Valor Econômico
Debate interessa ao Brasil, que busca há décadas um caminho para o desenvolvimento e faz atualmente um grande esforço pela reindustrialização
Desculpem-me, vou
escrever um parágrafo na primeira pessoa. Quando estive em Mumbai, em 2003,
enviado pelo Valor,
fiquei curioso ao ver muitos homens de branco, na hora do almoço, levando
enormes pranchas na cabeça, cheias de vasilhas de alumínio. Logo me explicaram
que eles eram os “dabbawalas”, que operavam um sistema de entregas de marmitas
desde 1890 na megacidade indiana, ex-Bombaim.
Os dabbawalas, de trens ou bicicletas, vão aos subúrbios, coletam as marmitas nas casas de trabalhadores e, a pé, as levam ao local de trabalho das pessoas no centro da cidade. Embora o sistema tenha perdido um pouco do espaço com o home office pós-pandemia e os aplicativos, ainda existem cerca de 5 mil entregadores, que operam sem usar a internet, por meio de um genial esquema logístico quase perfeito de codificação com cores, números e letras. Atualmente, ainda entregam cerca de 200 mil marmitas por dia.
Naquele início de
século, a Índia tinha enorme dificuldade de crescimento econômico e lutava para
atrair investimentos estrangeiros. As coisas mudaram desde então. O país, ainda
muito pobre, é um dos que mais crescem no mundo, e esse crescimento incentiva
um debate entre economistas.
O avanço da Índia em
direção ao desenvolvimento não estaria seguindo o padrão observado nos
processos tradicionais. Em países como Japão, Coreia do Sul, Taiwan e até EUA,
a industrialização foi o grande fator promotor do crescimento econômico ao
empregar grandes contingentes de trabalhadores pouco qualificados oriundos da
agricultura.
No caso da Índia,
argumenta-se que não é a indústria, e sim o setor de serviços o gerador de um
crescimento acelerado, embora tenda a beneficiar mais trabalhadores
qualificados e regiões urbanas, ampliando desigualdades.
Há três anos, em
artigo de grande repercussão no meio acadêmico, os economistas Tianyu Fan,
Michael Peters e Fabrízio Zilibotti, da Yale University, sustentaram que a
Índia estaria mostrando que o crescimento liderado pelo setor de serviços,
voltado ou não para a economia interna, pode ser uma estratégia viável para o
sucesso dos países que buscam o desenvolvimento.
O setor de serviços
indiano engloba um conjunto heterogêneo de atividades, desde os analógicos e
centenários dabbawalas e trabalhadores de varejo até o pessoal de call centers,
consultorias, apoio financeiro, TI, softwares etc.
Esse avanço da Índia
vem sendo observado há anos nos meios econômicos. Há duas semanas, saiu um
artigo de Dani Rodrik, prestigiado professor da Harvard Kennedy School, com o
título “Como me tornei cético em relação à manufatura”, pensamento que já vinha
manifestando em trabalhos anteriores.
Rodrik foi um
entusiasta da importância da industrialização para impulsionar o crescimento
econômico e um crítico da desindustrialização precoce. Há 15 anos, escreveu um
artigo importante com o título “O imperativo da manufatura”. Agora,
desapontando colegas desenvolvimentistas, tem mudado de ideia citando John
Maynard Keynes, que certa vez disse: “Quando os fatos mudam eu mudo de
opinião”.
E quais são os fatos,
segundo Rodrik? Por que ele se tornou um cético em relação à viabilidade do
modelo tradicional de desenvolvimento liderado pela industrialização?
Em resumo, porque
convenceu-se de que tentar emular o modelo do Leste Asiático, por exemplo,
produziria hoje, na melhor das hipóteses, enclaves manufatureiros com pequena
parcela de empresas produtivas integradas às cadeias globais de valor. A maior
parte do trabalho permaneceria presa a atividades de baixa produtividade.
O México seria um
exemplo desse fracasso. As exportações do país foram multiplicadas por dez
desde que, em 1994, entrou no Nafta, o acordo de livre-comércio que o une a EUA
e Canadá. Poucos países tiveram condições tão especiais de industrialização.
Ainda assim, o desempenho econômico geral do México foi decepcionante, mesmo
para os modestos padrões latino-americanos, com trajetória declinante de produtividade.
Outros exemplos de
fracasso, segundo o economista, seriam Etiópia, Bangladesh, a própria Índia,
agora voltada para serviços, e até Vietnã.
Diante de fatos como
esses, Rodrik passou a defender o desenvolvimento de capacidades produtivas em
serviços absorvedores de mão de obra, inclusive os não comercializáveis
internacionalmente.
A manufatura teria
sido no século passado um poderoso elevador econômico por sua capacidade de
empregar milhares de trabalhadores pouco qualificados ao mesmo tempo em que
fazia exigências limitadas à governança e à infraestrutura dos países de baixa
renda.
Foi assim no Japão,
na Coreia do Sul e em Taiwan, por exemplo. Hoje, seria diferente, segundo
Rodrik. Competir nos mercados mundiais e mesmo nos domésticos com a China exige
habilidades, tecnologias e outras capacidades escassas nos países pobres.
Assim, mesmo quando conseguem transferir mais trabalhadores para a indústria,
isso ocorre pela expansão de empresas de pequena escala, na maioria informais e
às custas da produtividade.
Esse debate parece
acadêmico demais, mas interessa ao Brasil, que é um dos países que buscam há
décadas um caminho para o desenvolvimento e que faz atualmente um grande
esforço pela reindustrialização.
Será que o Brasil
precisa necessariamente passar por uma industrialização pesada para enriquecer?
O protagonismo dos serviços pode nos tirar do bloco da renda média?
Eis um tema para
discussões na próxima campanha eleitoral.
Se houver espaço para
debates sérios.

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