segunda-feira, 26 de março de 2012

Teoria e novas práticas :: Melchiades Filho

As "novas práticas políticas" que a presidente Dilma Rousseff divulga como atração do segundo ano de mandato têm alcance limitado e prazo de validade.

A decisão de brecar o toma lá dá cá não nasceu do diagnóstico de que o sistema está viciado, mas da necessidade de reagir a um princípio de levante de aliados no Congresso -as cúpulas partidárias já se sentiam à vontade para cobrar o terreno perdido na esteira da "faxina" e do estrangulamento orçamentário.

A resposta do governo foi trocar seus líderes no Senado e na Câmara. Caíram Romero Jucá e Cândido Vaccarezza. Não à toa, ambos símbolos do consórcio PT-PMDB, que deu sustentação a Lula 2.

Interessa a Dilma "discutir essa relação" e repactuá-la em termos menos leoninos. É ingenuidade, porém, apostar na escalada do confronto e no descarte do PMDB, convenientemente transformado em símbolo maior do fisiologismo.

O Planalto não se preocupa tanto com a agenda legislativa nem com os votos peemedebistas para a Lei Geral da Copa, o Código Florestal ou a nova previdência dos servidores. Nesses casos, a solução é relativamente simples: adiar as votações até costurar um acordo ou vetar aquilo que for aprovado à revelia.

São outros os fatores que tornam o PMDB essencial. O partido está embicado para assumir o comando das duas Casas do Congresso a partir de fevereiro próximo e terá expressivo tempo de televisão na campanha reeleitoral de 2014.

A "crise" entre Executivo e Legislativo tende, portanto, a não adentrar 2013. O que não significa que ela sairá rapidamente do noticiário.

O segundo ano de Dilma carece de uma marca que gere dividendos de imagem, como foi a demissão serial de ministros em 2011. Já que o PAC anda engasgado e a economia só deverá pegar no tranco no segundo semestre, por que não aproveitar e bater pesado na "velha política"?

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A "ética" dos corruptos:: Renato Janine Ribeiro

É ético um jornalista usar câmaras secretas para comprovar um crime que, depois, ele irá denunciar? Não discuto, aqui, a legalidade de sua ação, porque não tenho a formação jurídica necessária para me pronunciar sobre as leis e jurisprudência cabíveis no caso. Mas a questão adquire relevância diante do fato que movimentou a sociedade brasileira na semana que passou: a revelação, em imagens incontestáveis, de uma rede de corrupção atuando justamente nos hospitais - o que torna particularmente desumano o crime, porque está sendo cometido contra pessoas especialmente vulneráveis. Isso, além de ser uma área em que cronicamente falta dinheiro, até porque os custos com a saúde costumam subir mais que a inflação, em parte devido aos grandes avanços que a medicina tem conhecido.

O que é flagrante é a falta de ética das pessoas que vimos no "Fantástico" e no "Jornal Nacional". Os corruptos (vou chamá-los assim, embora tecnicamente não o sejam, porque não são servidores públicos) não mostraram nenhum pudor. Imaginando-se a salvo, foram francos. Duas afirmações me chocaram em especial. Primeira, quando uma senhora diz que está praticando "a ética do mercado". Mas o que ela faz não é nada ético. A não ser, claro, que use "ética" num sentido apenas descritivo, como quando se diz que a "ética do bandido" é matar quem o alcagueta, ou que a "ética do machista" é assassinar a esposa suspeita de adultério. Contudo, um dos ganhos dos últimos anos tem sido a redução desse emprego da palavra "ética", só descritivo. Cada vez mais, entendemos a ética como prescritiva, normativa, como exigente - não como a mera descrição de condutas praticadas em alguma área da ação humana. Uma expressão de Claudio Abramo, frequentemente citada pelos profissionais da imprensa, é significativa: "A ética do jornalista é a mesma do marceneiro, de qualquer pessoa".

Educando os filhos para também serem corruptos

Na verdade, até esperei, depois dessa frase sobre "a ética do mercado", que "o mercado" reagisse de alguma forma. Se ela dissesse que essa é a ética dos médicos, as associações não iriam protestar? É claro que "o mercado" não é um sujeito. Aliás, sua riqueza e eficácia estão, justamente, em ele não ser um sujeito único, mas uma rede em que se cruzam e medem inúmeros sujeitos. No entanto, aqui se coloca uma questão crucial, sempre presente quando se trata do capitalismo. Brecht tem a frase famosa: "O que é roubar um banco, em comparação com fundar um banco?" O capitalismo sempre esteve assombrado pela diferença entre o lucro obtido legítima e legalmente, e o que é extorsão, usura, roubo. Na Idade Média, a igreja cristã condenava a usura, dificultando as operações de financiamento. Por outro lado, com o capitalismo já consolidado, no final do século XIX um grupo de grandes empresários norte-americanos era chamado de "robber barons", barões ladrões, tal a sua desonestidade. Contudo, o mesmo capitalismo cresce graças a uma ética extremamente forte, que Max Weber, num livro clássico, aproximou do protestantismo. Na verdade, a distinção entre o lucro e a extorsão é crucial para o capitalismo. Um dos desafios para ele funcionar, e em especial para se tornar popular, é convencer a sociedade de que seu compromisso ético - com a construção da riqueza pelo trabalho e o esforço - supera seus deslizes, os quais serão rigorosamente punidos. Ou seja, "o mercado" precisa reagir. O debate sobre esse caso não pode ficar circunscrito à área política. "O mercado" foi injuriado, tem de responder.

O outro ponto assustador foi quando um dos personagens gravados disse que sempre ensinava a seus filhos a virtude da solidariedade. Disse isso com outras palavras, mas ele considerava digno de educar seus filhos na formação de quadrilha. Aqui, estamos diretamente na ética do crime. Mas, se na frase da senhora sobre o mercado podíamos ver alguma ironia ou resignação ("a vida como ela é"), na frase desse senhor se ouvia algo mais grave: a educação dos filhos, a construção do futuro segundo a ótica do criminoso. Uma coisa é resignar-se ao mundo como está e operar dentro dele. Outra, pior, é entender que ele não vai melhorar e, portanto, a melhor educação que se deve dar aos pequenos é ensiná-los a serem bandidos. Aqui, a tarefa afeta, em especial, os educadores profissionais, como os professores, e a multidão de educadores leigos, que são os pais e todos os que cuidam de crianças. Mas, antes mesmo disso, ela passa por uma pergunta cândida: podemos melhorar, em termos de sociedade, no que se refere ao respeito da lei e dos outros? É possível convencermo-nos, e convencermos os outros, de que seguir os preceitos éticos é absolutamente necessário? Ou viveremos nas exceções? E isso diz respeito a todos nós.

Ocorreu-me, uma vez, que no Brasil a lei tem papel mais indicativo do que prescritivo. Explico: todos concordamos que se deve parar no sinal verde - e a grande maioria o faz. Mas a pressa, o fato de não estar vindo um carro pela outra via, a demora no sinal "justificam" eventualmente passar no sinal vermelho. A lei deixa de ser lei para se tornar uma referência, apenas; ou, pior, algo que espero que os outros respeitem absolutamente, mas que infringirei quando me achar "justificado" a fazê-lo. Guiando desse jeito, vários pais mataram os próprios filhos - e isso continua acontecendo. Não precisaremos fortalecer, enquanto sociedade, a convicção de que para um bom convívio é preciso repudiar fortemente essas duas frases que, na sua euforia, os dois personagens pronunciaram sem saberem que estavam sendo gravados? Enquanto isso, obrigado aos repórteres que denunciaram esse crime.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

A entrada triunfal no capitalismo de exortação:: Marco Antonio Rocha

O velho PT, dos tempos das grandes lutas, metia o pau no capitalismo "selvagem" - e o capitalismo era só selvagem na visão petista. A presidente que o PT ajudou a eleger enseja criar um novo tipo de capitalismo: o "capitalismo de exortação".

O método é o do vamo-qui-vamo: consiste em reunir o maior número de capitalistas do maior número possível de atividades e exortá-los a investir.

Capitalistas de verdade nunca precisaram de exortação de políticos para investir. Para o impulso inicial, basta-lhes o vislumbre de bons lucros e o senso de oportunidade. Claro que o sucesso da empreitada exige outras qualidades: empenho, disciplina, capacidade de planejamento, tirocínio administrativo - para mencionar apenas algumas. Só com impulso inicial, a mais brilhante centelha de empreendedorismo bruxuleia e se extingue. Fato constatado, aliás, nas estatísticas do número de novas empresas que morrem no primeiro ano de vida.

