domingo, 12 de julho de 2026

O fundo do fundo do poço, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao decretar novas prisões, juiz relatou 'sangria das verbas públicas' na gestão Cláudio Castro

A frase é do juiz Marcello Rubioli, da 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa: “O estado do Rio de Janeiro chegou ao fundo do poço e descobriu que ainda havia uma caixa de gordura”.

O magistrado decretou a prisão preventiva de seis envolvidos em fraudes no Instituto Rio Metrópole. Criado para elaborar projetos de transporte, saneamento e habitação, o órgão foi transformado em mais um sorvedouro de dinheiro público.

A operação de quinta-feira desmantelou um esquema que desviou ao menos R$ 86 milhões. Entre os presos, está o presidente da autarquia, nomeado pelo ex-governador Cláudio Castro. Também foram em cana o pai e a cunhada do deputado estadual Alexandre Knoploch. Ele se apresenta nas redes como “casado, pai, evangélico”, “conservador de direita” e “pela família”.

Na decisão, o juiz Rubioli descreveu um quadro de assalto aos cofres fluminenses: “O que se vê é um cenário de total aparelhamento espúrio do estado, sangria das verbas públicas, apadrinhamentos e toda sorte de ações que levaram o mesmo à bancarrota”.

A devassa no Instituto Rio Metrópole teve origem em autorias instauradas pelo governador em exercício, Ricardo Couto. Em pouco mais de cem dias, o desembargador demitiu 4.000 funcionários fantasmas. Agora pretende fechar uma dezena de secretarias que serviam como cabides de emprego para apaniguados de Castro e de seus aliados na Assembleia Legislativa.

Em outra frente de investigação, a Polícia Federal tem desvelado ligações de políticos do Rio com milícias e facções criminosas. O primeiro a ser preso foi Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj que seria candidato a governador com apoio de Castro. Nesta terça, foi a vez de Márcio Canella, flagrado com um fuzil no carro. Próximo de milicianos da Baixada, o ex-deputado era pré-candidato ao Senado na chapa de Flávio Bolsonaro. A mãe do presidenciável, Rogéria Bolsonaro, seria sua primeira suplente.

O Rio de Janeiro vive atolado em crises e escândalos há mais de uma década. Em 2018, os servidores ficaram sem receber salários, a segurança virou alvo de intervenção federal e o governador Luiz Fernando Pezão saiu do Palácio Laranjeiras de camburão. (Condenado a 98 anos de prisão, ele teria as sentenças anuladas em segunda instância). Parecia o fundo do poço, mas o estado ainda mergulharia mais fundo.

Eleito com discurso moralizador, Wilson Witzel inaugurou um novo ciclo que uniu extremismo político, descalabro administrativo e roubalheira desenfreada. Destituído pela Alerj, o ex-juiz foi substituído por Castro, cuja gestão agora tem as vísceras expostas.

A autópsia da gestão bolsonarista revelou uma máquina infestada de “antros de corrupção”, disse na quinta o procurador-geral de Justiça, Antônio José Campos Moreira. “Inúmeras estruturas do estado, órgãos que deveriam prestar serviços ao cidadão, foram cooptadas por delinquentes e marginais”, resumiu.

Na mira da polícia, a turma não se dá por vencida. Cobra a saída do governador em exercício, que continua a caçar fantasmas, e tenta reorganizar o palanque para as eleições de outubro.

 

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Misericórdia!