente do Fed adicionou novo conceito na questão do trabalho, relativo a uma deflação reprimida dos salários. Quando do ajuste por causa da crise de 2008-2009, empregos foram destruídos, mas os salários não tiveram queda. Por isso, indicou ela, mesmo com um mercado de trabalho mais forte agora não deve haver aumento dos salários.

"Com a política monetária apertada e a manutenção do programa de leilão de swap cambial, quem ocupar a cadeira do BC (no novo governo) poderá ficar tranquilo", comentou uma graduada fonte do governo. Embora a última versão do programa tenha previsto o fim dos leilões para 31 de dezembro, a intenção do BC é continuar ofertando hedge. Com isso o Brasil estaria em boas condições para atravessar o processo de normalização das condições monetárias nos EUA

O mercado reclama que o BC está indo longe demais na intervenção do câmbio. O BC não concorda e diz que quando lançou o programa, em agosto de 2013, pensava fazer leilões de swap no valor de US$ 100 bilhões até dezembro do ano passado, cifra que não foi atingida até agora, passados oito meses de 2014.

Não concorda, também, com a ideia de que está segurando o câmbio e que, mais cedo ou mais tarde, haverá desvalorização. Entre junho de 2011, quando do dólar era cotado a R$ 1,55 e hoje, com cotação de R$ 2,24, a desvalorização é de 40% em termos nominais, para uma inflação acumulada no período de 19%. Portanto, houve desvalorização de cerca de 20%, alega. A volatilidade, sim, caiu em relação ao passado, mas não está menor do que no Chile, México, Turquia, dentre outros emergentes.

O avanço da candidatura de Marina Silva, do PSB, nas pesquisas de intenção de voto abriu nova e tardia discussão no núcleo da campanha da presidente Dilma Rousseff, sobre a necessidade de ela dar um sinal de que é a candidata mais segura para o setor privado e não uma "aventura". No Palácio do Planalto, admite-se que há quem defenda tal movimento, mas não que ele será acatado por Dilma.

Mesmo os que acham que é preciso passar ao mercado financeiro e aos agentes econômicos em geral - hoje entusiasmados com a possibilidade da derrota de Dilma - uma mensagem amigável para um eventual segundo mandato, não consegue definir que sinal seria esse a essa altura do campeonato. Sabe-se só o que deve ser descartado. Nesse rol estaria algo como a Carta aos Brasileiros, de Lula. Em meados de 2002, e em meio a fortes turbulências movidas por medo de um governo do PT, Lula escreveu a carta comprometendo-se a respeitar contratos e a manter a estabilidade econômica. Com maior ou menor ênfase, Lula cumpriu os termos da carta e conquistou a confiança do mercado.

Houve, ao longo dos três anos e meio de mandato, várias oportunidades de dar uma "virada" no governo Dilma, na direção que o setor privado gostaria: cumprimento dos compromissos fiscais, controle inequívoco da inflação e respeito ao sistema de preços.

Sob o incentivo de Lula, ela cogitou fazer mudanças de nomes na condução da política econômica em 2013, mas recuou. Afinal, Dilma é quem dá os rumos na economia, e trocar pessoas da sua total confiança seria uma "intervenção" indevida no seu governo.

Agora, preparada para enfrentar Aécio Neves, do PSDB, no debate eleitoral, a presidente tem que refazer seu discurso para se distinguir de Marina. "O mercado não elege ninguém, mas é mais difícil eleger alguém contra o mercado", disse um experiente dirigente de um grande banco.

Rogério Furquim Werneck: Lula e o segundo mandato de Dilma

• O que se viu no primeiro governo do ex-presidente foi a manutenção da política macroeconômica que vinha sendo adotada

- O Globo

No primeiro programa de propaganda eleitoral do PT, há uma parte em que Lula reconhece tacitamente que Dilma tem pouco a mostrar. E tenta convencer o eleitor a lhe dar outra chance: “...Eu quero falar especialmente para você, que está em dúvida se deve votar ou não na Dilma. Eu lhe peço, vote sem nenhum receio. Fique certo de que você não vai se arrepender.”