No Brasil, espírito empreendedor é o que não falta. O mundo do show business é um criadouro permanente de jovens empresários. O mundo da moda é outro. O dos esportes, um terceiro. Nem é preciso mencionar o do fast food, restaurantes em geral, comércio de secos e molhados, onde o comendador Valentim Diniz, por exemplo, começou modestamente e sua segunda geração dirige um empreendimento que está no cume de uma pirâmide onde fervilham centenas de fornecedores e milhares de funcionários.

Há brasileiros moços ganhando mais dinheiro em seus negócios do que foram capazes seus pais, avós e tataravós, somados. E toda semana ou todo mês as revistas especializadas trazem novas histórias de florescentes novos empreendimentos dirigidos por brasileiros e brasileiras muito jovens.

De modo que nós não precisamos "defender o mercado interno sem protecionismo", como teria dito a presidente no encontro de exortação ao grande capital, segundo manchete do jornal Brasil Econômico (este também um jovem empreendimento na nossa área jornalística). O mercado interno vai muito bem, sim senhora - basta ver as vendas do comércio em janeiro: 2,5% acima das de dezembro!

Mas, o mood empreendedor moderno, agressivo e bem-sucedido, de que estamos falando não impregna o espírito de muitos dos representantes do grande capital reunidos naquela mesa de Brasília para ouvir as exortações da presidente e do seu ministro da Fazenda. O que se via ali era um conclave ao velho estilo capitalista brasileiro: uma reunião de sócios atuais e ex-sócios do capitalismo burocrático de Estado, que é o capitalismo que prevalece até hoje entre nós. Ele foi posto em marcha há 60 anos sob a bandeira do BNDES, das benesses fiscais, do protecionismo aos amigos do governo, das vendas aos governos amigos, das licita-ações entre compadres. Em suma, estavam ali, perfilados, como dizia Claude Reims, no filme Casablanca, os suspeitos habituais.

Ou seja, as exortações verbais só se traduzirão em investimentos pelo método tradicional: o governo prepara o terreno, dá o dinheiro, faz a pesquisa de mercado, diz qual o negócio que terá retorno garantido e garante a compra dos produtos que o empresário não conseguir vender aqui e lá fora - então, ótimo, o capitalismo de exortação funcionará como sempre funcionou.

Esse tipo de capitalismo, monitorado e sem risco, teve sua valia num certo momento da vida nacional, quando o objetivo maior era simplesmente gerar mais empregos urbanos. Mas era para ser apenas o pontapé inicial. O caso é que ficou para sempre na sua marcha lenta, sem nada que desafiasse o conforto dos fat cats criados pelo governo. E sem que os governos quisessem sacudir a vida confortável que propiciou a eles, porque ela sustenta a gorda carga fiscal com que paga as demagogias.

Mas, agora, para se expandir, o capitalismo brasileiro tem de deixar de ser apenas criador de empregos, e precisa criar horizontes e espaço vital fora do Brasil. Somos, sim, a 6.ª economia do mundo, como fanfarreiam todos os que Nelson Rodrigues chamava de "idiotas da objetividade". Mas só o somos por causa do tamanho da nossa economia (e da desvalorização do dólar)- não por causa do nosso dinamismo nem por causa do bem-estar da nossa população. No quesito dinamismo, a China, a Coreia, a Índia, a Rússia e outros menos cotados ganham de lavada.

Quanto ao quesito bem-estar da população, é melhor nem dizer nada.

O que é melhor que se diga em alto e bom som é que estamos muito atrasados. O capitalismo burocrático de Estado nos deixou na rabeira do desenvolvimento tecnológico e educacional. E sem isso não há como abrir fronteiras e horizontes no mercado mundial. Citem-se quaisquer produtos de ponta que fazem avançar as empresas e a economia no mundo de hoje: não são brasileiros, e só são nacionais sob licença de quem os criou lá fora. A indústria automotiva instalou-se aqui muito antes que em países que hoje nos vendem carros mais modernos que os nossos.

Em termos de capacidade inovadora, de competitividade, de agressividade comercial, de conhecimento dos mercados mais promissores - fatores decisivos no mundo de hoje -, convenhamos, não passamos de jecas-tatus, descalços e com bicho-de-pé. Precisamos aprender a calçar botinas para começar a andar.

Não bastam exortações.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Futuro :: Aécio Neves

A comunidade científica e lideranças empresariais se reuniram para divulgar, dias atrás, um alerta à nação. "Em Defesa da Ciência, da Tecnologia e da Inovação" é o título do manifesto. Trata-se de protesto público, clamoroso, contra os sistemáticos cortes que o governo federal vem impondo à área de pesquisa, no que diz respeito ao orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

O documento denuncia ainda que os recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) vêm sofrendo contingenciamentos regulares. Em outras palavras: ou são congelados ou são dirigidos para outras áreas. "O desenvolvimento científico e tecnológico do país não pode ser comprometido", diz o documento.

Não pedem muito os signatários. Apelam à presidente Dilma que restabeleça a proposta original, de R$ 6,7 bilhões para o orçamento de 2012 do ministério (o corte decretado chega a R$ 1,5 bilhão) e que preserve os recursos do FNDCT. O que setores importantes da sociedade reivindicam é que o governo perceba a gravidade da ameaça que paira sobre o país.

Governos responsáveis precisam estar comprometidos com o amanhã. A responsabilidade de uma administração não se limita ao período para o qual um governo foi eleito.

Todo governante precisa considerar o futuro como parte dos seus compromissos. Ele não nasce do acaso. Bases seguras para o desenvolvimento não se restringem a investimentos em infraestrutura. É fundamental o investimento em capital humano. Inovação é o novo nome do nosso tempo.

Subscrevem a petição tanto a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), quanto a Confederação Nacional da Indústria (CNI), as federações estaduais de Bahia, Minas, Paraná, Rio e São Paulo, assim como a Academia Brasileira de Ciências, a Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei) e a Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec).

Está claro, portanto, que não se trata da defesa de vantagens corporativas, mas, sim, de uma questão de amplo interesse nacional. A indústria assumiu essa posição porque entende a importância da pesquisa científica e da criatividade no ambiente altamente competitivo de uma economia globalizada. Pesquisadores se mobilizam em torno dessa cobrança porque sabem que a tecnologia e o conhecimento são a porta de entrada no novo mundo que se organiza.

Ao cortar verbas do setor, o governo Dilma ignora a dimensão do desafio que se apresenta para o país e o esforço heroico de brasileiros e instituições em que a inteligência e a imaginação teimam em resistir. Resistem em nome do Brasil que somos e do Brasil que ousamos querer ser.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Desindustrialização :: Paulo Brossard

Não é de hoje que se fala no excessivo peso da carga fiscal e extrafiscal que a ela se agrega. O próprio governo fala em aliviá-la, mas os dias passam e o gravame permanece com a solidez do Pão de Açúcar. Enfim, o setor industrial, ou importantes segmentos dele, aproximou-se da estagnação até entrar em declínio, caminhando para a paralisia; o resultado, visível a olho nu, é a desindustrialização, cuja gravidade é evidente. Ao lado desse fator, a invasão de produtos importados, principalmente chineses, agrava de tal maneira o quadro, que a situação se tornou alarmante. Mas só agora o governo admitiu o fenômeno e a necessidade de enfrentá-lo. Para certificá-lo, basta recordar que grandes empresas nacionais, grandes no porte e grandes em sua notável qualificação técnica e operacional, faz algum tempo, vêm deslocando seu potencial para a Ásia. In extremis, o governo deu sinal de vida. Foi preciso que o sucesso levasse a indústria nacional aos estertores para que o governo acordasse.

Os fatos falam por si. Entidade ligada ao setor noticiava que, nos últimos cinco anos, o trabalho na indústria nacional, em dólar, encarecera 46%, enquanto apenas 3,6% para os americanos, os preços da energia elétrica aqui subiriam 245% entre 2003 e 2011 e apenas 35,3% para os americanos; saliente-se que 34% do preço da energia corre por conta de impostos; para encerrar, a balança comercial, em 2005, acusava um superávit de R$ 9,1 bilhões em favor do Brasil e no ano passado o superávit se converteu em déficit de US$ 8 bilhões e, no momento em que escrevo, leio esta manchete em grande jornal paulista: "Brasil cresce menos que todos os países vizinhos".

A indicar que o problema não se restringe a um setor da atividade econômica, para o aumento do consumo das famílias em 2,1% no ano passado, a produção industrial cresceu 1,6%, e considerando tão só a manufatureira, excluído o minério de ferro, o crescimento se reduz a 0,1%.

É sabido que se os custos industriais no Brasil também são pesados pelos encargos que o oneram, sem excluir os de natureza trabalhista, na China, o regime laboral é geralmente considerado de mão escrava, no entanto, foi o ex-presidente Luiz Inácio que outorgou à China o diploma de economia aberta. Não estranha, por tudo isso, que a indústria nacional tenha perdido a competitividade, assim no mercado externo, como no interno, e mesmo aqui não tem como concorrer com a estrangeira.

