segunda-feira, 13 de julho de 2026

Antirracismo é jogo de ganha-ganha, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Ações voltadas à promoção da equidade étnico-racial produzem efeito benéfico à sociedade brasileira como um todo

Falar sobre medidas de enfrentamento ao racismo e seus efeitos perversos e injustos ainda é algo visto como chororô ou mimimi

O que podemos fazer para que o Brasil seja mais justo? Essa indagação é feita no início do livro "Guia da Gestão Pública Antirracista", publicação escrita de maneira colaborativa por cinco importantes pesquisadores (Clara Marinho, Ellen da Silva, Giovani Rocha, Karoline Belo e Michael França), que se debruçaram sobre o tema numa imersão na Universidade de Oxford, em 2024.

Para além de questionar práticas carregadas de preconceito e discriminação adotadas no setor público, que resultam em exclusão de um segmento específico da população brasileira, a obra joga luz sobre o óbvio que muitos ainda não aceitam: "Ao erguer aqueles marginalizados, não apenas corrigimos injustiças, mas levantamos uma nação inteira", afirmam os pesquisadores.

É sobre isso.

Inúmeros indicadores mostram que a precariedade econômico-financeira alcança e afeta os brasileiros brancos e negros de maneiras distintas. Não é para menos, posto que a origem das nossas desigualdades é de cunho étnico-racial. Não é segredo que este é um país que historicamente discrimina, criminaliza e exclui a maioria negra —56% do povo (IBGE).

Esse é um cenário que foi forjado a partir de escolhas e decisões tomadas pelo Estado —que, é bom lembrar, nada mais é do que um conjunto de pessoas investidas em cargos públicos (senadores, deputados, governadores, prefeitos, vereadores, servidores...) dotados de poder para decidir os rumos da vida em sociedade.

Contudo, falar sobre medidas de enfrentamento ao racismo e seus efeitos perversos e injustos ainda é algo visto como "chororô, mimimi..." por uma porção de gente que insiste em dizer que políticas públicas adotadas contra essa deformação moral e cívica chamada de racismo são privilégio.

Na realidade, ações voltadas à promoção da equidade étnico-racial produzem efeito benéfico à sociedade brasileira como um todo. Coisa que faz do antirracismo um jogo de ganha-ganha. E remete a outra questão: o Brasil quer ser um país mais justo e igualitário?

 

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