terça-feira, 27 de março de 2012

Recife: Henry entra na briga para ser candidato

Antes tido como o mais indeciso entre os pré-candidatos do blodo de oposição, peemedebista intensifica movimentações, dialoga com aliados e demonstra que vai à luta

Débora Duque

Nos bastidores, é sua aparente “indecisão” que tem sido colocada como um dos principais entraves para definição do rumo a ser tomado pelos oposicionistas – em especial, o bloco PMDB,DEM e PPS – na disputa pela Prefeitura do Recife. Mas, ao contrário do que se comenta, o deputado federal Raul Henry (PMDB) tem demonstrado a correligionários cada vez mais obstinação em concorrer, pela segunda vez, ao cargo de prefeito da capital. Desde que voltou do exterior, na semana passada, o peemedebista intensificou as articulações buscando viabilizar sua candidatura.

Em Brasília, conversou com o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), seu padrinho político, e com o deputado federal Mendonça Filho (DEM), que também alimenta pretensões de sair candidato. De quebra, agendou para hoje uma reunião conjunta com o democrata e o outro prefeiturável do grupo, Raul Jungmann (PPS), cujo partido ameaça lançar uma candidatura própria, na sexta-feira (31), caso não haja um acordo imediato sobre a estratégia a ser adotada pelo bloco.

O próprio Henry, no entanto, já pediu tempo para dialogar. O acordo entre ele e Mendonça é de que a definição só deve ser anunciada na metade de abril. Publicamente, o peemedebista já disse que as conversas ainda não se esgotaram e, nos bastidores, se movimenta para conquistar “pontos” positivos à sua candidatura. Ele teria confessado a aliados que ficaria “frustrado” se não concorresse neste pleito que, na ótica oposicionista, apresenta um cenário favorável para o grupo devido aos desentendimentos na base do governo.

Além das conversas políticas, a informação é de que Henry dedicou parte do fim de semana a encontros com empresários em busca de suporte financeiro à sua campanha. Nesse sentido, o apoio já prometido pela Executiva nacional do PMDB, apesar de bem-vindo, não seria mais condição essencial para balizar seu voo.

Na ausência de uma liderança na oposição capaz de conduzir o processo, o desafio seria convencer Mendonça a desistir da postulação. E, para tanto, faz-se necessário mostrar que Henry reuniria maiores condições de vitória do que o democrata e, assim, induzi-lo ao recuo. Há quem diga, inclusive, que Mendonça não estaria disposto a enfrentar novamente uma campanha majoritária sozinho. Uma das vantagens do PMDB é ser o partido das oposições que dispõe do maior tempo de televisão. Henry prefere manter o tom diplomático ao tratar do assunto. “Estamos num momento de muita conversa. É preciso paciência para costurar uma candidatura única”, ponderou.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Recife: PSDB faz hoje ato político com pré-candidatos

Se o bloco DEM-PMDB-PPS ainda não chegou a um consenso sobre candidatura, o PSDB, mesmo isolado, trabalha para cacifar o nome do deputado estadual Daniel Coelho (PSDB). Hoje, o tucano será o anfitrião do evento do partido que reunirá todos os seus pré-candidatos a prefeito para a assinatura de um termo de compromisso com o programa Cidades Sustentáveis.

O projeto, na realidade, oferece a políticos uma agenda de sustentabilidade que casa bem com a imagem cultivada por Daniel, recém-saído do PV. O encontro, segundo ele, servirá para unificar as propostas da legenda em Pernambuco. “Embora cada município tenha uma conjuntura específica, vamos padronizar o projeto do partido como um todo”, disse.

Além do representante do programa Cidades Sustentáveis, também discursará o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, levando uma “mensagem política” aos candidatos. O evento servirá ainda para massificar a campanha de recadastramento de filiados já iniciada pelo partido com vistas as possíveis prévias presidenciais, em 2014. O encontro acontece às 19h, no auditório Tabocas, no Centro de Convenções.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Pimentel tem dez dias para se explicar

A Comissão de Ética da Presidência da República deu ontem dez dias de prazo para o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, dar esclarecimentos sobre as consultorias que lhe renderam R$ 2 milhões em 2009 e 2010, quando ainda não era do governo. Parte desse dinheiro foi para palestras que nunca ocorreram.

Comissão de Ética: Pimentel precisa se explicar

Em votação apertada, conselheiros dão dez dias para que ministro esclareça consultorias que lhe renderam R$ 2 milhões

Luiza Damé e Gustavo Miranda

BRASÍLIA. A Comissão de Ética Pública da Presidência resolveu ontem dar continuidade ao processo contra o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, e deu prazo de dez dias para ele apresentar esclarecimentos sobre as consultorias que lhe renderam R$ 2 milhões antes de integrar o governo Dilma Rousseff, como mostrou O GLOBO em dezembro.

A decisão foi apertada: os conselheiros Américo Lacombe, Roberto Caldas (indicado por Dilma para disputar uma vaga de juiz na Corte Internacional de Direitos Humanos) e Padre José Ernanne Pinheiro votaram pelo arquivamento. O relator Fávio Coutinho, Marília Muricy e o presidente da comissão, Sepúlveda Pertence, foram pela continuidade do processo. Sepúlveda deu o voto de minerva:

- Decidiu-se, pelo meu voto de minerva, encaminhar pedido de informações e esclarecimentos ao ministro.

Na última reunião, dia 13, Coutinho votou pela continuidade da investigação, mas Caldas pediu vista. No voto apresentado ontem, Caldas argumentou que a consultoria feita por Pimentel foi anterior ao cargo de ministro e que, naquela época, ele não exercia função pública. Para Caldas, no período em que foi consultor, Pimentel respondia ao código de ética do economista, e sua conduta deve ser avaliada pelo Conselho Regional de Economia.

- O ministro Pimentel assumiu o ministério em 2011, os fatos são anteriores e cessaram naquele momento. O ministro ainda não era autoridade abrangida pelo Código de Conduta da Alta Administração - disse Caldas.

Sepúlveda concordou em termos com a interpretação dos três conselheiros, mas disse que, em "situações excepcionalíssimas", a comissão pode se manifestar sobre atos anteriores ao exercício do cargo público, desde que eles possam comprometer a conduta da autoridade:

- Sem fazer nenhum juízo de mérito, por ora, sobre as acusações ao ministro do Desenvolvimento, resolvemos dar-lhe a oportunidade de se manifestar, para que então possamos ajuizar se existe essa situação excepcional em que se justificaria a abertura de procedimento ético, embora os fatos sejam todos eles anteriores à sua posse no ministério - disse Sepúlveda.

Em nota, o Ministério do Desenvolvimento disse que Pimentel está à disposição para prestar os esclarecimentos solicitados pela Comissão de Ética. O ministro, que acompanha Dilma à Índia, "aguarda o comunicado oficial do resultado da reunião da comissão".

FONTE: O GLOBO

Jovens protestam contra acusados de tortura

Movimento organizado pela internet promove atos em sete capitais em frente a casas de ex-agentes da ditadura

Grupo afirma não ter ligação com partidos políticos; ex-delegado ameaça mover processo contra manifestantes

SÃO PAULO, PORTO ALEGRE, BELO HORIZONTE, MANAUS - Um movimento organizado por jovens na internet promoveu ontem manifestações em sete capitais contra ex-agentes da ditadura militar (1964-1985) acusados de torturar presos políticos.

Os atos ocorreram em frente às casas ou aos locais de trabalho de civis e militares em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Belém e Fortaleza.

Os organizadores afirmaram não ter filiação partidária e se apresentaram como integrantes do Levante Popular da Juventude, grupo ligado ao movimento pela reforma agrária Via Campesina.

Eles estenderam faixas e picharam calçadas com inscrições como "Aqui mora um torturador" e gritaram palavras de ordem pela instalação da Comissão da Verdade.

As ações foram organizadas em segredo e se inspiraram nos "escrachos", protestos semelhantes realizados no Chile e na Argentina.

Em São Paulo, o ato reuniu cerca de 150 pessoas em frente à empresa de segurança privada Dacala, em Santo Amaro (zona sul), que pertence ao delegado aposentado David dos Santos Araujo.

Em 2010, ele foi acusado de tortura pelo Ministério Público Federal, numa ação que pedia a cassação de sua aposentadoria e cobrava o ressarcimento por indenizações pagas a suas supostas vítimas.

Segundo a Procuradoria, Araujo era chamado de "capitão Lisboa" e participou da tortura e do assassinato do militante Joaquim Alencar de Seixas no Doi-Codi, em 1971.

A juíza Diana Brunstein, da 7ª Vara Cível Federal, julgou a ação improcedente e afirmou na decisão que ele foi beneficiado pela Lei da Anistia.