Não desejo falar a respeito das medidas sumariamente arroladas pelo governo. Almejo sejam excelentes. Mas, as boas medidas podem tornar-se ineficazes quando extempestivas. A oportunidade é tão importante quanto a sabedoria da providência. À margem, longe de menosprezar o efeito da concorrência externa e sem falar em outros fatores, observo que ninguém se lembra de que a alta no tocante ao petróleo, por si só, bastaria para agravar o quadro, e ela não é improvável.

Volto a insistir que de todo o exposto resulta uma evidência, o descalabro finalmente reconhecido pelo governo não surgiu de súbito, resultado de um ciclone ou de uma enchente. Ele começou no governo passado, "o maior e melhor de todos os tempos"; sua sucessora declarou que quando da crise de 1998 o Brasil não tremeu e que agora não haveria de tremer. Pode ser que sim, pode ser que não. Ficando no fato de que o país tenha chegado ao atual grau de desindustrialização, desnecessário dizer que ele é aliado do desemprego, pois não há emprego sem empresa e empresa sem competitividade é entidade moribunda.

*Jurista, ministro aposentado do STF

FONTE: ZERO HORA (RS)

Segurando vela :: José de Souza Martins

A primeira vez em que fui ao cinema do meu bairro, aos 5 anos de idade, foi para "segurar vela" para minha prima. Ela e o jovem do açougue, onde comprava carne para minha mãe, estavam "tirando linha". "Tirar linha" era a etapa mais preliminar do interesse recíproco entre homem e mulher. Creio que era expressão dos agrimensores que, olhando pelo teodolito, de longe, tiravam a linha de retificação de ruas e medição de terrenos. Era olhar a distância, dando a entender interesse pela outra pessoa. Era o telégrafo sem fio das paixões que nasciam.

O relacionamento visual podia evoluir até o namoro na porta da casa da moça. Ou acabar antes de começar. Era um processo demorado e sofrido, até que a donzela obtivesse do pai consentimento para alguma proximidade. Depois de um tempo, o namoro passava para dentro de casa, na sala de visitas, com alguém "segurando vela", geralmente a mãe, que disfarçadamente fazia tricô ou bordava. "Segurar vela" queria dizer que, mesmo não havendo vela nenhuma, a acompanhante tinha a função da vela bem acesa para o namoro "às claras". Nada de escurinho e privacidade.

O namoro não podia evoluir nem muito depressa nem muito devagar. Muita pressa significava que, apesar da vigilância, o moço avançara o sinal. A pressa era jeito da moça ainda casar vestida de branco, sem "dar na vista". Mentia-se "pelas costas", fazendo de conta que não se notava o ventre crescido, que chamasse a atenção de vizinhos e linguarudos. Fingimentos em nome da honra. E se o rapaz tardasse em formalizar o casamento era namorado aproveitador, empatando o tempo da moça, tempo de "encontrar outro e melhor".

Intuí o básico dessas regras na mera tarde daquele domingo de minha primeira ida ao cinema. Quando o moço veio buscar minha prima, meu pai disse-lhe que mandasse o rapaz entrar. Ela morava conosco e meu pai cumpria as funções do pai falecido. Estava muito bravo, ou fingia estar. Interpelou o donzelo, ralhando. Ele saltara etapas do teatro da honra: fora diretamente do "tirar linha" para o "convidar a moça para o escurinho do cinema", sem respeitar as etapas intermediárias. Ansioso para resolver a coisa em tempo de ver o filme, o rapaz acabou numa promessa de namoro firme e até de casamento. Vestiram-me rapidamente o terninho de marinheiro, ridículo traje dos meninos da época.

E lá fomos nós de mãos dadas para o primeiro filme de minha vida. Na verdade, para segurar vela para a prima. Na entrada, o moço comprou ainda balas para a namorada. Chegamos quando a sessão já havia começado. Passava o trailer de um filme em preto e branco: um homem carregava um menino nos ombros e cantava: "Upa, upa, cavalinho alazão!" Depois, o filme, um desenho animado: Alô, amigos, de Walt Disney. Quando as balas acabaram, dormi. Sorte deles: a vela apagara.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

O teu riso:: Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

domingo, 25 de março de 2012

OPINIÃO DO DIA – Hobsbawm: Gramsci teórico da política

Permitam-me dizer, para concluir, porque escolhi, neste capítulo, concentrar-me em Gramsci como teórico político. Não foi só por ele ser um teórico invulgarmente interessante e admirável. Nem, decerto, porque ele oferece uma receita para a forma como os partidos e os Estados devem organizar-se. Como Maquiavel, ele é um teórico de como as sociedades deveriam ser fundadas ou transformadas, não de pormenores constitucionais e muito menos de trivialidades de que se ocupam os jornalistas políticos. Foi porque, entre os teóricos marxistas, foi ele quem percebeu com maior clarividência a importância da política como dimensão especial da sociedade e porque ele compreendeu que a política envolve mais do que o poder. Isso é de enorme importância prática, e não menos para os socialistas.

Ao insistir na importância crucial da política, Gramsci chamou a atenção para um dado fundamental para a construção e a vitória do socialismo. Essa é uma advertência a que devemos estar atentos. E, se um importante pensador marxista fez da política a essência de sua análise, vale muito a pena lê-lo, estudá-lo e assimilá-lo.

HOBSBAWM, Eric. Como mudar o mundo, p.300-1. Companhia de Letras, S. Paulo. 2011.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Apenas 70 de 1.209 casos de corrupção têm punição
No Senado, um plano de saúde sem limites
DNA de óleo poderá conter vazamentos

FOLHA DE S. PAULO
Um em cada 262 adultos brasileiros está na prisão
Folga no caixa segura alta da gasolina, diz Graça Foster
Cidade de Lula é a que mais recebe verba do governo

O ESTADO DE S. PAULO
Incentivo às empresas em 6 anos soma R$ 97,8 bi
Medidas mais fortes devem ser adotadas
Dilma investe na 'vida real' para desviar o foco da crise
O desafio do PSDB
Patriota nega omissão do Brasil na Síria

CORREIO BRAZILIENSE
Neonazistas atuam no DF há 30 anos

ZERO HORA (RS)
RS: campeão em repetência
Conforto Gre-Nal

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Setor de serviços é pouco valorizado

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

A aranha, sua teia e a judicialização da política :: Luiz Werneck Vianna

Forçando nas tintas, pode-se sustentar que o Brasil se tornou, sem sinais de mudança no horizonte, a capital mundial da judicialização da política, pouco importando se estamos ou não satisfeitos com esse fato nada trivial que desafia ortodoxias, como vetustas teorias sobre a separação entre os três Poderes, cânon dogmático que, embora já claudicante, ainda é influente tanto em países de sistemas jurídico-políticos com matriz na civil law quanto nos de common law. Entre nós, o senso comum, tal como a mídia o registra, tem associado esse processo a um ativismo judicial que estaria sendo exercido, em matéria de natureza política, por juízes e tribunais, especialmente por parte do Supremo Tribunal Federal (STF), que careceriam de representação democrática - magistrados não são eleitos - para intervir criativamente na produção das normas. Nesse tipo de diagnóstico, costuma-se datar a presença cada vez mais afirmativa do Direito, de suas instituições e seus procedimentos na vida social a partir da vigência da Carta Magna de 1988, assim como limitar a observação da sua incidência nas relações entre os Poderes Legislativo e Judiciário. O senso comum erra nos dois casos.

Com efeito, para não recuar muito na História, mas sem deixar de lembrar a presença do papel central das elites imperiais, socializadas no campo do Direito, que levaram a cabo a obra de instalação do Estado-nação como um exercício criativo de Direito Administrativo, tão bem estudadas no clássico A Construção da Ordem, de José Murilo de Carvalho (Rio, Campus, 1980), e em Visconde do Uruguai - Centralização e Federalismo no Brasil, de Ivo Coser (Editora UFMG, 2008), não se pode explicar o processo de modernização burguesa do País, a partir da Revolução de 1930, sem atentar para o papel estratégico do Direito, de suas instituições e seus procedimentos na formatação de um mercado de trabalho nacionalizado e de um "mercado" político democratizado.

Desde aí se fixaram duas jurisdições institucionalizadas em ramos do Judiciário, a trabalhista e a eleitoral, ambas, hoje, exercendo papéis centrais na democracia brasileira, recobrindo tanto o mundo do trabalho como o da competição político-eleitoral. Sob Getúlio Vargas, a moderna República burguesa retomou a política, vigente no Império, de procurar realizar a modelagem da sociedade por elites do Estado, em especial as de formação jurídica, pela via da adoção da fórmula corporativa que trouxe para o interior da malha estatal a vida associativa dos trabalhadores a fim de serem expostos à sua pedagogia. Oliveira Vianna, jurista de ação decisiva na elaboração da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), não à toa tem a obra do visconde de Uruguai (Paulino José Soares de Sousa), o estadista da centralização administrativa sob o Império, como objeto de culto.

