quarta-feira, 16 de maio de 2012

Mais devagar:: Celso Ming

Na entrevista que concedeu ontem à Agência Estado (ver pág. B4), o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não escondeu que o governo está muito satisfeito com a desvalorização do real (alta do dólar no câmbio interno) e com a queda dos juros. Mas não pode dizer o mesmo nem do ritmo do crescimento econômico, nem da perspectiva de receitas com exportações, nem do comportamento da inflação.

A alta do dólar acumulada neste ano (até ontem ) é de 7,01%. As cotações fecharam ontem nos R$ 2,00 por dólar e o ministro alardeia aumento da competitividade da indústria.

Esta é uma desvalorização do real arrancada a fórceps. Não é algo sustentável a prazos mais longos. Não foi o dólar antes mais barato que tirou competitividade da indústria brasileira. Foi o altíssimo custo Brasil - que vem aumentando, porque o preço da mão de obra disparou.

Mantega comemora porque "o empresário quer câmbio" e ele está entregando câmbio - e não reformas para valer, que derrubem o custo Brasil. Mas, como ocorreu no passado, durante certo tempo, o governo conseguirá compensar com mais câmbio o estrago na competitividade da indústria causado pelo custo Brasil. Mas isso tem tudo para ter fôlego curto.

Como o professor Affonso Celso Pastore explicou em artigo recente (Estado de 6/5/2012), dado o baixo nível de poupança interna, o Brasil precisa contar com o afluxo de investimentos estrangeiros. Para isso, é necessário que as contas externas (Contas Correntes) apresentem déficit. Ou seja, o Brasil terá de manter importações elevadas. Como não vai importar nem produtos agrícolas, nem minérios, nem petróleo, é inevitável que o ajuste se faça com base nas importações de industrializados.

Também é ótimo que o ministro venha conseguindo certo sucesso na derrubada dos juros. O que ainda tem de ser visto é se dá para segurar a inflação na meta. A crise externa e a nova safra de derrubada dos preços das commodities ajudam nessa tarefa, mas, outra vez, é preciso que essas coisas sejam sustentáveis. E, para tanto, será necessário colocar em marcha as reformas, que estão emperradas.

Quanto ao crescimento econômico, dá para notar que o ministro Mantega já desistiu dos tais 4,5% a 5,0% prometidos no início do ano e já fala em algo mais do que foi o pibinho o de 2011, que ela acha bom: "Você ter 2,7% como piso de crescimento tá muito é bom", disse ele.

Mantega atribui esse desempenho insatisfatório "à crise externa", o que é apenas um pedaço da verdade. Se o consumo interno caminha entre 5,5% e 6,0% ao ano, como ele também disse, não haveria razão especial para que o sistema produtivo ficasse tão para trás. Se fica, é porque a indústria não tem competitividade; não consegue atender plenamente o mercado interno, que precisa ser suprido cada vez mais pelas importações.

Fiquemos com os dados do ministro. A crise está derrubando os preços internacionais dos manufaturados. Caso a crise externa dure mais quatro ou cinco anos, como ele calcula, os preços internacionais dos manufaturados ficarão achatados durante todo esse tempo, sem que a indústria brasileira tenha condições de derrubar o déficit da balança comercial de manufaturados, de US$ 90 bilhões por ano. Ou seja, nem com essas estocadas no câmbio a indústria brasileira vai ter condições satisfatórias de competir por fatias crescentes de mercado externo.

CONFIRA

O gráfico mostra o comportamento do Índice CRB, que mede a flutuação dos preços das 19 commodities mais negociadas no mundo.

A crise e o dólar. Na entrevista desta terça-feira, o ministro Guido Mantega aponta a baixa das commodities como fator decisivo no controle da inflação brasileira. A retração desses preços apenas em parte se deve ao agravamento da crise global, que deve produzir mais recessão e reduzir o consumo. Reflete também a alta do dólar nos mercados de câmbio. (Um dólar mais valorizado compra mais commodities.)

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Na prática: a Grécia sem o euro:: Vinicius Torres Freire

País pode até melhorar daqui a alguns anos, mas saída do euro vai causar colapso social e econômico

Os brasileiros de uns 45 anos de idade têm experiência com troca de moedas. Talvez se lembrem de avós chamando as notas de um cruzeiro de "mil-réis" ou as de um cruzeiro novo de "mil cruzeiros", para grande confusão nossa, crianças no início dos anos 1970.

Mas essas trocas de moeda eram brincadeira de banco imobiliário, mera mudança de papel pintado. Se e quando a Grécia sair do euro, haverá o caos no sentido original da expressão grega: o vazio ou um abismo da confusão.

Trocar notas e moedas será o mais ínfimo dos problemas.

A Grécia terá de se obrigar a sair do euro se não cumprir seus acordos com a União Europeia. Não terá então mais empréstimos europeus. A fim de pagar suas contas mais ínfimas, o governo grego terá, pois, também de "imprimir" dinheiro. Para tanto, terá de ter seu próprio dinheiro, a dracma, digamos.

O governo grego tem deficit (gasta mais do que arrecada) equivalente ao valor de 5% do PIB, afora juros (que deixará de pagar, a princípio). Sem dinheiro europeu, terá de imprimir dinheiro, como já se disse, aumentar impostos e/ou cortar gastos. Quanto menos equilibrado for seu orçamento, mais dinheiro terá de "imprimir" a fim de pagar suas contas. Quanto mais imprimir, maior será a inflação. Os mais pobres ficarão ainda mais pobres.

A Grécia tem deficit comercial (importa mais do que exporta) no valor de uns 12% do PIB. A fim de pagar suas importações, terá de impor controle de capitais: euros sairão do país apenas sob ordem do governo. De outro modo, pode faltar euro para pagar compras de combustíveis, comida, remédios e outras importações essenciais.

Sem crédito internacional, sem conseguir euros por meio do comércio internacional e dada a rejeição geral da dracma (quem as trocaria por euros?), haverá penúria. A Grécia terá de limitar importações.

Por que o controle de capitais? Quem tem euros vai guardá-los no colchão ou depositá-los em bancos seguros (fora do país, em países do norte da Europa provavelmente). A nova moeda grega, a nova dracma, será impressa aos borbotões. Vai se desvalorizar barbaramente em relação ao euro. Quem puder não vai aceitá-la ou vai se livrar das dracmas assim que possível.

Provavelmente isso já deve estar ocorrendo: sangria dos bancos e fuga de capitais (as pessoas sacam o dinheiro e o enviam para fora). Com a saída do euro, o governo tende a converter todos os depósitos bancários e contratos em dracmas: a converter moeda boa em ruim. Quem puder vai tentar evitar isso. O governo, por sua vez, vai tentar policiar remessas e até fronteiras (gente com mala cheia de dinheiro).

A conversão de dívidas e contratos vai causar quebras, de bancos e empresas: gente com dívidas em euros e captação ou renda em dracmas vai quebrar. As dívidas em euros explodirão. Haverá um tumulto de processos legais, pois os euros serão, na prática, confiscados.

A princípio, haverá inflação, desvalorização brutal da dracma, falências em série, penúria no governo. O valor real do salário vai desabar, tudo ficará mais caro.

Pode melhorar depois? Talvez. Mas, com ou sem Europa, a Grécia ficará mais pobre e terá de enfrentar um tumulto social que talvez tenha consequências políticas graves.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Vampirismo econômico:: Rolf Kunts

Quatro países sul-americanos cresceram bem mais que o Brasil, no ano passado, com taxas de inflação muito menores. Resultados melhores que os brasileiros foram alcançados também por economias emergentes da Europa. No Brasil, empresários desconhecem ou menosprezam esses dados e se mostram dispostos, mais uma vez, a embarcar na aventura de "um pouco mais de inflação" para conseguir um pouco mais de crescimento - como se prosperidade e estabilidade fossem objetivos incompatíveis. Segundo um representante da indústria, o governo tem de bancar o risco inflacionário gerado pela alta do dólar para garantir mais atividade e preservar a produção nacional. Opiniões desse tipo têm aparecido com frequência e são um complemento previsível dos apelos por mais protecionismo e mais intervenções paternalistas (ou maternalistas) do governo. O filme é conhecido: a história inclui produtos vagabundos e caros para consumidores desprotegidos, inflação alta, desemprego estrutural e crises periódicas de balanço de pagamentos. A segurança criada pelas barreiras é tão enganadora quanto injusta.

Em 2011, a inflação média do Brasil chegou a 6,6%, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 2,7%. Estes são os números de alguns latino-americanos administrados com maturidade: Colômbia, 3,4% de inflação e 5,9% de crescimento; Peru, 3,4% e 6,9%; Chile, 3,3% e 5,9%; Equador, 4,5% e 7,8%. Alguns europeus conseguiram, apesar da crise regional, combinar expansão e estabilidade: Polônia, 4,3% de inflação e 4,3% de aumento do PIB; Lituânia, 4,1% e 5,9%; Turquia, 6,5% e 8,5%.

