Valor Econômico
Efeitos do tarifaço são limitados, e muitos setores compensaram perdas redirecionando exportações
Donald Trump não aliviou e cumpriu a ameaça
de sobretaxar nossas exportações. Valendo-se de uma investigação sobre supostas
práticas desleais, o órgão de defesa comercial americano aplicou uma tarifa
extra de 25% sobre os produtos brasileiros.
É mais um capítulo da novela que começou ainda durante a campanha eleitoral, quando Trump começou seu bullying contra parceiros comerciais. Daí veio o Liberation Day, em 02/04/2025, com a aplicação de tarifas seletivas para cada país, que nos brindou com a alíquota mínima de 10%. Mas em junho de 2025 o presidente americano resolveu apontar seu armamento comercial para o Brasil. Com objetivos políticos e defendendo interesses de grandes empresas, iniciou o processo que agora confirmou a sobretaxa de 25%.
Incertezas e atritos comerciais afetam o
fluxo de comércio. Nos últimos doze meses, o valor das exportações brasileiras
para os Estados Unidos ficou 13,1% abaixo do observado em 2024. Ou seja, desde
a posse de Trump, nossas vendas para lá caíram US$ 5,3 bilhões, de US$ 40,4
bilhões para US$ 35,1 bilhões ao ano.
O tarifaço também repercute na política.
Enquanto Flávio Bolsonaro tenta se esquivar do meme “Tariflávio”, culpando o
governo pelo fracasso nas negociações, Lula sobe o tom do discurso nacionalista
prometendo aplicar a lei da reciprocidade contra empresas americanas.
Sabedor dos riscos de desafiar Trump com
retaliações, de concreto a resposta do governo foi anunciar a ampliação do
plano Brasil Soberano, programa do BNDES que concede crédito a taxas camaradas
para as empresas afetadas pelo aumento de tarifas.
No entanto, é preciso cuidado no uso desses
recursos; afinal, as perdas não foram sentidas por todos os setores. Das 96
posições catalogadas pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), 23
conseguiram até mesmo ampliar as vendas para os Estados Unidos desde que Trump
assumiu o poder, com destaque para aeronaves (+ US$ 704,9 milhões), máquinas e
materiais elétricos (+ US$ 547,9 milhões) e produtos de alumínio (+ US$ 249,3
milhões). Esses setores, portanto, não têm motivos para pleitear ajuda governamental
motivada pelo tarifaço.
Entre os maiores perdedores estão os setores
de combustíveis minerais (- US$ 1,8 bilhão), produtos siderúrgicos (- US$ 721,2
milhões), madeiras (- US$ 644,5 milhões), açúcar (- US$ 482 milhões), celulose
(- US$ 420,2 milhões) e café (- US$ 398,4 milhões).
Isso não significa, porém, que em todos esses
casos o mau desempenho se deva exclusivamente ao tarifaço. O setor de
combustíveis, por exemplo, foi desde o início preservado, incluído numa longa
lista de exceções. O resultado ruim do petróleo nas compras americanas se deve
principalmente a um redirecionamento de mercado da Petrobras para a China desde
que a guerra eclodiu no Golfo Pérsico.
No caso do açúcar, a queda nas exportações
para os EUA se deve mais a uma conjuntura setorial que combina quebra de safra,
preços internacionais em baixa e conversão da produção para etanol do que às
tarifas de Trump.
Antes de sair distribuindo crédito subsidiado
para empresas, o governo precisaria considerar também que dos 73 setores que observaram
menores vendas para os EUA, 39 deles compensaram os prejuízos exportando mais
para outros países. O exemplo mais veemente são as siderúrgicas, que
registraram diminuição de US$ 721,2 milhões para os EUA, mas obtiveram um
aumento de US$ 1,7 bilhão para o resto do mundo.
Em vez do chororô empresarial e do discurso
populista dos candidatos, o que realmente deveria pautar o debate está
retratado no gráfico. Mesmo com a festejada pujança do agro, da mineração e do
petróleo, o Brasil continua detendo a mesma fatia de pouco mais de 1% no
comércio internacional desde o fim do boom das commodities.
Sem estratégia de agregação de valor e de
diversificação das exportações, permanecemos estagnados, enquanto nossos
concorrentes avançam.

Um comentário:
Muito bom !
Excelente colunista.
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