sexta-feira, 30 de março de 2012

Com jeito vai:: Dora Kramer

Diga-se o que for sobre a senadora Marta Suplicy. Ressalte-se a impertinência, a inadequação verbal e o toque acentuado de presunção, mas reconheça-se nela uma qualidade em escassez no mercado: a insubordinação mental.

Fala alto o que seus companheiros de PT dizem em voz baixa, mas não repetem em público por medo de contrariar o comandante em chefe.

Quando Lula queria fazer de Ciro Gomes candidato a governador de São Paulo, Marta foi a única a verbalizar a insatisfação da maioria, dizendo que ele não tinha "nada a ver" com o estado.

Quando o ex-presidente deu os primeiros sinais de que faria de Fernando Haddad candidato a prefeito, Marta postulava o lugar e duvidou: "Só se for para perder".

Depois avisou que José Serra acabaria sendo candidato pelo PSDB e mais adiante se rebelou contra a aliança com o prefeito Gilberto Kassab, considerando a hipótese "um pesadelo".

Há dois dias disse via Twitter que a estratégia do PT na eleição municipal está errada e aconselhou Haddad a "gastar sola de sapato" se quiser deslanchar.

Marta Suplicy tem falado pouco, evitado entrevistas e, sobretudo, se esquivado da pressão para mergulhar na campanha como uma espécie de embaixadora de Haddad junto ao eleitorado, principalmente o feminino e residente na periferia da cidade.

Nesse vácuo vicejam dúvidas sobre a disposição dela de reforçar o time petista nessa eleição e também surgem versões de que Lula poderia recuar e fazê-la candidata do PT à prefeitura.

O que é fato ou ficção, ninguém melhor que a própria para esclarecer.

"Isso [recuo de Lula] não vai acontecer nem eu tenho pretensão de voltar à disputa. É página virada, já aceitei que não sou candidata, mas não preciso participar de uma campanha equivocada nem acreditar que existem soluções mágicas porque elas não existem", diz a senadora.

A magia a que se refere é o poder que se atribui a ela, ou a Lula, de fazer decolar a candidatura de Haddad. "Quem precisa se conectar com o público é o candidato, não dá para transferir isso", argumenta.

Participar ela vai. Mas só no momento certo, a partir do início oficial da campanha ou, daqui até lá, em situações que considere realmente importantes. Por exemplo: no próximo dia 13 na inauguração de um Centro Educacional Unificado (CEU) em São Bernardo. "No momento inclusive tenho muito trabalho como vice-presidente do Senado."

A senadora acha que não adianta e pode até ser contraproducente sair pela cidade com o candidato a tiracolo como gostaria o partido. "Não acrescenta nada e pode até haver reação negativa daqueles que preferiam a minha candidatura."

Marta assegura que estará no horário de TV e dará declarações de apoio quando "couber". Agora, condiciona seu engajamento a mudanças profundas na estratégia.

As essenciais: "Ampliar as alianças e reforçar a presença de Haddad junto ao eleitorado e à militância. Ele é que precisa empolgar".

Em suma, a senadora faz seu jogo: administra com independência seu patrimônio eleitoral e leva o PT cortar um dobrado de aflição em decorrência da submissão cega a Lula.

Quando lhe interessa, Marta se submete às circunstâncias, mas mantém a alma intacta.

Sem saída. Com a reputação irremediavelmente ferida devido à proximidade com um notório cliente da Justiça dito empresário de jogos, o senador Demóstenes Torres não tem outro jeito a não ser encerrar por aqui sua curta carreira de político.

Até em nome dos muito bons serviços prestados ao mandato – em diversos campos, com destaque ao papel dele em prol da aprovação da Lei da Ficha Limpa –, o senador tem um dever de coerência: aplicar a si o mesmo rigor ético que adotou para tudo e para todos.

Lamentável que um parlamentar de qualidade tenha a trajetória interrompida enquanto outros envolvidos em episódios tão ou mais graves, e muito menos qualificados continuem por aí, mas o gesto da retirada serviria até para marcar a diferença.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Candidatos, tremei! :: Eliane Cantanhêde

Passada a Semana Santa, Lula entrará com tudo na política. Não cabe aí o verbo "voltar", porque não se volta para o lugar em que sempre esteve. Ele apenas emerge dos bastidores, onde vinha atuando apesar de radioterapia, quimioterapia, infecção pulmonar e internações, para reassumir os palcos.

Com sua já altíssima popularidade potencializada ainda mais pela doença, seu carisma inegável e sua liderança única não apenas no PT mas em toda a base aliada do governo, Lula desequilibra qualquer jogo político. Onde entra, é para ganhar.

Seus dois alvos são as suas duas maiores invenções: Fernando Haddad, que patinava nos 3% nas últimas pesquisas, e Dilma Rousseff, que demonstra não ter a menor paciência nem para a política nem para os políticos -sobretudo os aliados.

Para Haddad, Lula é fundamental e não terá o menor prurido de submeter o PT a derrotas e constrangimentos em outras ou até em todas as capitais e grandes cidades, desde que reúna o máximo de apoios e de tempo de TV em São Paulo.

O PSB é o melhor exemplo do que pode acontecer com os demais: a seção paulista até gostaria de ficar com Serra, mas o comandante Eduardo Campos acertou com Lula que o partido prefere ir com Haddad em troca do apoio do PT nos outros Estados.

Já para Dilma, Lula é uma faca de dois gumes. Fundamental como respaldo político, mas também um entrave para os rumos que ela quer e já vem dando a seu governo.

Dilma sabe muito bem o tanto de coisas que encontrou fora do eixo, mas pisa em ovos quando tem de desfazer, refazer ou dar guinadas no que encontrou, para não evidenciar erros nem parecer crítica ao ex-chefe, padrinho e antecessor.

De toda forma, os efeitos mais ostensivos da "volta" de Lula serão menos em Brasília, onde ele era e continua sendo consultor, e mais em São Paulo, onde tende a ser o principal fator da eleição de outubro.

José Serra e Gabriel Chalita, tremei!

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Quando tirarem Demóstenes da sala:: Maria Cristina Fernandes

Uma das mais eloquentes lideranças da oposição virou reú no Supremo Tribunal Federal na mesma semana em que o governo saiu vitorioso em dois dos principais projetos de sua pauta legislativa do ano, a criação do fundo de previdência complementar dos servidores e a Lei Geral da Copa.

Não há causalidade entre um e outro fato. E isso explica por que uma crise que parecia tão aguda nas relações da presidente Dilma Rousseff com o Congresso se desfez de uma hora para outra.

O ocaso do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) pouco afeta a governabilidade de Dilma. E não apenas pela condição minoritária de seu partido, mas porque não é na oposição que o projeto de poder da presidente é posto em xeque, mas dentro de sua própria base. Quando um parlamentar como Demóstenes cai em desgraça, as bandeiras que defende passam a depender mais de seus simpatizantes na base aliada do governo, o que lhes aumenta os antagonismos.

Ao virar o jogo no Congresso, Dilma mostrou que ainda dispõe dos recursos políticos - e orçamentários - para conter essa soma de interesses antagônicos que a sustenta.

À distância, deu condições aos seus novos líderes na Câmara e no Senado de promover a troca de guarda e autonomia aos ministros para negociar com os parlamentares. Articulados com o presidente da Câmara, Marco Maia, e a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, promoveram os acordos que levaram à aprovação dos projetos.

A chance dessa pax parlamentar perdurar é diretamente proporcional à disposição do governo de cumprir acordos como aquele que fixou para depois da Páscoa a votação do Código Florestal. O entendimento também tem mais chance de prosperar se os compromissos firmados entre os ministros e os parlamentares forem cumpridos.

Isso certamente passa pela liberação de emendas. Enquanto não inventarem outro jeito de os parlamentares influenciarem num naco de investimentos do governo em benefício de comunidades que garantem a continuidade de sua carreira política vai continuar sendo assim.

A faxina de Dilma pode não passar de discurso mas não é na liberação de emenda que mora o engodo, e sim na triangulação entre parlamentares, seus indicados na máquina de governo e fornecedores públicos que recebem pelo serviço que não prestam.

É dos lucros dessa triangulação que vivem muitos políticos deste e de outros governos. É mais simples coibi-los quando são miudezas que estão em jogo, como nos contratos prestados por Ongs. É a esse fim que parece se destinar o projeto de criação do fundo para o financiamento dessas entidades que o governo vai enviar ao Congresso.

Mas difícil de fechar é o ralo por onde passam os grandes contratos. Basta ver o histórico de entreveros entre o Executivo e o Tribunal de Contas da União. E mesmo que haja alguma disposição real em fechar o ralo, a torneira jorra mais forte à medida que crescem a economia e a capacidade de investimento do governo.