O advogado Paulo Esteves disse que o policial nega as acusações e estuda processar os ativistas por suposta tentativa de invasão de imóvel.

Em Porto Alegre, ativistas picharam a calçada em frente ao prédio do coronel Carlos Alberto Ponzi, ex-chefe regional do SNI (Serviço Nacional de Informações), órgão de espionagem da ditadura.

Em Fortaleza, cerca de 80 pessoas protestaram em frente ao escritório do ex-delegado federal José Armando Costa, acusado de torturas no livro "Brasil: Nunca Mais", da Arquidiocese de São Paulo.
Também citado no dossiê, o ex-policial Ariovaldo da Hora Silva foi o alvo em Belo Horizonte, onde cerca de 70 manifestantes colaram cartazes no muro de seu edifício.

Ponzi, Costa e Silva não foram localizados ontem.

Os organizadores comemoraram o resultado. "Vamos realizar outros atos até a gente conseguir a instalação da Comissão da Verdade", disse a estudante da USP Lira Alli.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Ação surpreende e divide opiniões de militantes

SÃO PAULO - A deflagração de protestos simultâneos contra ex-agentes da ditadura surpreendeu e dividiu as opiniões de militantes da área de direitos humanos.

Ivo Herzog, diretor do Instituto Vladimir Herzog, criticou o método utilizado pelos estudantes.

"Sou contra esse tipo de protesto. Quem tem que dizer quem torturou é o poder público. A sociedade deve se manifestar, mas pichar a calçada das pessoas é vandalismo", disse.
Rose Nogueira, do Tortura Nunca Mais, elogiou a iniciativa. "Nós, os militantes tradicionais desta área, já estamos todos com mais de 60 anos. A juventude também tem o direito de protestar e saber o que aconteceu no país."

O deputado estadual Adriano Diogo (PT), que preside a Comissão da Verdade da Assembleia paulista, afirmou que a mobilização é positiva.

"Não sou adepto de provocação ou vingança, mas acho que isso faz parte. O importante é que a história deste período começa a ser contada, seja por linhas tortas ou oficiais."

Também pela internet, outro grupo prepara manifestação na quinta contra o seminário "64 -A verdade", que vai lembrar os 48 anos do golpe militar, no Clube Militar do Rio.

A página do ato no Facebook pede que manifestantes compareçam de pijama, em provocação aos oficiais aposentados que participaram do regime. A promessa é de um protesto bem humorado.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Clube Militar faz ato para lembrar golpe de 64

No mesmo dia, haverá protesto contra ditadura

Um mês depois de lançar um manifesto para cobrar da presidente Dilma Rousseff uma postura contra a Comissão da Verdade, o Clube Militar realizará, na próxima quinta-feira, às 15h, no Rio, evento de comemoração aos 48 anos do golpe militar de 1964. No mesmo dia, uma outra manifestação, esta em defesa da Comissão da Verdade e contra o evento no Clube Militar, vai ocorrer na Cinelândia, em frente ao prédio do clube. O ato é organizado por nomes da sociedade civil, como o cineasta Silvio Tendler, e organizações de defesa dos direitos humanos, como o Grupo Tortura Nunca Mais-RJ. Também está prevista a participação de militares cassados pelo golpe de 64, que patrocinaram um manifesto contrário ao do Clube Militar e em defesa da Comissão da Verdade e de Dilma.

O ato no Clube Militar, chamado de "1964 - A Verdade", terá como palestrante o general Luiz Eduardo Rocha Paiva. O militar já deu declarações contra a Comissão da Verdade e sugeriu que Dilma fosse convocada para depor sobre as ações de resistência à ditadura militar.

A presidente Dilma proibiu a comemoração oficial do golpe de 31 de março de 1964 por representantes das Forças Armadas. O Clube Militar, no entanto, antecipou a data e distribuiu os convites, exigindo traje esporte fino para quem comparecer.

- Lamentamos profundamente que tenhamos uma comemoração desta natureza - disse Elizabeth Silveira, do grupo Tortura Nunca Mais.

O presidente do clube, general Renato César Tibau da Costa, não retornou as ligações.

FONTE: O GLOBO

Recuperação adiada

Para BC, PIB caiu em janeiro. Com indústria fraca, analistas veem até estagnação no trimestre

Gabriela Valente

A crise na indústria - que teve em janeiro seu pior desempenho em três anos, com queda de 2,1% na produção - fez com que a economia encolhesse no começo de 2012. Segundo o Índice de Atividade Econômica do Banco Central - Brasil (IBC-Br), a retração foi 0,13% no primeiro mês do ano, ante dezembro. O índice reflete a evolução da atividade econômica do país e é visto como uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e riquezas produzidas no país). Um desempenho que já faz com que especialistas apostem num PIB fraco ou mesmo numa estagnação no primeiro trimestre.

- A atividade está mais fraca do que analistas esperavam no primeiro trimestre. Nossas projeções para o PIB do primeiro trimestre era de uma alta de 1%. Baixamos para 0,6%, mas não descartamos zero - disse Fábio Romão, economista da LCA Consultores.

O IBC-Br ficou acima da expectativa dos economistas. O que evitou uma retração maior foi o comércio. Ao contrário do setor industrial, o varejo teve o melhor resultado da história no início deste ano, com alta de 2,6%.

- Não dá para comemorar, mas foi muito melhor do que o esperado. Só que um dado de crescimento próximo a zero não dá mesmo para comemorar - disse o ex-secretário do Tesouro Nacional Carlos Kawall, que mantém a previsão de crescimento para o Brasil em 0,5% no primeiro trimestre do ano.

Para economista do RBS Zeina Latif, o governo tem ido pelo caminho errado, ao estimular demasiadamente o consumo. Para ela, isso pode ter um efeito perverso sobre a economia, pois o mercado de trabalho deve ficar mais aquecido com uma demanda muito forte, aumentando a pressão por salários melhores. Isso, por sua vez, elevará os custos das empresas, principalmente da indústria, em crise. O setor levou essa preocupação à presidente Dilma Rousseff, na semana passada.

O índice do BC se mostrou muito próximo do resultado do PIB em 2011. A prévia do BC indicou crescimento de 2,79%. E o IBGE confirmou que o Brasil cresceu 2,7% em 2011. Nos últimos 12 meses, o indicador do BC registrou 2,44%. O governo já admite internamente que não conseguirá fazer o país crescer os 4% desejados por Dilma.

Já no relatório Focus, a pesquisa semanal do BC com economistas, feita antes da divulgação do IBC-BR, os analistas também revisaram para baixo a estimativa para o crescimento do ano, de 3,3% para 3,23%. Por outro lado, o levantamento mostra que mesmo com uma baixa na previsão de expansão da indústria no ano que vem, a perspectiva para o crescimento em 2013 melhorou: passou de 4,2% para 4,29%.

- Com dois meses seguidos de crescimento zero e, se de novo tivermos algo próximo de zero em março, o crescimento do trimestre ficará em 0,6% ante o quarto trimestre. A principio, um crescimento em torno de 0,5% no primeiro trimestre parece mais provável, pouco abaixo dos 0,8% que esperávamos. Certamente será um resultado que não será muito diferente do resultado fraco do final de 2012 e que coloca dúvidas num crescimento muito acima de 3% este ano - disse Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Os dados mais recentes indicam que uma recuperação parece adiada. Indicadores antecedentes - dados setoriais que servem de termômetro da economia - mostram desaceleração e queda. Caso da produção industrial que, em janeiro, caiu 2,1%, em relação a dezembro, após duas taxas positivas. Freio que aparece na produção de veículos que, no primeiro bimestre, recuou 19,5% em relação ao mesmo período de 2011, apontou a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

- A economia está mais fraca do que se esperava. E quem puxa a atividade é o consumo, em direção oposta à indústria. A recuperação fica para o segundo semestre - disse Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC.

Segundo a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), o fluxo de veículos pesados recuou 0,8% - espelho da indústria. E a produção de embalagens pode recuar 0,3% no primeiro trimestre de 2012, ante igual período de 2011, prevê a Associação Brasileira de Embalagens (Abre).

- Novamente a indústria surge como vilã do primeiro trimestre e joga a recuperação maior para o segundo trimestre. Diria que ai sim é provável a taxa de crescimento na margem chegar a números acima de 1%. Isso ajuda a manter a inflação em desaceleração, mas coloca o BC com mais possibilidade de estimular a economia. Não estranharia se o BC voltasse a discutir uma queda marginal da Selic após chegar a 9% - comentou Vale.

Para André Perfeito, da Gradual Investimentos, o resultado do IBC-BR é compatível com projeções de um PIB bastante fraco em 2012 (perto de 2,3%).

- Uma recuperação mais forte fica mesmo para o segundo semestre.