A conversa sobre inflação intensificou-se nos últimos dias, quando o dólar passou de R$ 1,90 e rapidamente se aproximou de R$ 2,00. Alguns economistas logo chamaram a atenção para o possível efeito inflacionário do câmbio desvalorizado. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, mostrou pouca ou nenhuma preocupação com esse risco e preferiu dar ênfase ao efeito benéfico da variação cambial. Dólar mais caro significa maior poder de competição para o produtor brasileiro. A discussão é um tanto vaga, neste momento, porque ninguém pode dizer com segurança como será o câmbio dentro de alguns meses, se a crise europeia amainar, os investidores se acalmarem e a procura de ativos em dólares ficar menos intensa. Falta saber, além disso, como estará a relação entre os juros brasileiros e os ganhos proporcionados por outras aplicações. Vários analistas mantêm a aposta numa acomodação do câmbio em cerca de R$ 1,85 por dólar.

Enquanto os especialistas tentam projetar a cotação da moeda americana, empresários festejam a depreciação do real, em coro com o ministro Mantega e sua chefe. Segundo o ministro, ele, "a torcida do Flamengo e a do Fluminense" estão satisfeitos com o câmbio atual. Além disso, a presidente Dilma Rousseff mostra-se preocupada com a competitividade da indústria, não com o dólar mais caro, acrescentou.

Mas a pressão inflacionária é apenas um dos possíveis efeitos indesejáveis da depreciação cambial. Pode-se atenuar esse efeito com a moderação do gasto público e uma gestão prudente do crédito. Surto inflacionário por causa do câmbio não é fatalidade, exceto em ambiente de tolerância. É o risco brasileiro.

A depreciação do real pode ser acompanhada também de efeitos perigosos na gestão da economia. Durante décadas, no Brasil, o câmbio desvalorizado serviu para disfarçar uma porção de ineficiências tanto das empresas quanto do ambiente econômico. As exportações avançavam muito devagar e o Brasil era insignificante no mercado internacional. Mas o câmbio depreciado funcionava como um energético, a indústria era protegida por enormes barreiras e os consumidores eram explorados sem perceber claramente a patifaria. O controle represava os preços internos e a indexação enganava assalariados e pequenos poupadores. Pouca gente contestava a aliança entre o governo voluntarista e balofo e os favoritos da corte.

Alguns itens desse roteiro talvez estejam descartados, mas o voluntarismo, o protecionismo, a ineficiência do governo, o intervencionismo e a engorda do setor público são cada vez mais sensíveis. Sem compromisso com a reforma do péssimo sistema tributário, o governo se limita a remendos. Sua incompetência gerencial se reflete na incapacidade de conduzir programas e projetos para o aumento da produtividade geral do País. De vez em quando, empresários cobram reformas relevantes. Mas brigam a maior parte do tempo pela redução dos juros e pela correção do câmbio, como se isso resolvesse os problemas de competitividade. Obviamente não resolve. Quanto ao voluntarismo, será bem-vindo enquanto resultar em domesticação do Banco Central, reserva de mercado e formas variadas de protecionismo. O passado, em alguns países, é tão difícil de enterrar quanto um vampiro.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

O santo tombo do JPMorgan:: Elio Gaspari

Até o mês passado, Jamie Dimon, do JPMorgan, era considerado o "Rei de Wall Street". Esteve no páreo para o cargo de secretário do Tesouro dos EUA e é um dos queridinhos do companheiro Obama. Talvez ele entre para a história da banca, mas por outra porta, a do desabamento da teoria segundo a qual o mercado financeiro deve ser deixado em paz, livre da má influência dos governos e dos políticos. Dimon é o líder do combate à proposta de Paul Volcker, segundo a qual os bancos não devem arriscar os fundos de seus depositantes, garantidos pelo governo, em apostas especulativas. Quem vendeu ações da Apple em 1985 fez um mau negócio. Quem as comprou ficou rico, mas a empresa produz coisas que podem ser embrulhadas. Outra coisa é apostar em operações incompreensíveis até mesmo para Dimon. Foi isso que o JPMorgan fez, tomando um tombo de US$ 2 bilhões.

Quando morreu, em 1913, John Pierpont Morgan deixou uma fortuna que, calculada em dinheiro de hoje, valeria US$ 2 bilhões. Em apenas seis semanas, Jamie Dimon e Ina Drew, a chefe do serviço de investimentos, perderam um Morgan. Até aí, jogo jogado, porque o banco aguentou o prejuízo. Ela perdeu o emprego, mas Dimon continua no seu. Em 2011 a doutora levou para casa US$ 15,5 milhões em salários e benefícios. Segundo a revista "Fortune", era a 8 mulher mais bem paga do mundo. (Dimon recebeu US$ 23 milhões, ervanário equivalente ao patrimônio que Lord Keynes acumulou ao longo da vida lendo jornais e jogando na Bolsa.)

A Europa está convulsionada, onze governos caíram, há outros na fila e os Estados Unidos se esforçam para sair da Grande Recessão, mas a banca acha que sabe tudo. Emprestaram dinheiro a governos que não teriam como pagar e pedem "austeridade" aos seus povos. Há trinta anos, quando essa charanga tocou no Terceiro Mundo, foi possível dobrar os governos (inclusive o brasileiro), mas hoje o truque revela-se insuficiente acima do Equador.

Felizmente, a crise de hoje tem no economista Paul Krugman, com seus artigos na imprensa, uma voz de alerta, crítica e frequente. Ele não é apenas mais um colunista, é um Prêmio Nobel de Economia. Há anos Krugman defende a intervenção dos governos, a alta dos juros americanos e a proposta de Paul Volcker como o melhor caminho para equilibrar o mercado financeiro. Ele nunca acreditou nas mágicas do plano Merkozy (agora sem o sufixo). Se depois da Primeira Guerra Mundial houvesse um Krugman informando que os barões da finança mundial não eram do tamanho que se pensava, talvez o desastre da Depressão pudesse ter sido evitado. Montagu Norman, o presidente do Banco da Inglaterra, era pancada. Julgava-se capaz de atravessar paredes. O presidente do Fed, Benjamin Strong, tinha saúde precária e vivia períodos na morfina. Hjalmar Schacht, do Reichsbank, tornou-se nazista por oportunismo e sua mulher, por fé. Ela tinha uma suástica de rubis e brilhantes.

Ina Drew prestou um serviço ao debate. Ela usava em operações especulativas o dinheiro de correntistas de bancos que tinham saldos garantidos pelo governo. O que Paul Volcker quer é separar o destino dos depósitos. Quem quiser que seu dinheiro entre nessa ciranda às vezes lucrativa, tudo bem. Quem não quiser, estará protegido.

FONTE: O GLOBO

Lá vem o Patto !:: Urbano Patto

Alerta aos navegantes.

Mal começaram as pré-campanhas eleitorais em Taubaté e percebe-se que o quadro tende à deteriorar-se cada vez mais. Diferentemente de outras cidades, que embora não sejam situações puras e imaculadas, muito ao contrário disso, em Taubaté o patamar das baixarias e dos métodos heterodoxos de fazer política, tem se situado num nível muito abaixo da civilidade.

Não há dia em que não apareça na mídia, nos blogs ou nas redes sociais denúncias e acusações dos mais diversos tipos, principalmente relativamente aos que se dizem os “melhores colocados nas pesquisas”. Nos bastidores, corredores e à boca pequena então, o que se ouve é impublicável.

O que mais surpreende é que quase nada se refere à propostas políticas ou de programas de governo. As conversas, as informações truncadas e os boatos, tratam de desvios de comportamentos pessoais, de atividades supostamente criminosas, de intrigas familiares, relatos que chegam a ser escatológicos, nojentos.

Não bastasse a vergonha que a cidade vem passando nos últimos anos pela incúria, despreparo e imoralidade da atual administração municipal, o cenário eleitoral está se contaminando da mesma forma, com a luta sem princípios que se desenvolve, embora os próceres das principais pré-campanhas fiquem posando de vestais.

Nunca é demais relembrar o ditado que diz que, numa briga na lama, até o vencedor sai sujo.

Caberá ao eleitor saber diferenciar cada um dos contendores e tentar filtrar nessa guerra de informações e contra-informações, o que é de fato relevante e verdadeiro, indo além das imagens forjadas pelo marketing, positivo ou negativo. Essa verdade não será enxergada nas promessas para o futuro, pois nisso todos deverão ser fluentes, mas já está revelada pelas posturas assumidas concreta e abertamente quando dos momentos críticos e por como tem se comportado politica, administrativa e eticamente em sua vida pública.

Urbano Patto é Arquiteto-Urbanista, Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional, Secretário do Partido Popular Socialista - PPS - de Taubaté e membro Conselho Fiscal do PPS do Estado de São Paulo. Comentários, sugestões e críticas para urbanopatto@hotmail.com

Tarde no Recife:: Joaquim Cardoso

Tarde no Recife.
Da ponta Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Máxime.
Cais do Abacaxi. Gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.