A corrupção pode até ser um problema do tamanho que Demóstenes Torres costumava pintar da tribuna, mas o que os indícios de seu processo no STF parecem indicar é que a contravenção tem laços que extrapolam o governo de plantão. Alicia parlamentares de de todos os matizes, desde que influentes no aparato policial e na cúpula do judiciário.

Demóstenes Torres não era um denunciante qualquer. Chegou ao Senado no mesmo ano em que o PT alcançou o Planalto foi um de mais implacáveis críticos até ser acusado de receber mesada do mesmo contraventor que detonou o escândalo Waldomiro Diniz, o primeiro da era petista.

Nesse meio tempo jogou no descrédito um dos mais operantes policiais do governo Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-delegado geral da Polícia Federal e ex-superintendente da Abin, Paulo Lacerda, ao acusá-lo de um grampo nunca provado no Supremo Tribunal Federal..

Arrematou a cultivada imagem de paladino da moralidade ao tornar-se um dos grandes defensores da Lei da Ficha Limpa e dos poderes de investigação do CNJ.

O senador foi alçado à condição de ideólogo conservador ao encabeçar a resistência parlamentar à política de cotas raciais. Numa audiência promovida pelo Supremo chegou a dizer que a escravidão teria beneficiado o continente africano por ter sido o primeiro item de sua pauta de exportações. E que, por isso, faria pouco sentido para o Brasil adotar políticas compensatórias para os negros que, além do mais, haviam proliferado por meio de relações consensuais entre escravas e brancos.

O apoio que recebeu na pregação anticotas o encorajou a prosseguir na cruzada de ideólogo do conservadorismo com um projeto que trata o viciado em drogas como um deliquente e institui uma política nacional de internação compulsória.

Acabou angariando o respeito e a admiração de seus pares pela coragem de assumir essas posições num país crescentemente marcado por políticas inclusivas.


Foi a dificuldade de a oposição oferecer uma agenda alternativa ao crescimento econômico que deu fermento às bravatas de Demóstenes. De tão dependente de bandeiras moralistas, os oposicionistas perderam a capacidade de se aglutinar mesmo face a um tema tão crucial para o futuro quanto a desindustrialização.

Foi com esse tema que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) subiu à tribuna na quarta-feira passada. Face à recomposição da base governista, urgia recuperar iniciativa à oposição. Dali a pouco o PSDB daria seus votos à aprovação da Funpresp, em nome de uma reforma iniciada pelo governo tucano e sequenciada pelos petistas. O discurso de Aécio teve pouca ressonância, mas os governistas bateram bumbo com a aprovação quase unânime.

Se a pauta legislativa se aprofundar na agenda da indústria nacional, focada em questões tributárias e trabalhistas, o consenso, como mostrou levantamento de Caio Junqueira (Valor, 28/03/2012), tem dias contados. Agora que tiraram Demóstenes da sala bem que o jogo podia começar.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Apitos e pajelanças :: Fernando Gabeira

Pajelança é um conjunto de rituais realizados por um pajé com objetivo de cura ou previsão de acontecimentos futuros. Essa palavra entrou mais fortemente em nosso vocabulário em 1986, quando o cacique Raoni e o pajé Sapaim vieram ao Rio para tentar curar o cientista Augusto Ruschi, envenenado por um sapo. A cerimônia foi no Jardim Botânico e consistiu em soprar fumaça de um grosso cigarro azulado e, certamente, de orações rituais. Mais tarde a expressão se ampliou para a política, por causa das grandes reuniões com militantes que Brizola fazia na reta final da campanha.

A maioria dos políticos gosta de falar. Brizola gostava muito e, com longos discursos, transmitia a disposição de luta que podia ser decisiva em campanhas em que havia equilíbrio de forças. Ao transplantar a pajelança para a política, Brizola trabalhava a energia psicológica, destituída do conteúdo espiritual que os indígenas comunicam a ela. Tornou-a um ritual mais próximo dos jogadores de futebol que se abraçam no vestiário, ou mesmo do grito de uma torcida: Hip, hurra, é hora, é hora, é hora!

Não nego a importância da energia coletiva que eventualmente uma pajelança, no sentido político, possa injetar. Mas quando acionado fora da hora o ritual tende mais a inquietar do que propriamente a animar. Foi como me senti com a reunião de Dilma Rousseff com alguns empresários poderosos, tratados pela imprensa pelo apelido de PIB nacional. Na semana que antecedeu o encontro fontes no Planalto diziam à mídia que o objetivo da reunião era despertar o espírito animal dos capitalistas. Uma pajelança. Décadas de negação do capitalismo, de humanização do capitalismo e agora seus instintos animais se tornam o objeto do desejo da esquerda no poder. Instintos animais no bom sentido.

Em outro teatro, o pajé está às voltas exatamente com os instintos animais do capitalismo financeiro. Como não havia animal com porte capaz de nomeá-lo, recorreu-se à adaptação de uma catástrofe natural: tsunami de dólares. O governo atua como um domador do bicho capitalista, estimulando instintos em certas áreas e, no cenário mundial, pedindo que sejam contidos os instintos de cruzar fronteiras para lucros rápidos. O PIB nacional não foi tão alto. Há ainda aumento de empregos e distribuição de renda. O crescimento não é só um valor aritmético. Mas os problemas que temos pela frente são complexos demais para uma pajelança. Além do mais, segundo os próprios critérios de Brizola, a pajelança é boa ou má na medida em que dissemina esperanças. A simplicidade da escolha desconcertou quem esperava uma consciência maior de como é complexa a reativação econômica.

Outro espetáculo ofuscou a pajelança: a denúncia de corrupção na saúde do Rio. Foram dez minutos de denúncias no Fantástico, mostrando como as empresas agiam, oferecendo propina. Nele emergiu a lógica das novelas. Uma personagem se destacou: Renata Cavas. É um caso para aulas de roteiro. Ao longo do programa, ela desdobrou a personagem com coerência tal que acabou roubando a cena.

Quando sentiu a hesitação do "funcionário" representado pelo repórter da Globo, Renata tranquilizou-o quanto à normalidade da propina: "É a ética do mercado, entende?" Para quem diviniza o mercado, é como se dissesse: não é pecado. E em seguida, um pouco irritada com a ingenuidade do "funcionário", usou da ironia. "É legal um contrato que vamos assinar?" Renata: "Claro que é legal, carimbo, papel timbrado, até tipo sanguíneo".

Nesse momento do espetáculo ela se tornou vilã por ironizar quem desconhece os meandros da corrupção: uma grande parte dos brasileiros.

A personagem desdobra-se com a coerência de um autor. "Onde entra o dinheiro da propina?" Renata: "Shopping, subsolo, Quinta da Boa Vista, na Floresta da Tijuca, por exemplo, olha que chique!". "Em que moedas vocês pagam a propina?" Renata: "Na que você quiser, meu bem. Iens, você quer receber em iens?"

Quais os próximos capítulos?

Os governos decidiram revisar seus contratos. Só no Rio beiram os R$ 400 milhões. Como revisar contratos legais, timbrados e com tipo sanguíneo? A única pista são os aditivos. Legalmente não deveriam passar de 20%. Há caso de aditivos de 300% ao orçamento inicial. Será um trabalho áspero e ninguém pode prever o resultado final. Talvez Renata...

Não é só a investigação que promete baixo ibope. É também o desdobramento político, sobretudo no delicado campo de regular algumas práticas empresariais. Seguindo exemplo de alguns países, apresentei um projeto criando algumas normas para empresas brasileiras no exterior. Não eram moralistas, jogavam apenas com o elemento estratégico da imagem nacional num mundo em constante intercâmbio. Certos instintos animais podem morder o nosso próprio rabo. Resta perseguir como crítico de espetáculo o que não obtive na política.

Mas não se fazem mais pajelanças como a de Brizola nem surgem grandes ondas de indignação diante de denúncias que expõem desvios dos suados recursos nacionais. Talvez Sapaim continue fumando seu cigarro azul, desvendando os mistérios do futuro. Não precisamos mais de suas nuvens aromáticas. Precisamos, sim, de mais apitos. Só assim poderíamos revelar com clareza toda a complexa relação de fornecedores, governos e campanhas políticas. Os episódios ocorrem e submergem, como, por exemplo, um acidente de helicóptero na Bahia que mostrou a intimidade entre compradores e vendedores de obras públicas.

Brasília envia uma série de minicapítulos com a cena única de gente enfiando dinheiro no bolso, na valise, nas meias. Agora apareceu a reportagem do Fantástico. Quando é que veremos uma trama completa, com todos os principais vilões e um capítulo final?

Sempre há uma outra novela, dirão os céticos. Mas com outro enredo. Já há público para isso. O mecanismo foi escancarado. Não adianta fingir que não aconteceu. Só o otimismo de uma vilã poderia salvar a sorte do esquema. Ela diria: "Daqui a pouco os escândalos da Copa vão sepultar os desvios na saúde pública".

