sábado, 9 de abril de 2022

João Gabriel de Lima: O iceberg e os timoneiros do futuro

O Estado de S. Paulo

Abraham Weintraub e Milton Ribeiro embicaram nosso futuro na rota do iceberg

Em um trabalho primoroso de investigação jornalística, Julia Affonso, André Shalders e Breno Pires, do Estadão, revelaram na semana passada mais um escândalo no Ministério da Educação. Desta vez a falcatrua envolvia ônibus escolares superfaturados. O mesmo trio de repórteres já havia denunciado, dias atrás, o tráfico de influência de pastores ligados à família Bolsonaro. A rede de propinas levou à queda do ministro da Educação, Milton Ribeiro, e a licitação dos ônibus foi cancelada. É o jornalismo cumprindo sua missão de fiscalizar o poder público.

Dá muita tristeza, para não dizer revolta, que as principais notícias sobre o Ministério da Educação tenham a ver com corrupção. O Brasil tem várias experiências bem-sucedidas na área do ensino em Estados como Ceará, Pernambuco e São Paulo. “Algumas delas começam a ser reproduzidas nacionalmente”, diz Naércio Menezes, professor do Insper e entrevistado do minipodcast da semana. Tais experiências deveriam estar no centro do debate eleitoral, mas acabam obscurecidas pelos malfeitos no ministério.

A educação se beneficia, de maneira especial, de uma área que cresce cada vez mais dentro da ciência da boa governança: a avaliação de políticas públicas. A Editora Record acaba de lançar um livro que mostra como isso funciona na prática: Como um governo deveria ser, do especialista indiano Jaideep Prabhu. O título é sugestivo quando cotejado com a realidade brasileira atual. 

O livro mostra como governos fazem diferença quando deixam a cegueira ideológica de lado, usam a melhor ciência para desenhar as políticas públicas e escolhem nomes de peso para os cargos estratégicos. Em meio a vários casos, a obra descreve, por exemplo, o salto que os ingleses deram na educação ao redefinir políticas com base em avaliações periódicas. 

O Brasil tem nomes de peso na área da educação: Priscila Cruz, Maria Alice Setúbal, Ricardo Henriques e Mozart Neves, entre muitos outros. Suas ideias circulam em colunas e entrevistas na imprensa – qualificar o debate público é outra das missões do jornalismo. Qualquer um desses nomes daria um excelente ministro da Educação. 

Trata-se de uma pasta nobre. Ministros da Educação são como timoneiros do futuro, já que pelo menos dois de nossos problemas crônicos – desigualdade alta e produtividade baixa – dependem, fundamentalmente, da melhora de longo prazo na qualidade do ensino.

O governo preferiu confiar nossa educação a timoneiros como Abraham Weintraub e o recém-defenestrado Milton Ribeiro. Carentes de qualificações básicas, entre outras coisas, eles embicaram nosso futuro na rota do iceberg. 

 

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