Assim, se coube à ação da aranha, como na famosa metáfora de Weber - no caso, os estadistas de formação neopombalina, chamados assim por Raimundo Faoro -, a urdidura de uma teia com essa característica, ela, em sua faina, já é prisioneira de sua própria obra. É de ver que a democratização da vida republicana, tal como consagrada na Constituição de 1988, após inédita mobilização social e política em favor das liberdades civis e políticas, em princípio, um momento propício a rupturas, longe de apartar a política do Direito, levou a resultado oposto: a opção do constituinte (a "aranha") foi a de aproximá-los, aprofundando, aperfeiçoando e democratizando as relações entre eles. Sobretudo, instalou a sociedade civil como novo e importante personagem na trama entre essas duas dimensões, tal como nas ações de controle da constitucionalidade das leis, nas ações civis públicas, nas ações populares, entre tantos outros instrumentos relevantes. Para reforçar essa nova presença, redefiniu o papel do Ministério Público, dotando-o da capacidade de representá-la.

Com essa nova arquitetura da teia, expurgada dos seus elementos autoritários, mas contínua, como se tem sugerido, com seu desenho anterior, o Direito, seus procedimentos e instituições, passa a conhecer novas possibilidades, admitindo, in nuce, em meio a um consenso silencioso, a sua conversão, em lugar de emancipação e até da conquista de direito novo, como tem ocorrido em alguns casos de decisões de juízes singulares e tribunais inferiores (entre tantos, Werneck Vianna, Burgos, Dados, 4, volume 48, 2005), e evidente na decisão do STF sobre o reconhecimento legal das relações homoafetivas, amplamente legitimada pela opinião pública.

A decisão recente do STF que julgou inconstitucional a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), sob o fundamento de que a tramitação da medida provisória que o criou não teria obedecido a disposições expressas na Constituição, reacende vivamente a controvérsia sobre a judicialização da política, uma vez que ultrapassa em suas repercussões o próprio teor da coisa julgada, de óbvia relevância para a afirmação do papel do Legislativo na produção das leis. Tal como se constatou, logo que proferida a decisão, por esmagadora maioria, a validade de 560 medidas provisórias, promulgadas com o mesmo vício de origem da que criou o ICMBio, muitas de importância vital, estaria em situação de risco, instalando um cenário de insegurança jurídica de efeitos imprevisíveis. Medindo as consequências, sem esconder sua inspiração em correntes pragmatistas - caso manifesto do ministro Luiz Fux -, a Suprema Corte voltou atrás em sua decisão e proclamou a constitucionalidade da lei que criou o ICMBio.

Com essa decisão, a "aranha" não abandona, decerto, a sua teia, mas a sua ação responsiva diante de um fato social e político de suma gravidade flexibiliza e alarga a sua trama. O consequencialismo, mesmo que por via acidental, ganha foro de cidade no Direito brasileiro.

Luiz Werneck Vianna, professor-pesquisador da PUC-Rio.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Cidade de Lula é a que mais recebe verba do governo

A cidade onde mora o ex-presidente Lula, São Bernardo, é a que mais recebeu verba para obras do governo Dilma – foram R$ 52,4 milhões, o equivalente a R$ 93 por eleitor. O prefeito Luiz Marinho (PT) diz que “ser amigo de Lula ajuda”, mas é preciso ter “bons projetos”.

Dos 10 municípios que mais receberam recursos proporcionalmente, 6 são governados pelo PT.

Dilma repete Lula e beneficia prefeitos do PT com verbas

Seis das dez cidades do país que mais receberam recursos desde a posse da presidente são chefiadas por petistas

Cidade do ex-presidente Lula, São Bernardo é campeã em repasses para obras; redutos tucanos são preteridos

Silvio Navarro, Mariana Carneiro

SÃO PAULO - Nos seus primeiros 15 meses, o governo Dilma Rousseff repetiu o modelo adotado pelo ex-presidente Lula e privilegiou prefeituras do PT na partilha de recursos federais, com destaque para São Bernardo do Campo, berço político do antecessor.

Levantamento feito nas 81 maiores cidades do país (mais de 200 mil eleitores) mostra que das 10 que mais receberam recursos de Dilma desde janeiro de 2011, 6 são governadas pelo PT. Outras quatro são chefiadas por aliados (PMDB, PP e PDT).

Cidade onde mora o ex-presidente, São Bernardo desponta no ranking.

Desde janeiro do ano passado, foram transferidos R$ 52,4 milhões, o equivalente a R$ 93 por eleitor.

O prefeito Luiz Marinho (PT), candidato à reeleição, é hoje um dos principais interlocutores de Lula e o favorito do ex-presidente para ser o candidato do PT ao governo de São Paulo em 2014.

"Amigo do Rei"

"Ser amigo do Lula ajuda, mas, se não tiver bons projetos, pode ser amigo até do papa que não vai andar", diz Marinho. "Quando assumimos, a cidade estava há seis anos parada."

As verbas que chegaram aos municípios foram repassadas por meio de convênios entre os prefeitos e a União.

Neste ano, estes convênios só poderão ser firmados até abril por restrição eleitoral.

Os repasses seguem uma escalada de crescimento nos últimos anos. Em 2010, foram R$ 79,2 por eleitor, sendo que nos dois anos anteriores não havia atingido R$ 10.

O dinheiro é destinado a obras, como a construção do Hospital de Clínicas, projetos habitacionais, além de praças e quadras esportivas.

Além de São Bernardo, estão entre as campeãs de verba Porto Velho (RO), Rio Branco (AC), Betim (MG), Petrópolis (RJ) e Carapicuíba (SP), todas chefiadas pelo PT.

São Paulo, a maior cidade do país, faturou R$ 0,62 por eleitor. O Rio, mesmo com os eventos que vai sediar nos próximos anos, como a Copa e a Olimpíada, levou o equivalente a R$ 5,72.

"O PT é um partido que propaga a política ideal quando é oposição e pratica, mais do que ninguém, a política real quando é governo", diz Rubens Figueiredo, cientista político pela USP. "Isso vale para divisão de verbas, alianças políticas, tudo."

No pé da tabela, estão cidades como São José dos Campos (SP), reduto tucano com mais de 400 mil eleitores. Desde 2011, recebeu cerca de R$ 500 mil (R$ 0,32 por eleitor) para obras no museu da igreja de São Benedito. O prefeito Eduardo Cury (PSDB) reclama da demora no repasse.

"Parar tudo e esperar pela verba sairia mais caro, então fizemos com recursos próprios", diz. "Não tiramos a placa do governo federal, com medo de que os recursos não viessem. Agora, argumentam que a obra já acabou e que talvez não possam nos pagar", completa.

O tucano diz que mantém uma equipe de técnicos para elaborar projetos e que vai a Brasília com frequência para entregar propostas: "De dez projetos que protocolamos, um é contemplado".

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dilma investe na 'vida real' para desviar o foco da crise

Disposta a usar sua popularidade para enfrentar as pressões do Congresso, a presidente Dilma Rousseff apostará na comunicação com a classe média e com as camadas menos favorecidas para transferir a crise política para os parlamentares. Com a expectativa de melhorar na economia, Dilma pretende se amparar na “vida real”, com medidas de estímulo à produção. A estratégia é tirar o foco da crise e mostrar que o governo não está paralisado.

Dilma aposta na "vida real" contra crise

Após sequência de derrotas no Congresso, presidente espera melhora no cenário econômico para tirar governo da agenda negativa

Vera Rosa

BRASÍLIA - Disposta a usar sua popularidade como escudo para enfrentar as pressões do Congresso, a presidente Dilma Rousseff apostará na comunicação com a classe média e com as camadas menos favorecidas para jogar a crise política no colo dos parlamentares. Com a expectativa de melhora no cenário econômico, Dilma pretende se amparar no que chama de "vida real", com medidas de estímulo à produção, para sair da agenda negativa.

A estratégia da presidente, que retomou as entrevistas a veículos de comunicação, consiste em desviar a atenção da crise na base aliada para mostrar que o governo não está paralisado pela política. Depois da faxina administrativa, o Planalto quer formar uma nova maioria no Congresso e conta com o desgaste da imagem do Legislativo para obter apoio popular na briga contra o toma lá dá cá.

Na sexta-feira, ao avaliar as derrotas do governo no Congresso nos últimos 20 dias, Dilma tranquilizou auxiliares, que não esconderam a preocupação com a tática adotada até agora, de endurecer as negociações com velhos caciques da política, liderados pelo PMDB. Mesmo assim, ela escalou ministros para ajudar a apagar o "fogo amigo" contra a titular das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, e espera que sua viagem à Índia, nesta semana, sirva para esfriar a temperatura da crise.