O que desperta interesse é a argumentação utilizada. Lula começa por alegar: “O meu segundo mandato foi melhor do que o primeiro. Com Dilma, tenho certeza de que vai ser assim também. No meu segundo mandato, eu tive mais segurança, mais experiência e mais apoio para acelerar projetos que estavam em andamento e para lançar muita coisa nova.”. E, em seguida, pergunta: “Já imaginou o prejuízo que o país teria sofrido se eu não tivesse um segundo mandato? Se outro qualquer tivesse chegado querendo inventar a roda e parado quase tudo?”

Chama a atenção que, a essa altura dos acontecimentos, Lula ainda queira fazer crer que seu segundo mandato foi melhor do que o primeiro. Do ponto de vista do desempenho da política econômica, o primeiro mandato de Lula foi muito melhor do que o segundo.

Superadas as tensões da metamorfose por que teve de passar o PT na campanha eleitoral de 2002, o que se viu no primeiro governo de Lula foi a manutenção da política macroeconômica que vinha sendo adotada no governo anterior. Decisão sábia que propiciou rápida colheita de bons resultados. A partir de 2004, a economia, ajudada pelo boom de preços de commodities, passou a apresentar crescimento relativamente rápido, inflação baixa e contas externas sólidas.

Mas é compreensível que Lula não guarde boas lembranças do seu primeiro mandato. Tendo enfrentado com sucesso o desafio da política econômica, seu governo se viu às voltas com dificuldades de outra ordem, na esteira da eclosão do escândalo do mensalão, em 2005. Em meio ao turbilhão que se formou, Lula chegou a temer que, mesmo que conseguisse evitar um impeachment, sua reeleição estivesse comprometida.

Não foi o que, afinal, se viu. A crise acabou superada e, graças ao bom desempenho da economia e aos programas de redistribuição de renda, Lula conseguiu seu segundo mandato. E pôde respirar aliviado. Mas o novo governo já não era o do primeiro mandato. Ironicamente, da perspectiva da política econômica, o Lula que foi reeleito era muito diferente do de 2003. Foi ele mesmo quem “quis inventar a roda” e “parar quase tudo”.

A verdade é que, desde o mensalão, a correlação de forças dentro do governo havia mudado. A insegurança de Lula, o descabeçamento do PT e a ascensão de Dilma Rousseff à Casa Civil redundaram em crescente cerceamento do poder do ministro Antonio Palocci, como ficou mais do que claro no emblemático embate entre a Fazenda e Casa Civil, no segundo semestre de 2005, quando a proposta de ajuste fiscal de longo prazo foi torpedeada. O afastamento de Palocci e sua substituição por uma figura inexpressiva, em abril de 2006, abriram espaço para crescente preponderância da Casa Civil na condução da política econômica no segundo mandato.

O resto da história é bem conhecido. A política econômica passou a ter outra orientação. As mudanças, de início mais discretas, logo se tornaram mais ostensivas, quando o agravamento da crise mundial proporcionou o pretexto que faltava para o abandono dos princípios que haviam pautado a política econômica do primeiro mandato. O rumo passou a ser ditado pela “nova matriz econômica”, custosa pajelança voluntarista, engendrada no segundo mandato de Lula, cujas consequências funestas vêm sendo agora observadas com riqueza de detalhes nesse patético apagar das luzes do governo Dilma.

Lula pode até ter preferido seu segundo mandato, mas foi exatamente nesse período que a política econômica petista começou a descarrilar. O que o país tem presenciado, desde então, é o inexorável desenrolar do desastre, como num grande acidente ferroviário filmado em câmara lenta.

E Lula ainda acha que Dilma merece outra chance.

Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• PT avalia que nem Lula evitaria vitória de Marina
Os “lulistas” do Partido os Trabalhadores já não falam em substituir a candidata Dilma Rousseff pelo ex-presidente Lula, e por ordem dele. É que pesquisa interna, à qual tiveram acesso apenas quatro petistas ilustres, indica que a ascensão de Marina Silva (PSB) é de tal maneira avassaladora que nem mesmo Lula conseguiria evitar sua vitória. Análises internas citam até a hipótese de Marina vencer no 1º turno.