Tanta gente apressada, tanta mulher bonita.
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um carreto gritando — alerta!
Algazarra, Seis horas. Os sinos.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem
[dos fidalgos holandeses.
Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas
[do Pacífico.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
E da beleza católica do rio.

terça-feira, 15 de maio de 2012

OPINIÃO DO DIA – Antonio Fernando de Souza; mensalão

"Na democracia, todas as pessoas estão sujeitas à fiscalização, ao controle, à responsabilização, e há órgãos dispostos a isso. Não serão os partidos políticos nem seus dirigentes que vão dizer o que é crime e o que não é crime. Quando eles querem transmitir um ar de que não aconteceu nada, estão indo para o reino da fantasia. Negar a existência do mensalão é uma afronta à democracia."

Antonio Fernando de Souza, ex-procurador geral da República, autor da denúncia contra 40 dirigentes petistas e outros, no STF. Veja, 16 de maio de 2012.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Ministro do STF suspende depoimento de Cachoeira
Petrobras tira a Delta das obras do Comperj
Dilma ordena tolerância zero com empreiteira
Crise faz dólar bater R$ 2 e Bolsa cair 3,2%
Contra miséria, Carinhoso dá por ano mais R$ 2 bi

FOLHA DE S. PAULO
Crise europeia derruba mercados
Advogada defende que comissão não investigue esquerda
Obras da Copa têm situação 'crítica', afirma balanço da Fifa
Procuradora não quis investigar Demóstenes, diz PF

O ESTADO DE S. PAULO
Risco grego para o euro afeta bolsas e dólar encosta em R$ 2
Supremo dá a Cachoeira o direito de não ir hoje à CPI
Comissão da Verdade não vai investigar militantes
Comissão de Ética livra Ideli no caso das lanchas

VALOR ECONÔMICO
Novos títulos dão fôlego ao crédito habitacional
Grécia corre o risco de ser expulsa da União Europeia
União pode ter pesadelo judicial com a Delta
China tem desaceleração acentuada

CORREIO BRAZILIENSE
Reajuste de servidores vai variar de 2% a 31%
Decisão do STF adia ida de bicheiro à CPI
Europa em crise derruba Bolsas e dólar bate em R$2
Dois médicos terão de atestar anencefalia

ESTADO DE MINAS
Ruim com ele...
União: Governo dá aumento a servidores
Cachoeira consegue prazo no Supremo
Câmbio: Dólar encosta em R$ 2 após quase 3 anos

ZERO HORA (RS)
Dólar colado em R$ 2 anima exportador e preocupa consumidor
Supremo cancela ida de Cachoeira à CPI
Apoio a Manuela divide e constrange PP gaúcho

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Greve do metrô dividida
Dólar passa dos R$ 2, mas fecha o dia em R$ 1,98
Governador define diretor de escola
Debate cancelado

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Entrevista de Zygmunt Bauman

Marcos Flamínio Peres

Bauman: “Viver sob pressão de mudanças constantes e, em geral, imprevisíveis favorece uma cultura do esquecimento, em vez de uma cultura do aprendizado e da lembrança”.

Zygmunt Bauman é hoje uma grife da sociologia, lido, citado e compartilhado em toda parte. Esse status se deve em grande medida ao seu conceito de “modernidade líquida”, aplicado às sociedades pós-industriais que perderam o sentido de “pertencimento”.

Desde os anos 1960, explica, houve uma aceleração radical das mudanças sociais e tecnológicas, o que acentuou os sentimentos de mobilidade e individualidade em todos os setores da vida cotidiana: família, posição social, emprego, orientação sexual, relacionamentos amorosos etc.

Bauman desenvolveu essa tese em “Modernidade Líquida” (2000), desdobrada em vários outros títulos que o levariam a conquistar um público fora dos muros da academia: “Amor Líquido”, “Vida Líquida”, “Medo Líquido” e “Tempos Líquidos” (todos publicados pela editora Zahar).

Essas sociedades “leves” e “líquidas” perderam o sentido de solidez e estabilidade, defende o sociólogo. Em consequência, o ser humano tornou-se mais autônomo, o que é um ganho, mas passou a conviver com um fardo pesado: o sentimento de incerteza. E esse estado, diz Bauman na entrevista abaixo, é “provavelmente irreversível”.

Outras mudanças acentuaram mais drasticamente esse quadro: a globalização, a internet e o consumismo.

Professor emérito da Universidade de Leeds (Reino Unido), Bauman deixou a Polônia em 1971, fugindo da perseguição antissemita promovida pelos comunistas. Talvez tenha sido esse olhar “de fora”, de alguém vindo da periferia do continente europeu, que lhe permitiu apreender as transformações agudas por que vinha passando as sociedades ocidentais do capitalismo avançado.

Também deriva desse ponto de vista periférico seu entusiasmo, às vezes ingênuo, com o papel que países emergentes como o Brasil podem exercer na nova geopolítica que se configura. “Eles são laboratórios nos quais novos modos de coabitação humana são concebidos e testados.”

Na entrevista a seguir, Bauman fala igualmente do recém-lançado “Ensaios sobre o Conceito de Cultura” (Zahar, trad. Carlos Alberto Medeiros, 328 págs., R$ 49,90), obra de sociologia “dura” e leitura atenta, mas onde discute os fundamentos teóricos destes novos tempos “líquidos”.

Valor: “Ensaios sobre o Conceito de Cultura” foi escrito 37 anos atrás, quando os estudos culturais estavam apenas começando a se consolidar nos departamentos de ciências humanas, enquanto hoje são hegemônicos. Tantos anos depois, o que mudou no debate intelectual?

Zygmunt Bauman: Alguns anos atrás, quando este livro foi reeditado, me pediram para escrever uma nova “Introdução” justamente para responder a essa pergunta. Mas o aspecto interessante é que as mudanças verdadeiramente seminais ocorridas na sociedade e no papel da cultura se cristalizaram somente poucos anos atrás, após essa “Introdução” haver sido escrita e publicada… Tentei traçar e interpretar essas mudanças em “Culture in a Liquid Modern World” [que sai no Brasil em 2013 pela Zahar]. As mudanças que observei ali são, antes de tudo, uma transformação progressiva da cultura em commodity. A cultura passou de uma função “homeostática”, estabilizadora, para servir ao mercado consumidor e promover a flexibilidade, a fome por novidades e a nova “onivoria cultural” das elites formadoras de opinião.

Valor: O senhor diz ali que vivemos hoje em uma “era da reciclagem”, na qual as ideias são “enterradas vivas”. Quais as consequências disso para o modo como vivemos?

Bauman: Viver sob pressão de mudanças constantes e, em geral, imprevisíveis favorece uma cultura do esquecimento, em vez de uma cultura do aprendizado e da lembrança. Não temos tempo para digerir e assimilar novas informações antes que sejam afastadas de nossa atenção, espremidas por novidades mais recentes – do mesmo modo como substituímos velhos aparelhos pelos novos, recém-distribuídos nas lojas, e que possuem um ou dois recursos que seus predecessores não têm… Na sociedade consumista da modernidade líquida, as coisas começam a envelhecer já no momento em que nascem, e a distância temporal entre acolhê-las entusiasticamente e rejeitá-las como ultrapassadas vem se encurtando em uma velocidade cada vez maior.

Valor: O avanço da internet e das redes sociais tem algo a ver com sua afirmação segundo a qual “nada parece estar verdadeiramente morto ou vivo”?

Bauman: A tecnologia digital, com seu espaço infinito para armazenar informação, intensificou esse processo a que me referi acima: não temos mais necessidade de expandir nossa memória pessoal, na medida em que toda informação existente está mantida em segurança em servidores da Web e pode ser recuperada quando o desejarmos. Hoje podemos esquecer sem nos sentirmos culpados… E fazemos isso. As coisas esquecidas não estão mortas – ou, ao menos, parece. Entretanto, se essa ideia é reconfortante, ao mesmo tempo é enganadora e potencialmente danosa. Nenhuma de suas consequências de longo prazo são realmente encorajadoras. Já seus resultados imediatos são a fragilidade dos limites do homem e o status provisório de quaisquer soluções para os problemas, além das sensações de desconhecimento – mais do que a capacidade de entender- e de impotência – mais do que a capacidade de agir efetivamente e com confiança no resultado.

Valor: Vivemos em um tempo mítico, sem passado nem futuro?

Bauman: Hoje, o “tempo real” se constitui no padrão em relação ao qual todos os outros tempos são comparados. O valor supremo é a imediatez. Não há nada “mítico” nisso. Trata-se, antes, do fato de que essa preferência atual faz com que todos os outros tempos imagináveis pareçam serem percebidos como míticos! Somente o tempo vivido cotidianamente parece e é sentido como “real”. Tudo aquilo que reside no “passado” e no “futuro” foi descartado. Nossas vidas, por assim dizer, são uma sucessão de “momentos presentes” – chamei tal percepção temporal de “pontilhista”, para distingui-la da percepção até então dominante, a de imagens “cíclicas” ou “lineares”. A história é hoje uma série de presentes, e esse presente transitório é a única constância… Em consequência, a incerteza é a única certeza…

Valor: Outro tema que desenvolve é a crise das ideias de nação e nacionalismo no mundo líquido. Em certa medida, “a doçura de se sentir incluído”, o sentimento de pertencimento a uma dada comunidade, se transferiu para as mídias sociais?

