domingo, 5 de julho de 2026

As contas e a ‘reputação ilibada’, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Na Câmara, Jhonatan de Jesus desviava emendas e, no TCU, defende o Master. Alguma surpresa?

O sr. Jhonatan de Jesus é um exemplo pronto e acabado do derretimento das instituições no Brasil e provoca uma pergunta que já embute a resposta: como é possível esse cidadão virar ministro, justamente, do Tribunal de Contas da União (TCU)?

Ninguém fora do Congresso sabia quem ele era, até virar relator do processo no TCU sobre a liquidação do Banco Master e atuar descaradamente a favor dos interesses de Daniel Vorcaro e contra o Banco Central. O que, aliás, pode ser tudo, menos surpresa. Basta dar uma olhada nos seus mandatos na Câmara dos Deputados.

A defesa ferrenha do Master e de Vorcaro (por que será?) combina à perfeição com o sumiço das emendas parlamentares de Jhonatan. Quando deputado, ele indicou R$ 42 milhões para Roraima e esses milhões viraram pó, ou melhor, mantiveram o pó.

A estrada que seria construída continua de terra e esburacada, sem um fiapo de asfalto. Onde seriam feitas 300 casas populares, só há uma, no meio da terra seca, cercada pelo mato. E o dinheiro, para onde foi?

Médico, Jhonatan foi eleito deputado aos 28 anos e mudou para o TCU no início do quarto mandato. Tal pai, tal filho. Seu pai, exsenador Mecias de Jesus (a família usa grafia criativa nos nomes), é conselheiro do TCE-RR.

Quem indicou Jhonatan foi o então presidente da Câmara, Arthur Lira, que lhe garantiu a grande maioria dos votos, sem problemas. O passado? O currículo? Experiência com gestão? Nada disso. Valeu a força de Lira, Republicanos (seu partido) e Centrão.

E o que é o TCU? Não é um dos cinco tribunais superiores (STF, STJ, TST, TSE, STM), mas, sim, o braço do Legislativo para fiscalizar as contas do Executivo. Logo, um órgão que exige a famosa e desprezada “reputação ilibada”.

Mas Jhonatan não é exclusividade, ele e seu pai foram apenas beneficiados por um sistema de escolha que mistura interesses políticos, pessoais e até familiares.

Pelo menos oito atuais ou exgovernadores emplacaram suas mulheres nos TCEs de seus Estados: Waldez Goes (AP), Renan Filho (AL), Wellington Dias (PI), Wilson Martins (PI), Rui Costa (BA), Helder Barbalho (PA) Antonio Denarium (RR) e Camilo Santana (CE).

Cinco foram ministros do governo Lula e todos os oito são de Norte e Nordeste. Duas dúvidas: Jhonatan de Jesus era ideal para o TCU? Mulher de governador e ex-governador é adequada para fiscalizar as contas do governo estadual?

Coisas do Brasil, onde ministros do Supremo se colocam e são colocados acima da Constituição, não precisam dar explicações, de um lado, e as investigações andam a passos lentos, de outro. Mas os penduricalhos do sistema estão garantidos! •

 

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