FONTE: O GLOBO

Amigos do rei; inimigos do povo

O Orçamento Geral da União (OGU) permite aferir, a qualquer tempo, como um governo está empregando o dinheiro do contribuinte. Mas possibilita mais: a partir de sua análise, também se pode verificar o equilíbrio no repasse de verbas aos entes federados. Neste quesito, a prática petista tem revelado que o que conta é ser amigo do rei.

A execução orçamentária do ano passado e o planejamento para este ano mostram como o PT distorce o uso dos recursos públicos. Seja em termos de transferências às prefeituras, seja no reparte entre ministérios, aos petistas se reserva tudo e mais um pouco. Ao resto, sobram migalhas.

Em duas reportagens neste fim de semana, a Folha de S.Paulo dissecou o desequilíbrio. O mais gritante é o que acontece na divisão de verbas federais do OGU entre prefeituras. O privilégio a governantes petistas é evidente.

Ontem, o jornal examinou os repasses aos 81 maiores municípios do país - com mais de 200 mil eleitores. Entre os dez que mais receberam dinheiro da União desde o início do governo Dilma Rousseff, nada menos de seis são governados pelo PT e, claro, nenhum pela oposição.

A melhor forma de medir o desequilíbrio é ponderar o valor repassado pelo número de eleitores - que, por sua vez, guarda correlação estreita com o da população total. Nesta conta, São Bernardo do Campo (surpresa!) aparece no topo da lista, com R$ 93 per capita, junto com Porto Velho (RO). Ambas são governadas por petistas.

Cidades administradas pela oposição predominam no grupo das que foram mais mal tratadas pela gestão Dilma. Sorocaba, um reduto tucano, e Barueri não viram um centavo do OGU desde janeiro de 2011. Neste período, cada eleitor de São Paulo recebeu mero R$ 0,62 do governo de Dilma.

Será que a capital não tem problemas tão ou mais graves e prementes que os da vizinha do ABC? Em números absolutos, os 8,5 milhões de eleitores de São Paulo receberam um décimo (R$ 5,1 milhões) do que foi enviado aos 564 mil de São Bernardo (R$ 52,5 milhões). Por que tamanha diferença de tratamento?

A distribuição dos recursos entre os partidos confirma as distorções. Municípios governados pelo PT ficaram com 41% de tudo o que foi repassado por meio de convênios diretos da União às prefeituras das 81 maiores cidades. O segundo da lista é o PMDB, com praticamente metade disso (22%). O PSDB teve 4,5%.

Numa outra análise, os petistas também despontam como os queridinhos dos gestores do OGU. No sábado, a Folha examinou como o corte orçamentário de R$ 55 bilhões anunciado em fevereiro atingiu as pastas da Esplanada. A conclusão (surpresa!) é que os ministérios petistas quase não foram atingidos.

As 14 pastas ocupadas por petistas ou por gente classificada como sendo da "cota pessoal" da presidente perderam apenas 10% da verba inicialmente prevista para ser gasta neste ano. Na ponta de cima, ministérios como Esporte (ocupado pelo PCdoB) e Turismo (do PMDB) deram adeus a 70% dos recursos do OGU para 2011.

Na média, as pastas entregues por Dilma a PMDB, PSB, PR, PP, PDT, PC do B e PRB tiveram cortada 24% da verba prevista para este ano. Outra evidência do desequilíbrio de tratamento: enquanto os ministérios petistas terão R$ 162 bilhões à disposição (78% do total), aos demais foram destinados R$ 45,6 bilhões.

Diante de indícios tão contundentes, não espanta que a base parlamentar esteja em estado de conflagração. O PT ressuscitou com ímpeto a nefasta prática do "toma lá, dá cá", mas na hora de dar deixou seus aliados à míngua. O partido de Dilma, Lula e José Dirceu governa na base da compra de apoio, mas na hora de pagar dá cano.

Mas o pior mesmo é tratar o dinheiro do contribuinte como se fosse um recurso privado. Prioridades orçamentárias deveriam se basear nas necessidades da população e não na coloração partidária de quem é amigo do rei. Da forma como governam, os administradores petistas agem como inimigos do povo.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela

Caetano Veloso - Alegria, Alegria

Presidencialismo acorrentado:: Wilson Figueiredo

O presidente Lula, em seu horror instintivo ao vácuo e a qualquer oposição, não perdia tempo com situações que pediam decisão. Se errasse, nomeava um culpado, remetia às urtigas as conseqüências e ia em frente sem olhar para trás. Deixava as sobras para a República acomodar.

A sucessora de Lula herdou a base parlamentar já insaciável em matéria de nomeações e verbas pessoais, mas se deu conta de que o sistema presidencialista de governo não pode ser uma armadilha para presidentes. No primeiro ano de mandato, Dilma Rousseff foi testada pela base parlamentar que se elegeu na mesma fornada de votos, sem nada apresentar de durável nem mostrar disposição de mudar no segundo.

O estilo toma lá, dá ca nada legou de durável, exceto as divergências. Dilma, no entanto, mostrou suficiente capacidade de se equilibrar na instabilidade e, ao começar o segundo ano, deparou-se com a urgência de uma decisão política para erradicar os equívocos que vicejam à margem dos fatos. Parece ter assimilado a observação de que a normalidade política também é incompatível com o vácuo e não abdica de uma oposição real para manter a forma . E, antes que hipóteses ociosas entrem em circulação periférica, ou que Lula recupere a palavra, a presidente optou por uma “interlocução geral e vai mostrar isso com atos”, segundo o novo líder do governo no Senado. Se o senador Eduardo Braga ouviu bem (dela e de mais ninguém), a presidente vai conversar inclusive com gente em franco desacordo - dentro e fora do governo – com o padrão chega pra lá na convivência política oficial. 

O estilo vai ser polido e mudará para melhor as relações da presidente com a representação politica. “Uma nova prática, um novo modelo”, “mudança de paradigmas” e por aí afora. Definições feitas e anunciadas, o novo líder passou da palavra à ação, e falou da montagem de “maioria qualificada” para melhorar o varejo do dá ca, toma la da minoria desqualificada. E, acredite quem quiser, em tom coloquial o doutor Honoris Causa deu pessoalmente ao ministro aval à idéia: “conte comigo”. Ai de quem acreditar. No dia seguinte, o próprio Lula, para fomentar desavenças, não titubeou em proclamar padrão de dignidade política ninguém menos do que o ex-deputado Severino Cavalcanti, um dos que mais contribuíram para comprometer o exercício do mandato popular e esvaziar de credibilidade o Congresso Nacional.

A experiência de operar bases de apoio parlamentar com 17 partidos teve como resultado apenas a conclusão de que, na hora de decidir, não é o interesse público que pesa na balança. A presidente passou a sentir no resultado das votações de interesse do governo a prevalência de interesses menores, que passam longe e colidem com o Palácio do Planalto. Concluiu que é impossível saber com quantos votos pode contar dessa gente que se move por interesse próprio nas decisões de interesse público.

A dificuldade para sair desse atoleiro é que, depois de Lula, o Brasil passou a ter duas oposições e, para a democracia, uma é suficiente. Quem tem duas tem confusão e acaba sem nenhuma. A oposição propriamente dita está ofuscada pelos interesses conflitantes da base parlamentar sobre a qual se deslocam legendas movidas pela cobiça pessoal. A oposição de circunstância tem voto ao alcance para negociar com o governo favores de última hora. É pouco para uma democracia que ambiciona mais do que simulação.

O sinal de tempos escassos de idéias é a oposição que ficou entalada entre o liberalismo e uma inclinação democrática à esquerda, como podia ter sido mas não foi a social-democracia por aqui. Um país com tais dimensões não pode se privar de uma oposição, e até mesmo uma esquerda de peso teria o seu lugar. A direita também, embora este lado esteja resolvido de outra maneira.

O saldo do primeiro ano dos quatro de Dilma Rousseff foi lançado sobre a mesa dos que se serviram fartamente e saíram com fome. Quanto a ela, deve ter concluído que tal base de sustentação se vale do que, em bom português, pode-se perfeitamente – sem favor algum - considerar bullying político.

FONTE: JORNAL DO BRASIL

A incompetência virou elogio :: Marco Antonio Villa

O governo Dilma Rousseff lembra o petroleiro João Cândido. Foi inaugurado com festa, mas não pôde navegar. De longe, até que tem um bom aspecto. Mas não resiste ao teste. Se for lançado ao mar, afunda. Não há discurso, por mais empolgante que seja, que consiga impedir o naufrágio. A presidente apresenta um ar de uma política bem-intencionada, de uma tia severa e até parece acreditar no que diz. Imagina que seu governo vai bem, que as metas estão cumpridas, que formou uma boa equipe de auxiliares e que sua relação com a base de sustentação política é estritamente republicana. Contudo, os seus primeiros 15 meses de governo foram marcados por escândalos de corrupção, pela subserviência aos tradicionais oligarcas que controlam o Legislativo em Brasília e por uma irritante paralisia administrativa.