*Jornalista

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Comitê de salvação privada:: Vinícius Torres Freire

Frenético, governo faz série de reuniões com "o PIB" e deve criar comitês setoriais para auxiliar a indústria

O governo econômico do Brasil está mesmo frenético.

Os economistas de Dilma Rousseff se encontram com os rapazes do mercado e prometem "mudanças de fôlego", além dos esparadrapos e remendos da "política industrial" improvisada no cotidiano.

Convocam os banqueiros a fim de cobrar redução das taxas de juros para empresas e consumidores (segundo o jornal "Valor"), que na média vêm subindo desde novembro.

As conversas com a indústria são tantas que o governo parece ter instalado um comitê de salvação pública das fábricas, por assim dizer. Na verdade, não se trata de piada.

O governo está para lançar um projeto que ele mesmo chama de "câmaras" ou "comitês de competitividade" (ou de "sustentabilidade"). Serão grupos consultivos de onde, em tese, vão sair demandas da indústria sobre impostos, custos, burocracias, problemas da "cadeia produtiva". O projeto é criar cerca de 20 desses "comitês" setoriais.

Por coincidência, ou não, na segunda-feira o deputado federal Vicentinho (PT-SP) discursou na Câmara sugerindo ao governo que ressuscitasse as "câmaras setoriais" do início dos anos 1990. O objetivo do deputado parecia mais ser o de introduzir nas conversas do governo com a indústria a redução da jornada semanal de trabalho.

É quase impossível que tal bode entre nas novas "câmaras" ou "comitês" do governo. Mas Vicentinho tocou uma corda interessante.

As "câmaras setoriais" começaram a ser pensadas no final do governo Collor, em 1991, e estiveram mais ativas nos anos de Itamar Franco, em 1992 e 1993.

Na prática, eram um acordão semicorporativo entre empresários, governo e sindicalistas (CUT inclusive) sobre acertos de preços, salários e aumento de produção. O resultado do projeto é controverso e, de qualquer modo, tal debate não cabe aqui nestas colunas. Mas era acordo típico de um outro Brasil.

A iniciativa em estudo no governo é mais um passo na reversão de políticas adotadas a partir do domínio tucano, de 1993 a 2002.

No final do governo Itamar, já sob orientação tucana, houve uma súbita abertura do mercado brasileiro, de automóveis em particular, medida que foi intensificada pela valorização recorde do real (no final de 1994. Aliás, o câmbio real efetivo está agora nesse mesmo nível da "abertura selvagem" tucana).

Embora os tucanos tenham feito as suas políticas de parceria Estado-empresa, no caso da indústria a política foi relativamente liberal: mais competição.

Pelo menos desde 2008 até agora, e em que pesem a situação emergencial de parte da indústria e a esdrúxula conjuntura financeira mundial, a tendência lulo-dilmiana é de tratar de proteção primeiro e de aumento de produtividade depois.

Vide o que virou a política industrial para o setor automotivo. A princípio, a ideia era demandar inovação em troca de incentivos estatais; no fim das contas, até agora, viu-se apenas redução de imposto para os "nacionais" e aumento de tributo para os importados. Proteção.

Sim, os "comitês de competitividade" podem ser um bom meio de o governo entender a vida real das empresas e até pensar em programas de reformas de fôlego. Mas pode se tratar também da instalação de uma nova tenda dos milagres.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Faltou dizer:: Celso Ming

O Relatório Trimestral de Inflação, divulgado nesta quinta-feira pelo Banco Central, não esclarece as razões por que, subitamente, foi necessário aumentar o corte dos juros para 0,75 ponto porcentual, em vez de continuar com a dose de 0,50 ponto porcentual em vigor desde agosto anterior.Se os juros básicos (Selic) estavam em 10,50% ao ano e a decisão foi chegar até os 9,00% ao ano e nesse patamar estacionar por certo tempo, como foi comunicado, não faria diferença se o Comitê de Política Monetária (Copom), presidido por Alexandre Tombini, mantivesse o ritmo anterior. Ou seja, não faria diferença se, em vez de dois cortes, de 0,75 ponto porcentual, aplicasse três, de 0,50.

A única referência à decisão no texto do Relatório é a seguinte: "Dois membros do Comitê (Copom) ponderaram que seria oportuna a manutenção do ritmo de ajuste da taxa Selic. Entretanto, a maioria argumentou que uma redistribuição temporal do ajuste total das condições monetárias era a estratégia mais apropriada". Ficamos sem saber por que, afinal, essa seria "a estratégia mais apropriada".

Tampouco ficou esclarecida a razão pela qual a Selic encalharia por algum tempo nos 9,0% ao ano, conforme aviso já apresentado na Ata do Copom, se os prognósticos do Banco Central são tão mais favoráveis ao comportamento dos preços, a ponto de projetar para todo este ano inflação de 4,4%, abaixo do centro da meta. Nesse caso, por que não prosseguir no corte dos juros?

A falta dessa explicação parece dar força à hipótese de que o Banco Central não quis criar caso político com mudanças das regras da caderneta de poupança. Se a Selic caísse abaixo de 9,0% ao ano, a caderneta de poupança, que paga 6,17% ao ano mais a TR (isentos do Imposto de Renda), ficaria bem mais competitiva do que os Títulos do Tesouro Nacional. Assim, seria necessário reduzir a remuneração da aplicação mais popular em pleno ano eleitoral para que ela não esvaziasse os investimentos em fundos de renda fixa e no atual estoque de títulos do Tesouro Nacional.

Também faltou explicação para a reafirmação das projeções do PIB de 2012, de 3,5%, pelo Banco Central. Essas projeções foram feitas ao final de 2011. De lá para cá, a novidade foi a percepção de forte desaceleração do crescimento.

Ora, se a atividade econômica ficou depois visivelmente mais baixa do que a percebida no momento em que foram feitas as projeções do PIB, não faz sentido manter essas projeções que, de resto, são mais baixas do que os 4,5% em que vêm insistindo as autoridades dos ministérios da Fazenda e do Planejamento. A falta de justificativas para esse ponto parece dar razão às advertências daqueles analistas para os quais o crescimento do PIB em 2012 não deverá ser muito mais alto do que os 2,7% registrados em 2011.

Mais uma observação. Se a inflação deste ano ficará até mesmo abaixo da meta, de 4,5% em 2012, como o Relatório deixa claro, parece aberto o espaço para que o Ministério da Fazenda autorize o reajuste dos preços dos combustíveis, especialmente da gasolina e do óleo diesel. Nesse caso, o Banco Central terá de abandonar a hipótese de que se mantenha o reajuste zero em todo este ano.

CONFIRA

Aí está a evolução do IGP-M. No período de 12 meses terminado em março, a evolução foi de 3,23%. No mesmo período, o IPCA-15 avançou 5,61%. Para os locadores de imóveis, o IGP-M parece mirrado, porque é muito usado para reajustar aluguéis. Tem ano em que o IGP-M corre bem acima da evolução do custo de vida. Em outros, acontece o contrário. A principal diferença se deve ao fato de ele carregar 60% de preços no atacado.

Virada. Não se espera mais evolução negativa do IGP-M, como foi em fevereiro. A inflação vai refletir a virada.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Carga tributária - discurso e prática :: Rogério L. F. Werneck

Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff conseguiu reverter a sequência de más notícias que vinham trazendo desgaste ao governo, com duas iniciativas que tiveram boa repercussão: uma reunião no Planalto com 28 dirigentes de grandes empresas e uma longa entrevista exclusiva à revista Veja.

Da reunião, mais se sabe do que disseram os empresários. Mas foi reportado que a presidente "ouviu e anotou" com grande atenção críticas e sugestões feitas por cada um dos participantes. Já a entrevista à Veja deixa entrever o que, à primeira vista, poderia parecer melhora significativa no discurso econômico do governo. A presidente afirmou que "o Brasil não está recorrendo ao protecionismo", que "não vamos fechar o País" e que a exploração do pré-sal é mais importante que a exigência de 65% de conteúdo nacional nos equipamentos que serão utilizados. Disse também - pasmem todos - que "temos de baixar nossa carga de impostos, e vamos baixá-la".

Em que medida essa mudança de discurso é para ser levada a sério? Deixemos de lado tanto a pretensa disposição de resistir à escalada do lobby protecionista como a suposta percepção dos excessos da política de conteúdo nacional, e concentremos a atenção na promessa de redução da carga tributária. Foi reportado que, no Planalto, um dos empresários fez alusão a uma proposta que há muitos anos vem sendo sugerida: de que o governo se comprometa com metas claras de limitação ou redução paulatina da carga tributária.