Bauman: Para as mídias sociais, para o mercado consumidor e para os Carnavais… Mídias sociais são “redes” fazendo o papel das comunidades enfraquecidas. Mercados consumidores: a partir dele, podemos comprar os ícones do pertencimento, mas sem o genuíno auto-sacrifício e a autoimolação que o pertencimento na vida real requer… E os Carnavais são similares às Copas do Mundo, aos jogos internacionais e às Olimpíadas. Esses três territórios “off-shore” resgatam a vida diária do “demasiadamente real”, do pesado fardo do pertencimento corporal/espiritual…

Valor: Vê-se na Europa Ocidental, berço da ideia de nacionalismo, o fortalecimento de retórica e medidas anti-imigratórias, como na recente campanha presidencial francesa, ou ainda contra trabalhadores, mesmo que qualificados, como a proibição de pesquisadores estrangeiros de lecionarem em território francês. O nacionalismo, na verdade, não está recrudescendo?

Bauman: O nacionalismo tem muitas causas – todas elas muito diferentes… Na Europa, o nacionalismo não está em crise porque o que está em crise é justamente a soberania do Estado-nação. A responsabilidade pela incerteza atual é posta na recente mudança de situação [econômica]. Essa é a razão por que o capital político tenta se construir a partir dos medos nascidos de um processo mais amplo de separação entre o poder, a capacidade de fazer as coisas, e a política, a capacidade de decidir que coisas precisam ser feitas. Na verdade, a União Europeia é um escudo que protege os Estados membros de calamidades muito piores, caso ocorresse um divórcio entre eles. Os problemas que os políticos nacionalistas prometem resolver por meio da ressurreição da “soberania plena” do Estado-nação são fadados a se aprofundar, e não serem sanados, pela desmontagem desse escudo protetor. A imigração, outro alvo dos políticos nacionalistas, também não poderia ser suprimida sem minar a economia europeia, seriamente dependente da capacidade e da mão-de-obra importadas…

Valor: Como potência emergente, o Brasil – e os Brics em geral – são bem diferente das sociedades “líquidas” e pós-industriais que o senhor abordou em seus livros, o que ele pode apresentar de novo ao mundo no que diz respeito à cultura e ao modo de vida?

Bauman: Os centros onde as inovações culturais estão sendo gestadas, de onde se irradiam as inspirações e estímulos culturais, são famosos por suas mudanças de rota. O tempo presente não oferece nenhuma exceção. Outra questão é que os padrões da “periferia” importados dos centros atuais e aparentemente imitados e copiados tendem a ser -com a ajuda do conhecimento acumulado – adaptados, reformados e reajustados criativamente para diferentes realidades. De um ponto de vista histórico, há uma deficiência ligada ao fato de “ser o primeiro” e há uma vantagem em “juntar-se mais tarde”. Se as sociedades que já passaram de seu apogeu, objeto de meus livros sobre a modernidade, podem estar vivendo o “ocaso da civilização” – como intuído cem anos atrás por Oswald Spengler em seu “O Declínio do Ocidente” -, os Brics exalam o ar de uma ressurreição. O Brasil, os demais do Brics e outros países são os centros potenciais de irradiação cultural.

Valor: O consumismo é o pior aspecto das sociedades líquidas?

Bauman: Os candidatos ao primeiro posto são muitos, mas o consumismo é certamente um deles. Ele coloca em questão a sustentabilidade do planeta e, logo, as chances de sobrevivência da humanidade. Enquanto isso, corrói a solidariedade humana necessária para a defesa do futuro do planeta assim como pressiona e enfraquece os limites do ser humano. O consumismo também provoca muita dor e humilhação a uma massa de pessoas ameaçadas pela exclusão ao direito de uma vida decente e digna e relegadas ao status de “subclasse” – os frágeis consumidores…

Valor: Como o senhor desenvolveu o conceito de “sociedade líquida”?

Bauman: Ao longo de um século de sua breve história, a sociologia lutou para se estabelecer como “ciência/tecnologia da não-liberdade”: como uma oficina para formatar as questões sociais que seriam resolvidas na teoria, mas, sobretudo, para colocar em prática o que Talcott Parsons articulou de maneira memorável como “a questão Hobbesiana”. Em outras palavras, tratava-se de saber como levar os seres humanos, abençoados com a ambígua dádiva do livre arbítrio, a serem guiados de maneira normativa em direção a um fluxo de ações previsível; ou, ainda, como reconciliar o livre arbítrio com a vontade de se submeter à vontade dos outros – isto é, elevar a “servidão voluntária”, antecipada por La Boétie no limiar da modernidade, a princípio supremo da organização social. Em resumo: como levar as pessoas a quererem fazer aquilo que elas devem fazer… Em nossa sociedade individualizada, a sociologia encara a oportunidade excitante de se transformar em uma “ciência/tecnologia da liberdade”. Acho que a sociologia não tem muita escolha a não ser seguir, agora como sempre, o mundo em transformação. A alternativa seria a perda de relevância. No entanto, esse caminho “sem escolha” não deveria ser causa de desespero, muito ao contrário. A modernidade líquida de fato coloca os indivíduos, e isso significa todos nós, num estado de indeterminação e incerteza provavelmente irreversível, pois, em nossa condição de fragilidade e transitoriedade, a contingência se tornou nosso habitat natural. Entretanto, é com esse tipo de experiência humana que a sociologia precisa se envolver, em um diálogo contínuo.

Valor: Seus livros sobre a sociedade líquida, escritos em estilo muito menos acadêmico do que “Ensaios sobre o Conceito de Cultura”, tornaram-se um sucesso junto a um público mais amplo. Como lida com esses diferentes perfis de leitores?

Bauman: O diálogo é certamente uma arte difícil. Significa esclarecer as questões em conjunto, mais do que conduzi-las por meio de seu próprio caminho; multiplicar as vozes, mais do que reduzi-las; ampliar as possibilidades, mais do que ter em vista um consenso total; perseguir o entendimento, em vez de visar a derrota do outro; e tudo isso deve estar animado pelo desejo de manter a conversa fluindo. Dominar essa arte consome um tempo terrível e não promete tornar nossa vida mais fácil. No entanto, promete torná-las mais excitante, mais útil aos outros, e transformar nossas escolhas profissionais em uma viagem de descobrimento contínua e interminável.

Valor: Qual a importância das teorias do sociólogo Pierre Bourdieu, que morreu há dez anos, para o desenvolvimento da disciplina?

Bauman: Na minha opinião, a grande contribuição de Bourdieu está em haver ressuscitado o comprometimento das ciências sociais, assim como seus conceitos de capitais cultural e social. Além disso, atualizou os argumentos para a crítica da economia capitalista centrada nos lucros dos acionistas.

FONTE: VALOR ECONÔMICO/CULTURA – 11/05/2012

FHC: “América Latina está menos unida ahora que hace diez años”

El exmandatario brasileño ha recibido el premio John W. Kluge que otorga la Biblioteca del Congreso de Estados Unidos

Francho Barón

El expresidente brasileño, Fernando Henrique Cardoso (Río de Janeiro, 1931), acaba de recibir el premio John W. Kluge concedido por la Biblioteca del Congreso de EE UU. El galardón, dotado de un millón de dólares, representa el reconocimiento a la obra de académicos y eruditos cuyas disciplinas de estudio no entran en la órbita de los Nobel, como la psicología, la sociología o la antropología. En el caso de Cardoso, el fallo valora que en 1969 el brasileño sentara las bases del concepto "globalización" en un celebérrimo ensayo cuya autoría compartió con el chileno Enzo Falleto. Nada más conocer la concesión del galardón, Cardoso conversó con EL PAÍS. "Sorprendente", fue la primera palabra que salió de su boca.

Pregunta. ¿Cómo ha recibido la noticia del premio?

Respuesta. Con satisfacción, porque el premio se me ha dado por mi obra intelectual, pero simultáneamente es un premio que también valora las consecuencias que esa obra puede haber tenido en la sociedad. En mi caso, soy académico pero también fui presidente de la República, y siempre suele haber una cierta confusión sobre mi trabajo. Se me ha dado el premio por la contribución académica y por la coherencia de haber mantenido vivos los valores de mi obra. Además, es raro que este premio se haya concedido a un académico latinoamericano.

P. ¿Es el mayor de los reconocimientos que ha recibido?

R. Internacionalmente y con relación a mi obra académica, sí. He sido investido Doctor Honoris Causa en varios países, como España, Inglaterra, Francia o Alemania, pero esto es distinto.

P. ¿Siente que a sus 80 años aun tiene cosas que aportar al debate social y político?

R. Creo que con mi experiencia y mi entrenamiento académico aun puedo continuar activo. Pertenezco al grupo Global Elders fundado por [Nelson] Mandela, que intenta solventar situaciones de conflicto, por ejemplo como las de Sudan o Israel y Palestina. También sigo activo en otros sectores, como las discusiones sobre la gobernanza global o la búsqueda de políticas antidroga que no sean represivas como la actual.