"Até agora, só vi provocações, mas nenhuma decisão é irreversível", disse Dilma, que um dia antes chegou a pedir apoio do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), para o projeto de reforma do Código Florestal. Não conseguiu. Naquela mesma quinta-feira, em reunião com 28 empresários que formam a elite do PIB, a presidente deu sinais de que a trégua também faz parte de seus planos na queda de braço com o Congresso.

Ao lembrar da Resolução 72 - que reduz o ICMS interestadual para importações e está empacada no Senado -, Dilma perguntou quem na sala era de Minas Gerais. Cinco empresários levantaram o braço e, diante do ar de interrogação da plateia, ela abriu um sorriso. "Pois é, mineiro só coloca projeto em votação quando sabe que vai ganhar", constatou a presidente, que é mineira, ao cobrar empenho dos industriais para a aprovação da resolução.

Não foi essa, no entanto, a estratégia usada pelos articuladores políticos do Planalto nos últimos dias, quando Dilma sofreu revés no Congresso. Conflagrada, a própria base do governo na Câmara ajudou a derrubar a votação da Lei Geral da Copa, na quarta-feira, porque não conseguiu arrancar do presidente da Casa, Marco Maia (PT), o compromisso de marcar uma data para levar o Código Florestal a plenário.

O apoio do PDT à obstrução da Lei da Copa custou ao partido mais um período de molho para nomear o ministro do Trabalho. O mais cotado é o deputado Brizola Neto (PDT), mas Dilma não esperava a insubordinação dos pedetistas e mandou congelar a indicação até sua volta da Índia, onde ela participará da reunião dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Derrotas. Na Câmara, os aliados deram sinal verde para a convocação da ministra Miriam Belchior (Planejamento), para explicar os problemas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Além disso, os deputados aprovaram convite para audiências com o ministro Guido Mantega (Fazenda) e com Sepúlveda Pertence, que comanda a Comissão de Ética da Presidência.

A manobra põe o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) na linha de tiro e tem o objetivo de atingir Dilma. Amigo da presidente, Pimentel é investigado pela Comissão de Ética por suas atividades como consultor.

A intenção de fustigar Dilma não é de hoje: no último dia 7, o Senado também vetou a recondução de Bernardo Figueiredo, próximo a ela, para a direção da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Foi a partir desse motim que a presidente decidiu substituir os líderes do governo na Câmara e no Senado. "Ninguém acreditava que ela tivesse coragem de fazer isso", confessou um ministro ao Estado.

Para completar o inferno astral, ameaças de CPI contra o Planalto começaram a pipocar no Senado. PSDB, DEM e PPS tentam convencer o PR a assinar requerimento de CPI para investigar denúncias de fraudes em contratos com o hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Para o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), a presidente Dilma precisa voltar a conversar com as bancadas aliadas se quiser distensionar o ambiente. "Não dá para esticar mais a corda. O parafuso, quando se aperta demais, espana", afirmou Raupp.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Ao lado de Dilma, ministras poderosas não ajudam a melhorar clima na base

Ideli e Gleisi Hoffmann seguem o estilo da presidente em negociação política

Luiza Damé, Catarina Alencastro

BRASÍLIA. O momento de tensão que o governo federal vive com sua base aliada no Congresso se mostra cada vez mais longe de ser superado. Não só pela própria característica da presidente Dilma Rousseff - , que não tem paixão pela negociação política - , como também pela falta de respaldo necessário para que suas principais auxiliares no Palácio do Planalto amoleçam a relação com os parlamentares.

Ao invés de atuar como bombeiros dessa relação incendiária, tanto a coordenadora da área política, Ideli Salvatti, ministra da Secretaria de Relações Institucionais, quanto a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, ajudam a refletir ainda mais o estilo da presidente. A atuação das ministras na articulação política segue a linha e o tom ditados por Dilma.

Ideli Salvatti, embora tenha sido considerada uma boa líder do governo Lula no Congresso, nunca foi conhecida por ser afável nas negociações políticas. E recrudesceu esse temperamento agora no governo Dilma. Enquanto isso, Gleisi Hoffmann, estreante na política como senadora, incorporou a função de gestora do governo e não tem se envolvido nas articulações com a base aliada. Inicialmente, esperava-se esse papel, ainda que de forma mais discreta, equivalente à atuação que teve no Senado ao longo do ano passado. O máximo que a ministra Gleisi ousa é receber governadores para tratar de assuntos administrativos.

Esse comportamento das duas ministras do núcleo do Palácio do Planalto tem contribuído para potencializar as insatisfações dos apoiadores do governo com o jeito Dilma de ser.

FONTE: O GLOBO

'Dilma dá ordem, e eu cumpro', diz Ideli Salvatti

Líder aliado se queixa do tratamento recebido pelo Congresso

BRASÍLIA. A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, que está na linha de frente junto com os líderes governistas no Congresso, tem intensificado suas conversas com os aliados. Mas poucas vezes aparece em público para apaziguar, fazer um gesto de conciliação.

Estreante num cargo eletivo, Dilma raramente toma a iniciativa de ligar para um líder partidário, por exemplo. Quando o faz, informa o interlocutor sobre sua posição e, desajeitada, acaba atropelando a pessoa designada para a missão de negociar. Uma das coisas mais difíceis para Dilma, segundo auxiliares próximos a ela, é ter de lidar com o Parlamento.

Quem tem mais experiência política no Planalto chega a discordar da forma com que Dilma executa suas decisões e alerta a presidente sobre os riscos de manter permanentemente a estratégia de recrudescer a relação, pois o clima pode piorar ainda mais. No entanto quem está subordinado a Dilma não se atreve a descumprir suas determinações.

- Para cada novo papel que eu desempenho, tenho que assumir uma nova postura. A presidenta Dilma dá uma ordem, e eu cumpro. Isso está muito claro para mim - disse a ministra Ideli Salvatti.

Insatisfação de aliados é com mudança radical

A ministra reconhece que sua tarefa, durante a crise, está longe de terminar e que ainda terá que conversar muito com os líderes dos partidos da base para que tudo se resolva.

- Muita hora nessa calma - brinca Ideli.

Boa parte da insatisfação dos aliados do governo é com a mudança radical que Dilma imprimiu ao estilo do ex-presidente Lula. Na época de Lula, era ele quem comandava pessoalmente a articulação política e dava suporte ao ministro da área - ainda assim, sofria derrotas no Congresso. Na avaliação de um ministro de Lula, cabe ao coordenador político fazer a intermediação entre o que querem os parlamentares e o que o governo pode dar. No governo Dilma, segundo esse ministro, o procedimento agora é partir para o embate.

- O cargo da ministra Ideli só existe se atrás dele houver gosto pela política - disse.

- O governo trata os parlamentares como se o Congresso fosse um departamento do governo - queixa-se um líder aliado, sem esperança de que os políticos voltarão a ter os afagos e agrados que recebiam do ex-presidente Lula.

FONTE: O GLOBO

'Não há crise nenhuma' com a base, afirma Dilma

"Perder e ganhar votações faz parte do processo democrático", diz presidente

Em entrevista à "Veja", afirmou que não gosta "desse processo de toma lá, dá cá" e reclamou do uso do termo "faxina"

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff afirmou que "não há crise nenhuma", ao referir-se ao momento de maior tensão entre seu governo e a base de apoio no Congresso Nacional.

Em entrevista à revista "Veja", Dilma disse que "perder e ganhar votações faz parte do processo democrático" e que "crise existe quando se perde a legitimidade".

A presidente definiu a crise existente desde que descontentes do PMDB lançaram manifesto contra o espaço do PT no governo como "um momento tenso, natural em um ano de eleições municipais".

Ela não comentou, contudo, a série de reveses políticos, que não se resumiram à perda de votações. E vocalizou o que seus auxiliares vêm dizendo: "Não gosto desse negócio de toma lá, dá cá".

Reclamou do termo "faxina" para referir-se às mudanças causadas por suspeitas de corrupção no governo. "Parece preconceituoso. Se o presidente fosse um homem, vocês falariam de faxina? Isso é bobagem", afirmou.

A entrevista foi na quinta, após encontro com empresários no Palácio do Planalto.

Dilma repetiu o que disse a eles: negou protecionismo, mas prometeu defender a indústria nacional, além de cobrar investimentos para tentar retomar o crescimento. E prometeu diminuir a carga tributária. "Vamos baixá-la."

Sobre a China, ela afirmou que a mudança do padrão econômico de exportador para importador do país asiático será benéfica ao Brasil.

