Correio Braziliense
Chegamos a um paradoxo perigoso: os partidos
podem não estar tão distantes em seus projetos para o país, mas as pessoas se
odeiam muito mais
Há mais de uma década, pesquisadores se debruçam sobre um fenômeno que corrói as democracias por dentro: a polarização afetiva, distinta da polarização ideológica e da partidária. Enquanto o debate político tradicional foca nessas últimas, a afetiva se revela mais complexa. A gasolina para a invasão da Praça dos Três Poderes vem exatamente daí. O conceito é direto e brutal: o adversário político deixa de ser alguém com quem apenas se discorda para se tornar um inimigo existencial. Na polarização afetiva, o outro na sociedade é uma ameaça que não se tolera e com a qual não se quer conviver.
Curiosamente, quando o debate se restringe à
polarização ideológica ou partidária, estudiosos apontam que o Brasil não é um
país de extremistas. As pesquisas indicam que a esmagadora maioria da população
foge das pontas do espectro político, gravitando em torno de posições
moderadas. Contudo, a cinco meses das eleições, fica claro que a polarização
afetiva não recuou; pelo contrário, alargou-se de forma muito mais veloz e pronunciada
do que a ideológica. Chegamos, assim, a um paradoxo perigoso: os partidos podem
não estar tão distantes em seus projetos para o país, mas as pessoas se odeiam
muito mais.
A polarização afetiva é reforçada e reforça
polarizações geográficas, nas quais perigosas fronteiras geográficas opõem
áreas inteiras a partir de caricaturas. Cria-se um cenário irreal onde, de um
lado, encontram-se eleitores rotulados como dependentes e desinformados e, de
outro, como fascistas e reacionários. Nordeste versus Sul, urbano versus rural,
metrópoles versus cidades pequenas. Diante desse quadro, a pergunta
incontornável é: quem se beneficia desse fenômeno e quem sai perdendo?
Seguramente, quem lucra é uma elite política
que utiliza a aversão ao outro como combustível eleitoral. Não conseguimos
enxergar uma terceira via viável porque os conflitos são mobilizados em torno
de duas visões de mundo inconciliáveis. Se são baseadas em fatos ou não, pouco
importa para a eficácia do fenômeno. Ao manter o eleitorado em constante estado
de alerta contra uma ameaça imaginária, esses líderes se blindam contra a
cobrança por resultados práticos. A polarização afetiva funciona como uma
cortina de fumaça: cega a população para governos que promovem farras
eleitoreiras com os cofres públicos e anestesia o eleitor diante de candidatos
envolvidos com pessoas investigadas por prejudicar milhões.
Assim, nessa polarização afetiva, a política
é reduzida a um roteiro de cinema maniqueísta, com heróis e vilões
predefinidos. Documentários, sejam eles alinhados à esquerda,
como Democracia em vertigem, ou à direita, como Não vai ter golpe!,
conversam com essa lógica do bem contra o mal. Um grupo não se sujeita a
assistir ao filme "do outro", mesmo que seja para criticar.
Nas últimas semanas, acompanhamos também as
polêmicas sobre mais uma peça audiovisual, desta vez produzida para posicionar
o ex-presidente Jair Bolsonaro como um herói mítico. Para além das evidências e
dos questionamentos legítimos sobre seu financiamento, o que importa observar aqui
é o seu papel na engrenagem: o filme é, ao mesmo tempo, um produto gerado pela
polarização afetiva e uma máquina de gerar ainda mais polarização.
Quem mais perde, no entanto, somos todos nós,
na figura da coesão nacional. Famílias deixaram de se sentar à mesma mesa aos
domingos. Amizades são desfeitas por mensagens de WhatsApp; o ambiente de
trabalho e as rodas de conversa tornaram-se campos minados, onde a desconfiança
mútua paralisa qualquer capacidade de diálogo. A energia que deveria ser gasta
debatendo o futuro do país é desperdiçada na tentativa de aniquilar
simbolicamente o vizinho.
A torcida para este ano é que o resultado das
urnas não sirva apenas para referendar quem odiamos menos, mas que freie a
produção em massa de inimigos íntimos. O sintoma desse esgarçamento está diante
dos nossos olhos: estamos às vésperas de uma Copa do Mundo que ostenta a menor
mobilização nacional que tenho na memória. A camisa amarela virou farda de
trincheira. Enquanto continuarmos encarando a política e o outro como um
roteiro barato de heróis e bandidos, o Brasil seguirá perdendo para si mesmo,
preso em um filme no qual não há finais felizes para ninguém.
*Professor de geografia política do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)

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