terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A histórica luta de Vini Jr. por Fernando Gabeira

O Globo

Creio que, apesar de sua simplicidade, esse garoto de São Gonçalo figurará nos livros de História

Por onde você olha, vê notícias de Jeffrey Epstein e do Banco Master. Não estou reclamando, pois sou um dos primeiros a pedir transparência para que todos os detalhes sejam conhecidos, inclusive as festas orgíacas em Trancoso, se houver autoridades no meio.

Não custa nada tomar uma pequena distância e constatar também que estamos muito dependentes de grandes escândalos, novas e grandes emoções. Sempre me interessei por esse tema, também no trabalho de roteiristas de streaming, buscando suspense, choques, incríveis reviravoltas.

Creio que foi em John Gray, um analista do mundo contemporâneo, que vi algumas referências iniciais sobre esse estado de coisas. Gray parte da vida vazia e monótona que muitos são obrigados a viver para explicar a grande demanda por emoções. Os repórteres de televisão parecem compreender isso, intuitivamente. Não importa o que aconteça, sempre perguntam ao entrevistado como está se sentindo. Como se sente com a polícia invadindo a sua casa? Como se sente ganhando este prêmio científico? Como se sente viajando de tão longe para ver a Madonna? Se puderem entrevistar alguém caindo do 15º andar, no momento em que passar pelo oitavo, perguntarão:

— Como se sente até aqui?

Esse déficit de emoções é complicado e diz respeito a mudanças profundas no estilo de vida, na organização do trabalho. Mas coloca para nós a dificuldade de tratar de temas menos glamourosos, como o estouro do Orçamento, lacunas no saneamento básico, reforma política.

Já que entrei nesse assunto, acho que existe um pequeno déficit de atenção à saga do craque Vini Jr. É um dos maiores jogadores do mundo. Seu desempenho no Real Madrid o coloca entre os maiores que passaram pelo time. E olha que passaram muitos: Cristiano Ronaldo, Di Stéfano, Puskás.

Vini enfrenta uma onda de racismo na Europa. Às vezes, é vaiado porque os torcedores de seu time querem que jogue mais. Mas as torcidas adversárias o vaiam por puro racismo. Às vezes o insultam, e já houve casos que foram parar na Justiça. Jogadores brancos também o insultam, como foi o caso do argentino Gianluca Prestianni, do Benfica. Nas arquibancadas do estádio português, torcedores imitavam macaco.

Apesar, ou talvez por causa, de seu enorme talento esportivo, Vini foi arrastado para uma luta histórica e responde com firmeza. O Itamaraty já se manifestou a seu favor, e isso é importante, pois seu país está oficialmente ao seu lado. Mas treinadores e mesmo alguns jornalistas brancos europeus têm dificuldade em refletir sobre seu racismo inconsciente.

É uma grande batalha, e, felizmente, Vini não está só. Creio que, apesar de sua simplicidade, esse garoto de São Gonçalo (RJ) figurará nos livros de História, não apenas na esportiva, mas na mais ampla história do racismo no mundo.

Já tivemos um jogador negro de grande repercussão: Pelé. Mas, na sua época, o tema ainda era envolvido num tom conciliatório que não cabe mais. Hoje, as coisas são mais nítidas, e Vini as enfrenta com muita coragem, ação e pouco discurso. Estamos vendo uma luta poderosa, e nunca é cedo para reconhecer seu valor histórico.

 

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