Valor Econômico
Conflito entre Flávio e Michelle Bolsonaro
acelera corrida pelo espólio político do ex-presidente
A troca pública de críticas entre o senador
Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro expôs uma disputa pelo
espólio eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro e lançou dúvidas sobre o
futuro do bolsonarismo, no momento em que sua principal liderança está impedida
de atuar publicamente como um árbitro e a pré-candidatura do clã à Presidência,
liderada por Flávio, enfrenta obstáculos.
Na visão de especialistas que pesquisam movimentos de direita, a crise não deve significar o esvaziamento do bolsonarismo como força política, mas acirra a briga por espaço e reorganiza segmentos que se aglutinaram em torno de Bolsonaro - hoje em prisão domiciliar, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), após a condenação por tentativa de golpe de Estado.
Na sexta-feira (3), o ministro Alexandre de
Moraes prorrogou a prisão domiciliar do ex-presidente, condenado a 27 anos e
três meses de prisão. A defesa argumentou que o quadro de saúde de Bolsonaro
ainda é delicado e que ele receberia melhores cuidados em casa. O prazo de 90
dias do benefício tinha se encerrado em 25 de junho. Na nova decisão, Moraes
não definiu a duração. Ele ainda revogou o porte de uma arma do ex-presidente
que foi apreendida no mês passado.
Embora ainda não esteja claro o papel que Michelle
vá desempenhar na eleição - ela não confirma a pré-candidatura ao Senado pelo
Distrito Federal -, a avaliação é que seu distanciamento da futura campanha de
Flávio possa abalar a confiança de setores religiosos, além de ser um desafio a
mais para quebrar resistências no eleitorado feminino.
A cientista política Thais Pavez, uma das
autoras do estudo “Bolsonarismo sem Bolsonaro?”, de 2024, afirma que o risco de
prejuízo eleitoral existe no segmento das mulheres evangélicas, que veem em
Michelle “uma representante própria”, mas “ainda é cedo para falar de um
deslocamento de segmentos da base”.
“Michelle é uma liderança que construiu o capital
político dela, diferentemente do Flávio. Ela foi capaz de mobilizar gente na
rua, em Marchas para Jesus e caravanas pelo país, e atuou como uma das vozes
centrais da guerra espiritual que caracterizou a campanha de 2022, com a ideia
de bem contra o mal”, diz Pavez.
Para ela, existe “um conflito a respeito de
quem vai liderar o projeto bolsonarista”, enquanto parte da base entende que
Michelle “pode dar continuidade ao projeto de transformação profunda da
sociedade e de combate à chamada ‘inversão de valores’ [iniciado por
Bolsonaro]”.
O custo do racha familiar para a votação de
Flávio, caso ele confirme a candidatura ao Planalto, ainda é incerto, mas
qualquer perda pode ser prejudicial, em um pleito que se desenha acirrado
contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato do PT e hoje à
frente nas pesquisas.
A construção do “bolsonarismo sem Bolsonaro”,
como define o cientista social Jonas Medeiros, pesquisador do Centro Brasileiro
de Análise e Planejamento (Cebrap), tem sido precipitada em consequência da
prisão e da inelegibilidade do ex-presidente.
“Isso realmente alimenta disputas internas. O
que está em jogo nestas eleições de 2026 é o quanto o clã Bolsonaro vai
conseguir manter o controle sobre o próprio campo político, mas também sobre a
parte da direita brasileira que não vê problema algum em se aliar a um projeto
político com características autoritárias e subordinado aos interesses dos
Estados Unidos, sob Donald Trump”, diz Medeiros.
Segundo ele, que é coautor de um livro sobre
a ascensão de Bolsonaro, a dúvida é se os filhos vão conseguir manter setores
aliados sob comando “sem atuação pública direta do Jair”. Ao mesmo tempo, o
especialista cogita uma aposta do clã na saída “mais racional”: seria
preferível amargar uma derrota com Flávio em 2026 a perder a força predominante
que hoje exerce na oposição.
A antropóloga e professora Isabela Kalil, que
é coordenadora do Observatório da Extrema Direita, acrescenta que outro
objetivo no horizonte da família é uma reabilitação política de Jair Bolsonaro,
o que só ganharia corpo com uma vitória de um aliado. “Nem todos os cálculos
estão baseados na vitória eleitoral. A manutenção da hegemonia na direita e um
possível perdão a Bolsonaro são os eixos que hoje mobilizam o bolsonarismo”,
diz.
Segundo Kalil, o movimento sempre funcionou
como uma aglutinação instável de diferentes grupos conservadores, por vezes até
divergentes entre si. “O que estamos vendo de diferente agora é essa corrida
pela sucessão a partir de disputas familiares, e tudo isso sem o Bolsonaro, que
antes vinha como o fiel da balança, para dizer que diretriz tomar. Claro que
uma fragmentação tira força [do bolsonarismo], mas não significa dizer que
necessariamente esteja se desfazendo.”

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