Correio Braziliense
A relação entre os
presidentes da República e os títulos mundiais nas Copas do Mundo de 1958,
1962, 1970, 1994 e 2002, revela muito sobre a história política do país
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com o senador Jaques Wagner (PT-BA), no Palácio da Alvorada, e combinou a imediata saída dele da liderança do governo no Senado. Foi a primeira conversa presencial entre ambos desde que o parlamentar foi alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master. O dia parece ter sido escolhido a dedo para aproveitar o lusco-fusco do jogo do Brasil com a Escócia, ontem. Se a conversa tivesse sido boa, os dois amigos teriam assistido à seleção brasileira em campo juntos. Ao contrário. Wagner deixou o Palácio da Alvorada e anunciou que sairá do cargo.
Lula operou a saída de Wagner da liderança do
governo de maneira a que o amigo não se sentisse abandonado, nem complicasse
ainda mais a situação eleitoral criada na Bahia pelo envolvimento de um prócer
petista no escândalo. Com isso, o Palácio do Planalto espera esvaziar a
narrativa da oposição de que o governo está comprometido com o escândalo. As
suspeitas são pesadas: a PF investiga se Wagner recebeu R$ 3,5 milhões e um
apartamento de luxo em Salvador.
Embora o ex-ministro da Fazenda Fernando
Haddad tenha dado o testemunho de que nunca recebeu quaisquer pedidos do líder
do governo em favor do banqueiro Daniel Vorcaro, a pressão do PT para a saída
de Wagner era muito grande. Ontem, o ministro do Trabalho e do Emprego, Luiz
Marinho, representante da “República de São Bernardo” na Esplanada, dera um
ultimato ao até então líder do governo. Afirmou, em entrevista coletiva, que se
fosse ele o presidente da República, substituiria Wagner na liderança no
Senado.
Se o jogo da seleção serviu para ofuscar a
crise envolvendo o líder do governo, a postura de Lula em relação a Copa do
Mundo vem sendo de cautela, apesar da piada de mau gosto e temerária em relação
a Neymar, a quem chamou de “jogador em home office”. A declaração provocou
reação negativa de jogadores, como Lucas Paquetá, e deu de bandeja um meme para
Flávio Bolsonaro, que fez um vídeo com inteligência artificial no qual leva
Neymar de avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para jogar no Hard Rock
Stadium, em Miami (EUA).
O futebol nunca foi apenas um esporte no
Brasil. Desde a conquista da primeira Copa do Mundo, em 1958, as vitórias da
Seleção Brasileira foram incorporadas ao imaginário político nacional,
transformando-se em símbolos de unidade, modernização, grandeza nacional e, às
vezes, instrumentos de legitimação dos governos de turno. A relação entre
presidentes da República e os títulos mundiais nas Copas do Mundo de 1958,
1962, 1970, 1994 e 2002 revela muito sobre a história política do país.
Futebol e política
Quando o Brasil venceu sua primeira Copa, na
Suécia, em 1958, o presidente era Juscelino Kubitschek. O país vivia um período
de grande otimismo. Brasília estava sendo construída, a indústria
automobilística se expandia e o lema “cinquenta anos em cinco” sintetizava a
confiança no desenvolvimento acelerado. A conquista de Pelé, Garrincha, Didi e
Zagallo foi interpretada como a prova de que o Brasil havia superado o complexo
de inferioridade que carregava desde a derrota para o Uruguai, na Copa de 1950
— o traumático “Maracanazo”.
Já no governo João Goulart, o país vivia uma
forte instabilidade política. A renúncia de Jânio Quadros, em 1961, abrira uma
crise institucional que levou à adoção temporária do parlamentarismo. Apesar da
turbulência política, a seleção bicampeã, liderada por Garrincha após a lesão de
Pelé, ofereceu um raro momento de consenso nacional, que favoreceu a vitória de
Jango no plebiscito que aprovou a volta do presidencialismo, em janeiro de
1963. Mas a política já caminhava para a polarização que desembocaria no golpe
militar de 1964.
Depois, a Copa também serviu para legitimar a
permanência dos militares no poder e no endurecimento na repressão à oposição,
que resultou em sequestros, assassinatos e desaparecimento de oposicionistas,
muitos dos quais não pegaram em armas, como Rubens Paiva e Vladimir Herzog.
Nenhuma vitória da Seleção foi tão explorada politicamente quanto a de 1970. O
presidente Emílio Garrastazu Médici, no auge da ditadura militar, associou a
conquista da Copa ao chamado “milagre econômico”. A seleção de Pelé, Jairzinho,
Tostão, Rivellino, Gérson e Carlos Alberto tornou-se um poderoso instrumento de
propaganda. O governo procurava associar esse crescimento à ideia de um Brasil
forte, unido e vitorioso, com os slogan “Ame ou deixe-o” e “Pra frente,
Brasil”.
No governo de Itamar Franco, a conquista da
Copa em 1994 serviria para a reconstrução da autoestima. O país saía do trauma
do impeachment de Fernando Collor de Mello e enfrentava uma longa crise
inflacionária. Naquele mesmo ano, o Plano Real começava a estabilizar a economia.
A conquista nos Estados Unidos, liderada por Romário, Bebeto, Dunga e Taffarel,
foi percebida como um símbolo de reconstrução nacional.
Seus efeitos políticos alcançaram a eleição
de Fernando Henrique Cardoso, no rastro do Plano Real. Entretanto, o pentacampeonato
conquistado pela Seleção comandada por Luiz Felipe Scolari e liderada por
Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, no último ano do governo FHC, não impediu
que Lula, principal candidato de oposição, derrotasse o candidato governista, o
ex-ministro da Saúde José Serra, que levou um “drible da vaca” nas eleições.

Nenhum comentário:
Postar um comentário