Valor Econômico
Ministro atribui melhora de Lula a novos
programas do governo, vê Palácio ‘sem crises’ e minimiza tensão com o Senado
O ministro da Secretaria de Relações
Institucionais (SRI), José Guimarães, disse ao Valor que as últimas
pesquisas eleitorais o convenceram de que a economia terá um peso decisivo na
disputa pelo Palácio do Planalto. Ele atribuiu a melhora na aprovação do
governo a programas com impacto no bolso do eleitor, como o Desenrola.
Responsável pela articulação política, ele vê mais integração entre o time de ministros que dialoga com o Congresso e classifica a aprovação na Câmara dos Deputados da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1 como a principal vitória de sua gestão na pasta. A matéria, no entanto, não avançou no Senado, onde o Executivo ainda enfrenta um clima de tensão desde o afastamento entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
A mais recente rodada da pesquisa
Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira (15), mostrou que a aprovação (48%) do
governo Lula superou numericamente a desaprovação (47%) pela primeira vez,
desde dezembro de 2024. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos
percentuais, para mais ou para menos. Para o ministro, esse resultado é
consequência da melhora na economia.
“Eu estava achando que a economia não iria
decidir a eleição, mas, agora, acho que voltou a ter muito peso”, afirmou, em
entrevista exclusiva. “O que está dando sustentabilidade à melhora na avaliação
do governo é o novo Desenrola, o aumento da isenção do Imposto de Renda. A
economia está fazendo a diferença.”
Mesmo com o desfecho da votação da PEC da 6x1
pendente no Senado, Guimarães avalia que os brasileiros assimilaram a ideia de
que o governo atuou para que o projeto avançasse no Congresso. “Essa é para mim
uma das principais marcas, e que servirá de debate na campanha eleitoral”,
afirmou.
O governo Lula adotou nos últimos meses a
estratégia de lançar um “pacote de bondades”. Como mostrou recentemente o Valor, cálculos do economista
Marcos Mendes, pesquisador associado ao Insper, mostram que o Planalto liberou
ao menos R$ 216 bilhões em benefícios. Desse montante, cerca de R$ 118 bilhões
são medidas financeiras ou extraorçamentárias, que não afetam limites fiscais.
O impacto nas contas públicas das ações, no entanto, é acompanhado com cautela
por especialistas.
Desse cardápio, Guimarães destaca o Move
Brasil, que oferece linhas de crédito com juros reduzidos para motoristas de
aplicativos e taxistas, medidas para conter a alta dos combustíveis em razão da
guerra no Oriente Médio, e ações para socorrer os exportadores, afetados pelo
novo tarifaço imposto pelo presidente americano Donald Trump.
Guimarães também afirmou que “acabaram as
crises” após as mudanças no Palácio do Planalto e que melhorou a interlocução
com o Congresso, atribuição de sua pasta, por causa da “sintonia” entre ele, e
os ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento). “Esse
triunvirato tem dado muita legitimidade ao diálogo com as duas Casas. Nada é
feito na relação com o Congresso se os três ministros não estão juntos”,
garantiu.
Hoje aqui [no Palácio] temos paz e
tranquilidade, não tem disputa entre os ministros”
O ministro admitiu que na formação anterior,
com Rui Costa na Casa Civil, Gleisi Hoffmann na SRI e Fernando Haddad na
Fazenda, houve divergências, principalmente no debate sobre a política fiscal e
gastos públicos. “Hoje aqui [no Palácio] temos paz e tranquilidade, não tem
disputa entre os ministros, a Miriam [Belchior, da Casa Civil], o Dario, o
Bruno e eu”.
Questionado se em eventual reeleição de Lula,
esses ministros seriam mantidos onde estão, ele respondeu que este “é o modelo
que deu certo”.
Guimarães minimizou derrotas do governo no
Senado, com a aprovação de pautas-bomba, como o projeto relatado pelo senador
Renan Calheiros (MDB-AL), relativo às dívidas com os produtores rurais, e a PEC
sobre a aposentadoria dos agentes comunitários de saúde.
Nesse ponto, salientou que ele e Durigan, com
a ajuda do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), construíram um
novo acordo com o setor, que incluiu a participação da frente parlamentar do
agronegócio (FPA), viabilizando um formato de renegociação de R$ 100 bilhões em
dívidas dos produtores rurais palatável ao governo, convertido na recente
medida provisória (MP).
Em paralelo, o ministro argumentou que Davi
Alcolumbre, numa sinalização de diálogo, concordou em adiar para depois da
eleição a promulgação da PEC com as novas regras da aposentadoria dos agentes
de saúde, que resulta em rombo de R$ 28 bilhões nos próximos dez anos. O
ministro acrescentou que, embora o presidente do Senado tenha levado essa
matéria à votação, deixou de fora da pauta pelo menos mais 12 propostas de
revisão de pisos salariais com impacto igualmente bilionário.
Embora Lula e Alcolumbre ainda estejam
afastados desde a crise com a indicação de Jorge Messias para uma vaga no
Supremo Tribunal Federal (STF), Guimarães também destacou o gesto do
parlamentar de pautar, no último dia antes do vencimento, a MP sobre as novas
regras do frete dos caminhoneiros. “Foi uma construção que a liderança do
governo fez, a nova líder Teresa Leitão (PT-PE), e outros senadores”, observou.
Questionado se a crise que afastou o ex-líder
Jaques Wagner (PT-BA) contaminou o governo e a campanha de Lula à reeleição,
como identificou a Quaest, o ministro argumentou que as denúncias relativas ao
Banco Master não podem ser associadas a Lula. O senador foi alvo, em junho, da
9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) para
investigar as suspeitas de fraudes no Master. Ele nega irregularidades.
“O Master é obra da família Bolsonaro, e isso
está consolidado na opinião pública”, ressaltou. “O Wagner vai esclarecer o
episódio específico sobre ele, que não poderá ser atribuído ao governo Lula. E
espero que ele tenha o direito à ampla defesa”, completou.
Questionado se o PT iria incorrer em erros anteriores de subir no salto e cantar vitória antes da conclusão do pleito, em razão da melhora no cenário para Lula, Guimarães rechaçou. “Ainda temos que botar a campanha na rua, criar um comando forte de apoio aos palanques estaduais, apresentarmos o nosso legado e falarmos do futuro”, alertou o ministro.

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