O Globo
Leão XIV já sabia que teria de atacar, em seu
papado, a questão do trabalho no tempo da inteligência artificial
O Papa Leão XIV apresentou ontem, no Vaticano, a encíclica Magnifica Humanitas, celebrando os 135 anos exatos da publicação por Leão XIII de outra encíclica, a Rerum Novarum. Quando o cardeal Bob Prevost, cria de Chicago, foi escolhido papa no último conclave, tomou o nome Leão por causa da Rerum Novarum. Foi justamente em virtude do texto que estabeleceu a doutrina social católica perante a exploração absurda do trabalho no primeiro ciclo da Revolução Industrial. Prevost já sabia que teria de atacar, em seu papado, a questão do trabalho no tempo da inteligência artificial. E, cuidadosamente, apresentou o texto ontem enquanto tinha ao lado Christopher Olah, o homem de ética da Anthropic.
A empresa acaba de contratar uma estrela do
setor. O eslovaco Andrej Karpathy. A contradição passou em branco, e, no
entanto, ela grita. Karpathy, de 39 anos, fez parte, com Olah, da equipe
fundadora da OpenAI. Está entre os que, como Olah, romperam com o CEO Sam
Altman e deixaram o laboratório onde criaram todos juntos o GPT. De lá, o
programador eslovaco foi para a Tesla desenhar o sistema de piloto automático
dos carros de Elon Musk. Aí pulou fora, criou uma plataforma de educação
baseada em IA. Foi ele quem batizou de vibe coding o ato de programar usando
modelos de inteligência artificial — é a expressão universalmente adotada por
engenheiros da computação hoje. Sua conta no X se tornou, nos últimos seis meses,
uma das mais importantes a seguir por quem está interessado numa questão bem
específica: como se usa IA para trabalhar.
Na virada de março para abril, Karpathy
publicou na rede social um longo fio explicando como transformou sua base de
conhecimento numa espécie de Wikipédia pessoal. Usando a ferramenta de escrever
programas da Anthropic, o Claude Code, mandou mapear todos os principais temas
que lhe interessam, construiu com a IA verbetes longos, profundos, sobre cada
um. Fez com que o programa interligasse tudo. Um único tópico, na sua
enciclopédia particular, tem cem artigos interligados. Desde então, esse grande
banco de dados de conhecimento é a base que consulta para pensar.
O método, que muitos vinham desenvolvendo em
paralelo, mas Karpathy sistematizou primeiro, organiza o que no mundo da IA
atende pelo nome “segundo cérebro”. Um profissional cria uma base de
conhecimento sólida, com tudo o que é importante para sua carreira. Isso inclui
livros inteiros, verbetes, PDFs, planilhas, análises de concorrência — em cada
ramo mudará, mas o princípio é sempre o mesmo. O trabalho passa a ser conversar
com a IA o dia inteiro. Pedir à IA cruzamento de informação, previsões a
respeito do futuro, monitoramento de certos dados. Relatórios que times de
consultores constroem em meses passam a nascer em horas. Diagnósticos complexos
sobre onde está o gargalo numa companhia podem ser feitos em dias.
Não é serviço para quem está no início da
carreira, é para quem já domina um campo de atuação. Executivos experientes,
consultores com décadas de trabalho. É um cargo que, no LinkedIn, começa a ser
listado com o título IC, “contribuidor individual” na sigla em inglês. Karpathy
foi contratado para o cargo de MTS — membro da equipe técnica. Não é
propriamente C-level, não costuma ter equipe, ganha na empresa amplo espaço
para definir o próprio trabalho. Resolve problemas rápido, encontra caminhos
novos, tudo sem qualquer equipe. E, porque tem o potencial de render
enormemente para a companhia a custo muito baixo, ganha como alta direção. Ou
mais.
Essa função que começa a nascer está no
epicentro da revolução que a inteligência artificial pode produzir nas
empresas. Não quer dizer que vá desempregar. Para alguns setores, profissionais
assim podem representar aumento de produtividade e lucro a custo muito baixo.
Há muito ganho para ter. As consultorias, possivelmente, serão as principais
atingidas. Mas, à medida que negócios mapeiem melhor seus custos, compreendam com
clareza onde está o lucro e onde não está, claro que isso leva a modelos mais
enxutos de gestão.
Leão XIV está preocupado com isso. De certa
forma, com razão. O problema existe. E, ao que tudo indica, justamente o
representante de IA que puxou para estar ao seu lado percebeu primeiro o mapa
da transformação.

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