Disse ainda que não tentou "dar lições" à chanceler alemã, Angela Merkel, quando criticou o fluxo de capital descontrolado rumo ao Brasil.

"Obrigada, mas não queremos pagar as exorbitantes taxas de permanência desses empréstimos. Eu quis deixar claro que o Brasil não quer mais ser visto como destinação de capital especulativo."

A presidente viaja hoje para a Índia, e seu vice, Michel Temer, vai à Coreia do Sul. Com isso, o presidente da Câmara, Marco Maia, assumirá a Presidência da República.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Os efeitos da crise nas bases eleitorais

Enfrentamento entre o Planalto e caciques políticos vai além dos atrasos nas votações na Câmara e no Senado: muda a relação de força com aliados nos estados e municípios

Paulo de Tarso Lyra

A presidente Dilma Rousseff tem travado, nas últimas semanas, embates com alguns grandes caciques políticos nacionais, que se agravaram após a derrota imposta ao Planalto na recondução de Bernardo Figueiredo para a presidência da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e nas trocas das lideranças governistas no Congresso. Mas esses mesmos personagens não se incomodam apenas com a perda de prestígio na máquina pública federal. O novo reordenamento político pretendido pela presidente também afeta as relações nos estados e municípios, onde eles mantêm seus redutos eleitorais.

Líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL) está na berlinda após a decisão de Dilma de substituir o peemedebista Romero Jucá (PMDB-RR) da liderança do governo na Casa. A presidente escolheu para o posto o também peemedebista Eduardo Braga (AM), um dos porta-vozes do grupo dissidente da legenda. Pessoas próximas a ele também enxergam nesse movimento um alerta para os planos do alagoano de ser presidente da Casa no próximo ano. "Sarney já dá sinais de que poderá não apoiar Renan. Ele gosta muita do líder do PMDB, mas gosta mais de manter o poder no Congresso", afirmou um integrante da base governista que não simpatiza com nenhum dos dois peemedebistas.

Renan tem um reduto em Alagoas considerável. Dos 102 municípios do estado, 100 são comandados por prefeitos aliados, inclusive de partidos de oposição ao governo federal. Mesmo assim, nas eleições para o Senado em 2010, ele acabou superado por Benedito de Lira (PP). "Não podemos esquecer que Renan sofreu um impacto com o escândalo Mônica Veloso", disse um aliado, comprovando que as questões nacionais refletem nos estados de origem dos políticos.

Outro caso emblemático é o do senador Blairo Maggi (PR-MT). "Nós temos mais ou menos 40 prefeitos eleitos pelo PR em Mato Grosso. Mas quando eu concorri ao Senado, tive ao meu lado os prefeitos dos 141 municípios", disse ele, ao Correio. Blairo, que antes de assumir uma cadeira no Senado foi eleito duas vezes governador, teve o ex-secretário de Governo e afilhado político, Luiz Antônio Pagot como presidente do Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre (Dnit).

Quando Dilma fez a limpa no Ministério dos Transportes e demitiu Pagot do Dnit, começaram os enfrentamentos de Blairo com o Planalto. Dilma chegou a convidá-lo para ser ministro e ele recusou, alegando compromissos empresariais. Hoje, assina pedidos de comissões parlamentares de inquérito (CPIs) para fustigar o governo a encontrar um novo espaço para o PR. "Dilma queria manter o PR nos Transportes, ofereceu a pasta para o Blairo e ele não quis. Já são nove meses nessa enrolação, o que esperam de nós?" questionou o líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (BA).

Nomeações

Quem também anda cabisbaixo é o senador Alfredo Nascimento (PR-AM). Ele até conseguiu uma vitória política no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que rejeitou, por unanimidade, o pedido de cassação do diploma do senador amazonense. Mas ele viu a ascensão de Eduardo Braga à liderança do governo na Casa, um desafeto regional que ainda tripudiou sobre o partido presidido por Nascimento em uma de suas primeiras entrevistas no novo cargo. "Só voltaremos a conversar com o PR se eles pararem de radicalizar", disse Braga.

O líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), é outro que constantemente entra em crise com o Planalto. A mais recente foi a negociação sobre o Código Florestal, matéria que já causara atrito com Dilma no ano passado. Agora, ela reclama que o peemedebista participou das negociações no Senado e diz não se lembrar do acordo depois que a matéria chegou à Câmara. Alves tem 40 prefeitos aliados no Rio Grande do Norte. Filiou recentemente mais 10 e planeja chegar, em outubro, a 70 prefeituras sob o comando do PMDB. Mas começa a desconfiar que o sonho de presidir a Câmara no biênio 2013-2014 não vai se concretizar.

O líder do PR na Câmara, Lincoln Portela (MG), afirma que, para os prefeitos e eleitores, não adianta tanto poder nacional se isso não se materializar em benesses locais. "Eu posso dizer que já apresentei mais de 100 projetos e que tenho 20 proposições tramitando na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Se eu não conseguir emendas para os postos de saúde, para a quadra de esportes e para a ponte, ninguém vai querer saber de mim", resumiu Portela.

Um analista reconhece que Dilma está impondo um ritmo diferente nessas relações. Além da demora na nomeação de cargos e na liberação de emendas parlamentares, a presidente não costuma levar os parlamentares da base aliada nas comitivas oficiais que visitam os municípios. Dessa maneira, não existem as fotos com ministros e a própria presidente. "Sem isso, como mostrar prestígio perante a base eleitoral?" declarou um especialista em marketing político.

Dilma queria manter o PR nos Transportes, ofereceu a pasta para o Blairo e ele não quis. Já são nove meses nessa enrolação, o que esperam de nós?" Walter Pinheiro (BA), líder do PT no Senado

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Aliados tentam assegurar vitória folgada a Serra

Preocupação é evitar que adversários usem o discurso de que o PSDB não tem candidato de consenso em São Paulo

Silvia Amorim

SÃO PAULO. A primeira prévia da história do PSDB em um grande colégio eleitoral, hoje, em São Paulo, deverá recolocar o ex-governador José Serra no cenário eleitoral, mas também posicionar o partido diante de um tabu. Numa legenda em que a consulta a filiados nunca foi prática comum, a experiência na maior cidade do país tende a reacender a pressão sobre o uso das prévias para escolha do presidenciável tucano em 2014.

Cerca de 6 mil filiados são esperados hoje em 55 locais de votação na capital paulista. Além de Serra, disputam o voto da militância o deputado federal Ricardo Trípoli e o secretário estadual de Energia, José Aníbal. Fiador da prévia tucana, o governador Geraldo Alckmin abrirá a votação por volta das 9 horas. Pela manhã votarão ainda Aníbal e Tripoli. Serra irá às urnas a partir das 12h30m.

Segundo lideranças do PSDB, a vitória do ex-governador é fato consumado. A declaração de voto de Alckmin em Serra, há dez dias, tem sido apontada como o maior indicativo disso. Na reta final, a preocupação dos aliados de Serra era assegurar a ele uma vitória folgada, entre outros motivos, para evitar dar aos adversários o discurso de que a candidatura não é consenso nem no partido. Assim que o resultado for anunciado - por volta das 16h - , um ato com Serra, Aníbal e Trípoli será feito para demonstrar unidade.

Apesar do favoritismo do ex-governador, Tripoli e Aníbal não abandonaram o discurso da vitória.

- Estou confiante que vou ganhar. Foram meses de diálogo com a militância e compartilhando com eles o desejo de mudança e participação - disse Aníbal, na sexta-feira.

-Trabalhamos muito para isso. Estou confiante. Acho que o grande vitorioso dessas prévias é o filiado, que resgatou sua autoestima - afirmou Trípoli.

Serra, medindo as palavras, depois da polêmica que causou a declaração de que assinara um "papelzinho" na eleição de 2004 ao se referir à promessa de não abandonar o cargo de prefeito, passou a semana evitando o clima de já ganhou.

- Vamos esperar. Não vou ficar fazendo previsões - disse na quarta-feira, quando fez seu último evento público antes da consulta aos filiados.

A prévia tucana foi acompanhada de perto pela direção nacional do PSDB. Ela tem sido considerada a primeira grande experiência do partido, embora tenha sido feita no Acre, em 2008 e, nesta semana, em Embu das Artes (SP) para definir o candidato a prefeito.

- Isso mudará a visão das pessoas sobre o partido, que se mostrará mais democrático - disse o presidente municipal do PSDB, Julio Semeghini.

Nas duas últimas eleições presidenciais, o partido resistiu às prévias. Nas duas ocasiões, aliados de Serra trabalharam para evitar a disputa interna. Hoje, dois anos antes do pleito de 2014, há grupos defendendo a realização delas para a definição do próximo presidenciável. Para disputar com o senador Aécio Neves, a lista de nomes lançados nos bastidores já é grande. Inclui os senadores Álvaro Dias e Aloysio Nunes Ferreira e o governador Marconi Perillo. Serra promete desta vez não abandonar a prefeitura, se eleito, para lançar-se na eleição.