Inicialmente, a presidente vendeu a ideia que o Ministério não era dela, mas de Lula. E que era o preço que teria pagado por ser uma neófita na política nacional. Alguns chegaram até a acreditar que ela estaria se afastando do seu tutor político, o que demonstra como é amplo o campo do engodo no Brasil. Foi passando o tempo e nada mudou. Se ocorreram algumas mudanças no Ministério, nenhuma foi por sua iniciativa. Além do que, foi mantida a mesma lógica na designação dos novos ministros.

Confundindo cara feia com energia, a presidente continuou representando o papel de hábil executiva e que via a política com certo desprezo, como se os seus ideais de juventude não estivessem superados. Como sua base não é flor que se cheire, acabou até ganhando a simpatia popular. Contudo, não se afastou deste jardim, numa curiosa relação de amor e ódio. Manteve o método herdado do seu padrinho político, de transformar a ocupação do Estado em instrumento permanente de negociação política. E ainda diz, sem ficar ruborizada, que não é partidária do toma lá dá cá. Dá para acreditar?

O Ministério é notabilizado pela inoperância administrativa. Bom ministro é aquele que não aparece nos jornais com alguma acusação de corrupção. Para este governo, isto basta. Sem ser enfadonho, basta destacar dois casos. Aloizio Mercadante teve passagem pífia pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Se fosse demitido na reforma ministerial - aquela que a presidente anunciou no último trimestre do ano passado e até hoje não realizou -, poucos reclamariam, pois nada fez durante mais de um ano na função. Porém, como um bom exemplo do tempo em que vivemos, acabou promovido para o Ministério da Educação. Ou seja, a incapacidade foi premiada. O mesmo, parece, ocorrerá com Edison Lobão, que deve sair do Ministério de Minas e Energia para a presidência do Senado, com o beneplácito da presidente. O que fez de positivo no seu ministério?

Numa caricata representação de participação política, Dilma patrocinou uma reunião com o empresariado nacional para ouvir o já sabido. Todas as reclamações ou concordâncias já eram conhecidas antes do encontro. Então, para que a reunião? Para manter a aura da Presidência-espetáculo? Para garantir uma fugaz manchete no dia seguinte? Será que ela não sabe que não tem o poder de comunicação do seu tutor político e que tudo será esquecido rapidamente?

Uma das maiores obras da atualidade serve como referência para analisar como o governo trata a coisa pública. Desde quando foi anunciada a transposição de parte das águas do Rio São Francisco, inúmeras vozes sensatas se levantaram para demonstrar o absurdo da proposta. Nada demoveu o governo. Além do que estava próxima a eleição presidencial de 2010. Dilma ganhou de goleada na região por onde a obra passaria - em algumas cidades teve 92% dos votos. Passaria porque, apesar dos bilhões gastos, os canteiros estão abandonados e o pouco que foi realizado está sendo destruído pela falta de conservação. Enquanto isso, estados como a Bahia estão sofrendo com a maior seca dos últimos 30 anos. E, em vez de incentivar a agricultura seca, a formação de cooperativas, a construção de estradas vicinais e os projetos de conservação da água desenvolvidos por diversas entidades, a presidente optou por derramar bilhões de reais nos cofres das grandes empreiteiras.

A falta de uma boa equipe ministerial, a ausência de projetos e o descompromisso com o futuro do país são evidentes. O pouco - muito pouco - que funciona na máquina estatal é produto de mudanças que tiveram início no final do século XX. A ausência de novas iniciativas é patente. Sem condições de pensar o novo, resta ao governo maldizer os países que estão dando certo em vez de aprender as razões do êxito, reforçando um certo amargor nacional com o sucesso alheio. No passado a culpa era imputada aos Estados Unidos; hoje este papel está reservado à China.

Como em um conto de fadas, a presidente acredita que tudo terá um final feliz. Mas, até agora, o lobo mau está reinando absoluto na floresta. Basta observar os péssimos resultados econômicos do ano passado quando o Brasil foi o país que menos cresceu na América do Sul. E a comparação é com o Paraguai e o Equador e não com a Índia e a China.

Não é descabido imaginar que a presidente foi contaminada pelo "virus brasilienses". Esta "espécie", que prolifera com muita facilidade em Brasília, tem uma variante mais perigosa, o "petismus". A vacina é a democracia combinada com outra forma de governar, buscando a competência, os melhores quadros e alianças programáticas. Mas em um país marcado pela subserviência, a incompetência governamental se transformou em elogio.

Marco Antonio Villa é historiador.

FONTE: O GLOBO

Visão distorcida:: Merval Pereira

Há uma visão distorcida na prática política brasileira sobre as prévias partidárias para a escolha de um candidato. Enquanto nos Estados Unidos as prévias são um fato corriqueiro, e quase sempre o vencido apoia o vencedor, aqui no Brasil tem-se a percepção de que o partido sai rachado do embate interno.

O candidato tucano à Prefeitura de São Paulo, José Serra, saiu com uma vitória de 52% dos votos das prévias partidárias, mas está sendo visto como o grande derrotado.

Para se ter uma ideia do que isso significa, Serra teve a maioria absoluta dos convencionais que votaram, mais votos que seus dois adversários somados, quando precisaria ter pouco mais de 33% para sagrar-se vencedor da disputa.

Na disputa de 2008 nos Estados Unidos, Barack Obama ganhou de Hillary Clinton com pouco mais de 53% dos votos dos convencionais democratas e custou a fechar um acordo com Hillary. Hoje, ela é sua secretária de Estado, com grande prestígio político.

Mesmo tirando o caráter partidário da maior parte dos que adotam a análise de que a vitória de Serra foi uma derrota, é verdade que na cultura brasileira um candidato só sai consagrado de uma prévia se vencer pelo menos com 70% dos votos.

Será preciso sair de uma disputa interna com votação de ditador africano, que ganha as eleições com quase 100% dos votos, para ser considerado um candidato consagrado pelas urnas.

Mas, se por acaso Serra vencesse por 70% ou 80% dos votos, seria acusado de ter manipulado a eleição com a ajuda do governador Geraldo Alckmin.

Como sempre, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vocalizou a oposição, colocando o dedo na ferida petista.

Ressaltou a realização de prévias como uma vantagem do PSDB em relação ao PT na escolha do candidato a prefeito de São Paulo, deixando em segundo plano a votação em si.

A democracia interna tucana se impôs como fato político, enquanto o dedaço de Lula escolhendo o ex-ministro Fernando Haddad seria a demonstração de que o PT se transformou em um partido de um dono só.

O partido que escolhia seus candidatos "ouvindo as bases" deixou de fazê-lo quando chegou ao poder. Já ao PSDB, diante de um quadro partidário fragmentado e sem grandes nomes para disputar a Prefeitura de São Paulo, não restou alternativa que não fossem as prévias.

Quando o ex-governador José Serra decidiu concorrer à prefeitura, não havia mais como desistir das prévias e aclamá-lo candidato único, como era vontade da direção nacional no início do processo.

O próprio Serra e o governador Geraldo Alckmin chegaram à conclusão de que não realizar as prévias seria um mau começo para uma eventual campanha de Serra.

As prévias, embora existam ainda no estatuto do PT, assim como a defesa do socialismo, foram se tornando um modelo que não serve mais.

O ministro Gilberto Carvalho, representante formal de Lula no governo Dilma, chegou a dizer que seria "um desastre" a realização de prévias para escolher o candidato petista à prefeitura, como chegou a defender o senador Eduardo Suplicy, que finge ainda acreditar que os princípios petistas continuam intactos.

Não ouviu o aviso de Lula tempos atrás: chega de principismos. Com isso, Lula queria dizer que o tempo de seguir os princípios que teoricamente nortearam a criação do PT teriam que ser trocados pelo pragmatismo para manter o poder.

Lula, com o tempo, foi ganhando tanta hegemonia dentro do PT que passou a centralizar as decisões partidárias, até que a escolha de Dilma Rousseff para sua sucessão deu-lhe ares de mágico político.

Daí a tomar a iniciativa de organizar a tentativa de tomada de poder em São Paulo foi uma consequência lógica.

O projeto começou pela renovação dos quadros políticos petistas, alijando a senadora e ex-prefeita Marta Suplicy do páreo para a Prefeitura de São Paulo.

Caso o partido resolvesse a escolha de seu candidato através de prévias, tudo indica que, mesmo com o apoio de Lula, o ex-ministro Fernando Haddad perderia a indicação para Marta, o tal "desastre" previsto por Gilberto Carvalho.