Seria bom se fosse possível. Mas é muito pouco provável que o governo esteja disposto a se comprometer com qualquer meta desse tipo. Tal compromisso seria incompatível com um ingrediente essencial do projeto político do governo, que é a manutenção da rápida expansão dos gastos públicos. Em dezembro, em entrevista à revista The New Yorker, a presidente Dilma declarou com todas as letras: "Precisamos manter a economia crescendo, sem inflação, para gerar receita que permita continuar nossa política de distribuição de renda". Era a defesa nua e crua do crescimento econômico como forma de assegurar a fartura fiscal da qual se nutre o projeto político do governo.

As medidas de desoneração aventadas pelo governo bem ilustram as dificuldades envolvidas na redução da carga tributária. Se a ideia é desonerar a folha de pagamentos das empresas, bastaria um programa horizontal e transparente de diminuição paulatina da alíquota de contribuição patronal, que configurasse redução inequívoca da carga tributária. É óbvio que tal medida, isoladamente, acarretaria deterioração das contas da Previdência. Teria de ser conjugada, portanto, com um programa de contenção de despesas, preferencialmente na própria área previdenciária. O problema é que isso exigiria correções drásticas no discurso e na política econômica do governo.

Desde 2005, sob a firme liderança de Dilma Rousseff, o governo vem tentando sustentar um discurso de total negação da necessidade de contenção da expansão do gasto público. No caso do Regime Geral da Previdência, a história oficial tem sido a de que não há nenhuma necessidade de reforma e que, aos poucos, as contas deverão ser equilibradas pelo lado da receita. Tão boa era a situação que o governo poderia até se dar ao luxo de aprovar no Congresso uma regra de superindexação que, em janeiro, implicou reajuste anual de mais de 14% no salário mínimo.

Sem condições de conciliar seu projeto político com uma redução efetiva de carga tributária, o governo vem manipulando uma política de desoneração espalhafatosa e pouco transparente que, em meio a muita poeira, pouco ou nada desonera. Em vez de simples redução da alíquota de contribuição patronal, o que vem sendo oferecido é uma mudança de base fiscal. Contribuição paga sobre faturamento, e não mais sobre a folha, com alíquotas fixadas setor a setor, na medida da estridência do choro de cada um. Mais uma indefensável jabuticaba, que pode transformar o sistema tributário nacional numa colcha de retalhos ainda mais caótica do que já é.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Bares mortos:: Ruy Castro

Você sente que o mundo mudou quando, ao voltar a seu bar favorito depois de longa folga, não reconhece ninguém ao redor. São outros os rostos, outra a cor dos drinques nas mesas, outra a música de fundo no ambiente, outros, até, os garçons. E, definitivamente, outros os retalhos de conversa que saem das mesas vizinhas -falam de um mundo a que você não pertence mais. Esse novo bar e esse novo mundo parecem frios e hostis. Mas é possível mudar de bar -ou de mundo.

Quem quer que tenha tido um passado em bares conheceu essa experiência. F. Scott Fitzgerald viveu-a em 1931, quando voltou a Paris depois do crack da Bolsa de Nova York, em 1929. Ao sentar-se ao balcão e ver os cacos de seu rosto no espelho, atrás das garrafas, nem ele se reconheceu. O mesmo já havia acontecido com seus antigos companheiros de farra na Paris dos anos loucos. Todos tinham pedido o chapéu antes dele, falindo ou morrendo.

Já Ernest Hemingway, antevendo essa possibilidade, nunca quis ter um pouso fixo. Dividia-se por bares de Nova York, Paris, Madri, Havana, às vezes dois em cada cidade -"Mi mojitos en La Bodeguita, mi daiquirís en La Floridita"-, e, com isso, tinha para onde correr se um bar o abandonasse. Sempre se considerou maior que esses bares, razão pela qual todos que frequentou, e não foram poucos, sacralizaram a mesa a que um dia ele se sentou.

Em minha trajetória etílica, também frequentei bares, no Rio e em São Paulo, que, sem que percebêssemos, estavam se transformando ou morrendo sob nossos pés. É feio ser o último da turma a pedir a saideira ou a conta. Melhor tentar sair mais cedo, antes que emborquem as cadeiras nas mesas, e nós com elas.

Parei de beber em 1988, aos 40. Nem cedo nem tarde, acho. Sobrevivi a todos os lugares onde bebi, mas por um triz.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Palavras:: Graziela Melo

Palavras,
as que
não foram
ditas...

E os abraços
que
não
foram
dados,

flutuam,
até hoje

em espaços
que
nunca foram
preenchidos

e jamais
foram
ocupados!!!

Rondam
o universo
das estrelas,

das nuvens

lentas
e preguiçosas,

que apenas
ao sabor
do vento,

se movem
pelo infinito

lépidas
e
graciosas!!!

Rio, 26/10/2010

quinta-feira, 29 de março de 2012

OPINIÃO DO DIA – Marco Antonio Villa: a incompetência

O governo Dilma Rousseff lembra o petroleiro João Cândido. Foi inaugurado com festa, mas não pôde navegar. De longe, até que tem um bom aspecto. Mas não resiste ao teste. Se for lançado ao mar, afunda. Não há discurso, por mais empolgante que seja, que consiga impedir o naufrágio. A presidente apresenta um ar de uma política bem-intencionada, de uma tia severa e até parece acreditar no que diz. Imagina que seu governo vai bem, que as metas estão cumpridas, que formou uma boa equipe de auxiliares e que sua relação com a base de sustentação política é estritamente republicana. Contudo, os seus primeiros 15 meses de governo foram marcados por escândalos de corrupção, pela subserviência aos tradicionais oligarcas que controlam o Legislativo em Brasília e por uma irritante paralisia administrativa.

VILLA, Marco Antonio, historiador. A incompetência virou elogio. O Globo, 27/3/2012

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Congresso aprova a nova previdência para servidor
Governo se reaproxima da base e ameniza crise
Repasses a Demóstenes são citados em gravação
STJ: só sangue e bafômetro podem provar embriaguez
Dilma evita "tsunami" mas ataca os ricos
Após alta, Lula anuncia volta às atividades políticas

FOLHA DE S. PAULO
Tribunal livra de prisão quem recusar bafômetro
Tumor de Lula desaparece e ele diz que está de volta a política
Após prometer verba, Dilma obtém vitórias no Congresso
Brasil tem de gastar mais para evitar atrasos na Copa, diz Fifa

O ESTADO DE S. PAULO
Lei seca só vale se motorista passar por bafômetro, diz STJ
Lula tem alta e está liberado para atividade política
Banco Marka pode dar R$ 24 bi de indenização
Brasil quer ação dos Brics pelo câmbio
Pesquisa mostra que País tem menos leitores
TJ-SP ignora parecer e paga auxílio a juízes

VALOR ECONÔMICO
Hidrelétricas se preparam para aumentar capacidade
China investe US$ 15 bi em óleo no país
Carro com inovação terá IPI menor
Mineradoras armam batalha judicial

CORREIO BRAZILIENSE
Fundo vai mudar vida do servidor
Pela porta dos fundos do Itamaraty
Lei Seca sofre revés na Justiça
Lei da Copa: Desconto em jogos do Brasil

ESTADO DE MINAS
Dilma e Brics na guerra cambial
Embriaguez ao volante só com exames
Sinal verde para bebidas na Copa

ZERO HORA (RS)
Decisão da Justiça enfraquece Lei Seca
Bebida na Copa ficará a cargo dos Estados

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Previdência do servidor é aprovada
Decisão do STJ esvazia Lei Seca
Lula anuncia fim do câncer e volta à ativa

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Aécio: carência para governo Dilma acabou

Maria Lima

BRASÍLIA. O senador e presidenciável tucano Aécio Neves (MG) subiu ontem à tribuna do Senado e anunciou que acabou o período de carência em relação à presidente Dilma Rousseff e que daqui para frente o PSDB fará a cobrança mais agressiva de resultados do governo. Questionando a fama de gestora de Dilma e concluindo que o governo envelheceu, Aécio tentou cumprir o figurino de principal opositor.

O senador fez um balanço da gestão Dilma, afirmando que há paralisia em todas as áreas e que é falsa a imagem da gestora que, por si só, "seria capaz de tomar heroicamente as rédeas do país e transformar em realidade os tantos sonhos prometidos em vão".

Aécio reclamou especialmente da suspensão de recursos para construção de 218 UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) previstas em Minas. Disse que vai mandar ofício ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, pedindo informações sobre a suspensão dos recursos.

- O período de carência acabou. Estamos inaugurando uma nova fase de cobrança das promessas em realidade. O país está paralisado, nenhuma reforma estruturante foi enviada ao Congresso. Não dá para viver mais no mundo da propaganda oficial. Não vivemos no país das maravilhas - criticou Aécio.

Sobre a demissão de ministros, Aécio disse que a mão de Dilma baixou sobre cada um, como se não fosse a sua própria mão que os nomeara:

- De crise em crise e de queda em queda de autoridades, uma parte importante do mandato presidencial esvaiu-se (...) A verdade é que o governo envelhece.