Nesta semana, Serra evitou falar sobre a repercussão que a prévia poderá ter no partido.

- A ideia de fazer prévia aqui, em parte, foi minha em outro momento. Mas é uma experiência que vai ter que ser avaliada ainda - comentou.

FONTE: O GLOBO

Fantasmas do governo Lula atormentam Haddad

Envolvidos em escândalos agirão nos bastidores

Sérgio Roxo, Tatiana Farah

SÃO PAULO. Enquanto o ex-presidente Lula toma as rédeas da campanha de seu pupilo, o ex-ministro Fernando Haddad, os fantasmas de seu governo atormentam a pré-campanha petista em São Paulo, a ponto de dificultar a nomeação dos coordenadores. Envolvidos com o dossiê dos aloprados e o escândalo da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa enfrentam dificuldades para ganhar espaço na campanha.

O deputado Ricardo Berzoini foi indicado para comandar os petistas no pleito, mas teria dito a Haddad ter se impressionado com reportagens que o associam a um dos piores escândalos da campanha de 2006, o dossiê contra os tucanos. Outro nome cogitado pelos petistas seria o de Paulo Frateschi, ex-presidente do PT-SP. Mas ele também teve o nome citado no escândalo. Hoje coordenador da comissão eleitoral nacional do PT, Frateschi nega que tenha sido convidado:

- Se foi cogitado, ninguém me avisou. E não tenho nenhum interesse na coordenação, porque estou trabalhando no país todo.

Os petistas negaram que o ex-ministro Antonio Palocci vá atuar como tesoureiro informal. Não queriam que o caso da caseiro respingasse na campanha. Palocci deve agir apenas nos bastidores.

Para um dirigente do PT, o partido foi "ferido de morte" em SP após os escândalos. Com isso, nomes como o do ex-ministro José Dirceu são quase proibidos. Mas Dirceu ainda age nos bastidores. Ele e João Paulo Cunha, réus do mensalão, terão de avalizar os coordenadores de campanha a serem escolhidos.

FONTE: O GLOBO

O desafio do PSDB

José Aníbal, José Serra e Ricardo Trípoli disputam hoje as prévias para decidir quem será o candidato do partido à Prefeitura de São Paulo.

PSDB escolhe candidato à Prefeitura de SP com desafio de chegar à periferia

Bruno Boghossian

O PSDB escolhe hoje seu candidato à Prefeitura de São Paulo entre três nomes cujos redutos eleitorais estão concentrados em áreas de classe média da cidade, o que reforça o desafio tucano de ampliar espaço na periferia - tradicionalmente dominada pelo PT. O desempenho de José Serra, José Aníbal e Ricardo Tripoli nas urnas em 2010 - o primeiro disputou a Presidência e os outros uma cadeira na Câmara dos Deputados - mostra que os políticos inscritos na prévia têm um perfil de voto semelhante: mais intenso em bairros como Perdizes e esvaziado em regiões como Grajaú.

Estão aptos a votar hoje 20.838 filiados ao PSDB - quase metade na zona leste. O partido estima, no entanto, que apenas 6 mil devem comparecer aos 58 locais de votação entre 9h e 15h. Os tucanos mais pessimistas acreditam que o número de eleitores pode ficar abaixo de 4 mil. Tablets serão usados como urnas eletrônicas e o candidato do partido na eleição de outubro poderá ser conhecido a partir de 16h.

O nome de Serra é o mais conhecido entre os postulantes do PSDB e figura no topo das pesquisas recentes de intenção de votos para a Prefeitura de São Paulo. O eleitor típico de Serra na capital, conforme análise feita pelo Estado no resultado eleitoral de 2010, está concentrado nas mesmas regiões que seus dois concorrentes na prévia.

Há dois anos, Aníbal, Serra e Tripoli tiveram seus melhores desempenhos nas urnas de Perdizes, Lapa, Santana, Vila Mariana, Indianópolis e Pinheiros. As menores votações foram registradas em Piraporinha, Guaianases, Parelheiros, Itaim Paulista e Jardim Helena - mais afastados do centro e com menor renda.

Dada a pequena inserção do PSDB nessas regiões, os três pré-candidatos reforçaram suas bases para conquistar votos na prévia de hoje. As agendas de campanha privilegiaram o contato com filiados tucanos concentrados em bairros da periferia que são cabos eleitorais em potencial. Parte deles é ligada a vereadores tucanos ou tem projetos sociais em parceria com os governos municipal e estadual.

Nos últimos meses, Aníbal fez encontros com militantes principalmente na zona leste e na zona sul, onde, coincidentemente, não conseguiu votações expressivas para deputado em 2010. Seu pior desempenho foi em Parelheiros, extremo sul da capital, onde sua candidatura a deputado teve apenas 0,16% dos votos. Em Perdizes, na zona oeste, teve o apoio de 4,74% dos eleitores.

Com menos tempo para campanha, dada sua entrada tardia no processo da prévia, a equipe de Serra reuniu filiados de diferentes bairros em seus eventos. O ex-governador foi esta semana ao Jardim Ângela, onde conquistou 21,75% dos votos no primeiro turno da última eleição presidencial - quase metade de sua média no município.

O maior número dos encontros de Tripoli foi realizado nas zonas eleitorais em que seu desempenho foi fraco em 2010: Parelheiros (0,25% dos votos), Grajaú (0,34%) e Vila Jacuí (0,45%).

Diagnóstico. Os tucanos afirmam, no entanto, que não é preciso dominar a periferia para ganhar a eleição em São Paulo. Em 2004, Serra chegou à Prefeitura apesar de sua melhor votação estar concentrada em Pinheiros, Indianópolis e Jardim Paulista. Apenas derrotas largas na zona sul e na zona leste poderiam ser consideradas irreversíveis.

O mapa dos pré-candidatos também revela os trunfos de cada um e as áreas de maior influência para as eleições de outubro.

Serra teve quase 70% dos votos no Jardim Paulista no primeiro turno da eleição presidencial, há dois anos. Aníbal tem boa inserção no Butantã (zona oeste) e em Indianópolis (zona sul). Por sua vez, Tripoli tem desempenho melhor que seus adversários em parte da zona leste - Tatuapé foi sua melhor zona eleitoral de 2010 e Vila Formosa lhe deu o dobro do porcentual de sua média no município.

O PSDB aposta que o processo de prévia e o engajamento de militantes de seus 58 diretórios revitalize o partido nas áreas mais afastadas do centro. "Faltou presença do partido nessas regiões. Para convencer os militantes de que nós fazemos o melhor, os filiados têm que participar das decisões", afirma Aníbal.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Serra: 'No nosso partido não tem 'dedaço''

José Serra afirma que a democracia interna pode ocorrer com ou sem prévia, mas que no PSDB não há "dedaço". Ele destaca o apoio de Gilberto Kassab (PSD) à sua candidatura.

Bruno Boghossian

O sr. acredita que a prévia zelou pela democracia interna?

Um partido pode ter democracia interna com ou sem prévias. No PSDB, nunca ninguém deu um golpe de Estado ou baixou alguma autoridade suprema para dizer quem seria "o" candidato. No nosso partido, não há dedaço. Sempre foi um processo negociado, com democracia interna. Realizar prévias é uma das formas do exercício democrático. Dois pré-candidatos desistiram (Covas e Mattarazzo)porque consideraram que a minha postulação satisfazia suas proposições.

O governador Geraldo Alckmin teve papel isento no processo?

Foi e é isento como governador.

É importante receber o apoio do prefeito Gilberto Kassab?

É importante e estou satisfeito com isso. Aliás, pelo visto, o PT também achava importante. Tanto é que tentou obter o apoio do prefeito.

Entre três temas abordados com frequência em campanhas - educação, saúde e transportes - qual seria o mais relevante?

Os três. Não existe essa hierarquia. Você não usa ônibus em sala de aula, não alfabetiza em hospital nem cura as pessoas no transporte coletivo. É como indagar se água é mais importante do que comida ou se ambas são mais importantes do que a liberdade. Quem escolher ou água ou comida está escolhendo se morre de sede ou de fome. Quem escolher as duas e renunciar à liberdade, vai comer mal e beber mal numa masmorra.

Haverá polarização entre o PT e o PSDB na eleição de SP?

Quem decide é o eleitor.

A eleição, exemplo da de 2010, será marcada por uma discussão sobre costumes, como aborto?

