terça-feira, 26 de maio de 2026

O Papa e o trabalhador solitário, por Pedro Doria

O Globo

Leão XIV já sabia que teria de atacar, em seu papado, a questão do trabalho no tempo da inteligência artificial

Papa Leão XIV apresentou ontem, no Vaticano, a encíclica Magnifica Humanitas, celebrando os 135 anos exatos da publicação por Leão XIII de outra encíclica, a Rerum Novarum. Quando o cardeal Bob Prevost, cria de Chicago, foi escolhido papa no último conclave, tomou o nome Leão por causa da Rerum Novarum. Foi justamente em virtude do texto que estabeleceu a doutrina social católica perante a exploração absurda do trabalho no primeiro ciclo da Revolução Industrial. Prevost já sabia que teria de atacar, em seu papado, a questão do trabalho no tempo da inteligência artificial. E, cuidadosamente, apresentou o texto ontem enquanto tinha ao lado Christopher Olah, o homem de ética da Anthropic.

A empresa acaba de contratar uma estrela do setor. O eslovaco Andrej Karpathy. A contradição passou em branco, e, no entanto, ela grita. Karpathy, de 39 anos, fez parte, com Olah, da equipe fundadora da OpenAI. Está entre os que, como Olah, romperam com o CEO Sam Altman e deixaram o laboratório onde criaram todos juntos o GPT. De lá, o programador eslovaco foi para a Tesla desenhar o sistema de piloto automático dos carros de Elon Musk. Aí pulou fora, criou uma plataforma de educação baseada em IA. Foi ele quem batizou de vibe coding o ato de programar usando modelos de inteligência artificial — é a expressão universalmente adotada por engenheiros da computação hoje. Sua conta no X se tornou, nos últimos seis meses, uma das mais importantes a seguir por quem está interessado numa questão bem específica: como se usa IA para trabalhar.

Na virada de março para abril, Karpathy publicou na rede social um longo fio explicando como transformou sua base de conhecimento numa espécie de Wikipédia pessoal. Usando a ferramenta de escrever programas da Anthropic, o Claude Code, mandou mapear todos os principais temas que lhe interessam, construiu com a IA verbetes longos, profundos, sobre cada um. Fez com que o programa interligasse tudo. Um único tópico, na sua enciclopédia particular, tem cem artigos interligados. Desde então, esse grande banco de dados de conhecimento é a base que consulta para pensar.

O método, que muitos vinham desenvolvendo em paralelo, mas Karpathy sistematizou primeiro, organiza o que no mundo da IA atende pelo nome “segundo cérebro”. Um profissional cria uma base de conhecimento sólida, com tudo o que é importante para sua carreira. Isso inclui livros inteiros, verbetes, PDFs, planilhas, análises de concorrência — em cada ramo mudará, mas o princípio é sempre o mesmo. O trabalho passa a ser conversar com a IA o dia inteiro. Pedir à IA cruzamento de informação, previsões a respeito do futuro, monitoramento de certos dados. Relatórios que times de consultores constroem em meses passam a nascer em horas. Diagnósticos complexos sobre onde está o gargalo numa companhia podem ser feitos em dias.

Não é serviço para quem está no início da carreira, é para quem já domina um campo de atuação. Executivos experientes, consultores com décadas de trabalho. É um cargo que, no LinkedIn, começa a ser listado com o título IC, “contribuidor individual” na sigla em inglês. Karpathy foi contratado para o cargo de MTS — membro da equipe técnica. Não é propriamente C-level, não costuma ter equipe, ganha na empresa amplo espaço para definir o próprio trabalho. Resolve problemas rápido, encontra caminhos novos, tudo sem qualquer equipe. E, porque tem o potencial de render enormemente para a companhia a custo muito baixo, ganha como alta direção. Ou mais.

Essa função que começa a nascer está no epicentro da revolução que a inteligência artificial pode produzir nas empresas. Não quer dizer que vá desempregar. Para alguns setores, profissionais assim podem representar aumento de produtividade e lucro a custo muito baixo. Há muito ganho para ter. As consultorias, possivelmente, serão as principais atingidas. Mas, à medida que negócios mapeiem melhor seus custos, compreendam com clareza onde está o lucro e onde não está, claro que isso leva a modelos mais enxutos de gestão.

Leão XIV está preocupado com isso. De certa forma, com razão. O problema existe. E, ao que tudo indica, justamente o representante de IA que puxou para estar ao seu lado percebeu primeiro o mapa da transformação.

 

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