Ex- guerrilheiro ainda quer mudar o Brasil, mas hoje se coloca ao centro e propõe voto no candidato à Presidência menos perigoso
Por Helena Celestino | Eu & Fim de Semana | Valor Econômico
RIO - Fernando Gabeira marcou este "À Mesa com o Valor" para uma terça-feira, o dia mais tranquilo da sua semana. Chega exatamente ao meio-dia, numa pontualidade aprendida em seus tempos de Suécia. À espera da mesa no Gula Gula, no banco do lado de fora em uma rua mais ou menos calma de Ipanema, a conversa começa pelos tiroteios na Rocinha, tonitroantes na vizinha Gávea. Gabeira lembra-se de uma viagem ao Haiti, ainda como deputado federal, em que se hospedou na embaixada brasileira. "Cheguei exausto, fui dormir e comecei a ouvir tiros. Dormi bem à beça, parecia que estava em casa", diz, rindo.
Dias depois ocorreu a intervenção federal na área de segurança do Rio. Por ironia da história, pela primeira vez desde o fim da ditadura os militares estavam de volta ao comando da segurança da cidade. Meio século depois da explosão de rebeldia de 68, aquele já longínquo ano em que os jovens - Gabeira entre eles - foram para as ruas com a ambição de tirar os generais do poder, mudar o país e o mundo. Coube ao comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, fazer a ligação entre o passado e o presente ao dizer que não queria uma nova Comissão da Verdade ao fim da intervenção no Rio. Ele referia-se à apuração das violações de direitos humanos da época da ditadura e, com isso, tirou do porão os fantasmas deixados pela participação dos militares na política.
Gabeira sorri. "É uma ironia, sim. Só que o contexto agora é outro, o monitoramento se dá no dia a dia, com a multiplicidade de pessoas fazendo imagens nas ruas. Não vi até agora nenhum dos fatos apresentados sobre a violência sendo desmentidos. É muita mídia, diz o general, mas vai fazer o quê? Confiscar os celulares?"
Personagem de destaque desses dois tempos, Gabeira, de 77 anos, há muito não cabe mais no figurino do guerrilheiro de 1968 nem mesmo no da esquerda reciclada pós-fim do império soviético, queda do muro de Berlim, globalização e movimentos identitários. "Hoje eu me coloco mais no centro, certas saídas da esquerda eu adoto, fecho com a direita em outras posições", diz. Um exemplo? Na disputa de narrativas entre direita e esquerda, desenrolando-se paralelamente à intervenção federal na segurança do Rio, ele incorpora as duas. "É um marketing eleitoral de um governo impopular, mas em cima de uma situação real, usando uma estrutura de muita credibilidade, o Exército."
O melhor até agora, diz, é o manual feito por três jovens sobre como a população negra deve se comportar para se defender de arbitrariedades recorrentes de policiais ou soldados. "É uma proposta civilizatória que a própria polícia deveria incorporar", diz. No vídeo que viralizou, os três garotos dão dicas de sobrevivência em tempos de intervenção: se você é negro, mantenha o celular carregado para documentar abordagens e número de matrícula dos policiais; nunca corra ou faça manobras bruscas perto de blitz; não leve na mochila guarda-chuvas ou objetos grandes possíveis de serem confundidos com armas.
"As tropas têm de sair do Rio assim que a polícia estiver reestruturada", afirma. Sem medo dos recentes mimos do governo Temer aos generais, Gabeira é a favor da intervenção no Estado. Mas só vê possibilidades de redução da violência se a população se engajar neste combate, replicando de alguma maneira o modelo usado na Europa para combater o terrorismo: uma articulação entre os recursos policiais e recursos sociais, usando a internet para trocar informações sobre os acusados de crimes e receber denúncias dos moradores. "Se você acha que um determinado cara se deslocou para um bairro, lança para todos os smartphones a foto dele, procura manter a população informada e ser informada por ela."