• Rosa dos ventos
A advertência dos analistas do PT é: Marina pode passar à frente e, com o “voto útil” de eleitores de Aécio, vencer no 1º turno.

• Te cuida, Marina
A ordem de Lula é proclamar confiança em Dilma, dizer que Marina é só “uma onda” e preparar a artilharia. Estão vasculhando a vida dela.

• Cegos em tiroteio
A candidatura de Marina Silva desnorteou os marqueteiros do PT e do PSDB. Rigorosamente, eles não sabem o que fazer.

• Peladão no Rio
Neste sábado, Aécio Neves vai participar de um “peladão” no campo do Zico, no Rio, ao lado de craques que marcaram época no futebol.

• Polícia Federal registra 15º suicídio de policial
Esta semana foi registrado o 15º suicídio de um policial federal nos últimos dois anos, segundo fontes da própria corporação. José Roberto Correia de Araújo, de Londrina (PR), foi o terceiro caso somente nos últimos cinco meses. Segundo sindicalistas, “o comportamento da direção da PF tem provocado e agravado diversos problemas entre os policiais”, incluindo problemas psicológicos e psiquiátricos.

• Problemas
Pesquisa da Federação Nacional da PF em 2013 mostrou que 30% dos policiais já se submeteram a algum tipo de tratamento psicológico.

• Universo pequeno
Polícia Federal conta, em todo o País, com apenas 13 mil homens entre delegados, agentes, escrivães, papiloscopistas etc.

• É insuficiente
Para quase 9 mil quilômetros de litoral, a PF dispõe de cerca de 150 homens. Na fronteira terrestre, o contingente não chega a 1.500.

• O que é ruim, esconde
O site de Dilma usa dados do Ibope para dizer que ela segue “firme e forte”, mas não menciona a queda de 4 pontos ou o índice de rejeição da petista (36%), tampouco ao favoritismo de Marina no 2º turno.

• Sujeira sob o tapete
A pedido de Antônio Oliveira Santos, presidente da CNC, o chefão do Sesc reuniu 74 conselheiros no Rio e os orientou a rejeitar recursos do adversário Orlando Diniz contra a chapa da situação, na eleição da entidade. Também discutiram como reverter estragos do afastamento, pela Justiça, do presidente da Fecomércio-MG, aliado de Santos.

• Mão na taça
Durante reunião quarta à noite, a cúpula do Senado analisou o quadro eleitoral nos estados. No DF, a conclusão foi a de que o candidato a governador Rodrigo Rollemberg (PSB) “está com a mão na taça”.

• Tempos amargos
Marina Silva lançou luz, ontem, na tragédia do setor sucroalcooleiro. Responsabilizou o governo pelo fechamento de 70 usinas e por outras 40 em recuperação judicial, com milhares de desempregados.

• ‘Marinar’, a saída
Com Aécio Neves em baixa, velha raposa do PMDB ligou para o amigo Romero Jucá (PMDB-RR). “Você não precisava ter declarado voto para Aécio, bastava não apoiar Dilma”. E aconselhou: “É hora de marinar…”.

• Projeto aguado
Parecia briga da dupla sertaneja Rio Negro e Solimões, mas não é: o STF vai julgar o conflito entre o Estado do Amazonas, que autorizou um porto próximo ao encontro dos dois rios, e o Iphan, que meteu o bedelho e vetou o projeto, considerando a área “monumento natural”.

• Banco de memória
O banco Itaú de Neca Setúbal, “colaboradora” de Marina Silva, ameaça ir às últimas instâncias para não pagar indenização de R$ 6 mil a ex-cliente que, morando no exterior, teve o nome injustamente negativado.

• Candidato dos milagres
Faltou bom senso, no mínimo, à coordenação de campanha de Magela (PT-DF) ao Senado na edição do último programa eleitoral: um casal de cadeirantes diz que “pulou de alegria” com os feitos do candidato.

• Pergunta no palanque
Já que faz tanta questão de ser chamada de presidenta, seu novo slogan não deveria ser “Dilma, coração valenta”?

