Correio Braziliense
Poucos cidadãos sabem citar o
nome de um parlamentar, há um profundo divórcio entre representantes e
representados. Mas as emendas garantem a reeleição
No fim dos anos 50, Dale Turner, um saxofonista negro americano, toca todas as noites no Blue Note, em Saint-Germain. É um alcoólatra. Basta que escape à vigilância dos amigos e ele vai parar no hospital. Como é comum nesses casos, num determinado momento entra em colapso. Francis, apaixonado admirador do músico de vanguarda, assume plena responsabilidade sobre ele e Dale aos poucos volta a tocar. Mas as raízes, a sua solidão e seus medos o levam de volta a Nova York, onde morre.
O filme por Por Volta da Meia-noite (Round
Midnight/Autour de minuit, 1986), de Bertrand Tavernier, conta essa história. É
inspirado nas vidas de Bud Powell (e Lester Young), interpretado por Dexter
Gordon em pessoa, e Francis Paudras, vivido pelo ator francês François Cluzet.
Jazz raiz, destaca-se o trabalho de grandes músicos, como Herbie Hancock, que
atua no filme como Martin Scorsese. É um filme de decadência, e não de
ascensão. Os grandes músicos de jazz dessa era, quase todos negros, a despeito
do talento até hoje reconhecido, viveram em condições por vezes degradantes.
Parece que viajei na batatinha. O que isso
tem a ver com a nossa política? Na década de 1950, a vida norte-americana foi
marcada por graves crises internas de valores e liberdades. O macarthismo
promoveu uma “caça às bruxas” que sufocou o debate democrático, enquanto o
conservadorismo emergente combateu o liberalismo tradicional. A profunda
segregação racial marginalizou milhões de cidadãos.
Liderada pelo senador republicano Joseph
McCarthy, a política externa de contenção ao comunismo transformou-se em
histeria interna. O medo da “ameaça vermelha” levou à perseguição de
funcionários públicos, intelectuais e artistas, minou o respeito às liberdades
civis e à Constituição. A imagem de uma democracia exemplar esmaecia no racismo
institucionalizado. Apenas na segunda metade da década, com o boicote aos
ônibus de Montgomery em 1955 liderado por Rosa Parks, o movimento por direitos
civis emergiu.
O sistema bipartidário norte-americano fora
reconfigurado com o fortalecimento de alas conservadoras, focadas no combate ao
comunismo e na subversão do liberalismo do New Deal. Essa polarização limitou
reformas sociais mais amplas. A Doutrina Truman e a Guerra da Coreia
(1950-1953) exigiram grandes mobilizações de recursos e expandiram a influência
do complexo militar-industrial, o que gerou contestações sobre o papel dos EUA
como “polícia do mundo”. Mais ou menos como agora.
Aqui no Brasil, uma pesquisa Datafolha
divulgada há poucos dias revelou um cenário alarmante para a democracia
brasileira: 68% dos eleitores não conseguem citar o nome de um único deputado
federal em exercício, e 75% não se lembram de nenhum senador. Quase 70% dos
entrevistados também não se recordam em quem votaram para cargos do Poder
Legislativo federal nas eleições de 2022. Por que isso acontece?
Falta de sintonia
A política institucional, como os Poderes
republicanos, nunca foi muito popular. Os partidos e os políticos parecem
habitar um planeta distante, descolado da realidade brasileira. Com as sessões
virtuais, já não há debates acalorados nos plenários da Cãmara e do Senado,
tudo é decidido na base da transa, no colégio de líderes e em votações
relâmpagos, às vezes por volta da meia-noite (eis a batatinha).
Os tratos e acordos feitos nos corredores do
Congresso, dos gabinetes dos ministros e governantes e, às vezes, dos tribunais
visam somente o atendimento de interesses privados de quem detém o poder
político e/ou econômico. O Congresso virou um balcão de negócios, o paraíso do
patrimonialismo. O caso Master e as relações perigosas com o banqueiro Daniel
Vorcaro espantam pelos bilhões envolvidos, mas não pelo modus operandi que hoje
predomina na Câmara e no Senado, que foram naturalizados.
A maioria dos políticos só se sente vinculada
aos cidadãos quando há eleições. Hoje, não se debate mais nada, tudo parece
decidido pelas lideranças do Congresso antes de chegar ao plenário,
abruptamente, após articulações em reuniões fechadas. Salvo algumas exceções,
os parlamentares comparecem ao plenário raramente, votam conforme a orientação
de líderes ou de interesses pontuais e usam o tempo de fala não para formular
ideias capazes de mobilizar o eleitorado, mas para produzir “cortes” para as
mídias sociais. Os cidadãos são deixados de fora da política.
O Datafolha mostrou que apenas meia dúzia de
deputados, entre 513, foram citados por ao menos 1% dos entrevistados – e,
mesmo assim, em geral por sua capacidade de “engajamento” no ambiente digital.
Poucos cidadãos sabem citar o nome de um parlamentar, há um profundo divórcio entre
representantes e representados. Mas os fundos partidário e eleitoral e as
emendas parlamentares garantem a reeleição. Não existe “paridade de armas”
entre quem tem e não tem mandato. O Congresso está blindado contra a renovação.
A democracia de massas no Brasil só sobrevive por causa do voto direto nas
eleições majoritárias e da urna eletrônica.
Fica a dica de um bom filme na Apple TV Store.
Mas, antes, vamos torcer pelo Brasil.

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