- Sinal de que nova postura mais agressiva, contundente, está começando - disse Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).

Parlamentares da base desdenharam:

- Não ouvi não! Tinha muita coisa para fazer - respondeu o ex-líder do PT, senador Humberto Costa (PE).

Líder do PT, Walter Pinheiro (BA) preferiu não comentar.

FONTE: O GLOBO

No Senado, Aécio critica Dilma e afirma que 'País está parado'

Quinze meses após posse da presidente, tucano, pré-candidato à Presidência em 2014, eleva o tom contra atual governo

Christiane Samarco

BRASÍLIA - O pré-candidato do PSDB à Presidência da República, senador Aécio Neves (MG), subiu ontem à tribuna do Senado e fez, 15 meses após a posse da presidente Dilma Rousseff, o seu mais duro discurso contra o atual governo e as primeiras cobranças diretas à chefe do Executivo. Aécio disse que o governo está parado, que nenhuma reforma chegou ao Congresso e que a verdadeira herança maldita é o retorno à década de 1950, quando o Brasil era exportador de commodities.

Ao comentar o escândalo do "recorde de ministros caídos sob grave suspeição", Aécio falou da "mão pesada do poder da Presidência, que baixou sobre cada um dos suspeitos, como se não fosse a mesma mão que antes os conduzira para o governo".

O tucano qualificou o cenário econômico atual do Brasil como "desolador". "Até o ano 2000, 60% de nossas exportações eram de manufaturados e hoje 60% do que exportamos são commodities. Isso é o resultado de um governo de improviso, de paliativos e de falta de compromisso com as promessas de campanha", disse o pré-candidato à presidência, para quem o País está parado e a única coisa que avança é a propaganda oficial.

Tribuna. O tucano falou por 15 minutos. Na presidência do Senado, Marta Suplicy (PT-SP) tocou insistentemente a campainha para lembrar Aécio que seu tempo havia esgotado. Encerrado o discurso, ela teve de ouvir os protestos do senador Mário Couto (PSDB-PA), que lhe cobrou o tratamento diferenciado concedido ao presidente da Casa, José Sarney, que há 20 dias fez um discurso de 45 minutos. "A senhora manda e desmanda, faz o que quer?", indagou Couto, ao que o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) completou: "É o PT que faz o que quer. Querem fazer o Senado de idiota".

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Um discurso acima do tom

Pela primeira vez, senador Aécio Neves ataca diretamente a presidente Dilma Rousseff e seu governo, em especial o que chama de paralisia de projetos, com perda de investimentos

Juliana Cipriani

O senador Aécio Neves (PSDB) subiu ontem o tom das críticas ao governo federal e, pela primeira vez, atacou diretamente a presidente Dilma Rousseff (PT), a quem responsabilizou por instituir no Brasil o "regime do improviso". Falta de projetos, perda de investimentos, imobilismo político e paralisia de projetos de infraestrutura foram algumas das alegações em discurso feito na tribuna do Senado. Segundo o tucano, o país entrou em um processo de "desindustrialização" e retrocedeu aos anos 50: "Voltamos à era pré-JK".

A entrevista concedida pela presidente neste fim de semana a uma revista semanal também serviu de munição para o senador oposicionista. De acordo com ele, na publicação ela "navega impassível e equidistante em meio às trovoadas e à verdadeira tempestade que se forma à sua volta e, aos poucos, engolfa seu governo". Aécio citou a campanha, feita com grande participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em que foi vendida a imagem de uma "gestora impecável". O resultado, segundo o tucano, é que o Brasil teria deixado de liderar o processo de crescimento da América do Sul: "Nossa posição é irreconhecível. Na América do Sul, acreditem, fomos o país que menos cresceu".

As crises com as sucessivas denúncias contra ministros de seu governo, para Aécio, teriam feito Dilma perder parte importante do seu mandato. A demissão dos envolvidos, para ele, não isenta o atual governo. "A mão pesada do poder da Presidência baixou sobre cada um dos suspeitos, como se não fosse a mesma mão que antes os nomeara e os conduzira para o governo. Aí descobrimos o inacreditável: havia ministros diversos de Lula e uns poucos de Dilma", disse.

O senador criticou também a postura da petista de colocar-se como refém do próprio governo e reforçou o papel da presidente como coautora das heranças do atual governo. "É como se ela não houvesse, de próprio punho e com a sua consciência, colocado de pé o atual governo, com as suas incoerências e incongruências irremediáveis", pontuou. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), um dos principais pontos da campanha de Dilma ao Planalto, teve, segundo Aécio, "o mais baixo desempenho de sua história" em 2011. "Apenas R$ 16 bilhões saíram efetivamente do tesouro nacional – 37% (ou R$ 6,9 bilhões) do total referiam-se a restos a pagar de anos anteriores, sobrando quase nada para obras novas", disparou.

Royalties Aécio voltou a criticar o excessivo número de medidas provisórias editadas pelo governo Dilma. Segundo o tucano, a "falta de respeito ao Congresso" se transformou em marca registrada da atual administração. O senador cobrou as reformas constitucionais e a discussão de temas como a renegociação das dívidas dos estados e dos royalties do petróleo e minério.

O discurso gerou bate-boca no plenário. Concedendo 10 minutos para o tucano discursar, a senadora Marta Suplicy (PT-SP), que presidia a sessão, o interrompeu, pedindo para encerrar no tempo regimental. O colega tucano senador Mário Couto (PA) saiu em defesa de Aécio, dizendo que Marta só se atenta para o tempo quando os discursos são contrários ao governo do PT. "A senhora faz o que quer", acusou.

FONTE: ESTADO DE MINAS

Tropa governista barra convocação de ministros

Denise Madueño

A tropa de choque governista entrou em campo e evitou ontem a convocação de ministros nas comissões permanentes da Câmara. Em uma resposta à série de derrotas do governo na Casa na semana passada, líderes e vice-líderes comandaram as comissões e blindaram o Planalto.

Na semana passada, os deputados aprovaram a convocação da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, para audiência pública na Comissão de Trabalho. Ontem, numa vitória acachapante, os aliados derrotaram por 11 votos a 2 o convite para que a presidente da Petrobrás, Graça Foster, e o ex-titular da estatal Sérgio Gabrielli fossem explicar contratos suspeitos com ONGs.

Na comissão de Finanças e Tributação, foram derrotados requerimentos de convite à ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, ao presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, ao presidente da CaixaPar, Márcio Percival, e à ex-presidente da Caixa Maria Fernanda Coelho.

Para melhorar o relacionamento com a base, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, recebeu os líderes aliados em um café da manhã ontem. Considerado um ministro frio e avesso a políticos, Mantega supreendeu os aliados com o convite.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Após prometer verba, Dilma obtém vitórias no Congresso

Depois de prometer liberar emendas a parlamentares, o governo conseguiu aprovar a criação do fundo de previdência do servidor federal, no Senado, e a Lei Geral da Copa, na Câmara.

Para a ministra Ideli Salvatti, a vitória não se deve a promessa de verba. Recentemente, Dilma afirmou que não aceitaria a política do "toma lá da cá".

Governo cede, libera emendas e aprova lei

Dilma tinha dito que não haveria mais "toma lá dá cá"; para Ideli, pedido de congressistas por verbas é "legítimo"

Criação de novo regime de previdência para servidores passa no Senado, e Câmara vota a Lei Geral da Copa

BRASÍLIA - Mesmo depois de a presidente Dilma Rousseff ter dito que não compactuaria com a política do "toma lá dá cá", o governo prometeu liberar emendas de parlamentares e conseguiu amenizar a crise com a base no Congresso.

Com isso, conseguiu ontem aprovar dois projetos de seu interesse: a criação do Funpresp (Fundação de Previdência Complementar do Servidor Público Federal), no Senado, e a Lei Geral da Copa, na Câmara dos Deputados.

Antes da declaração de Dilma, o novo líder no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), chegou a dizer que iria inaugurar uma fase de "novas práticas", sem tratar da liberação de emendas "no varejo".

Ontem, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) negou que as vitórias no Congresso tenham se dado graças à liberação de emendas.

"Foi um pedido legítimo, nós levamos essa situação do ano atípico por causa da lei eleitoral para a área econômica do governo e estamos sim iniciando um processo para fazer um levantamento das prioridades dos parlamentares para iniciar o processo de empenho. Vai ser uma coisa homogênea, vamos fazer um tratamento."

Ideli não assegurou quanto será empenhado (palavra que designa promessa de pagamento) pelo governo. Segundo congressistas, a expectativa é que seja liberada entre abril e maio uma cota de até R$ 3 milhões para cada um dos 594 parlamentares.