O PSDB, ao contrário, foi buscar Serra para defender seu nicho eleitoral, na certeza de que uma renovação de quadros forçada daria a Lula um espaço político para se transformar no centro da disputa paulistana.

A disputa não seria entre Fernando Haddad e uma liderança tucana nova como José Anibal, por exemplo, ou Andrea Matarazzo, mas entre Lula e o comando do PSDB, transferindo o embate do âmbito local para o nacional.

Nada indica que Serra terá problemas dentro do PSDB para unir o partido, mesmo porque seria suicídio político os seguidores de José Anibal ou Tripoli se colocarem na dissidência partidária, abrindo mão de um poder local que já exercem.

O centro da disputa agora passa a ser o PSB, o partido do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que procura um caminho próprio, dividido entre a lealdade ao projeto do ex-presidente Lula e sua vontade de transformar-se em protagonista da cena política, e não coadjuvante eterno do PT.

Por isso mesmo, Eduardo Campos insiste em que seu partido só se definirá em julho, o que lhe dará tempo suficiente para encontrar uma saída que não o prenda definitivamente a um dos lados em disputa, mesmo porque pretende ser um dia a alternativa à polarização PT-PSDB.

FONTE: O GLOBO

A crise viajou?:: Dora Kramer

O raciocínio desenvolvido pela presidente Dilma Rousseff sobre os recentes conflitos com o Congresso, em sua entrevista à revista Veja, é institucionalmente irretocável.

"Perder ou ganhar votações faz parte do processo democrático. Você não pode ganhar todas. Em alguma circunstância sempre vai emergir uma posição de consenso no Congresso que não necessariamente será a do Executivo. A tensão é inerente ao presidencialismo de coalizão", disse ela, ressaltando o imperativo do respeito às posições do Legislativo para concluir pela inexistência de crise.

"Crise existe quando se perde a legitimidade", acrescentou a presidente, em análise particularmente feliz e, sobretudo, ponderada da situação.

Infeliz, porém, apresenta-se a realidade em que a teoria não rende homenagens à prática. Nos atos Dilma contradiz as próprias palavras quando deixa transparecer que em seu modo de operação a única possibilidade de expressão do Parlamento é dizer "sim" a tudo que emana do Palácio do Planalto.

Ou, então, o que pensa a presidente não é o que dizem nem o que fazem seus auxiliares.

Se o caso for de erro de tradução, as coisas podem muito bem se ajeitar. Começando por Dilma mandar que parem de usar expressões como "faca no pescoço", de dizer que ficou "irritada" com isso ou "furiosa" com aquilo e que não vai admitir ser contrariada em votações.

Mas, se a discrepância for entre o discurso eventual e a prática cotidiana da presidente, complica. A realidade é exatamente aquela descrita por ela na entrevista: a despeito da fragilidade do Legislativo – gerada por uma deformação de conduta, é verdade – o Executivo não pode se valer dela para sobressair-se junto à opinião pública nem para estabelecer uma conexão baseada na intimidação, na lógica da luta do bem contra o mal.

Entre outros motivos porque denota deliberada aposta no desequilíbrio entre os Poderes.

E por mais que o grosso da opinião pública não entenda direito o significado disso, cabe ao governante evitar cair na tentação de jogar na confrontação entre políticos e sociedade.

A se exacerbarem os ânimos nessa direção, amanhã ou depois aparecem os pregadores da inutilidade do Congresso e, a depender de como esteja o clima, pode prosperar um ambiente que não interessa a ninguém. Nem aos atuais condôminos do poder.

A presidente foi à Índia. Ficará ausente por uma semana. Nesse período haverá tempo para conferir se a ela se aplica a frase do então senador Fernando Henrique Cardoso quando José Sarney era presidente – "A crise viajou" – ou se a confusão toda decorre de uma enorme falha de comunicação.

Provisórias. Por determinação do Supremo Tribunal Federal, nesta semana o Congresso começa a cumprir o rito de tramitação de medidas provisórias conforme manda a Constituição, instalando uma comissão especial para examinar se uma MP é mesmo urgente e/ou relevante.

A primeira é a medida de número 562 sobre repasse dos recursos do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) para instituições comunitárias da área rural.

Relevante? Sem dúvida. Caberá aos deputados e senadores examinarem se é urgente. Não do ponto de vista da necessidade do Executivo de resolver da maneira mais fácil a questão, mas na perspectiva da necessidade real.

Será um teste. Dependendo do resultado, o exame de medidas provisórias poderá servir como triagem eficaz o suficiente para levar o Executivo a reduzir o uso do instrumento, ou funcionar apenas como instância formal de homologação da vontade do Planalto por meio da ação da maioria governista.

Uma notícia recente sinaliza que o governo não acredita na mudança real de sistemática, pois estaria estudando a edição de uma MP pouco antes da Copa para liberar a venda de bebidas alcoólicas nos estádios.

Não há relevância muito menos urgência como atesta a antecedência com que é examinada a hipótese de edição da medida.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Sem pressão, sem "lide" :: Eliane Cantanhêde

Entrevistas exclusivas de presidentes costumavam ter títulos fortes e repercutir, virar assunto no Congresso, nas Redações, na academia, nos meios empresariais. Pelo menos quando os presidentes eram políticos. Não mais com uma presidente técnica.

Dilma falou por duas horas para a revista "Veja", com um roteiro óbvio, um discurso pronto, praticamente sem questionamento. Sob pressão, "minha filha", ela costuma irritar-se. Sem pressão, deu uma entrevista correta, equilibrada, mas sem emoção e sem novidades. No jargão da imprensa, sem "lide" (uma abertura forte, marcante, que puxa o título).

Na economia, afora ter chamado o presidente do Banco Central Europeu de "companheiro", Dilma tucanou: a culpa é nossa e é deles. Reclamou que a Europa "está inundando os mercados com dinheiro" e que os investidores pegam empréstimo barato lá e se aproveitam dos altos juros daqui. Sim, e daí? Qualquer um faria a mesma coisa. Que tal a redução dos juros brasileiros?

Quanto à também altíssima carga de impostos, prometeu, valente: "Vamos baixá-la". Vale lembrar que "promessa é dívida".

Na questão da "faxina" (expressão que classificou indiretamente de machista), saiu pela tangente, citando Montesquieu: "Os processos no governo precisam ser tão claros e os resultados de avaliação tão lógicos que não sobre espaço para as fraquezas dos indivíduos". Não deve, porém, subestimar os indivíduos aliados que herdou de Lula. Eles são craques em descobrir brechas para exercitar suas fraquezas.

Ao chamar os problemas com o Congresso de "questiúnculas", Dilma ensinou que "as grandes crises se originaram da perda de legitimidade do governante". Mas ninguém fala em crise institucional e perda de legitimidade, e sim que a relação do Planalto com a base aliada vai de mal a pior. Sobre isso, nada foi dito, nada mais lhe foi perguntado.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A exaustão do método :: Carlos Melo

Engana-se quem, em razão da troca das lideranças no Congresso Nacional, acredita na mudança filosófica do governo federal. Engana-se ainda mais quem, por causa disso, vislumbra rompimento entre Dilma Rousseff e Lula e a engenharia política do governo anterior. Lula segue como o principal conselheiro da presidente e bobagem será procurar fraturas nesse relacionamento. O ex-presidente sabe que aquilo que um dia foi sólido pode perfeitamente desmanchar-se no ar, com o tempo, com o processo, com o uso. O que se passa, portanto, está longe de uma mudança de 180 graus ou coisa que o valha.?

O que há, de fato, é a exaustão natural de um método e de procedimentos que nos trouxeram até aqui, mas que agora sofrem abalos e pedem repactuações. Mais útil, então, será compreender mais esta crise e as eventuais mudanças por ela geradas como o esgarçamento de acordos e relacionamentos firmados no pós-mensalão. Acordos que deram a reeleição a Lula e a sucessão a Dilma; que atraíram o PMDB e contiveram parcelas do PT desde sempre impacientes por, de direito e de fato, assumir o poder - e controlar os meios e dar as cartas.?

O que se exaure é o modelo de governabilidade baseado na conciliação de interesses distintos e divergentes por meio da distribuição de espaços e recursos públicos. Escasseiam esses espaços e recursos e logo se deteriora o pacto. E não há mais a sedução presidencial - de Lula -, a conversa ao pé do ouvido, o receber em palácio, o tapinha nas costas, as metáforas de futebol e as promessas de que tudo se acerta, no futuro. Não é o estilo de Dilma e há mesmo uma impossibilidade: sedução e metáforas não resolvem tudo.?

O presidencialismo de coalizão não é em si um mal; trouxe-nos até aqui, mas sua natureza expansiva e voraz não aceita limites. Oito anos de Lula, um ano e tanto de Dilma e todo o espaço, por diminuto que fosse, foi ocupado e os recursos, consumidos. A corrida das eleições municipais - na busca por maior cacife e melhor colocação em 2014 - aguça contradições e conflitos internos. A oposição é, antes de tudo, interna - a outra, a institucional, praticamente não existe.?

