O Globo
Ao dizer que 'mulher vota mal pra c...', neto
de ditador escancarou o que a turma pensa
No dia em que Michelle Bolsonaro assumiu a
presidência do PL Mulher, os homens é que dominaram o microfone. O primeiro a
discursar foi Jair Bolsonaro. Depois falaram mais quatro engravatados: Valdemar
Costa Neto, Altineu Côrtes, Jorginho Mello e Magno Malta.
Em participação por vídeo, o capitão exaltou
o crescimento do partido, mas ignorou os temas femininos. Valdemar leu uma
longa nominata, e Côrtes cometeu uma gafe ao apresentar a mulher de um deputado
gaúcho como sua filha.
Sem medo de soar machista, Jorginho se
queixou do “sacrifício” e do “sofrimento” de ter que encontrar nomes para
preencher a cota de 30% de candidaturas femininas. “Nós precisamos aumentar
essa chorumela de que sempre falta mulher para disputarem” (sic), afirmou.
Dublê de pastor e senador, Malta aproveitou o evento para provocar a comunidade trans. “Mulher é mais forte porque nasceu com uma peça a mais. Mulher tem útero”, bradou, antes de dizer que a distinção não poderia ser superada “nem com cirurgia nem com ideologia”.
Quando chegou sua vez de falar, Michelle
chamou o marido de “grande líder” e disse que muitas mulheres resistem a
“entrar no ambiente hostil da política”. Parecia antever os conflitos que ela
mesma viveria no partido e na família.
A ex-primeira-dama assumiu o PL Mulher em
março de 2023. Deixou o cargo nesta terça-feira, depois de se dizer
“maltratada”, “desrespeitada” e “humilhada” pelo enteado e presidenciável
Flávio Bolsonaro.
Desde que gravou um vídeo para expor a
desavença familiar, ela virou alvo de ataques de figuras influentes na extrema
direita. Entre os adjetivos publicáveis, foi chamada de “traidora” e
“feminista” — ofensa grave no universo bolsonarista.
Com orçamento para promover eventos, fazer
propaganda e rodar o país de jatinho, Michelle filiou mais de 70 mil mulheres
ao PL. Planejava virar senadora e eleger candidatas evangélicas em todo o país.
Sua desenvoltura causou ciúmes e alimentou, entre os filhos do capitão, a
suspeita de que ela pretendia liderar uma bancada própria no Congresso a partir
de 2027.
Há quatro anos, o voto das mulheres foi
determinante na derrota de Bolsonaro. O capitão pagou pelo culto às armas, pelo
desgoverno na pandemia e pelo histórico de declarações e atitudes misóginas.
Orientado por marqueteiros, Flávio buscava se
dissociar dessa herança. Para se mostrar diferente, chegou a vestir uma
camiseta com a inscrição “pai de menina”. A briga com Michelle já havia minado
a estratégia. Agora surge outro problema para romper a barreira do voto
feminino, segmento em que Lula abriu 15 pontos de vantagem no Datafolha.
Ao dizer que “mulher vota mal pra c...”, o
blogueiro Paulo Figueiredo escancarou o que vai na cabeça dos ideólogos do clã.
Flávio levou seis dias para declarar que discorda do aliado, seu estrategista e
porta-voz nos Estados Unidos. Não adianta reclamar do neto do último ditador.
Ele só disse o que a turma pensa.

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