Por conta da lei eleitoral, o Planalto precisa empenhar as emendas até junho, tendo em vista que em ano com eleições convênios não podem mais ser assinados a contar de 180 dias da eleição.

Boa parte das emendas dos congressistas tinha sido atingida no congelamento de R$ 55 bilhões no Orçamento, feito no início deste ano.

Ontem, durante a discussão da Lei Geral, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), criticou a posição do Planalto de chamar a liberação de emendas de "toma lá dá cá".

"Aqui não é o toma lá dá cá, é respeito lá e respeito em todo lugar. Essa Casa tem que ser respeitada pelo que ela é e pelo que ela faz", afirmou.

Copa e código

No caso da Lei Geral, um dos argumentos usados pelo governo para convencer os aliados a analisarem o projeto foi de marcar a data para votar o novo Código Florestal -e, ainda, ceder em pontos da futura lei ambiental.

Na semana passada, no pior dia da crise, aliados ajudaram a derrubar a análise da lei da Copa e disseram que só haveria votação se o código também fosse discutido.

Parlamentares chegaram a dizer que Dilma não estava ciente do acordo para votar a Lei Geral e marcar a data da votação do código. Na verdade, mesmo na Índia, ela sabia dos termos do acerto.

Irritou o Palácio do Planalto a tese de que o acordo só foi possível pela distância de Dilma das negociações.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Governo se reaproxima da base e ameniza crise

Resultado de nova estratégia para melhorar o diálogo com parlamentares, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, convidou líderes de partidos aliados para um café da manhã e antecipou que anunciará novas medidas econômicas na semana que vem.

Um cafezinho para refrescar os ânimos

Em estratégia do governo de reaproximação com base, Mantega encontra líderes do Congresso e faz mea-culpa

Isabel Braga

BRASÍLIA. Ao mesmo tempo em que articulou pesado para evitar ontem a aprovação de requerimentos de convocação de vários ministros e autoridades, o governo pôs em prática a estratégia de reaproximação com sua base aliada. Na estreia, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, convidou líderes aliados para um café da manhã com seu staff e a ministra Ideli Salvatti e, num gesto de cortesia, antecipou a eles que o governo anunciará, na próxima semana, medidas para a economia.

O ministro disse que quer estreitar os laços com o Parlamento e até fez um mea-culpa, admitindo que muitos projetos e medidas provisórias foram enviados ao Congresso sem uma conversa prévia com os aliados. E que a partir de agora será diferente. Mantega arrancou elogios dos líderes que participaram do encontro.

A relação do governo com seus aliados está mais distensionada, e o encontro foi elogiado inclusive por Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB, que mais tarde ocupou a tribuna para reclamar do tratamento dado pela imprensa. Candidato à presidência da Câmara em 2013, Alves defendeu as emendas parlamentares e o pleito de cargos por partidos aliados, que ajudaram a eleger o governo.

- Emenda é lei orçamentária. É direito nosso e já era para ser impositivo. (...) Toda hora me perguntam: e os cargos? Como se fosse absurdo quem elegeu ajudar a governar. Quem vai sentar lá? Algum fantasma, ET? Não é o pejorativo "toma lá dá cá", queremos ser sócios na gestão - discursou, sob aplausos. - Tudo o que faço, dizem que é para conquistar voto. Se eu voto com os ruralistas? Voto mesmo, é o Brasil real, não é contra ninguém, é somar esforços. É respeito lá e em todo lugar.

A retomada das votações no Congresso, por sua vez, agradou ao Planalto.

- O acordo foi trabalhado a três mãos, com a participação do governo. Mas a decisão sobre o que vota na Câmara é da Câmara. Definindo o calendário de votações, estamos exercendo uma tarefa que é do Parlamento - disse o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS).

Pela manhã, enquanto os líderes tomavam café com o ministro Mantega, os vice-líderes do governo se mobilizaram para evitar a aprovação, em comissões da Câmara, de vários requerimentos de convocação de ministros e autoridades. Foram tiradas de pauta ou derrubadas propostas de convocação das ministras Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Miriam Belchior (Planejamento) e de outras autoridades, entre eles os presidentes da Petrobras, Graça Foster, e do Banco do Brasil, Aldemir Bendini, para falar sobre problemas em suas pastas.

FONTE: O GLOBO

Marta ainda resiste a apoiar Haddad

No twitter, ela afirma que não se "turbina candidatura com desespero e pressão"

Guilherme Voitch

SÃO PAULO. A senadora Marta Suplicy (PT) disse, nesta quarta-feira, por meio de sua conta no Twitter, que não se "turbina uma candidatura com desespero, pressões e constrangimento" e que "a tese de que qualquer candidato do PT [em São Paulo] tem assegurado 30% do eleitorado não é totalmente verdadeira". Marta tem sido cobrada pela cúpula do PT a participar mais ativamente da campanha do pré-candidato petista à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad.

Durante a semana, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, cobrou publicamente maior empenho dos petistas na campanha de Haddad, mas Marta se mantém distante e há os que entendem que ela ainda alimenta chances de que a candidatura de Haddad não deslanche e que a cúpula do PT possa voltar a cogitar em seu nome para enfrentar o ex-governador José Serra (PSDB).

Marta chegou a colocar seu nome como candidata à prefeitura, mas retirou a candidatura depois de reuniões com a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde então, a senadora, que tem forte presença política na periferia da cidade, tem mantido distância da campanha de Haddad.

Na segunda-feira, em visita ao Itaim Paulista, bairro da Zona Leste da cidade, um eleitor chegou a perguntar para Haddad se ele era "contra a Marta".

Ontem Haddad afirmou que espera a ajuda de Marta na "hora certa" e, em entrevista para um programa de rádio, antes de saber da mensagem de Marta no twitter, elogiou a ex-prefeita:

- É só comparar tudo que ela fez com as gestões que vieram depois (Serra e Kassab).

O vereador Antônio Donato (PT), um dos coordenadores da pré-campanha de Haddad, contemporizou:

- Ela (senadora Marta Suplicy) nos deu garantia de que vai estar ao lado de Haddad quando a campanha começar. A campanha ainda não começou. Essa declaração [no twitter] é uma resposta a uma matéria de jornal. Da parte do PT não há pressão por nenhuma movimentação dela nesse momento - afirmou.

Apesar das declarações, petistas da CNB, a corrente majoritária do PT que cobra espaço na coordenação de campanha, defendem que a senadora deve mostrar-se disponível para a campanha já neste momento. Para eles, a senadora é fundamental para impulsionar a candidatura de Haddad.

Colaboraram: Sérgio Roxo e Silvia Amorim

FONTE: O GLOBO

Oráculo do PT, Lula vai impor 'dedaço' nas principais disputas

Aliados apostam que poder midiático de ex-presidente vai turbinar candidatos e trazer dividendos nas urnas

A doença e a recuperação fizeram de lula um oráculo com poderes inigualáveis em outros partidos

Fernando Rodrigues

BRASÍLIA - Ontem, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou sua volta à "militância política", à "vida política". Na realidade, o petista nunca deixou de atuar politicamente durante os cinco meses de seu tratamento.

Enquanto convalescia, Lula fez dezenas de reuniões e opinou sobre o posicionamento do PT e de outros partidos lulistas nas eleições municipais deste ano.

Num encontro recente, ele ouviu atentamente o relato sobre o cenário eleitoral em cidades de médio e grande porte -e como o PT e o PSB estavam se acertando.

Um dos interlocutores era o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente nacional do PSB.

Ao ser informado de disputas entre petistas e socialistas em cidades como Mossoró (RN) e Duque de Caxias (RJ), Lula disse: "Não sabia. Precisamos resolver isso".

Participante do encontro, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, anotava tudo. Ninguém tem dúvidas de que com o "precisamos resolver isso" as coisas vão se assentar nessas cidades.

Essa reunião entre PT e PSB foi no apartamento de Lula, em São Bernardo (SP), há menos de uma semana.

Embora os prognósticos fossem bons, Lula ainda não tinha certeza absoluta da recuperação de sua saúde. Mesmo assim, entre um pedaço e outro de pizza, os presentes assistiram a um Lula preocupado em dissolver problemas eleitorais locais pelo país.

Ao deixar o Planalto no dia 1º de janeiro de 2011, Lula já era o condestável do PT. Tinha mais 80% de aprovação.

Agora, a doença, o tratamento e a recuperação fizeram dele um oráculo com poderes inigualáveis em outras agremiações partidárias. Nenhuma legenda no Brasil tem uma figura tão forte e prevalente como o ex-presidente.

A mostra mais visível desse poder foi a escolha de Lula ao designar Fernando Haddad como candidato do PT a prefeito de São Paulo.

A partir de agora, o ex-presidente repetirá o "dedaço" na formação das principais alianças e chapas de prefeito do PT e de seus aliados.