O "é dando que se recebe" de Roberto Cardoso Alves chega ao paroxismo: quando nada mais há para dar, o que se recebe é ressentimento. As fontes secam, as verbas mínguam; os esquemas se esbarram, se confundem e mutuamente se anulam. A política assume sua face de "guerra por outros meios". O mal-estar é óbvio. O Brasil ainda não deu certo. Não o compreende quem não quer.?

Oito anos de Lula, um ano e pouco de Dilma e a base só fez crescer. O triunfalismo estabeleceu-se; o adesismo fundiu-se, agigantou-se e perdeu mobilidade, unidade, organicidade. As margens de ação estreitaram-se, a voracidade naturalmente se transformou em autofagia: os mais vivos comem os menos vivos. Evidencia-se o equívoco: é impossível fugir do Congresso, sonegar-lhe a agenda, evitar a sua pressão. Estratégias individuais assumem lógica coletiva e, por sobrevivência, o Parlamento formaliza sua própria agenda, a negativa!?

O Estado não consegue expandir-se na velocidade do apetite fisiológico. Onde o produto interno bruto (PIB) caminha a passo de cágado e o medo da volta da inflação impõe comedimento fiscal, há escassez e tergiversação: os garçons apenas anotam pedidos. Nesse contexto, Romero Jucá e Cândido Vaccarezza se equilibravam, malabaristas de um jogo lancinante. Mas haja destreza para lidar com tantos marimbondos de fogo.?

No impasse, Jucá viu-se obrigado a escolher o senhor a quem se devotar. Voltou para o leito de Renan Calheiros e José Sarney. Já Vaccarezza atordoado estava e atordoado ficou, caminhando descalço sobre o fio da navalha de um PT dividido. Jucá e Vaccarezza, seus grupos, também saberão a hora de dar o troco.?

Os novos líderes, Eduardo Braga e Arlindo Chinaglia, podem facilitar a interlocução, são sangue novo e promessa de novos ares, têm um estoque de palavras a empenhar. Mas quem representarão? O governo ou as demandas? Dilma resolveu medir forças com a parcela mais voraz, articulada e astuta da base. Dará resultado? Os adversários têm mais paciência e experiência do que a presidente e são também menos pressionados. A voracidade nunca se farta: em vez de atender a ela ou enganá-la, melhor seria eliminá-la.?

Há neste governo, porém, dois problemas crônicos que compõem um verdadeiro enigma: falta-lhe a base coesa e programática, fiel e disposta a defender uma agenda; mas carece também de uma agenda clara e politizada, que aponte rumos e garanta o que se conquistou nos últimos 20 anos; uma agenda capaz de persuadir e/ou coagir a base, dando-lhe coesão e rumo programático. O que vem primeiro, a base ou a agenda??

A despreocupação programática, a inexistência de agenda e a conciliação são terrenos férteis para a corrosão fisiológica. E isso, é claro, compromete qualquer esforço de unir e orientar a base. A capitulação quanto às reformas não apenas implica a fragilização do desenvolvimento econômico, como também fortalece interesses individuais, reafirma o oligarquismo e o status quo. No Brasil de hoje - e isso não é responsabilidade exclusiva da presidente Dilma - há, lamentavelmente, um vazio de criatividade e de ímpeto da liderança. Pragmatismo em excesso é uma praga.?

O círculo é vicioso, do tipo "o ovo ou a galinha". Ou o tal "enigma de Tostines": vende mais porque está sempre "fresquinho" ou o contrário? Provavelmente o biscoito venda porque se acredita que esteja fresquinho - o que faz com que venda mais, mantendo-se fresquinho. A liderança implica reverter o círculo; em algum grau, a crença, a ousadia, projeto e a utopia são imprescindíveis. Duelar com ideias pode ser uma luta vã, mas ao menos mobiliza sonhos e forja caracteres; escreve outra história. Sem isso tudo perde o frescor.

*Cientista político, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), é autor de "Collor, o ator e suas circunstâncias".

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Os desafios de Lula e Serra na eleição:: Raymundo Costa

Ex-governador, prefeito e duas vezes candidato a presidente da República, esperava-se de José Serra melhor desempenho na prévia dos tucanos, realizada no domingo para escolher o candidato do partido a prefeito de São Paulo - Serra teve 52,1% dos 6.229 votantes, contra 31,2% do secretário estadual de Energia, José Aníbal, e 16,7% do deputado federal Ricardo Trípoli. Quando disputou com Luiz Inácio Lula da Silva a prévia do PT para a eleição de 2002, o senador Eduardo Suplicy teve 15,6% dos votos. Era um opositor solitário contra o líder inconteste do partido.

Os 52,1% não têm a menor importância no quadro de uma disputa que só agora começa a ser delineada. Mas deve servir de advertência para José Serra, mesmo sabendo-se da precariedade desse tipo de consulta, sujeita, de última hora, a filiações dirigidas de militantes. Importante, para o tucano - e também para o candidato do PT -, é o apoio de quem realmente tem voto.

Para Serra, no momento, é o apoio das bancadas federal, estadual e municipal, além, é evidente, do governador Geraldo Alckmin. O mesmo serve para Fernando Haddad, o candidato escolhido pelo ex-presidente Lula num projeto de renovação do PT. Neste quesito, Serra leva a desvantagem de ter a cúpula nacional do PSDB, inclinada a apoiar a candidatura de Aécio Neves na próxima eleição presidencial. Haddad tem um grande handicap: o apoio de Lula e sua imensa popularidade, mas a desvantagem de um partido que teve de engolir sua indicação por Lula e que anda indócil com sua imobilidade nas pesquisas.

Divisão ameaça planos do PSDB e do PT em São Paulo

Os últimos movimentos partidários indicam que Haddad pode até mesmo ficar isolado, ele que precisa de tempo maior de televisão para se tornar mais conhecido. Mas isso se deve provavelmente a um erro de cálculo de Lula, que mostrou suas cartas antes do tempo, passando para os partidos aliados a mensagem de que a eleição de Haddad é importante para o PT, mas é muito mais ainda para ele, uma espécie de questão de honra. Subiu na hora o preço de todos os candidatos a aliado.

O PT se repete: quando Dilma patinava nas pesquisas, no início de 2010, poucos eram os dirigentes partidários a fazer uma sincera profissão de fé na escolha do comandante. Haddad, ao contrário de Dilma, é considerado um professor bom no debate, pessoa de estilo suave, simpática e com serviços prestados ao país, como ministro da Educação e Cultura de Lula e Dilma.

As recentes mudanças feitas pela presidente Dilma Rousseff no Congresso também serviram para aumentar o desconforto dos petistas da cidade de São Paulo. A indicação do novo líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), é um exemplo. Os deputados sempre procuraram manter alguns critérios nas indicações para a partilha de cargos e funções. Nos últimos anos, o líder do governo sempre vinha da liderança da bancada. Isso aconteceu com Arlindo Chinaglia (SP), Henrique Fontana (RS) e Cândido Vaccarezza. Agora, o ex-líder da bancada Paulo Teixeira (SP) foi ignorado em favor de Chinaglia, embora fosse o nome preferido da coordenadora política do governo, Ideli Salvatti, para a desempenho da função.

A disputa em São Paulo contribuiu para o desequilíbrio na representação das correntes. Para desistir de disputar a prévia para a indicação do partido a prefeito de São Paulo, Jilmar Tatto ganhou a liderança da bancada: José Guimarães (CE), o candidato do campo majoritário, aceitou acordo para ser o próximo líder. A senadora Marta Suplicy (SP) rendeu-se à força de Lula, mas ficou na vice-presidência do Senado, rompendo um acordo pelo qual o senador José Pimentel ocuparia o cargo, findo o primeiro ano de exercício do PT. E ao deputado Carlos Zarattini, outro dos pré-candidatos, coube a função de relator do projeto dos royalties na Câmara, um posto de projeção. Teixeira foi sacrificado, mas não é o único da turma que cobra mais efetividade do candidato.

Do lado tucano, as dificuldades aparentes do candidato petista parecem ter uma leitura mais realista. O próprio José Serra, em conversa com interlocutores, tem afirmado que seria um grande um erro subestimar a candidatura do ex-ministro da Educação. Na percepção do tucano, o PT tem os 30% tradicionais que costuma alcançar na cidade de São Paulo e um candidato bem mais difícil de enfrentar do que foi Aloizio Mercadante nas eleições de 2006 para governador, quando o petista teve cerca de 35% dos votos. O tucano costuma ressaltar uma virtude em Fernando Haddad: a capacidade de aprender.