Panorama Político :: Ilimar Franco

- O Globo

Jogaram a toalha
Os estrategistas da campanha do PSDB entregaram os pontos. Os da presidente Dilma ainda têm um fio de esperança. Os especialistas em pesquisas consideram que Marina Silva está a um passo do Planalto. Explicam que Marina encarna o sentimento de junho de 2013, contra tudo que está aí. E que sua onda é consistente. Lembram que em 2010 ela se formou a uma semana do pleito. Agora, rebentou 40 dias antes.

O teto de Dilma e o piso de Aécio
A análise das pesquisas realizadas até aqui leva cientistas políticos a concluir que a presidente Dilma tem teto: 40%. Os atuais 34% são seu núcleo duro. Pesam contra ela: o cansaço com os 12 anos de PT, escândalos como o da Petrobras e o seu jeito de poucos amigos. Os dados mostram também que Aécio Neves não parou de cair. O PSDB tem informes, de pesquisas estaduais, que reforçam essa projeção. Isso ocorre, diz um analista, porque a rejeição ao PT é forte, mas há também um sentimento contra o PSDB. Por isso, Aécio não convencia como sujeito da mudança. Essa qualidade foi incorporada por Marina, que ainda tem a vantagem de ser muito conhecida.
--------------------------
"A eleição estava fria, sem emoção. As pessoas vibram com Marina. Elas sentem prazer em votar. Gente que não estava nem aí agora vai às urnas".
Um cientista político,
especialista em pesquisas qualitativas e de intenção de voto
-------------------------
No gogó
Os petistas creem em uma vitória no segundo turno. Eles dizem que Marina Silva (PSB) não tem propostas concretas para enfrentar os dramas do país. Com a palavra um petista: "Como é que ela vai sustentar 25 minutos de propaganda na TV?".

Enquadramento
O candidato do PT ao governo do Rio, Lindbergh Farias, já sabe que o partido não engole vê-lo pedindo votos ao lado de Marina Silva. Um dos mais próximos interlocutores de Marina explica: "Ele está com a Dilma. Nós somos contra palanques duplos". Políticos de vários partidos e estados querem se fantasiar de Marina para melhorar suas situações.

Ancorada em São Paulo
Integrante da direção do PT está impressionado com a força de Marina em São Paulo. A projeção do partido é a de que a presidente Dilma chegará aos 30%. No Ibope, ela tem 23%. Esta é a primeira eleição em que não há um presidenciável de SP.

Rogai por nós
A campanha da presidente Dilma vai investir nos evangélicos, em sua maioria com Marina Silva. O presidente do PRB, Marcos Pereira, da Universal, afirmou no Planalto que não agrada o discurso de que a providência divina a salvou do acidente que matou Eduardo Campos. O tom messiânico desagradaria, porque ela não é Deus, nem Jesus.

Vacinada
Os marineiros acreditam que a firmeza de Marina Silva na entrevista para o "Jornal Nacional", da TV Globo, e no debate da Band desconstruiu a imagem anterior de fragilidade. O objetivo foi demonstrar que ela tem pulso para governar.

Defesa integrada
O Brasil irá aderir à Cruz del Sur, uma missão de defesa da ONU para a América do Sul. Já fazem parte Argentina e Chile. A missão atua em ações humanitárias e eventuais necessidades de defesa. O Brasil irá contribuir com cerca de 350 homens.

O ex-ministro Ciro Gomes (PROS) costuma classificar os defensores do meio ambiente como fração verde e "clorofilática" da sociedade.

Painel :: Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

Apelo ao "mundo real"
As campanhas de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) definiram uma estratégia comum para combater o discurso da "nova política" de Marina Silva (PSB). Os dois passarão a apresentar mais projetos ligados a problemas do dia a dia do eleitor. Os tucanos apostam que a ênfase em promessas para saúde, educação e segurança vai "trazer Marina para o mundo real" e evidenciar fragilidades em sua candidatura. "Não dá mais para discutir providência divina", diz um aliado de Aécio.

Eu prometo Como parte da tática do "mundo real", o candidato do PSDB dedicou boa parte do horário eleitoral de ontem à proposta de criar a Poupança Jovem. Dilma anunciou o programa Mais Especialidades na saúde.

