O Estado de S. Paulo
Na Câmara, Jhonatan de Jesus desviava emendas e, no TCU, defende o Master. Alguma surpresa?
O sr. Jhonatan de Jesus é um exemplo pronto e
acabado do derretimento das instituições no Brasil e provoca uma pergunta que
já embute a resposta: como é possível esse cidadão virar ministro, justamente,
do Tribunal de Contas da União (TCU)?
Ninguém fora do Congresso sabia quem ele era, até virar relator do processo no TCU sobre a liquidação do Banco Master e atuar descaradamente a favor dos interesses de Daniel Vorcaro e contra o Banco Central. O que, aliás, pode ser tudo, menos surpresa. Basta dar uma olhada nos seus mandatos na Câmara dos Deputados.
A defesa ferrenha do Master e de Vorcaro (por
que será?) combina à perfeição com o sumiço das emendas parlamentares de
Jhonatan. Quando deputado, ele indicou R$ 42 milhões para Roraima e esses milhões
viraram pó, ou melhor, mantiveram o pó.
A estrada que seria construída continua de
terra e esburacada, sem um fiapo de asfalto. Onde seriam feitas 300 casas
populares, só há uma, no meio da terra seca, cercada pelo mato. E o dinheiro,
para onde foi?
Médico, Jhonatan foi eleito deputado aos 28
anos e mudou para o TCU no início do quarto mandato. Tal pai, tal filho. Seu
pai, exsenador Mecias de Jesus (a família usa grafia criativa nos nomes), é
conselheiro do TCE-RR.
Quem indicou Jhonatan foi o então presidente
da Câmara, Arthur Lira, que lhe garantiu a grande maioria dos votos, sem
problemas. O passado? O currículo? Experiência com gestão? Nada disso. Valeu a
força de Lira, Republicanos (seu partido) e Centrão.
E o que é o TCU? Não é um dos cinco tribunais
superiores (STF, STJ, TST, TSE, STM), mas, sim, o braço do Legislativo para
fiscalizar as contas do Executivo. Logo, um órgão que exige a famosa e
desprezada “reputação ilibada”.
Mas Jhonatan não é exclusividade, ele e seu
pai foram apenas beneficiados por um sistema de escolha que mistura interesses
políticos, pessoais e até familiares.
Pelo menos oito atuais ou exgovernadores
emplacaram suas mulheres nos TCEs de seus Estados: Waldez Goes (AP), Renan
Filho (AL), Wellington Dias (PI), Wilson Martins (PI), Rui Costa (BA), Helder
Barbalho (PA) Antonio Denarium (RR) e Camilo Santana (CE).
Cinco foram ministros do governo Lula e todos
os oito são de Norte e Nordeste. Duas dúvidas: Jhonatan de Jesus era ideal para
o TCU? Mulher de governador e ex-governador é adequada para fiscalizar as
contas do governo estadual?
Coisas do Brasil, onde ministros do Supremo
se colocam e são colocados acima da Constituição, não precisam dar explicações,
de um lado, e as investigações andam a passos lentos, de outro. Mas os penduricalhos
do sistema estão garantidos! •

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