Resta saber quais as lições o próprio Serra tirou de suas últimas campanhas, especialmente a última delas, em que perdeu a Presidência da República para Dilma, numa disputa em que largou na frente como franco favorito.

Os problemas do tucano com a direção nacional do PSDB certamente são bem maiores que os de Haddad com o comando do PT. Nos bastidores do PSDB, o grupo hoje engajado na candidatura presidencial do senador Aécio Neves (MG) não demonstra muito entusiasmo com a eventual vitória de Serra na eleição de São Paulo.

O grupo opera, por exemplo, para evitar a coligação do DEM (que é ligado ao governador do Estado, Geraldo Alckmin). O Democratas, para apoiar Serra, exige reciprocidade em Sergipe, Salvador e Recife. Em Sergipe, o candidato João Alves (ameaçado de impugnação pela Justiça Eleitoral) tem o apoio de Serra, que o considera um dos candidatos a governador de maior fidelidade a sua candidatura presidencial em 2010. O tucano paulista também avalia que ACM Neto (DEM) é o candidato da oposição com maior possibilidade de vitória em Salvador.

Em Recife, quem parece pouco disposto a apoiar a candidatura de Mendonça Filho é o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, por questões puramente regionais. Mas as contas estão indo parar na caixa postal de José Serra. O sucesso da prévia paulista deveria ser um alento para o PSDB e não mais um instrumento para a divisão do partido. A pancadaria na base aliada do governo, amplamente majoritária, mostra a falta que faz uma oposição de verdade.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Mantega, o longa vida improvável:: Vinicius Torres Freire

Ministro faz hoje seis anos na Fazenda e acabou por mudar a política econômica que vinha dos anos 1990

"A política econômica não mudará. A política econômica é a política econômica do presidente Lula. O presidente Lula é o fiador dessa política econômica. Além disso, a política econômica não deve mudar porque é a política econômica mais bem-sucedida dos últimos 15 ou 20 anos no Brasil."

Era o que dizia Guido Mantega em sua primeira entrevista coletiva como ministro da Fazenda. Hoje, faz seis anos que Mantega está no posto. Em longevidade, perde apenas para Pedro Malan (1995-2002), ministro durante todo o governo FHC, e para Artur de Souza Costa (1934-1945), que teve a administração cortada por algumas interinidades. Mas Mantega durou mais que Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen, que fizeram história no cargo, durante a ditadura militar.

Mantega assumiu sob grande descrédito, embora a indústria tenha ficado contente com sua nomeação.

Sob Lula, havia sido ministro do Planejamento e presidente do BNDES. Substituiu Antonio Palocci, frito por escândalos. Economistas padrão, o pessoal da finança, "organismos internacionais", a mídia financeira global, todos fizeram luto. Queriam Murilo Portugal, vice de Palocci, como novo ministro.

Portugal ocupou vários cargos públicos na vida, mas era quase um embaixador tucano no ministério. Aliás, a equipe de Palocci poderia ser a de um governo tucano -atenção, não há insulto nesta frase.

O paloccismo era arroz com feijão fiscal (controle de gastos), aliança com o Banco Central "falcão" e um programa de execução de reformas ditas "liberais" -as de fato executadas eram apenas racionais e foram um fator importante na retomada do crescimento que viria.

A política econômica de fato não mudou em 2006-07. Mas deixou de pender para o lado "liberal".

Sob inspiração de seus assessores (Portugal, Marcos Lisboa, Joaquim Levy), Palocci propunha redução de gastos públicos mais permanente, menos gasto social, desvincular reajustes da Previdência do salário mínimo (e reforma da Previdência), mais abertura comercial e mais reformas microeconômicas.

Mantega combatera Palocci, entrara em atritos públicos com os secretários da Fazenda e diretores do BC, fritava Henrique Meirelles (presidente do Banco Central), reclamava do dólar barato (a R$ 2,20, quando assumiu) e queria bancos estatais como motores do crescimento.

Em 2007, começou a falar em "social-desenvolvimentismo", "crescimento com distribuição de renda", o que ocorrera, de forma minguada, entre 2004 e 2006, e que ficaria mais importante em 2007-08.

A mudança da política econômica começou a aparecer na forma de "desenvolvimentismo acidental", a enxurrada de intervenções estatais que foi a resposta do governo Lula à crise mundial, em 2008.

Dados o contexto econômico global, o grande desastre de políticas ditas "liberais", o experimentalismo macroeconômico nos centros econômicos mundiais (mais por precisão, não por boniteza), a força da "heterodoxia" chinesa e o relativo sucesso brasileiro de curto prazo, ao menos, Mantega venceu.

Sob Dilma Rousseff (que combatera o paloccismo quando ministra), o enterro da política econômica de matriz tucana tornou-se programa explícito. E "o mundo não acabou", como dizia o "establishment".

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Com puxadinhos, economia não para em pé

Começou mal o ano na economia. O primeiro resultado oficial do PIB brasileiro de 2012 foi uma queda. O governo não tardou a reagir: anunciou mais uma série de puxadinhos tributários. Desse jeito, não demora a casa cai.

O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) deu 0,13% negativo em janeiro na comparação com dezembro. Mensal, o indicador funciona como prévia fiel do PIB oficial, calculado pelo IBGE e só divulgado uma vez a cada trimestre. Ou seja, aponta para um horizonte turvo à frente.

O crescimento acumulado em 12 meses caiu mais um pouco: passou de 2,79% em dezembro - número que o IBGE praticamente repetiu - para 2,44% em janeiro. Há reza brava para que a curva volte a embicar para cima, o que só deve ocorrer, na melhor das hipóteses, no segundo semestre. Por ora, ela só desce.

De novo, a indústria mostrou as cores da sua anemia. De acordo com o IBC-Br, o setor caiu 2,1% em janeiro, no pior resultado desde dezembro de 2008, isto é, em mais de três anos. O que salvou, de novo, foi o consumo: as vendas do comércio tiveram expansão de 1,4% frente a dezembro.

Vão se evaporando no éter as previsões risonhas feitas pelo governo Dilma Rousseff para o desempenho econômico brasileiro neste ano. Ninguém mais prossegue falando em algo muito acima de 3%. Exceto, claro, Guido Mantega, com suas róseas lentes: "No segundo semestre, deveremos estar crescendo a taxas próximas de 5%", disse ele ontem. Quem crê?

Logo depois de conhecer os resultados do PIB do BC, o Ministério da Fazenda sacou mais algumas armas de seu "arsenal infinito". Diminuiu as alíquotas de IPI de uma série de setores e prorrogou por mais três meses a redução incidente sobre produtos de linha branca (fogões, geladeiras e máquinas de lavar roupas).

De novo, ganhou benefício quem berrou mais alto. Entre os setores contemplados ontem, estão móveis, pisos laminados, revestimentos, lustres e luminárias, que vêm se queixando de dificuldades para competir com importados. Representam, porém, fatia estreita da produção industrial brasileira: menos de 3% do total.

As reações foram, portanto, as típicas da atual gestão: pontuais e localizadas, sem um todo que faça sentido. Equivalem a puxadinhos: no lugar de uma construção robusta e sólida, emendas de ocasião, ao sabor das possibilidades do momento. Às vezes, o alicerce não aguenta.

A política de remendos na economia já vem de longa data na era petista. Revela-se especialmente nas medidas tributárias e em esparsas ações de incentivo à indústria. Pela fragmentação, seus efeitos são, no máximo, etéreos, jamais duradouros.

Desde 2007, R$ 97,8 bilhões já foram dados pelo governo em desonerações a empresas, apontou O Estado de S.Paulo no domingo. Quais os resultados palpáveis e perenes de tais ações? O melhor que dá para dizer é que produziram efeitos localizados e temporários.

Se o governo tivesse gastado munição com uma mudança mais consistente na estrutura tributária, com a adoção de medidas de efeitos generalizados, é possível que tivesse colhido resultados mais robustos. Fato é que as empresas em geral e a população como um todo continuam pagando tanto ou mais imposto do que sempre pagaram.

Em entrevista à revista Veja desta semana, Dilma Rousseff prometeu: "Temos de baixar nossa carga de impostos. E vamos baixá-la." Há agora, portanto, mais um compromisso formal da presidente com a redução de tributos - de resto, uma promessa de campanha dela que nunca foi honrada.

O que se mostra cada dia mais evidente é que o governo petista está levando à exaustão as possibilidades geradas pelas reformas e pelos avanços institucionais implementados no país no fim do século passado. A fonte precisa ser renovada, mas a atual gestão não exibe aptidão para assentar um alicerce firme que sirva para construir um novo Brasil de verdade. Puxadinhos não sustentam uma nação.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela

Jirau e Santo Antônio ainda paradas

Trabalhadores mantêm greve em meio às negociações de reajuste salarial

Danilo Fariello

BRASÍLIA. As obras das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, continuarão paradas. No caso de Santo Antônio, os trabalhadores decidiram, em assembleia, manter a greve que já dura uma semana. Em Jirau, onde as obras estão paradas há 19 dias, os operários decidiram fazer nova votação, secreta. Até lá, permanecerão parados.