Isso é tolice. Em 2010, esses foram temas inventados por meus adversários. Alguém leu ou ouviu alguma declaração minha a respeito neste ano? Quem não fala em outra coisa são os petistas. Têm receio desse assunto e atribuem aos outros uma ação que é deles. Estão muito preocupados. Eu não. Não tenho de esconder as minhas opiniões. Não tenho a ambição autoritária de dizer o que as pessoas podem ou não debater.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

PT decide neste domingo se repetirá a aliança de 2008 na prefeitura da capital

Depois de um longo período de articulações e intrigas, Partido dos Trabalhadores vai escolher se lançará candidato próprio à Prefeitura de BH

Bertha Maakaroun 

Com resultados difíceis de serem previstos, 500 delegados do PT se reúnem hoje no Encontro de Tática Eleitoral para decidir o destino político da legenda na sucessão à Prefeitura de Belo Horizonte. Embora a proposta de candidatura própria seja minoritária e a maioria dos delegados eleitos na semana passada aprove a aliança em torno da reeleição do prefeito Marcio Lacerda (PSB), um elemento espinhoso poderá ser introduzido no debate: a proposta de veto à participação do PSDB na ampla coligação que se forma em torno de Marcio Lacerda.

Os delegados do PT estão rachados em relação a esse tema, que já foi classificado pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, como "perturbador", mas não fundamental no debate. A direção nacional do partido já se manifestou favoravelmente à reedição da aliança com Lacerda, ainda que o PSDB esteja formalizado na coligação. Pelo entendimento firmado em encontro nacional, o PT não poderá fazer aliança quando o PSDB, o PPS ou o DEM estiverem na chapa majoritária. "Chapa é prefeito ou vice", tem reiterado Rui Falcão, em referência ao fato de que, em tese, não existe nenhuma proibição nas normas do PT para a coligação com os tucanos, desde que eles não participem da chapa, como é o caso de Belo Horizonte.

O interesse da executiva nacional no apoio ao PSB, de Lacerda, se deve, sobretudo, porque o PT tem aliança nacional estratégica com os socialistas, que estão na base do governo Dilma Rousseff (PT). Além disso, em várias cidades, como em Fortaleza, o PT nacional trabalha para manter o apoio do PSB, do governador Cid Gomes, considerado fundamental para que o partido vença pela terceira vez consecutiva as eleições na capital cearense. Em João Pessoa, as conversas entre petistas e socialistas já azedaram. A tendência é de que o PT lance candidatura própria à prefeitura, em oposição à socialista Estelizabel Bezerra, apoiada pelo governador Ricardo Coutinho (PSB).

Em Belo Horizonte, nem tudo são flores na relação entre o PT e o PSB, conturbada sobretudo pelos atritos entre o vice-prefeito Roberto Carvalho, que também é presidente municipal do PT, e Marcio Lacerda. Com a interlocução rompida com o prefeito, coube a Carvalho deflagrar o movimento da candidatura própria. Se no domingo passado, os filiados do PT de Belo Horizonte elegeram majoritariamente delegados ligados a chapas que apoiam a aliança com o PSB, ao longo da semana, Roberto Carvalho conquistou um novo tento. Tirou o apoio ao PSB do centro do debate, ali colocando a temática de mais difícil digestão às bases petistas: a presença do PSDB.

Nas eleições de domingo passado, obtiveram juntos 60% dos votos em defesa do apoio à aliança as chapas lançadas pelos deputados federais Miguel Corrêa Júnior e Reginaldo Lopes, pelo deputado estadual Paulo Lamac, pelo ex-deputado federal Virgílio Guimarães e pelo ex-ministro Patrus Ananias. Cada um deles apresentou condicionantes diferentes para o apoio a Lacerda. Outros 40% votaram nas chapas de Roberto Carvalho e do vereador Arnaldo Godói, que defenderam a candidatura própria.

Provocação A vitória do apoio a Lacerda, entretanto, voltou à berlinda à medida que ganha terreno a discussão da presença do PSDB na aliança. Interessado em afastar o “rival” aliado da chapa de Lacerda, os líderes do PSDB não têm poupado, em seus pronunciamentos mais recentes, provocações para atiçar os ânimos até dos petistas menos radicais. Alguns grupos endureceram o discurso contra a presença dos tucanos ao ponto de, neste momento, nenhum dos dois lados estar certo dos resultados do encontro de hoje. Poderá ser aprovada a aliança com Lacerda sem restrições ao PSDB, ou com no máximo uma recomendação ao PSB para que o apoio dos tucanos não seja formal, como poderá passar o apoio a Lacerda com o veto ao PSDB. A disputa será apertada e a diferença pequena entre as duas posições políticas.

FONTE: O ESTADO DE MINAS

PT e PSDB estão juntos na prefeitura de 55 cidades mineiras

Bertha Maakaroun

Machado, no Sul de Minas, está longe de ser um caso único em que petistas e tucanos se juntaram para governar a cidade. Em dois terços das 55 cidades brasileiras em que PT e PSDB dividem o comando como prefeitos e vice-prefeitos, a aliança tende a ser reeditada nas eleições deste ano. Além de serem municípios com menos de 150 mil eleitores – que não são atingidos pela decisão extraída do 4º Congresso Nacional do PT, segundo a qual o partido não poderá ter candidatos a prefeito ou vice em chapas em que participam candidatos do PSDB, do DEM e do PPS –, no geral, tucanos e petistas estão unidos para enfrentar grupos tradicionais. Distantes da polarização nacional, apresentam ações de governo coesas e projeto político comum para se manter no poder.

Em Minas Gerais, onde o PSDB governa o estado, as duas legendas têm um argumento adicional para defender a reedição das chapas: o trânsito político no governo estadual e no governo federal se potencializa. Nas eleições passadas foram 13 cidades onde chapas PT/PSDB foram vitoriosas e 11 em que os tucanos encabeçaram com um vice petista. Convênios, emendas parlamentares e investimentos se multiplicam quando o prefeito negocia no plano federal e o vice-prefeito no estadual, ou quando o contrário ocorre.

No caso mineiro, a “partilha” do poder local foi respeitada até mesmo no momento de decidir que candidato a deputado apoiar nas eleições de 2010. Em várias cidades, prefeitos e vices acertaram pedir votos para determinado candidato a deputado federal de um dos partidos e para um candidato a deputado estadual do outro partido. Assim, evitaram conflitos.

FONTE: ESTADO DE MINAS

Líderes da base não acreditam em 'nova política de alianças'

Em encontro com Braga, Lula teria falado em mudanças no sistema que garante sustentação ao governo Dilma

João Domingos

BRASÍLIA - Lideranças da base de apoio ao governo não acreditam na "nova forma de fazer política" apregoada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no encontro com o líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), no último dia 16. Por essa "nova política", acabaria o toma lá dá cá que garante a aliança formada para sustentar o governo da presidente Dilma Rousseff. A coligação teria como princípio um programa de governo apoiado por todos os partidos da base aliada.

Há dúvidas até se Lula disse mesmo que o Brasil precisa da nova política de alianças. "Eu não ouvi isso do presidente Lula. Quem disse que ele falou isso foi o líder no Senado", afirmou o deputado André Vargas (PT-PR). Ele defende a política de alianças baseada na ocupação de espaços no governo. "PTB, PSC, PR e outras legendas ajudaram a eleger o governo Dilma. É legítimo que eles reivindiquem espaço."

Lembrado de que o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP), tem afirmado que os partidos aliados que estiverem descontentes devem deixar a base do governo, Vargas criticou as declarações do colega. "Não concordo. Não é assim que se faz política."

Nos últimos dias a base aliada vive um momento de conflagração. Na semana passada impôs seguidas derrotas ao governo e impediu a votação da Lei Geral da Copa. Os partidos descontentes exigem a liberação das emendas parlamentares ao Orçamento e a nomeação de aliados políticos em cargos no governo.

Oposição. O deputado Luciano Castro (PR-RR) afirmou que ao pregar uma nova forma de fazer política, Lula "está se esquecendo dos oito anos de mandato, quando montou uma base forte, à base da ocupação de espaços dentro da administração pública". O PR de Castro se declarou oposição no Senado e na Câmara é "independente".

O deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) disse que só será possível pensar numa "nova prática política" quando existirem no País de três a quatro partidos unidos por ideologias. "Temos umas 30 legendas registradas. Nenhuma é grande o suficiente para governar sozinho."

O PT, maior legenda na Câmara, tem 85 deputados, ou 16,5% do total de 513. O PMDB tem 76 deputados, ou 14,8% do total. Somados, PT e PMDB formam uma bancada de pouco mais de 31% dos deputados, insuficiente para aprovar um simples projeto de lei ou medida provisória.

Para Lima, o exemplo do ex-presidente Fernando Collor de Mello deve ser lembrado por todos. "Collor quis fazer uma nova política, sem vínculos no Congresso. Deu no que deu." Ele teve o mandato cassado pelo Senado em 1992, depois de responder a um processo de impeachment.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO