Folha de S. Paulo
O problema de enviar um documento ao governo
dos EUA com promessas é que, mais cedo do que tarde, elas serão cobradas
Libertar o Brasil das 'amarras do Mercosul' é
mais difícil do que o senador sugere no texto enviado ao governo Trump
Se for eleito presidente, Flávio
Bolsonaro perceberá que o problema de enviar um documento ao
governo dos EUA com uma série de promessas é que, mais cedo do que tarde, elas
serão cobradas.
Não foram poucas as promessas (ou paths to remediation) que Flávio listou no texto endereçado ao USTR —o Escritório do Representante de Comércio dos EUA— no qual argumenta que o tarifaço beneficia Lula e sugere o adiamento de qualquer medida contra o Brasil para depois das eleições.
Entre elas, uma desperta sensação de déjà vu: libertar o Brasil das "amarras do Mercosul".
Supondo que, por amarras, o senador esteja se
referindo à regra segundo a qual Argentina,
Brasil, Uruguai e Paraguai não
podem negociar acordos comerciais separadamente, Flávio repete a retórica do
início do governo de seu pai, Jair
Bolsonaro.
Logo após a vitória bolsonarista em
2018, Paulo Guedes declarou
que o Mercosul não
era prioridade. Depois, tentou reduzir drasticamente a TEC (Tarifa
Externa Comum). Junto ao argentino Mauricio Macri, que também tinha uma agenda
reformista para o Mercosul,
o governo Bolsonaro quis flexibilizar
as normas para permitir acordos comerciais individuais.
Voltamos a 2026. O Mercosul (com todas as
suas imperfeições) segue de pé, assim como a TEC (com todas as suas
perfurações) —em parte pela resistência que a indústria brasileira armou contra
as propostas bolsonaristas para o bloco. Os países continuam proibidos, ao
menos em tese, de conduzir negociações separadamente.
Segundo o documento, o caminho adotado
por Javier Milei oferece
um "precedente útil" que Flávio promete examinar e perseguir.
A experiência de Milei reforça justamente a
tese de que libertar-se do Mercosul é uma promessa difícil de cumprir. O
argentino critica com frequência o projeto de integração regional e faltou a um
par de cúpulas. Indicou ainda que queria tirar seu
país do bloco para fechar um acordo com os americanos. Em fevereiro,
Milei e Donald Trump anunciaram um entendimento de comércio visto por analistas
como desproporcionalmente vantajoso aos EUA —mas a Argentina permanece no
Mercosul.

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