O voto de Fidel O PT levou ao ar dois médicos cubanos para promover o programa Mais Médicos. O Código Eleitoral proíbe estrangeiros de participar de "atividades partidárias, inclusive comícios e atos de propaganda".

E depois? Na reunião com presidentes de partidos aliados, anteontem, a presidente havia sido cobrada para apresentar mais propostas e fazer menos balanço do que já fez.

Ecocapitalismo Dilma disse no encontro que Marina deu uma guinada à direita ao propor a autonomia do Banco Central. "Se o Aécio defendesse isso, até o Serra reagiria contra", provocou.

Piscadinha A petista contou que, no debate da Band, Aécio olhava para ela a cada alfinetada que ele dava em Marina. "Ele estava torcendo para eu fazer o mesmo".

Nós contra eles A campanha petista tentará tachar a ex-senadora de "via alternativa da oposição" para evitar que ela continue a crescer entre quem gosta do PT.

Bomba no palácio Durante a conversa no Alvorada, Dilma devorou salgadinhos de queijo e de camarão e uma bomba de chocolate.

Alto lá Comunicado de uma consultoria que circula no mercado financeiro já aponta 60% de chances de vitória de Marina na eleição presidencial. O texto, no entanto, alerta que um governo da ex-senadora tenderia a "frustrar" muitos setores.

Realpolitik Os analistas dizem que ela é pouco clara em seus projetos e defende propostas "incompatíveis no curto prazo": "Marina sinceramente quer construir um Brasil diferente, mas as forças ao seu redor talvez sejam mais persistentes do que ela pode imaginar".

Eu prometo O programa de governo de Marina, que será apresentado hoje, vai propor a criação do "Código de Defesa do Cidadão". A promessa é estabelecer critérios de "transparência, agilidade e eficiência" dos serviços prestados pelo Estado.

Veja bem O ex-governador Alberto Goldman (PSDB) diz que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) segue engajado na campanha de Aécio. Eles estiveram juntos ontem e voltarão a se encontrar hoje.

Tá tranquilo Goldman diz acreditar que Aécio ainda tem tempo para alcançar Marina: "Cinco semanas são uma eternidade. Não há nenhum sinal de desespero".

Chororô Luciana Genro (PSOL), que reclamou da falta de perguntas, não foi a única insatisfeita com o debate da Band. Ontem o nanico Eymael (PSDC) protestou na TV por não ter sido convidado.

Qué se siente A juventude do PT do Rio adaptou o canto dos argentinos na Copa do Mundo, que dizia que Maradona é "más grande" que Pelé, para defender Dilma: "Eu construo o projeto / projeto socialista e popular", diz a versão petista da letra.
--------------------
Tiroteio
"A campanha eleitoral produz cenas de desespero. Até gente que nunca acordou cedo aparece madrugando em canteiro de obra."
DE JOÃO CARLOS GONÇALVES, o Juruna, secretário-geral da Força Sindical, sobre visita de Aécio Neves (PSDB) às obras de um condomínio em São Paulo.
---------------------
Contraponto
O dia em que Serra caiu da cama
A presença do notívago José Serra no ato de Aécio Neves (PSDB) com operários marcado para as 6h30 de ontem surpreendeu o presidenciável Aécio Neves (PSDB).
--Isso é inacreditável... Hoje é um dia histórico! --festejou Aécio ao avistar o aliado, repetindo uma piada feita há algumas semanas pelo governador Geraldo Alckmin.
Com cara de sono, Serra subiu ao carro de som e prometeu "falar muito rápido" por três motivos. Primeiro: os trabalhadores tinham pressa. Segundo: estava frio.
--E esse caminhão aqui, ou eu estou tonto ou ele está balançando... --concluiu o candidato ao Senado.

Gilvan Chaves: Pregões do Recife

Joaquim Cardozo: Tarde no Recife

Tarde no Recife.
Da ponta Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Máxime.
Cais do Abacaxi. Gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.

Tanta gente apressada, tanta mulher bonita.
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um carreto gritando — alerta!
Algazarra, Seis horas. Os sinos.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem
[dos fidalgos holandeses.
Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas
[do Pacífico.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
E da beleza católica do rio.