A inserção midiática natural de Lula tende a compensar o fato de o PT ter perdido na Justiça o seu tempo de propaganda partidária em rádio e TV neste semestre.

Ontem, o vídeo anunciando sua recuperação apareceu nas primeiras páginas de todos os portais, nas TVs a cabo e telejornais noturnos.

Essa mídia espontânea é a maior esperança de petistas e lulistas. A crença, a ser testada nas urnas, é que aparecer ao lado do ex-presidente garante exposição natural nos meios de comunicação -e mais votos em outubro.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dilma. Para esvaziar crise com o Congresso, ênfase na economia, com precárias medidas pontuais:: Jarbas de Holanda

Após as derrotas sofridas no Legislativo no início da semana passada, sobretudo as relacionadas à Lei Ge-ral da Copa e ao Código Florestal, que refletiram o pro-cesso de desarticulação da base parlamentar situacio-nista, o Palácio do Planalto tratou de valorizar ao má-ximo o encontro da presidente Dilma Rousseff com 28 grandes empresários, realizado na quinta-feira. Segui-do de sucessivas declarações dela e do ministro da Fazenda Guido Mantega sobre as respostas do gover-no à perda do mercado externo e de grande parte do doméstico por nossa produção industrial, combinada com reiteração das promessas de um crescimento do PIB entre 4,5% e 5% este ano. Essas questões foram igualmente o tema que Dilma empenhou-se em desta-car na entrevista à Veja, concedida logo depois do refe-rido encontro. Bem como o centro do esforço de comu-nicação oficial promovido a respeito da viagem da pre-sidente à Índia, esta semana, na qual deve renovar su-as propostas de uma articulação dos integrantes dos Brics contra o “tsunami financeiro” desencadeado pela Europa do euro e pelos EUA. Tudo isso servindo ao re-forço da dupla imagem dela, trabalhada para a opinião pública: como gestora dedicada à solução dos problemas econômicos e sociais e como presidente contra-posta ao fisiologismo dominante no Congresso.

Quanto às respostas ao estreitamento dos mercados de nossos produtos industriais e à forte queda deles na composição do PIB, boa parcela dos empresários con-vidados ao diálogo com a presidente foi além da de-manda de – e de apoio a – medidas de maior interven-ção na política monetária, de mais desoneração fiscal, de aumento do custo tarifário das importações. Para essa parcela, as medidas seletivas e pontuais que es-tão sendo tomadas e prometidas só terão efeito persis-tente se interligadas com reformas estruturais, como a tributária e a das custosas relações capital/trabalho, in-dispensáveis para um salto dos investimentos privados mas que seguem descartadas pelo governo Dilma, co-mo o foram nos dois mandatos do presidente Lula, es-pecialmente após a saída de Antonio Palocci do minis-tério da Fazenda. O próprio Jorge Gerdau, um dos arti-culadores do encontro, afirmou anteontem em Porto Alegre – ao participar de um ato do “Grito de Alerta contra a desindustrialização” – que “três ou quatro te-mas são prioritários para o aumento da competitividade dos produtos industriais brasileiros: maiores investi-mentos em educação, uma reforma tributária para eli- minar os impostos em cascata, a redução dos juros e dos custos da logística”.

Por sua vez, o presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp, Rubens Barbosa, em artigo no Esta-dão de ontem, depois de reconhecer a necessidade das ações de emergência do governo Dilma, avaliou assim o limite delas: “A retomada da indústria depende, entretanto, de medidas mais amplas, que envolvam so-luções para o alto custo da tributação, da energia e dos juros, não de mais protecionismo. O cenário internacio-nal, que por muitos anos ficará afetado pela crise eco-nômica e financeira, ameaçando o crescimento global e do comércio exterior, e a China agressivamente com-petindo com produtos brasileiros no exterior e mesmo no mercado doméstico aconselham um esforço político para reduzir significativamente o custo Brasil”.

Os limites das respostas pontuais que há muitos meses o governo dá ao chamado processo de desin-dustrialização e o imperativo da retomada de uma agenda de reformas estruturais foram bem evidencia-dos pelos números de pesquisa do Banco Central, di-vulgada ontem sobre o desempenho do conjunto da economia no início deste ano. O IBC-Br (Índice de Ati-vidades Econômicas colhido junto a 15 instituições) mostrou que, no mês de janeiro em relação a dezem-bro de 2011, houve uma queda de 2,1% na produção da indústria e uma taxa negativa, de -0,13%, do PIB. Esses números reduziram a perspectiva de crescimen-to no primeiro trimestre para apenas 0,5% ou 0,8%.

Quanto ao Congresso Nacional, esse cenário da economia e a crise do relacionamento com o Executivo poderiam propiciar, ao invés de um confronto com este em torno de postos e verbas do governo (em relação aos quais os demais partidos da base governista rea-gem aos amplos privilégios do PT), ao invés disso ca-minhar para um entendimento suprapartidário, de le-gendas dessa base com as de oposição, centrado nu-ma agenda de reformas estruturais. De um lado para um deslocamento possível, ou desejável, da presidente nessa direção. E, de outro, como reação do Legislativo a um ingrediente da tática promocional do Palácio do Planalto de reduzi-lo na opinião pública a um órgão dominado pelo fisiologismo. O que é um dado do cená-rio político também negativo. E, mais grave, com peri-gosas implicações institucionais.

Jarbas de Holanda, jornalista

BH: PSB confirma tucanos na chapa

Direção do PSB não abre mão da presença formal do PSDB na aliança encabeçada pelo prefeito Marcio Lacerda, contrariando o PT. Socialistas dizem que o importante é o programa de governo

Bertha Maakaroun

A recomendação do PT ao PSB para que os tucanos sejam vetados na coligação em torno da reeleição de Marcio Lacerda (PSB) na disputa à Prefeitura de Belo Horizonte não será atendida. O PSB considera irreversível a aliança formal com o PSDB. "O que nós temos de concreto é que essa aliança está funcionando muito bem na prefeitura. Você tem aqui o secretário de Obras do PT e o secretário de Saúde do PSDB que trabalharam de forma harmônica nesse projeto. O projeto está de pé. Aqui dentro não há nenhum acirramento de ambos", afirmou ontem Marcio Lacerda.

Na mesma linha de argumentação, os vereadores socialistas e o presidente municipal da legenda declararam ontem que não abrem mão da presença dos dois partidos na coligação. "Desde o final do ano passado temos manifestado que fazemos questão absoluta de ter o PT e o PSDB na coligação. Ao PT caberia a indicação do vice da chapa e o PSDB participaria formalmente desta vez", considerou João Marcos, presidente municipal do PSB.

Evitando falar em "veto" a partidos, o vereador Alexandre Gomes (PSB) saiu pela tangente. "O grande problema não é vetar um ou outro partido. A preocupação tem de ser não de quem vai governar, mas como a cidade será governada", assinalou Gomes. Segundo ele, Marcio Lacerda tem cumprido o seu programa de governo não só com a participação do PT, mas sobretudo em atenção aos programas que o partido determinou. "Muitas das críticas que o PT tem feito ao governo Lacerda, atribuindo ao PSDB a responsabilidade, são em áreas encabeçadas por petistas. O segmento da educação e a área social do governo são exemplos disso", afirmou o vereador.

Para Alexandre Gomes, o mais importante é que o PT discuta os pontos programáticos que deseja incluir na plataforma de Lacerda. "O PT tem de ficar preocupado em criar com o PSB um programa de governo que dê continuidade ao que está sendo feito", disse. "O PSDB já foi convidado a ingressar a aliança no ano passado. Seria deselegante a executiva do partido ou mesmo o prefeito desconvidá-lo", acrescentou Alexandre Gomes.

Opinião semelhante manifestou o vereador Fábio Caldeira (PSB). "Acho muito rico e interessante o processo de deliberação no PT, um processo democrático. Mas o próprio Eduardo Campos (presidente nacional do PSB) fez o convite ao PSDB para participar formalmente da aliança", sustentou Caldeira. Para o vereador, o PT aprovou uma "recomendação" ao PSB, e não um veto aos tucanos. "Essa recomendação não suscitará nenhum tipo de questionamento em outras instâncias diante do fato consumado que é a presença do PSDB na coligação. Essa questão precisa ser sacramentada logo, porque precisamos iniciar a conversa com os partidos da aliança para a construção do programa de governo", assinalou Caldeira.

Desejo 

Não apenas reivindicada por petistas, mas também por tucanos, a coligação com o PSB para a eleição à Câmara Municipal não é desejada pelos socialistas, principalmente pelos próprios vereadores, que serão beneficiados pelo voto de legenda com a candidatura majoritária de Marcio Lacerda. "Já há decisão do Congresso Municipal do PSB contra a coligação proporcional", afirmou Fábio Caldeira.