Os consórcios responsáveis pelas obras pediram ao governo de Rondônia que mobilize a Força Nacional de Segurança Pública para acompanhar as assembleias e a retomada dos trabalhos, mas o governo federal entende que não é o caso de elevar o contingente, de cerca de 25 oficiais.

Em 2011, durante negociações salariais, uma revolta se instalou no canteiro de Jirau. Mas, segundo relatos, as negociações deste ano têm sido pacíficas.

Em Santo Antônio, a assembleia com cerca de cinco mil trabalhadores foi feita sem registro de conflitos. Uma audiência de conciliação está marcada para hoje no Tribunal Regional do Trabalho de Rondônia.

Com base em decisões da Justiça, que considera a greve ilegal, a Enesa - que atua no canteiro de Jirau - suspendeu o pagamento do vale, indicando que pode descontar dos salários os dias parados. O consórcio construtor de Santo Antônio tem decisão judicial que permite não pagar salários enquanto a greve persistir, mas tal decisão ainda não foi tomada.

Para o governo, o período de greve ainda não ameaça os prazos de conclusão das obras. Jirau, com potência de 3.750 megawatts (MW), deve entrar em operação em janeiro, e Santo Antônio, com 3.150 MW, em abril. Ambas integram o PAC e previsão de conclusão em 2016.

A proximidade do início das operações de Santo Antônio gerou problemas inesperados à população do bairro de Triângulo, na jusante (para onde correm as águas) do Rio Madeira. Com o reservatório pronto e a chegada do período de cheias, 140 famílias foram surpreendidas pelo aumento da corrente. Segundo a Santo Antônio Energia, cerca de 600 pessoas foram realojadas, conforme Termo de Ajustamento de Conduta firmado com o MP local.

FONTE: O GLOBO

Tsunami não é guerra:: Celso Ming

O governo brasileiro conseguiu pautar reunião de alto nível no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) para discutir o câmbio como fator de concorrência desleal no comércio exterior, que começa nesta terça-feira.Por ser a organização que cuida da lisura do comércio global, a OMC é o fórum mais adequado para definir quando e em que condições o câmbio poderia ser considerado instrumento de práticas condenáveis no comércio.

O governo Dilma tem feito denúncias sobre a manipulação do câmbio pelos países ricos contra interesses comerciais do Brasil. Até agora, essas reclamações vêm sendo sistematicamente rechaçadas por autoridades dos países centrais, em parte pela falta de foco do próprio governo brasileiro.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, por exemplo, foi o primeiro a denunciar a tal guerra cambial. A presidente Dilma prefere outro termo: tsunami monetário, provocado pelos grandes bancos centrais que inundam os mercados com liquidez – algo que, por sua vez, tende gerar a valorização das moedas dos países emergentes (alta do dólar). Em entrevista publicada neste final de semana pela Veja, ela pareceu recusar o diagnóstico do ministro Mantega. Reconheceu que a atuação dos grandes bancos centrais (Fed e BCE) não pode ser vista como "agressão proposital" às demais nações.

Guerra cambial e tsunami monetário parecem troca de seis por meia dúzia, mas não o são. Uma coisa é manipular o câmbio, ou seja, intervir diretamente nos mercados de moeda para provocar desvalorização da própria moeda e, assim, tirar competitividade do produto estrangeiro. Está mais para o que fazem o Banco do Japão, o Banco Nacional da Suíça e o Banco do Povo da China, que se põem a comprar moeda estrangeira em seus próprios mercados, aumentam a oferta e evitam a megavalorização da própria moeda, o que tira competitividade do produto nacional.

E coisa bem diferente é o tal tsunami monetário de que fala a presidente Dilma. Trata-se da emissão de dólares pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) ou de euros pelo Banco Central Europeu (BCE). O objetivo do Fed é recomprar títulos do Tesouro americano nos mercados para melhorar o crédito interno e reativar a economia. E a intenção do BCE é criar mais mercado para os títulos dos Tesouros europeus, que vinham sendo rejeitados. São decisões que pouco têm a ver com guerra cambial.

Não dá para dizer que essas enormes emissões de moeda, do Fed e do BCE, estejam provocando desvalorização do dólar e do euro, respectivamente, em detrimento do real ou, eventualmente, de outras moedas. Ao contrário, estancaram a crise tanto dos Estados Unidos como da área do euro e reverteram notórias perdas de valor, tanto do dólar como do euro. Em vez de desvalorização, estão provocando valorização do dólar e do euro. Não podem ser consideradas manobras de guerra cambial. Mas produziram enorme liquidez global – boa parte desembarcada no Brasil – e que ajudam a afundar o real.

O sucesso das operações do Fed e do BCE como políticas estancadoras da crise global mostra a baixíssima probabilidade de que essa atuação dos grandes bancos centrais seja tida como desleal e condenável no comércio exterior, como desejaria o governo Dilma.

CONFIRA

Aí está o comportamento do dólar ante uma cesta de seis moedas.

São as commodities. Para o ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central Alexandre Schwartsman a valorização do real não se deve nem à guerra cambial nem aos tsunamis monetários e, tampouco, à especulação com juros. Deve-se "a uma melhora dos termos de troca (a razão entre os preços das coisas que exportamos e os preços das que importamos)" e à forte alta das commodities no comércio global.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Simplesmente Chico:: Carlos Heitor Cony

Impossível não escrever sobre Chico Anysio, apesar da compacta e mais que merecida cobertura que ele recebeu da mídia em geral e de seus admiradores, vale dizer, do Brasil inteiro. Impossível também destacar os comentários feitos por tanta gente entendida em sua vida e obra. Tenho para mim que a melhor observação foi a de Boni, um dos responsáveis pelo sucesso do Chico -evidente que depois do próprio Chico e do advento do videotaipe na TV.

Boni disse que preferia o grande ator como ator mesmo, "in natura", sem perucas e maquiagens, evitando a pele dos notáveis personagens que criou. Penso da mesma forma: o Chico de cara limpa e roupa comum era ao mesmo tempo o ator e autor de si mesmo. Paulo Francis costumava dizer que ele era o momento mais inteligente da nossa indústria de entretenimento.

Não o considero humorista, mas ator capaz de criar os personagens que admiramos. Dois deles sempre me deram inveja pela originalidade, perfeição e simplicidade da arquitetura cênica e literária: o Pantaleão e o Limoeiro.

Qualquer intérprete que componha um tipo com acessórios e textos adequados, fatalmente fará sucesso. Mas Pantaleão tem apenas uma cadeira de balanço, bem nordestina, um olho tapado e o outro olho, esperto, esse sim, uma criação de gênio. Não precisa de texto: o olho que lhe resta diz tudo, nem precisa do bordão ("É mentira, Terta?") para sabermos que ele não está mentindo, mas expressando um passado que ele criou e no qual acredita.

O coronel Limoeiro também evita acessórios, tem a limpeza de meios que contrasta com outros tipos que resvalam para a caricatura. O terno branco, o chapéu e o sotaque resultam num personagem que Graciliano Ramos, Zé Lins e Jorge Amado se esqueceram de ter criado.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A Camões:: Manuel Bandeira

Quando n’alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,

Não morrerá, sem poetas nem soldados,
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

segunda-feira, 26 de março de 2012

OPINIÃO DO DIA – Gramsci: hegemonia

Pode-se dizer concretamente que Croce em sua atividade histórico-política põe a tônica unicamente naquele momento que em política se chama “hegemonia”, do consenso, da orientação cultural, para distingui-lo do momento da força, da coerção, da intervenção legislativa e estatal ou policial. Em verdade não se compreende porque é que Croce acredita na capacidade desta sua colocação da teoria da história liquidar definitivamente toda a filosofia da práxis. Ocorreu justamente que no mesmo período em que Croce elaborava esta sua soidisant clava, a filosofia da práxis, através dos seus maiores teóricos modernos, era elaborada no mesmo sentido, e o momento da “hegemonia” ou da orientação cultural era então sistematicamente reavaliado em oposição às concepções mecanicistas e fatalistas do economismo. Tornou-se antes possível afirmar que o traço essencial da mais moderna filosofia da práxis consiste justamente no conceito histórico-político de “hegemonia”.

GRAMSCI, Antonio, (22/1/1891-27/4/1937). Cartas do Cárcere, p.287. Civilização Brasileira, 3ª Edição, Rio de Janeiro, 1987.