P. El jurado del premio estima que el ensayo firmado en 1969 por usted junto al chileno Enzo Falleto fue visionario y que se adelantó al concepto "globalización". ¿En aquella época ya pensaba usted en las estructuras propias de lo que hoy conocemos como mundo globalizado?

R. No era totalmente consciente. Fíjese, cuando escribimos aquel ensayo aun ni se usaba el concepto "multinacional". Falleto y yo, sin darnos mucha cuenta, estábamos describiendo el comienzo de la globalización, y nos referíamos a ella hablando de interdependencia. La discusión entonces giraba en torno a si países interdependientes podrían progresar. La mayoría de los académicos pensaba que no. Nosotros pensábamos lo contrario, siempre y cuando las relaciones asimétricas no generasen un estancamiento. Establecimos que había varios caminos hacia la integración dependiendo de las condiciones de cada país, no solo económicas, sino también sociales o políticas. Y subrayamos que el economicismo vigente no tenia en cuenta esos factores político y social para definir las pautas de integración del mundo global.

P. ¿Brasil va todo lo bien que se cree?

R. Brasil ha logrado tener una determinada autonomía de decisiones en el proceso global. Ahora podemos progresar razonablemente, más aun con la presencia de China. La demanda de materias primas es una enorme ventaja para Brasil. La continuidad de este proceso depende de las decisiones que tomemos los brasileños, depende de nuestra visión estratégica para avanzar en temas clave como infraestructuras, educación o matriz energética. El tema que más me preocupa es que tras una buena gestión de la economía y de la productividad del país, ahora toca crear valores para alcanzar una sociedad mejor y mas decente, con mas igualdad, menos corrupción y mas acceso a lo público. No solo podemos pensar en economía. Este es nuestro gran desafío.

P. Habla usted de corrupción, una de las grandes cuentas pendientes en Brasil. ¿La presidenta Dilma Rousseff está haciendo algo para acabar con esta lacra?

R. Los medios de comunicación son los que tienen un papel mas activo. Pero también es indudable que la presidenta no trata de esconder el problema y cuando salta algún caso de corrupción no defiende a los acusados. Quiere que se vayan, lo cual es importante.

P. Llevamos varios años oyendo hablar del milagro brasileño y para buena parte del mundo el protagonista de ese milagro es el expresidente Lula da Silva. Otras voces, sin embargo, le señalan a usted como el precursor de la política económica e incluso del programa Bolsa Familia que tantos laureles le han granjeado al presidente Lula.

R. Esas voces son las que conocen la historia, los fundamentos de la situación actual. Se han hecho muchas cosas durante el Gobierno de Lula, pero en mi Gobierno logramos estabilizar la economía, acabamos con la inflación y modernizar el aparato estatal. Privatizamos, pero sin exagerar. Creamos agencias reguladoras y preparamos el país para el mundo contemporáneo. Impulsamos el aumento continuado de los salarios mínimos. El presidente Lula profundizó en todo esto, aunque años antes se opusiera a todo lo que hicimos. Se puede decir que yo empecé y el continuó.

P. ¿Que tal lo está haciendo la sucesora de Lula?

R. Personalmente le tengo consideración. Creo que es una persona integra, aunque le ha tocado un momento mas difícil que el del presidente Lula, como también fue mi caso. Tendrá que tomar medidas rápidas y de fondo. Lula gobernó en condiciones favorables, y no es el caso de ella. Como brasileño espero que las cosas le vayan bien.

P. Usted fue victima de una dictadura militar que lo mantuvo en el exilio. ¿Cree que la Comisión de la Verdad recién instaurada en Brasil debe tener un alcance limitado, como parece ser el caso, o piensa que se debería ir mas lejos y juzgar a los responsables, como se ha hecho en Argentina?

R. Es una cuestión delicada porque en verdad aquí hubo una especie de derrumbe de los militares. Aquí la transición fue mas parecida a la española, mas lenta, sin la sensación de que hubo ganadores y perdedores. Se hizo una ley de amnistía. Creo que la decisión de la presidenta Rousseff de crear una comisión que no sea revanchista es adecuada.

P. ¿Cree usted que en Brasil se está primando el desarrollo económico frente a la protección del medioambiente?

R. Soy muy ambientalista. No se debe reemplazar la cuestión ambiental por un desarrollo sin trabas. Si estuviera en lugar de la presidenta Rousseff, vetaría algunas partes del Código Forestal aprobado en el Congreso. El Senado había alcanzado un buen equilibrio entre la preservación ambiental y una explotación agrícola razonable. No tiene ningún sentido hacer concesiones en zonas de selva amazónica y creo que hay que ser irreductibles en este asunto.

P. ¿Cree usted que aún es posible un bloque latinoamericano sólido?

R. Si se compara con la época en la que yo goberné, la realidad es que hay menos unión, nos hemos dispersado más. En el Mercosur no se ha avanzado, sino que existen nuevas barreras arancelarias.

FONTE: EL PAIS

Ministro do STF suspende depoimento de Cachoeira

Bicheiro quer ter acesso às investigações antes de ser ouvido pela CPI

O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, adiou o depoimento do bicheiro Carlinhos Cachoeira à CPI que investiga suposto esquema de corrupção comandado por ele, marcado inicialmente para hoje. Os advogados de Cachoeira pediram que ele só seja ouvido depois de ter acesso à investigação. O STF ainda vai decidir se o contraventor tem ou não direito de ver os documentos da CPI antes de depor. Na semana passada, o presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB), negara pedido semelhante feito pelo bicheiro. Na guerra de versões com a Procuradoria, a PF negou ter pedido à subprocuradora Cláudia Sampaio que adiasse o arquivamento da Operação Vegas, em 2009.

CPI (ainda) sem Cachoeira

Depoimento do bicheiro é adiado até que STF julgue mérito do pedido de acesso aos autos

Carolina Brígido

TENTÁCULOS DA CONTRAVENÇÃO

BRASÍLIA - O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), adiou o depoimento do bicheiro Carlinhos Cachoeira à CPI que investiga suposto esquema de corrupção comandado por ele. A sessão estava marcada para hoje à tarde. Na sexta-feira, os advogados pediram ao tribunal para que Cachoeira só prestasse depoimento depois de ter acesso a todos os documentos da investigação. Na decisão, Mello adiou o comparecimento do acusado à comissão até que o STF julgue o mérito do pedido, que é justamente saber se ele tem o direito de acesso aos documentos da CPI.

"A unilateralidade do procedimento de investigação parlamentar não confere, à CPI, o poder de negar, em relação ao indiciado, determinados direitos e certas garantias que derivam do texto constitucional ou de preceitos inscritos em diplomas legais", escreveu o ministro. "O sistema normativo brasileiro assegura, ao advogado regularmente constituído pelo indiciado, o direito de pleno acesso ao inquérito (parlamentar, policial ou administrativo), mesmo que sujeito a regime de sigilo (sempre excepcional), desde que se trate de provas já produzidas e formalmente incorporadas ao procedimento investigatório."

Na semana passada, o presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), negou o pedido do bicheiro para ter vista das investigações. Ontem, o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), disse que vai tentar antecipara para hoje depoimento de procuradores que cuidaram das investigações. Se não for possível, a comissão fará uma sessão administrativa para votação de requerimentos.

Na decisão, o ministro ressalta que Cachoeira tem direito a conhecer as peças. Entretanto, não concedeu a ele esse direito. Essa decisão será tomada pelo plenário do STF, em data ainda não marcada. Agora, Mello pedirá informações à presidência da CPI e, depois, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, deverá dar um parecer sobre o caso. Só depois o pedido será levado ao plenário.

Cancelamento frustra expectativas

Em vários pontos da decisão, Mello acentua o direito de Cachoeira de ter acesso à íntegra da investigação. "Impende enfatizar que o advogado, atuando em nome de seu constituinte, possui o direito de acesso aos autos da investigação, ainda que em tramitação sob regime de sigilo, considerada a essencialidade do direito de defesa, que há de ser compreendido - enquanto prerrogativa indisponível assegurada pela Constituição da República - em perspectiva global e abrangente", anotou o ministro.

"O que não se revela constitucionalmente lícito, segundo entendo, é impedir que o investigado (ou o réu, quando for o caso) tenha pleno acesso aos dados probatórios, que, já documentados nos autos (porque a estes formalmente incorporados), veiculem informações que possam revelar-se úteis ao conhecimento da verdade real e à condução da defesa da pessoa investigada ou processada pelo Estado, não obstante o regime de sigilo excepcionalmente imposto ao procedimento de persecução penal ou de investigação estatal", completou.

O cancelamento do depoimento de Carlinhos Cachoeira frustrou a expectativa dos parlamentares e pôs por terra a logística montada para o dia D. Desde que foi preso, em 29 de fevereiro, durante a Operação Monte Carlo, Cachoeira não aparece em público. Pelo esquema de segurança montado no Senado, poucos o veriam pessoalmente. A imprensa, por exemplo, só poderia ter um profissional credenciado na sala onde ocorreria o depoimento. Da parte política, somente um assessor por partido da Câmara e do Senado.