Menos contundente, o presidente municipal do PSB, João Marcos, abriu a possibilidade de interlocução sobre a coligação proporcional, para sugerir em seguida que ela não é desejada por seu partido. "Vamos ter de sentar e conversar. Mas não apenas o PT e o PSDB, todos os outros da coligação manifestaram interesse em se coligar para vereador com o PSB, como o PDT, o PMN e o PR. Agora, tem que ser bom para os dois lados", desconversou João Marcos.

FONTE: ESTADO DE MINAS

A agenda da competitividade

O que aconteceu ontem no Congresso foi apenas uma exceção que confirma a regra: são tão raros os projetos de real interesse do país abraçados pelo governo, que a aprovação de um deles é motivo de destaque e comemoração. Foi o que se deu com a criação da previdência complementar dos servidores públicos federais.

O Funpresp chega com anos de atraso, mas pelo menos chega. Limitar a aposentadoria dos servidores bancada pela União e estancar o déficit da Previdência era parte integrante da reforma proposta nos anos 90 pelo governo Fernando Henrique. Proposta brutalmente rechaçada pelo PT, então ainda na oposição: "Quero admitir que erramos", penitenciou-se ontem, enfim, o senador petista Humberto Costa.

Se a medida já tivesse sido adotada àquela época, cerca de 15 anos atrás, a previdência do setor público talvez não exibisse hoje o gigantesco rombo de R$ 57 bilhões no qual está metida. Os centenas de milhares de funcionários admitidos nos últimos anos já teriam ingressado no serviço público sob novas regras, desanuviando um pouco o futuro da Previdência.

A renitência petista ainda nos cobrará seu preço por anos: estima-se que o novo regime somente permitirá zerar o déficit no longínquo ano de 2047. Até lá, a contribuição de muitos continuará servindo para pagar o benefício de uns poucos - menos de um milhão de ex-servidores aposentados respondem por rombo 60% maior do que o gerado por 28 milhões de segurados do INSS.

Por coerência e convicção, a oposição votou favoravelmente à criação do Funpresp. A base aliada, ao contrário, precisou de agrados para apoiar o governo a que serve: segundo a Folha de S.Paulo, só a liberação de verbas para emendas parlamentares - algo como R$ 3 milhões para cada congressista nos próximos dois meses - possibilitou a aprovação.

Ainda que positivo na essência, o projeto contém vícios deploráveis. Um deles é deixar sob administração pública - portanto, sujeita a enormes interferências político-partidárias - a gestão e o controle dos bilionários recursos dos novos fundos.

"O novo regime previdenciário dos servidores públicos (...) cria um inédito gigante estatal. Poderá tensionar ainda mais os limites entre o público e o privado no país. Fundos de pensão patrocinados pelas estatais já são utilizados hoje pelo governo para intervir em empresas e projetos privados", analisa a Folha.

Outras anomalias indesejáveis são a fragmentação do Funpresp em três fundos (para Executivo, Legislativo e Judiciário) e a adoção de uma alíquota de contribuição patronal, paga pela União, muito acima do que é usual: 8,5%, quando na esfera privada o percentual gira em torno de 5%.

Ainda assim, a criação do Funpresp já representa uma rara boa notícia no deserto de iniciativas positivas do governo Dilma Rousseff. Se quiser perseverar no bom caminho, assuntos e boas propostas para melhorar o país não faltam. A começar pela agenda legislativa sugerida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com olhos voltados à diminuição do famigerado custo Brasil.

A lista, divulgada nesta semana, traz 131 projetos de lei em tramitação no Congresso que afetam diretamente a competitividade do setor, tanto de maneira positiva quanto negativa. Há maior convergência da agenda, segundo o Valor Econômico, com propostas defendidas pelo PSDB e pelo DEM. E maior divergência com as do PT. Fica fácil ver quem está a favor do país...

Entre projetos que poderiam ser imediatamente abraçados estão a adoção de novas regras para licitações, mantendo o rigor, mas permitindo sua agilização; a regulamentação das agências reguladoras, de forma a assegurar-lhes maior autonomia e blindar-lhes da ingerência política espúria de que vêm sendo vítimas nos últimos tempos; e a extinção do adicional de 10% sobre o FGTS, que só serve para encarecer ainda mais o custo de mão de obra e engordar os cofres do governo.

Mas, mesmo além da agenda da CNI, há também iniciativas legislativas que poderiam ser imediatas e que são de interesse amplo, geral e irrestrito. É o caso, por exemplo, da proposição de uma nova lei seca.

A decisão tomada ontem pelo STJ sepulta uma iniciativa civilizadora, que pecou pela imperfeição do legislador, mas cujos méritos eram evidentes. É não apenas possível, como desejável, uma convergência no Congresso para restaurar rapidamente o espírito original da lei e seu efeito benéfico sobre o selvagem trânsito brasileiro.

O país está sedento de medidas que melhorem as condições de vida da população, ajudem o Brasil a avançar rumo a um ambiente econômico mais competitivo e a regras de convivência social mais civilizadas. É de se lamentar que esta agenda não exista nos planos do governo.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela

Desafinado - Gal Costa

Fracassamos:: Marco Antonio Villa

Há despolitização, corrupção nos três Poderes e oligarcas como Sarney. A Nova República fez aniversário, ninguém lembrou. Havia motivo?

Nem o dr. Pangloss, célebre personagem de Voltaire, deve estar satisfeito com os rumos da nossa democracia. Não há otimismo que resista ao cotidiano da política brasileira e ao péssimo funcionamento das instituições.

Imaginava-se, quando ruiu o regime militar, que seria edificado um novo país. Seria a refundação do Brasil. Ledo engano.

Em 1974, Ernesto Geisel falou em distensão. Mas apenas em 1985 terminou o regime militar. Somente três anos depois foi promulgada uma Constituição democrática. No ano seguinte, tivemos a eleição direta para presidente.

Ou seja, 15 anos se passaram entre o início da distensão e a conclusão do processo. É, com certeza, a transição mais longa conhecida na história ocidental. Tão longa que permitiu eliminar as referências políticas do antigo regime. Todos passaram a ser democráticos, opositores do autoritarismo.

A nova roupagem não representou qualquer mudança nos velhos hábitos. Pelo contrário, os egressos da antiga ordem foram gradualmente ocupando os espaços políticos no regime democrático e impondo a sua peculiar forma de fazer política aos que lutaram contra o autoritarismo.

Assim, a nova ordem já nasceu velha, carcomida e corrompida. Os oligarcas passaram a representar, de forma caricata, o papel de democratas sinceros. O melhor (e mais triste) exemplo é o de José Sarney.

Mesmo com o arcabouço legal da Constituição de 1988, a hegemônica presença da velha ordem transformou a democracia em uma farsa.

Se hoje temos liberdades garantidas constitucionalmente (apesar de tantas ameaças autoritárias na última década), algo que não é pouco, principalmente quando analisamos a história do Brasil republicano, o funcionamento dos três Poderes é pífio.

A participação popular se resume ao ato formal de, a cada dois anos, escolher candidatos em um processo marcado pela despolitização. A cada eleição diminui o interesse popular. Os debates são marcados pela discussão vazia. Para preencher a falta de conteúdo, os candidatos espalham dossiês demonizando seus adversários.

O pior é que todo o processo eleitoral é elogiado pelos analistas, quem lembram, no século 21, o conselheiro Acácio. Louvam tudo, chegam até a buscar racionalidade no voto do eleitor.

Dias depois da "festa democrática", voltam a pipocar denúncias de corrupção e casos escabrosos de má administração dos recursos públicos. Como de hábito, ninguém será punido, permitindo a manutenção da indústria da corrupção com a participação ativa dos três Poderes.

Isso tudo, claro, é temperado com o discurso da defesa da democracia. Afinal, no Brasil de hoje, até os corruptos são democratas.

No último dia 15, a Nova República completou 17 anos. Ninguém lembrou do seu aniversário. Também pudera, lembrar para que?

No discurso que fez no dia 15 de janeiro de 1985, logo após a sua eleição pelo colégio eleitoral, Tancredo Neves disse que vinha "para realizar urgentes e corajosas mudanças políticas, sociais e econômicas, indispensáveis ao bem-estar do povo".

Mais do que uma promessa, era um desejo. Tudo não passou de ilusão.

Certos estavam Monteiro Lobato e Euclides da Cunha. Escreveram em uma outra conjuntura, é verdade. Mas, como no Brasil a história está petrificada, eles servem como brilhantes analistas.

Para Lobato, o Brasil "permanece naquele eterno mutismo de peixe". E Euclides arremata: "Este país é organicamente inviável. Deu o que podia de dar: escravidão, alguns atos de heroísmo amalucado, uma república hilariante e por fim o que aí está: a bandalheira sistematizada".

Marco Antonio Villa, 55, é historiador e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

FONTE: FOLHA DE S. PAULO