Folha de S. Paulo
Como raramente puxo capivaras para a margem,
eu não sabia o significado da expressão
Em breve ela se juntará a subir o sarrafo,
virar o fio, ligar o sinal de alerta e outros clichês
Outro dia, num programa de TV sobre futebol, alguém disse várias vezes que era preciso "puxar a capivara". A insistência com que repetia a expressão me fez pensar que estava havendo uma infestação de capivaras nos gramados. Pelo insólito da coisa, resolvi ir aos entendidos. Aprendi que "puxar a capivara" significa "puxar a ficha", "levantar o histórico", "analisar direito". Tem a ver com a capivara que, quando surge à beira d’água e você decide puxá-la para a margem, não imagina como é pesada. Tem que puxá-la inteira para saber. Como raramente puxo capivaras para a margem, como eu podia adivinhar?
Não duvido de que, em breve, estaremos
puxando capivaras a respeito de tudo. Certas combinações verbais são
irresistíveis e, quando as aprendemos, não hesitamos em usá-las por qualquer
motivo. Exemplos. Se concordo com alguém, agora tenho que dizer "Sigo o
relator". Se fico mais exigente, é porque "subi o sarrafo". Se o
fulano não deu conta do recado, é porque "não entregou". Ninguém mais
fica estático para mandar uma mensagem —está sempre "passando para".
Ficar atento é "ligar o sinal de alerta". Mudar de atitude é
"virar a chave". E em tudo o sujeito tem de "dar o seu
melhor" —ninguém se contenta em, modestamente, dar seu mais ou menos.
Já certas adiposidades verbais só acontecem
por escrito. Ao ler um texto, veja quantas vezes o autor não começou a frase com
"É importante notar que", "É interessante observar que",
"É fundamental acrescentar que", "É indispensável destacar
que", "É bom enfatizar que", "Vale salientar que",
"Cabe lembrar que", "Há de se ressaltar que", "Deve-se
frisar que" e um enxame de outros quês.
Sugestão: se você tropeçar numa dessas
gorduras verbais, faça de conta que o sujeito não as escreveu e foi direto ao
que ele achava indispensável lembrar, frisar ou destacar. Você descobrirá que
essas frases não fazem falta. E terá economizado preciosos segundos de vida.
Claro que todos nós, às vezes, falamos ou
escrevemos sem pensar. Periga alguém puxar a capivara.

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