(Colaborou: Chico de Gois)

FONTE: O GLOBO

Comissão da Verdade não vai investigar militantes

As declarações dos integrantes da Comissão Nacional da Verdade, que será instalada amanhã, indicam que eles se dedicarão à investigação de violações de direitos humanos cometidas por agentes do Estado no regime militar. Os atos de terrorismo praticados por militantes de esquerda ficarão de fora. "O único lado é o das vítimas", disse o diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, um dos integrantes da comissão

Membros da Comissão da Verdade querem apurar apenas ação de agentes do Estado

Grupo, cuja instalação ocorrerá amanhã, não mostra disposição de investigar atos de terrorismo praticados por militantes da esquerda

Roldão Arruda, Wilson Tosta

SÃO PAULO, RIO - A Comissão Nacional da Verdade, que será instalada oficialmente amanhã no Palácio do Planalto, vai se dedicar à investigação de violações de direitos humanos cometidas por agentes do Estado nos anos do regime militar. Embora seus integrantes ainda não tenham se reunido oficialmente, suas declarações indicam que a avaliação de atos de terrorismo praticados por militantes de esquerda que se opunham à ditadura não fará parte de seu trabalho. Em entrevista ao Estadão,o diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, uma das sete personalidades escolhidas pela presidente Dilma Rousseff para compor a comissão, foi enfático: "O único lado é o das vítimas, o lado das pessoas que sofreram violações de direitos humanos. Onde houver registro de vítimas de violações praticadas por agentes do Estado a comissão irá atuar".

Na avaliação do diplomata, nenhuma das quase 40 comissões da verdade instaladas no mundo tiveram como objetivo ouvir dois lados, como desejam setores militares brasileiros: " Nenhuma comissão da verdade teve ou tem essa bobagem de dois lados, de representantes dos perpetradores dos crimes e das vítimas. Isso não existe".

Ontem, no Rio, ao ser homenageada por alunos e colegas da Escola de pós-graduação em Políticas Públicas e Governo, a professora e advogada Rosa Cardoso, também convidada para a comissão, praticamente descartou a possibilidade de investigar crimes cometidos pelas organizações armadas. "Vocês sabem que o Brasil não está inventando, não está i novando institucionalmente quando cria uma comissão da verdade. Hoje existem 40 comissões criadas no mundo", afirmou. "Essas comissões, quando são criadas oficialmente, pretendem rever condutas de agentes públicos. E é isso o que fundamentalmente nós vamos rever: condutas de agentespúblicos."

Rosa foi advogada de dezenas de presos políticos. O mais famoso foi Dilma Rousseff, que esteve presa nos anos 70 por fazer parte da organização guerrilheira Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Sobre as manifestações de militares da reserva que insistem que a comissão deve investigar a resistência armada, procurou ser diplomática: "Acho legítimo que expressem. Eles gostariam que esse passado tivesse já passado, fosse uma página virada. Não é. E eles preferiam que não houvesse a criação dessa justiça de transição". O advogado José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso e ex-diretor da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, também disse ao Estadão, por telefone, que o objetivo principal da comissão será a investigação de violações de direitos humanos cometidos por agentes de Estado. "Esse deve ser o objetivo, quando começarmos a trabalhar. "Todos os fatos que chegarem ao nosso conhecimento serão analisados."

Recado. Na sexta-feira, o ministro Gilson Dipp, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), também já havia mandado um recado aos descontentes com a criação da comissão. Depois de enfatizar que ela não terá nenhum caráter revanchista, insistiu que os seus trabalhos serão levados adiante "doa a quem doer". A presidente Dilma Rousseff deve instalar oficialmente a comissão na quarta-feira, numa solenidade que contará com a presença dos ex-presidentes Fer-nando José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Na semana passada, ao se encontrar com as sete personalidades que convidou para integrar o grupo ela deixou claro que eles terão todo o apoio estatal que for preciso para levar adiante seus trabalhos.

No Rio, o presidente do Clube Naval, almirante da reserva Ricardo Cabral, disse ontem que a comissão interclubes (que forma com os clubes Militar e de Aeronáutica) vai acompanhar as reuniões da Comissão da Verdade, embora ainda não soubesse dizer de que forma. O primeiro encontro do grupo, na quinta-feira, vai definir como o grupo deve trabalhar. Ele defende que os dois lados envolvidos em disputas nos anos da ditadura sejam investigados. "Não pode haver revanche", afirmou, invocando a Lei da Anistia de 1979. "Não podem fazer como na Argentina. Se houver retaliação, vamos regredir. Estamos em um estágio de civilização muito avançado. Não é esquecer o passado. Já que querem retomar a história, que seja imparcial, observado o contexto da época."

Missão
Rosa Maria Cardoso, advogada

"Hoje existem 40 comissões (da Verdade) criadas no mundo. Essas comissões, quando são criadas oficialmente, pretendem rever condutas de agentes públicos. E é isso o que fundamentalmente nós vamos rever: condutas de agentes públicos"

Para dar caráter de Estado, Dilma leva os ex-presidentes

A preocupação de Dilma Rousseff ao convidar os quatro ex-presidentes da República para participar da cerimônia de instalação da Comissão da Verdade foi mostrar que não se trata de uma iniciativa dela ou de seu governo. Será lembrado na ocasião que as bases legais que permitiram criar a comissão datam do governo de Fernando Henrique Cardoso. Mas não só. Embora setores à esquerda do PT e de familiares de mortos e desaparecidos tenham torcido o nariz para o convite feito a Fernando Collor de Mello, também será lembrado o papel dele no processo de abertura de arquivos.

A contribuição de Collor já aparece em estudos daquele período. Um deles é a tese de doutorado que a cientista política Glenda Mezarobba defendeu na USP, com o título O Preço do Esquecimento: As Reparações Pagas às Vítimas do Regime Militar. Ela diz: "A devolução dos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Rio de Janeiro e de São Paulo, pelo presidente Fernando Collor de Mello, representou novo alento aos familiares. Afinal, só no arquivo de São Paulo, controlado pela Polícia Federal desde 1983, estavam guardadas 34 toneladas de papel entre 1,5 milhão de fichas, 14 mil dossiês e 150 mil prontuários, de brasileiros e estrangeiros". Ainda segundo Glenda, o presidente que menos contribuiu para esse processo de abertura foi José Sarney. / R.A.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Petrobras tira a Delta das obras do Comperj

Alegando baixo desempenho, a Petrobras rescindiu o contrato de R$ 846 milhões com dois consórcios que têm participação da Delta responsáveis por obras do Complexo Petroquímico do Rio.

Petrobras retira Delta do Comperj e novo dono demite 800 funcionários

Estatal diz que rescisão se deu por conta do baixo desempenho da empresa

Fábio Vasconcelos

RIO E SÃO PAULO - Acusada de envolvimento com o grupo liderado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira, a Delta Construções teve ontem uma forte baixa nos seus negócios. A Petrobras confirmou que rescindiu o contrato de R$ 846 milhões que matinha com os dois consórcios nos quais a empreiteira participava e que eram responsáveis pelas obras de parte do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). O rompimento do negócio levou a J&F Holding, que passou a administrar ontem a Delta, a dispensar 800 funcionários - 500 operários e 300 técnicos. Os contratos eram com os Consórcios Itaboraí - URE e Itaboraí - HDT, compostos pelas empresas Delta, TKK Engenharia Ltda e a Projectus Consultoria Ltda.

A Petrobras explicou, em nota, que a rescisão se deve ao baixo desempenho da empresa na construção da Unidade Industrial de Tratamento, Recuperação e Armazenamento de Enxofre (URE) e da Unidade de Hidrotratamento de Nafta (HDT). Os dois contratos foram assinados no fim de 2010. Pelo primeiro, o consórcio receberia R$ 532 milhões, enquanto a construção e instalação da HDT renderia R$ 311 milhões. Apesar da decisão anunciada na sexta-feira à empreiteira, a Petrobras manteve o contrato assinado, em 2009, com a Delta no valor de R$ 129 milhões para as obras da segunda etapa de reforma e modernização da Unidade de Tratamento de Águas Ácidas da Reduc. O projeto deve ser concluído em junho.

A Petrobras acrescentou ainda que, com a saída dos dois consórcios, "está estudando a melhor solução para evitar impactos no cronograma do Comperj". Um funcionário de uma das empresas ouvido pelo GLOBO contou ontem que, ao chegar para trabalhar, em Itaboraí, foi orientado a retornar outro dia para acertar questões trabalhistas, já que os dois consórcios tinham sido dispensados. Esse mesmo profissional contou que, a partir de hoje, os consórcios terão que retirar as máquinas do Comperj.

A J&F Holding afirmou que recebeu com surpresa a informação sobre a rescisão do contrato e informou que vai apurar o ocorrido para tomar as devidas providências. A holding ainda se comprometeu a manter o esforço para preservar os cerca de 30 mil empregos da Delta Construções em outras obras da empreiteira em todo o país. O engenheiro civil e administrador de empresas Humberto Junqueira de Farias assumiu ontem o cargo de presidente da empreiteira, em um esforço, segundo uma fonte da J&F Holding, para evitar que o impacto das denúncias de supostas irregularidades em contratos com órgãos públicos prejudique os negócios da construtora.

