domingo, 5 de julho de 2026

Uma nova barreira entre Flávio Bolsonaro e o voto feminino, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao dizer que 'mulher vota mal pra c...', neto de ditador escancarou o que a turma pensa

No dia em que Michelle Bolsonaro assumiu a presidência do PL Mulher, os homens é que dominaram o microfone. O primeiro a discursar foi Jair Bolsonaro. Depois falaram mais quatro engravatados: Valdemar Costa Neto, Altineu Côrtes, Jorginho Mello e Magno Malta.

Em participação por vídeo, o capitão exaltou o crescimento do partido, mas ignorou os temas femininos. Valdemar leu uma longa nominata, e Côrtes cometeu uma gafe ao apresentar a mulher de um deputado gaúcho como sua filha.

Sem medo de soar machista, Jorginho se queixou do “sacrifício” e do “sofrimento” de ter que encontrar nomes para preencher a cota de 30% de candidaturas femininas. “Nós precisamos aumentar essa chorumela de que sempre falta mulher para disputarem” (sic), afirmou.

Dublê de pastor e senador, Malta aproveitou o evento para provocar a comunidade trans. “Mulher é mais forte porque nasceu com uma peça a mais. Mulher tem útero”, bradou, antes de dizer que a distinção não poderia ser superada “nem com cirurgia nem com ideologia”.

Quando chegou sua vez de falar, Michelle chamou o marido de “grande líder” e disse que muitas mulheres resistem a “entrar no ambiente hostil da política”. Parecia antever os conflitos que ela mesma viveria no partido e na família.

A ex-primeira-dama assumiu o PL Mulher em março de 2023. Deixou o cargo nesta terça-feira, depois de se dizer “maltratada”, “desrespeitada” e “humilhada” pelo enteado e presidenciável Flávio Bolsonaro.

Desde que gravou um vídeo para expor a desavença familiar, ela virou alvo de ataques de figuras influentes na extrema direita. Entre os adjetivos publicáveis, foi chamada de “traidora” e “feminista” — ofensa grave no universo bolsonarista.

Com orçamento para promover eventos, fazer propaganda e rodar o país de jatinho, Michelle filiou mais de 70 mil mulheres ao PL. Planejava virar senadora e eleger candidatas evangélicas em todo o país. Sua desenvoltura causou ciúmes e alimentou, entre os filhos do capitão, a suspeita de que ela pretendia liderar uma bancada própria no Congresso a partir de 2027.

Há quatro anos, o voto das mulheres foi determinante na derrota de Bolsonaro. O capitão pagou pelo culto às armas, pelo desgoverno na pandemia e pelo histórico de declarações e atitudes misóginas.

Orientado por marqueteiros, Flávio buscava se dissociar dessa herança. Para se mostrar diferente, chegou a vestir uma camiseta com a inscrição “pai de menina”. A briga com Michelle já havia minado a estratégia. Agora surge outro problema para romper a barreira do voto feminino, segmento em que Lula abriu 15 pontos de vantagem no Datafolha.

Ao dizer que “mulher vota mal pra c...”, o blogueiro Paulo Figueiredo escancarou o que vai na cabeça dos ideólogos do clã. Flávio levou seis dias para declarar que discorda do aliado, seu estrategista e porta-voz nos Estados Unidos. Não adianta reclamar do neto do último ditador. Ele só disse o que a turma pensa.

 

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