Desde que veio à tona o envolvimento de diretores da Delta Construções com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, a empresa desistiu de participar de outros importantes consórcios no Rio. O primeiro deles, no valor de R$ 859 milhões, foi o de reforma do Maracanã que dividia com a Norberto Odebrecht e a Andrade Gutierrez. Dias depois, a Delta desistiu também das obras do Transcarioca - corredor exclusivo de ônibus que vai ligar a Barra à Ilha do Governador, passando pela Penha. O projeto é de R$ 800 milhões.

Com a prefeitura do Rio, a Delta Construções desistiu de continuar as obras do Morar Carioca orçadas em R$ 109 milhões.

A relação da Delta com Carlinhos Cachoeira surgiu após interceptações telefônicas da PF revelarem conversas do ex-diretor regional da empresa no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, com o bicheiro. Para a PF, Abreu era sócio oculto de Cachoeira e a sede da Delta em Goiânia era usada para reuniões do grupo do bicheiro.

FONTE: O GLOBO

Dilma ordena tolerância zero com empreiteira

Incomodada com as versões de que o Planalto avalizou a compra da Delta, a presidente orientou seus assessores a aplicar um sistema de tolerância zero na análise dos contratos com a construtora.

Planalto agora quer tolerância zero com Delta

Presidente cobra investigação detalhada da AGU em todos os contratos que ainda estão em vigor com a construtora

Paulo Celso Pereira, Luiza Damé e Roberto Maltchik

BRASÍLIA - Até o mês passado líder absoluta em obras do PAC, a construtora Delta caiu em desgraça no Palácio do Planalto. A ordem da presidente Dilma Rousseff transmitida a seus auxiliares é não só acelerar o processo na Controladoria Geral da União (CGU) para declarar a empresa inidônea, mas também que se aplique um sistema de tolerância zero na análise dos contratos em vigor com a construtora. O objetivo do Planalto, segundo fontes do governo, é usar qualquer falha da empresa para retirá-la de contratos em vigor, já que esses não são atingidos pela declaração de inidoneidade, respeitando os aspectos legais e jurídicos.

O foco inicial são as licitações que a empresa ganhou em parceria com outras construtoras, pois a sócia poderia assumir a parte da Delta sem provocar a interrupção da obra. Esse foi o caso da reforma do Maracanã e da Transcarioca. As principais obras da construtora com o governo federal - como a da ferrovia Leste-Oeste e a Transposição do Rio São Francisco - foram feitas justamente em consórcios.

A presidente Dilma Rousseff tomou a decisão de tratar a Delta como "empresa non grata" após o primogênito da família controladora da JBS, José Batista Júnior, dizer à "Folha de S.Paulo" que a compra da construtora pelo grupo tinha apoio do governo. A repercussão foi ruim e, no Planalto, ainda pior. Assessores de Dilma dizem que as primeiras informações sobre a venda da construtora chegaram a ela pela imprensa e que não teria havido qualquer consulta à presidente.

Diante do óbvio conteúdo explosivo da associação entre uma construtora envolvida com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e uma empresa com 30% de capital do BNDES, o objetivo do Planalto era manter-se a uma distância segura do negócio para evitar que o desgaste o atingisse. A ordem até então era apenas dar andamento ao processo de inidoneidade na CGU. A partir do momento que Batista Júnior pôs a negociação dentro do Planalto, o governo sentiu que precisava reagir.

Interlocutores da presidente Dilma Rousseff passaram a afirmar de forma taxativa, ontem, que o Planalto não apoiou nem aprovou a negociação entre a J&F Holding e a Delta. Segundo esses relatos, a própria presidente definiu o tom da nota desmentindo que o governo tenha interferido no negócio, e fazendo questão de alertar que a CGU abriu processo em que poderá decretar que a Delta é uma empresa inidônea. A avaliação no Planalto é que, se algum setor do governo deu apoio ao negócio, não consultou Dilma.

O prazo para que a Delta apresente sua defesa termina esta semana, porém a CGU admite que enfrenta limitações de ordem prática para encerrar o processo contra a empresa. A ideia é finalizar o caso em junho.

Uma vez declarada inidônea, a Delta ficaria impedida de assinar novos contratos, mesmo nos casos em que já venceu concorrências públicas. Em relação aos contratos vigentes, só haverá cancelamento se os gestores de cada ministério avaliarem que houve descumprimento de compromissos contratuais, e se a decisão tiver impacto econômico positivo para a União. Ou seja, a declaração de inidoneidade não obriga o cancelamento automático de todos os contratos.

Ontem, o ex-presidente Lula negou, por meio de sua assessoria, que tenha tratado das negociações da compra da Delta por parte da holding do grupo JBS com o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

FONTE: O GLOBO

Após fotos de Paris, Cabral muda código de conduta

Luciana Nunes Leal

RIO - Três semanas depois da divulgação das primeiras imagens de Sérgio Cabral (PMDB) e alguns de seus secretários em passeios e jantares de luxo em Paris com o então dono da construtora Delta, Fernando Cavendish, o governador do Rio publicou ontem no Diário Oficial uma nova versão do código de conduta de altos servidores e agora recomenda “distância social” de fornecedores e prestadores de serviço. O código original foi i nstituído em julho passado, depois que um acidente de helicóptero no sul da Bahia expôs a amizade de Cabral com Cavendish e com o empresário Eike Batista.

Na ocasião, Cabral determinou que se evitassem situações de confusão entre interesses públicos e privados e proibiu recebimento de presente, transporte e hospedagem. No decreto de ontem, o governador recomenda que o alto escalão guarde “distância social conveniente no trato com fornecedores de materiais ou contratantes de prestação de serviços ao Estado, abstendo-se tanto quanto possível de frequentar os mesmos lugares e de aparentar intimidade”. Em outro decreto de ontem, Cabral amplia um pouco os poderes da Comissão de Ética Pública Estadual, também criada ano passado. Mantém, porém, reduzida a autonomia do grupo.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Maria Rita canta Elis Regina - Águas de março

O clube do Nextel:: Merval Pereira

Um balanço dos depoimentos dos delegados das operações Vegas, Raul Alexandre Marques, e Monte Carlo, Matheus Mella Rodrigues, à CPMI do Cachoeira mostra para onde essas investigações podem ir, pois eles nada mais fizeram do que reproduzir o que está na íntegra dos inquéritos que comandaram.

O deputado Chico Alencar, que participa da comissão na qualidade de líder do PSOL, chama a atenção para um fato: existem nada menos que 60 números em série de aparelhos Nextel, relação que a Polícia Federal ficou de enviar à CPMI, assim como das pessoas que ligavam para esses números.

A verificação desses nomes é fundamental para se definir nível de vínculo com a organização, pois tais aparelhos, habilitados nos EUA e supostamente à prova de monitoramento e grampos, eram "exclusivos para a diretoria".

Usuários checavam habitualmente a "blindagem" das conversas sobre seus negócios escusos: "É seguro mesmo? Posso falar?"

Ainda está em análise, por peritos, material de "malotes" originário de 28 locais de busca, com cerca de 150 mídias: CDs, DVDs, pen drives, notebooks. Novos indícios, nomes e vínculos com a organização criminosa ainda podem surgir.

Pelo que a Polícia Federal descobriu, a organização criminosa de Cachoeira inicialmente explora jogos ilegais e, mediante propina, monta rede de proteção "oficial", envolvendo policiais civis, militares e federais, além de apoio político e busca de influência na Justiça.

A base inicial em Anápolis expandiu-se para Goiânia, Brasília e vários estados. Valparaíso e Águas Lindas eram chamadas pela organização e usuários de "Las Vegas do entorno".

Detectada, na investigação, prática dos crimes de corrupção ativa e passiva, peculato, contrabando, evasão de divisas, sonegação fiscal, violação de sigilo funcional, formação de quadrilha.

Entre autoridades públicas vinculadas à organização, segundo os delegados, são corriqueiros o tráfico de influência e a exploração de prestígio.

O faturamento bruto médio por casa de jogos era de R$ 1,2 milhão por mês, montante que no fim de ano subia para R$ 3 milhões. O Capo Cachoeira fica com 30% do lucro (assim como famiglia Quiroga, do "entorno").
A Polícia Federal identificou que, em parceria com a empreiteira Delta Construções, se promoveu um projeto de diversificação de atividades.

O dinheiro das atividades ilegais era depositado em contas-correntes de empresas em nome de laranjas: J.R. Construções, Alberto e Pantoja e Brava Construções. Com todo mês uma nova empresa de fachada sendo aberta: empresa laranja no Uruguai; Souza Ramos Corporation nas Ilhas Britânicas. É necessária investigação detalhada sobre cada uma delas.

Cachoeira tirou seu nome do quadro societário das empresas, só ficando com uma. Sua declaração de Imposto de Renda, em vista dos seus multinegócios "empresariais" e dos recursos de que dispunha e ostentava, é pífia.

Mas a disparidade entre a declaração e os gastos não é considerada crime, o que deve mudar na reforma do Código Penal.

A empreiteira Delta fazia depósitos sistemáticos e frequentes nas contas das empresas de laranjas da organização criminosa. O diretor de Goiás da empreiteira, Cláudio Abreu, que está preso, tinha conversas diárias e diversas com Cachoeira: "eram sócios em tudo".

Para a Polícia Federal, a tese de que Abreu fazia negócios sem conhecimento da direção da Delta é impossível. Há indícios de que ele reportava-se a seus colegas da direção da empresa, entre eles, Fernando Cavendish, envolvendo-a diretamente nos negócios da organização. Delta e Cachoeira aparecem nas investigações entrelaçados, em parceria societária oculta crescente.

Os contatos e referências da organização criminosa envolveram empresários, jornalistas ("setor" de comunicação era importante para ela) e agentes públicos de níveis municipal, estadual e federal, como secretários, prefeitos, vereadores, deputados estaduais, distritais, federais, ministros (também de tribunais superiores), funcionários de agências reguladoras e assessores. Eram as "pessoas politicamente expostas".

Inequivocamente, a autoridade pública mais íntima da organização era o senador Demóstenes Torres. "Ao angariar contratos para Delta no Centro-Oeste e em outras áreas do país, ele tornava-se sócio oculto da empresa", informa a Polícia Federal.

"Colocava-se sempre à disposição para usar sua influência política, em todas as esferas de poder, em favor dos negócios da organização". Cachoeira tinha grande articulação política, "suprapartidária", procurava influenciar vários detentores de mandatos.

Também se movimentava no campo eleitoral, discutindo candidaturas, sugerindo nomes e tratativas entre potenciais candidatos, em especial com o senador Demóstenes Torres.

Os vínculos políticos e a proteção policial mediante suborno davam a Cachoeira a sensação de intocabilidade: "Todo mês falam que estão me investigando, vão me pegar... e nada acontece", comentava no telefone Nextel supostamente inviolável.

Até aqui, o governo de Goiás, do tucano Marconi Perillo, foi aquele sobre o qual a organização criminosa mais ampliou seus tentáculos, podendo se falar mesmo, segundo a Polícia Federal, de um "governo paralelo": até o corregedor da Secretaria de Segurança Pública era do esquema.

A Organização tinha "cota" de indicações políticas no governo. O governador Marconi Perillo, citado 237 vezes em conversas, teve encontros diretos com Cachoeira, tratava-o amistosamente e vendeu sua casa para o próprio, recebendo cheques assinados por Leonardo Ramos, sobrinho do capo
.
As investigações mostram também intensas gestões para negócios com o governo do Distrito Federal, através de busca de contratos, legalização de terras (Ibran, Terracap, Incra) e outros "serviços".

Não foi detectado, até aqui, qualquer diálogo do governador petista Agnelo Queiroz com Cachoeira, mas há, porém, gestões de intermediários para que Agnelo e Cachoeira se encontrassem e indícios de que os encontros podem ter ocorrido, mas não havia autorização para investigação e eventual registro.

FONTE: O GLOBO

Obra em aberto:: Dora Kramer

Anunciado desde o início do ano como o escolhido de Lula para tentar tirar a prefeitura de São Paulo da área de influência do PSDB e assim iniciar uma ofensiva – a ser concluída na eleição estadual de 2014 – sobre a mais importante cidadela da oposição, Fernando Haddad continua sendo uma incógnita.

Estacionado no patamar de 3% das intenções de voto a menos de dois meses do início oficial da campanha e a cinco da hora fatal, nem ele sabe direito o que pode acontecer nessa disputa considerada "um passeio" pelo PT antes da decisão dos tucanos de entrarem no jogo com José Serra.

Espera, evidentemente, que aconteça o melhor. A conquista de uma vaga no segundo turno sustentada nos seguintes pressupostos: a entrada de Lula na campanha, a alta avaliação negativa do prefeito Gilberto Kassab, a fadiga do material tucano, o fator "novidade", a força política do PT, a influência do partido na periferia assegurada por declarações de apoio da senadora Marta Suplicy no horário eleitoral e uma aguardada adesão de notáveis tradicionalmente ligados ao PSDB, mas agastados com Serra.

O trunfo principal, claro, é Lula, cujo peso na sedução do eleitorado seria de oito numa hipotética escala de zero a dez, segundo avaliação do candidato feita a assessores.

Haddad entra com o perfil de moço bom, bem educado, estudado (formação em Direito, Economia e Filosofia), jovem (49 anos), finíssima estampa, um discurso de mudança – sustentado na ideia força de que São Paulo não "brilhou" como "brilhou" o Brasil nos últimos nove anos – e a direção de cena assinada por João Santana.

Traquejo político Fernando Haddad não tem. Vê-se logo que não é um profissional do ramo e ainda não adquiriu fluência no desenvolvimento do tema. Não necessariamente um defeito, antes uma característica.

A isso seus aliados contrapõem os argumentos de que Dilma tampouco exibe tais atributos e, considerando a imagem da "categoria" junto à opinião pública, quem sabe pode vir até a contar como vantagem.

Ademais, tal expertise Lula tem de sobra. Tanto que a grande expectativa de "mexida" nos índices está concentrada na participação do ex-presidente nas inserções de televisão a que o PT terá direito já nesta semana.

São três "spots", todos presumidamente estrelados pelo ex-presidente. Só e/ou na companhia do candidato. O desafio, nessa primeira operação de exposição, será fazer o eleitor estabelecer a ligação Lula-Haddad e interpretá-la como benefício para a cidade.

A conexão é um fator determinante na visão da campanha petista, mas há outros pontos considerados investimentos essenciais: alianças partidárias com vistas ao tempo de propaganda na televisão, plano de governo e estratégia para capitalizar a insatisfação do eleitorado com o campo adversário.

E por inimigo leia-se o PSDB. Mesmo a campanha petista partindo do princípio de que Serra estará na final e, portanto, havendo só uma vaga em disputa, a ideia não é brigar com nenhum dos outros candidatos.

Primeiro porque a maioria não é considerada ameaçadora, mesmo alguns com índices bem melhores que Haddad nas pesquisas, mas vistos como concorrentes de voo curto.

A segunda razão está num pacto não escrito entre os candidatos de partidos da base governista no plano nacional, de não agressão mútua e concentração dos ataques em José Serra.

Passando para o segundo turno, Fernando Haddad tem como certo um cenário de todos contra um. Reside aí o sentimento de que uma vitória é perfeitamente possível apesar dos pesares iniciais tidos como naturais na perspectiva de uma candidatura desconhecida do grande público.

O petista até tem ouvido de analistas de pesquisa que a eleição está ganha. Verdade que os especialistas em questão têm preferência por ele. Haddad gosta de ouvir isso, mas o fato de ser estreante não faz dele um crédulo.

Prefere ver as coisas assim: diante do adversário forte, se perder não fará feio e se ganhar terá entrado na política já na tribuna de honra.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Velhos fantasmas :: Eliane Cantanhêde

Os "velhos fantasmas" estão voltando, como alertou a presidente Dilma Rousseff ontem, uma segunda-feira particularmente caótica mundo afora e Brasil adentro.

As Bolsas despencaram e a Bovespa caiu 3,21%, praticamente zerando os ganhos do ano. O dólar ultrapassou pela primeira vez em anos a marca dos R$ 2 e fechou o dia bem perto dela. A inflação já extrapolou a meta e ninguém mais se lembra que existe (ou existia) um centro da meta.

A coisa parece ficar feia, com o Brasil baixando alegremente os juros, mas convivendo com dois riscos -ou seriam fantasmas? Inflação em alta, crescimento em baixa. As novas previsões já ficam abaixo dos 3% para 2012, com o detalhe de que a indústria é quem mais ajuda a puxar as expectativas para baixo.

A desindustrialização já acende uma luz amarela, que converte para vermelha em alguns setores, como o têxtil, graças à carga tributária infernal, aos buracos, trancos e barrancos da infraestrutura e ao custo da energia elétrica. Dizem os empresários que é o terceiro maior do mundo.

Enquanto isso tudo, e enquanto a CPI patina em manobras diversionistas e protelatórias, o que faz Dilma? Abre o saco de bondades. Pior: bondades que todos nós só podemos aplaudir, deixando o esperneio para um ou outro economista "morrinha".

Dilma formalizou um reajuste de mais de R$ 1,5 bilhão para um milhão de servidores ativos, aposentados e pensionistas, quase que simultaneamente ao anúncio do Brasil Carinhoso, que incrementa os desembolsos do Bolsa Família. Coisas de fada madrinha, talvez um tanto dissonantes em ambientes cheios de fantasmas ameaçadores.

Mas, enfim, ela deve ter uma avaliação precisa das contas públicas, tanto quanto todo mundo já sabe de antemão o resultado político: a economia mundial vai ladeira abaixo e a brasileira começa a sofrer solavancos, mas a popularidade de Dilma continua subindo que é uma beleza.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO