quarta-feira, 15 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Aumento de home office no setor público é retrocesso

Por O Globo

Brasil segue na contramão de governos que reduzem trabalho remoto para elevar produtividade

O número de servidores públicos federais em regime remoto parcial ou integral cresceu 28% entre outubro de 2024 e maio deste ano. São 107,8 mil funcionários em home office. No setor privado, a tendência é oposta. A expansão no setor público conta com o apoio do governo e destoa do que acontece noutros países. Governos de diferentes linhas políticas têm endurecido as regras porque a produtividade do setor público é afetada negativamente. Na semana passada, todos os servidores federais canadenses em jornada híbrida passaram a ter de comparecer em seus locais de trabalho quatro dias por semana por decisão do primeiro-ministro Mark Carney, de centro-esquerda. A mesma regra foi adotada no início do mês na Califórnia, seguindo ordem do governador democrata Gavin Newsom. Ao voltar à Casa Branca, o republicano Donald Trump decretou o fim do trabalho remoto.

Não faltam boas razões para retomar o presencial. No regime remoto, chefes de departamento percebem dificuldades de comunicação e gestão de equipes, menor comprometimento organizacional, reuniões menos produtivas, falta de motivação, problemas com tecnologia e barreiras na transmissão de conhecimento entre funcionários mais experientes e novatos. Há resistência à mudança porque uma parte dos servidores se acostumou com as vantagens, como a comodidade de ficar em casa, a possibilidade de atender aos filhos e a redução dos gastos com deslocamentos e alimentação. São eles que exigem de seus sindicatos a manutenção e a expansão do teletrabalho.

No Brasil, o Ministério da Gestão tem a maior parcela de funcionários em home office (67%). Em seguida, estão o Ministério da Fazenda (56%), a Advocacia-Geral da União (53%) e o INSS (49%). O IBGE tem buscado reduzir drasticamente o percentual, mas enfrenta resistência, com 27% ainda em trabalho remoto. Até o momento, o governo tem se mantido em linha com os sindicatos. Afirma que o trabalho remoto reduz a pressão por expansão de áreas físicas, locação de imóveis e aquisição de equipamentos. Insiste que o Programa de Gestão e Desempenho (PGD), ao substituir o controle de ponto eletrônico pelo monitoramento de entrega de tarefas e cumprimento de metas, garante a qualidade dos serviços. Na ponta receptora, porém, a sensação da população é distinta.

Faltam pesquisas sobre os efeitos do home office no setor público feitas por instituições independentes e com critérios objetivos. A maioria das existentes se baseia em entrevistas com gestores e servidores, muitos deles beneficiados pelo home office ou receosos de criar inimizades com subalternos e colegas. Apesar disso, alguns indícios negativos vêm à tona. Em relatório sobre o PGD publicado em 2025 com a participação de 119 responsáveis por instituições do governo, seis em dez discordaram que os trabalhadores remotos têm um comprometimento maior, disseram não saber ou não quiseram responder à questão. A soma dos que disseram não perceber aumento de produtividade, não saber ou não responderam foi de 49%.

Em todas as áreas de atuação do governo, há demandas não atendidas. Ao ceder à pressão dos sindicatos e permitir o aumento do trabalho remoto entre os servidores, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou na contramão do que acontece no exterior e perdeu uma oportunidade de elevar a produtividade do setor público.

Governo demonstra atenção ao ativar plano de prevenção contra El Niño

Por O Globo

Ministério do Meio Ambiente deu 30 dias para estados informarem o que farão para evitar tragédias climáticas

O governo fez bem ao estabelecer o prazo de 30 dias para que estados e o Distrito Federal informem seus planos de prevenção e combate aos incêndios florestais que poderão ocorrer devido ao El Niño. O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico, já está em formação e deverá ganhar força no decorrer dos próximos meses, segundo previsões dos principais serviços meteorológicos. O Ministério do Meio Ambiente menciona um ponto-chave na decisão que estabeleceu o prazo: a articulação dos planejamentos federal e estaduais com a finalidade de preservar meio ambiente e áreas agrícolas, além de proteger a população.

Desde abril, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) passou a alertar o governo sobre a intensidade do fenômeno neste ano e no início do primeiro semestre de 2027. No Brasil, ele provoca secas ao Norte e chuvas no Sul. É preciso, portanto, estar preparado para incêndios e enchentes.

Os cientistas usam a temperatura da superfície do Pacífico numa região batizada Niño 3.4 como termômetro do fenômeno. Em 2024, a temperatura em Niño 3.4 subiu 2 °C, caracterizando um evento de forte intensidade, que contribuiu para a enchente histórica no Rio Grande do Sul, com mortes, desabrigados e destruição. Houve ainda secas na Amazônia e no Pantanal, varridos por incêndios devastadores. Um balanço feito pelo Monitor do Fogo do projeto MapBiomas revelou que 30,8 milhões de hectares foram atingidos pelas chamas, área maior que a da Itália. Foi a maior área queimada desde 2019. Além disso, 73% da região atingida era de vegetação nativa, com destaque para florestas, que representaram 25% do que foi calcinado. Entre janeiro e dezembro, queimaram 6,7 milhões de hectares de pastagens usadas pela agropecuária, 15% mais que o estado da Paraíba.

O fenômeno em formação pode repetir o de 2024 ou alcançar intensidade maior. Na última aferição feita em Niño 3.4, divulgada pelo Serviço Nacional do Tempo dos Estados Unidos, o termômetro já havia subido 1,2 °C, ante 0,9 °C em maio e entre 1,2°C e 1,7°C em junho. A tendência é de alta. “Há 81% de probabilidade de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro, que poderá ser incluído entre os eventos recordes ocorridos desde 1950”, informou o serviço meteorológico americano.

No final de junho, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) chamou a atenção para a coincidência entre um El Niño destrutivo e a fragilidade da segurança alimentar no mundo, provocada por dificuldades ligadas ao aquecimento global. O cenário mundial ressalta ainda mais a importância da mobilização do governo no Brasil. É provável que, daqui para frente, o estado de alerta tenha de ser permanente.

PF aperta o cerco sobre Valdemar na farra das emendas

Por Folha de S. Paulo

Velho conhecido dos escândalos políticos, presidente do PL mobilizou mais de R$ 100 milhões da Câmara

Legislativo parece pouco interessado em evitar que milhões de reais sejam manipulados por um cidadão que não possui mandato

Valdemar Costa Neto é velho conhecido dos escândalos políticos no Brasil. O presidente do PL foi condenado no mensalão, investigado na Lava Jato e indiciado na tentativa de golpe de Jair Bolsonaro (PL). A ninguém surpreende, portanto, que seu nome apareça na farra das emendas parlamentares.

De acordo com a Polícia Federal, Valdemar, que não é deputado nem senador, vinha direcionando recursos da Câmara conforme seus próprios interesses, "em sintomas inequívocos do cometimento dos crimes de peculato" (desvio de dinheiro público).

Ao todo, são 21 emendas sob suspeita, com datas que variam de junho de 2024 a março de 2026 e somam R$ 119 milhões. Como a PF acredita que o próprio Valdemar possa ter sido o beneficiário final dessa dinheirama, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio de valor correspondente em bens do ex-deputado.

O presidente do PL se disse surpreso com a decisão de Dino. Por meio de seus advogados, afirmou que o ministro "parte de premissas frágeis, inferências subjetivas e de uma indevida criminalização da atividade político-partidária".

De fato, no atual estágio da investigação, ainda não se conhecem evidências de que as verbas parlamentares tenham engordado os bolsos de Valdemar. E, sem dúvida, é possível que, na condição de presidente do PL, ele estivesse apenas participando de debates relativos à melhor destinação de certos recursos.

O problema com a explicação é que ela não dá conta das mensagens interceptadas pela PF durante a Operação Transparência, deflagrada em dezembro passado e que teve como alvo uma assessora ligada a Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara dos Deputados.

Nos diálogos, alguns servidores tratam as emendas parlamentares como se fossem propriedade privada de Valdemar. Afirmam, por exemplo, que ele não aceitaria mudanças nos destinos de recursos e demonstram que o presidente do PL pode lançar o dinheiro de uma rubrica para outra conforme sua conveniência.

O surrealismo do quadro salta aos olhos com uma comparação. Em 2024, Valdemar —que não tinha mandato— indicou R$ 111,8 milhões em emendas, o que o deixou à frente de 512 deputados no período. Apenas o então presidente da Casa, Arthur Lira, teve ascendência sobre valor superior.

É curiosa a situação: o Legislativo, que não se faz de rogado quando sente necessidade de defender suas prerrogativas diante dos outros Poderes, parece pouco interessado em evitar que milhões de reais sejam manipulados por um cidadão que não possui representação parlamentar.

A aparente contradição talvez se explique porque os mais variados deputados —e, vale acrescentar, presidentes de partidos— beneficiam-se com a farra das emendas, distribuídas com baixa transparência e parca fiscalização. Se os legisladores não zelam pelo bom uso dos recursos públicos, resta à PF e ao STF fazê-lo.

Alta letalidade policial, baixa responsabilização

Por Folha de S. Paulo

Das 84 mortes em duas operações da PM paulista, só 9,5% resultaram em denúncias do Ministério Público

Ademais, 8 de 16 agentes denunciados foram absolvidos sumariamente; discrepâncias sugerem impunidade em casos de abuso no uso da força

As operações Escudo e Verão, que ocorreram no litoral paulista entre 2023 e 2024, foram as mais letais da história da Polícia Militar de São Paulo depois do massacre do Carandiru em 1992, quando 111 pessoas foram mortas. Mas a responsabilização dos agentes parece aquém do alto nível de letalidade.

Segundo levantamento realizado pela Folha, das 84 mortes causadas por policiais nas duas ações, só 9,5% resultaram em denúncias do Ministério Público.

Trata-se de padrão recorrente no país. Estudo da ONG Fórum Justiça do ano passado mostrou que apenas 9% dos casos de mortes provocadas pelas forças de segurança, entre 2011 e 2023 em São Paulo, foram denunciados pelo Ministério Público; no Rio de Janeiro, a taxa no mesmo período foi ainda menor (3,7%).

Ademais, 8 dos 16 policiais denunciados por ocorrências nas operações Escudo e Verão foram absolvidos sumariamente pela Justiça —quando o juiz encerra o processo antes de submetê-lo ao tribunal do júri por entender que já está claramente demonstrada alguma hipótese legal, como o réu não ter sido o autor ou a conduta não constituir crime.

Na absolvição mais recente, referente à morte do roupeiro Allan de Moraes Santos, desembargadores afirmaram que não havia indício de ação deliberada dos réus, de intenção homicida nem de alteração da cena.

Allan foi morto com seis tiros de pistola e fuzil. Nas imagens das câmeras corporais, a pistola atribuída a ele pelos policiais aparece no asfalto, mas o mesmo local havia sido filmado 50 segundos antes, sem que a arma estivesse lá, segundo a Promotoria.

Em outros três casos, são fartas as alegações de falhas processuais, como câmeras policiais descarregadas, disparos de fuzil quando as vítimas já estavam rendidas e apagamento de imagens, entre outras. Com a absolvição sumária, essas violações não serão analisadas.

No único caso em que houve decisão de pronúncia para levar dois policiais a júri, as imagens das câmeras corporais foram essenciais, ressaltando a importância do equipamento para conter arbitrariedades, qualificar a atuação dos agentes e municiar investigações.

Por óbvio, nem todas as mortes ocorridas em operações policiais configuram homicídio doloso ou abusos no uso da força. Ainda assim, a grande discrepância entre o número de mortos e o de policiais denunciados e julgados sugere falhas na investigação e na responsabilização, além de um quadro de impunidade na abordagem da letalidade policial.

Decisão judicial se cumpre

Por O Estado de S. Paulo

Ao suspender as visitas de Flávio a Jair Bolsonaro, Moraes não tornou o ex-presidente incomunicável, só respondeu à violação das restrições impostas para a concessão da prisão domiciliar

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes suspendeu as visitas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que, como todos sabem, cumpre em casa a pena de mais de 27 anos de prisão a que foi condenado por tentar um golpe de Estado, entre outros crimes. A medida foi tomada depois que Flávio divulgou em suas redes sociais o conteúdo de uma carta escrita pelo apenado e dirigida “aos brasileiros”, no dia 11 passado. A divulgação ocorreu no mesmo dia em que Bolsonaro assinou o texto, razão pela qual o ministro ordenou que a defesa do ex-presidente esclareça se ele tinha conhecimento prévio de que seu manifesto político seria tornado público.

Moraes tomou a decisão correta. Há um princípio elementar do Estado de Direito que antecede debates sobre penas, regimes de cumprimento, privilégios no cárcere ou simpatias partidárias: decisão judicial se cumpre. Pode-se recorrer dela, contestá-la em fóruns domésticos e internacionais, criticá-la em artigos ou editoriais na imprensa. O que não se admite, em hipótese alguma, é descumpri-la unilateralmente, como se a constrição penal estivesse aberta à negociação ou, pior, ao exercício de um imaginário direito cívico à insurreição. Fosse assim, seria a barbárie. Foi esse primado civilizatório, e nada mais, que Moraes fez valer.

Deveria ser ocioso lembrar que o sr. Bolsonaro foi condenado a quase três décadas de prisão, em regime inicial fechado, por tentar arruinar a democracia brasileira. Ele só cumpre a pena em prisão domiciliar por razão humanitária, em atenção ao seu quadro de saúde, sabidamente delicado. Trata-se, portanto, de uma concessão excepcionalíssima do Estado – e condicionada ao respeito estrito às restrições impostas pela Justiça, entre as quais a proibição de uso de redes sociais, próprias ou de terceiros.

Ressalte-se que Moraes foi cuidadoso. O ministro não afirmou que Bolsonaro descumpriu uma restrição do regime domiciliar, apenas questionou sua defesa. Quem a descumpriu flagrantemente foi Flávio, tanto que, por ora, o atingido pela decisão do ministro foi o senador, não seu pai.

Diferentemente dos irmãos, Flávio tem acesso irrestrito a Bolsonaro porque figura formalmente como seu advogado, munido de procuração. O busílis é que, na prática, Flávio jamais atuou como defensor do pai em processo algum. A condição de “advogado” funciona como mero subterfúgio para manter Bolsonaro politicamente ativo a despeito de sua condenação criminal – um expediente ardiloso que já era objeto de crítica deste jornal há oito anos, quando quem estava preso era Luiz Inácio Lula da Silva e, desde a Superintendência da Polícia Federal de Curitiba, também tentava se manter ativo no contexto de uma campanha eleitoral.

Uma leitura atenta e honesta da decisão de Moraes desfaz a caricatura de “perseguição política” que aliados do ex-presidente tentam desenhar. Não há, em nenhuma linha da decisão, proibição a que Bolsonaro escreva cartas. Mais bem dito: Bolsonaro não está incomunicável. Está, sim, sujeito a certas restrições de comunicação, às quais, de resto, estão sujeitos todos os condenados por decisão judicial transitada em julgado. Bolsonaro pode escrever quantas cartas quiser, para quem quiser, mas seu conteúdo deverá passar pelo escrutínio prévio das autoridades. A prisão domiciliar, nesse sentido, não difere essencialmente do regime fechado. Ademais, escrever uma carta é uma coisa. Burlar as restrições de uso de redes sociais é outra. Misturar as estações é ofender a inteligência alheia.

Diante da dúvida se Bolsonaro sabia ou não que sua carta viria a público por meio das redes sociais de Flávio, Moraes preferiu punir quem inequivocamente agiu – o senador – a mandar Bolsonaro de volta para a Papuda. A sanção recaiu sobre o filho, não sobre o pai condenado, uma prova de que a decisão do ministro foi proporcional ao que pôde ser apurado até o momento, e não arbitrária.

Ao fim e ao cabo, pode-se discutir se é certo ou não Jair Bolsonaro estar impedido de acessar suas redes sociais. O que não se pode é ignorar a restrição de uso que está vigente por decisão judicial. E decisão judicial se cumpre. É tão simples quanto isso.

Medidas contra bets são muito tímidas

Por O Estado de S. Paulo

As bets nem deveriam ter sido legalizadas. Mas já que foram, sua publicidade deveria ser severamente limitada, o que as novas regras do governo, embora positivas, não fazem

O governo endureceu as regras para a publicidade das apostas esportivas. Todas as propagandas de bets deverão agora exibir advertências informando que apostar pode causar dependência, faz perder dinheiro e não é investimento. Também ficam proibidas peças publicitárias que associem as apostas a sucesso financeiro, fonte de renda ou enriquecimento fácil. As medidas representam um avanço e mostram que o Estado reconhece, de forma clara, os riscos de uma atividade que nem deveria ter sido legalizada. Nesse sentido, as medidas do governo são muito tímidas.

Nos últimos anos, o mercado de apostas online cresceu sem freios. Enquanto a regulamentação patinava, empresas se instalaram no País e multiplicaram patrocínios a clubes, campeonatos e programas esportivos. Também transformaram influenciadores, atletas e celebridades em vitrines permanentes de um negócio apresentado como entretenimento inofensivo. O tsunami veio com a Copa do Mundo. Hoje, as pesquisas mostram o aumento do endividamento das famílias, o crescimento dos casos de ludopatia, a pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e até o adiamento do ingresso de jovens no ensino superior.

Mesmo assim, Executivo e Congresso ainda evitam enfrentar o problema de frente. Se o próprio Estado considera necessário obrigar as empresas a informar que apostar causa dependência, faz perder dinheiro e não constitui investimento, fica difícil explicar por que as bets continuam submetidas a regras de publicidade mais brandas que as de outros produtos reconhecidamente nocivos.

Trata-se de impor à publicidade das bets limites proporcionais aos danos que elas provocam. Foi essa lógica que orientou, ao longo das últimas décadas, a restrição à propaganda de cigarros. Ninguém proibiu o consumo. O que se reconheceu foi que produtos capazes de causar prejuízos dessa dimensão à saúde pública não poderiam continuar sendo promovidos como símbolos de sucesso, diversão ou qualidade de vida.

Não por acaso, a prefeitura do Rio de Janeiro decidiu nesta semana proibir a publicidade de bets em espaços públicos sob sua administração, uma iniciativa pontual, decerto movida por interesses eleitorais, mas coerente com a necessidade de reduzir a exposição da população às apostas.

No âmbito federal, porém, as apostas online seguem sendo tratadas pelas autoridades com uma leniência difícil de compreender. Sempre que se propõem restrições mais severas, as empresas envolvidas alegam que isso abriria espaço para plataformas clandestinas e para a atuação do crime organizado. Ora, essa justificativa é frágil. Se levada às últimas consequências, serviria, no mínimo, para desaconselhar qualquer tipo de controle sobre atividades potencialmente nocivas. Combater a ilegalidade é dever permanente do Estado, não razão para deixar os consumidores expostos a um mercado que o próprio governo reconhece como capaz de provocar dependência e perdas financeiras.

Essa hesitação do poder político, por sua vez, empurra o problema para o Supremo Tribunal Federal (STF). No segundo semestre, a Corte deverá retomar o julgamento das ações que questionam a constitucionalidade da Lei das Bets. Entre os temas em debate estão a proteção de grupos vulneráveis, como beneficiários de programas sociais, e os limites de uma atividade que, segundo a Procuradoria-Geral da República, possui caráter predatório e compromete direitos fundamentais. O presidente do STF, Edson Fachin, já associou o avanço das apostas ao crime organizado e classificou o tema como um grave problema social e de segurança pública. Suas declarações indicam que o tribunal dificilmente será permissivo.

O julgamento, porém, ainda está distante, e seu resultado é incerto. Até lá, governo e Congresso não têm desculpa para continuar adiando restrições muito mais severas à publicidade das bets. Não basta alertar sobre os riscos de uma atividade reconhecidamente nociva enquanto sua publicidade continua ocupando estádios, transmissões esportivas, redes sociais e a rotina dos brasileiros quase sem limitações. O aviso é bem-vindo, mas a tolerância já passou da hora de acabar.

Os Correios zombam do País

Por O Estado de S. Paulo

Estatal suspende parcialmente plano de recuperação ao primeiro sinal de insatisfação dos empregados

A cada dia que passa, os Correios provam que não chegaram à situação de penúria em que se encontram por acidente. Diante de uma ameaça de greve por parte de seus funcionários, a primeira medida adotada pela empresa foi a de suspender a execução de seu plano de reestruturação. Estão adiadas, ao menos até o dia 31 de julho, a aplicação de medidas como o fechamento de agências e a retirada de uma gratificação paga aos funcionários que trabalham com atendimento ao público.

Seria cômico se não fosse trágico. O plano foi a contrapartida que os Correios tiveram de apresentar ao governo para conseguir um empréstimo de R$ 12 bilhões no fim do ano passado junto a cinco bancos, sendo dois deles públicos. A empresa precisou registrar prejuízo por 14 trimestres consecutivos e encerrar 2025 com um rombo de R$ 8,5 bilhões para aceitar se comprometer com a aplicação de medidas de ajuste que nem de longe podem ser consideradas austeras, mas que já estão sob ameaça.

Entre dar aval a uma operação financeira questionável sob o ponto de vista econômico-financeiro e arranjar espaço adicional no Orçamento Geral da União para fazer um aporte emergencial de recursos para salvar os Correios, a opção do Ministério da Fazenda parece ter sido a de empurrar o problema com a barriga até segunda ordem – ou, pelo menos, até as eleições presidenciais de outubro.

Foi uma aposta de risco, pois os Correios não conseguem manter as aparências nem sob circunstâncias absolutamente desfavoráveis para si mesmos. O aval não encerrou a pendenga, pois a empresa ainda precisa de mais um empréstimo de R$ 7 bilhões a R$ 8 bilhões neste ano para pagar as contas em dia. De que maneira a estatal espera convencer as instituições financeiras de que terá condições de arcar com uma nova operação dessa monta se abdica de parte do plano de reestruturação ao primeiro sinal de insatisfação de seus empregados?

Ficou ainda mais feio para os servidores do Tesouro Nacional, que deram aval a uma operação que terá de ser paga pela União em caso de calote, ou seja, pelo contribuinte. Não por acaso, os gestores entraram na mira do Tribunal de Contas da União (TCU), que questionou as premissas financeiras que embasaram o fluxo de caixa que consta do plano de recuperação que os Correios apresentaram ao Ministério da Fazenda durante as negociações – e que acabaram de suspender parcialmente.

Se o primeiro empréstimo já gerou esse tipo de problema, como os servidores terão condições de autorizar um segundo para uma empresa que registrou um prejuízo de R$ 3,16 bilhões no primeiro trimestre deste ano? Se o fechamento de agências e a retirada da gratificação já foram suspensos sem que a greve sequer tenha começado, não se pode condenar quem imagine que o programa de demissões voluntárias (PDV), a venda de imóveis ociosos e a reformulação do generoso plano de saúde dos funcionários também o serão caso a paralisação seja confirmada.

Qualquer empresa privada em situação semelhante já teria fechado as portas há muito tempo. Mas se os Correios zombam do País, é porque têm a certeza de que o governo Lula dá respaldo a esses absurdos.

Aposta alta nas empresas de IA traz risco para economia mundial

Por Valor Econômico

Os investimentos em IA já somam mais de US$ 1,2 trilhão desde o início de 2025, sendo US$ 725 bilhões só este ano

Os investidores deixaram a euforia de lado e estão reavaliando se as promessas revolucionárias da inteligência artificial darão retornos suficientes às empresas gigantes que a desenvolvem. Mas a economia global terá um problema se o otimismo com a IA se transformar de repente em pessimismo. O Banco de Compensações Internacionais (BIS) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) consideram a reversão das bolsas com as ações da tecnologia e a continuidade da guerra entre EUA e Irã os dois maiores riscos atuais. Os conflitos no Oriente Médio foram retomados e os rumos da IA podem ter correção.

Os investimentos em IA já somam mais de US$ 1,2 trilhão desde o início de 2025, sendo US$ 725 bilhões só este ano, mas os riscos da corrida foram evidenciados pelo BIS. “Com gastos de capital cada vez mais altos por pressão competitiva, o saldo líquido, descontados os custos de investimento, declina para o setor como um todo e pode se tornar negativo em cenários adversos”, adverte. O desapontamento com esses retornos pode, então, cortar os financiamentos e transformar o boom de investimentos em um colapso, “com efeito cascata sobre as condições financeiras”.

A IA está consumindo recursos das big techs a grande velocidade. Gastos de capital hoje correspondem a 80% do fluxo de caixa operacional (Valor, 13/7). As chamadas 7 Magníficas chegaram a uma fatia de um terço das ações da S&P 500, mas, após a forte valorização nas bolsas americanas, o salto das despesas de capital levou-as a lançar mão de dívidas com avidez. Enquanto essas gigantes da tecnologia (Apple, Amazon, Microsoft, Alphabet, Nvidia, Tesla e Meta) perderam US$ 2 trilhões em valor de mercado desde outubro, a emissão de dívidas do grupo ultrapassou US$ 170 bilhões. Se somadas outras empresas provedoras de infraestrutura da computação em nuvem, as emissões chegam a US$ 230 bilhões, segundo dados do BIS.

A onda da IA puxou com força também as empresas de chips concentradas na Ásia. Ações da TSMC de Taiwan e das coreanas Samsung e SK Hynix mais que dobraram de valor em um semestre, um rally de US$ 1,8 trilhão, após registrarem lucros 15 a 20 vezes maiores do que em 2025.

Os investidores puseram o pé no freio do setor de IA e resolveram prudentemente voltar a diversificar suas aplicações. As 7 Magníficas tiveram peso negativo para o S&P 500 no primeiro semestre. A gigante Nvidia, com valor de mercado de US$ 5 trilhões, teve recentemente a mesma relação preço-lucro que a empresa de chocolates Hershey (FT, Katie Martin). Em junho, o índice de ações das empresas de tecnologia de informação (TI) recuou 7,5%, diante da alta de 8% das ações do setor de saúde e de 6,7% dos papéis do setor financeiro.

Igualmente importante como tendência foi o comportamento dos títulos da dívida de longo prazo (10 anos) das líderes da IA, que têm agora o pior comportamento dentre os papéis com grau de investimento, em um movimento que reflete ceticismo dos investidores quanto a rentabilidade dos gigantescos investimentos realizados. Eles estão se dando conta de que com a rápida evolução de uma nova tecnologia de enormes potenciais, é arriscado prever o futuro, quais empresas afinal assumirão a liderança e quais poderão ficar pelo caminho. Há, além disso, dinheiro demais envolvido. O JP Morgan calcula que as maiores do setor de IA precisarão de US$ 5 trilhões em 5 anos e tanto elas como as provedoras de infraestrutura estão obtendo receitas na casa dos 11 dígitos, (dezenas de bilhões), com gastos de 13 dígitos (trilhão de dólares).

Avaliações mais realistas também atingiram o setor de semicondutores, que dependem do boom de IA. O índice Kospi, de ações coreanas, caiu 20% desde seu pico no semestre, com os estrangeiros vendendo US$ 100 bilhões em ações de companhias como Samsung e SK. O risco de obsolescência precoce do setor é grande. “O ritmo acelerado da inovação tecnológica também aumenta o risco de que os atuais semicondutores de última geração, incluindo chips de memória, se tornem obsoletos com a próxima onda de inovação”, afirma o consultor Ed Yardeni (Valor, 13/7).

A febre do investimento em IA se disseminou pelos mercados de crédito, nos quais os fundos de empréstimos diretos quadruplicaram o crédito para IA e TI em 5 anos. Hoje representam 15% de seu portfólio. A demanda por IA puxou o crescimento dos setores relacionados, não só chips como também construção, engenharia, energia e outros. As empresas de chips taiwanesas e coreanas passaram a ocupar uma fatia de 29% do MSCI Emerging Markets. A exposição a ações das famílias americanas cresceu, enquanto os papéis americanos hoje representam 64% do MSCI Global Index. Tudo isso aponta, segundo o BIS, para o impacto global profundo e amplo que uma grande correção nas ações de IA poderá ter, inclusive sobre o efeito riqueza que tem alimentado o consumo americano.

Excesso de investimentos em tecnologias de fronteira no passado levaram as economias à recessão. É o que o BIS teme agora, embora isso seja mais um risco que realidade.

Pragmatismo contra as incertezas da gestão Trump

Por Correio Braziliense

A dependência excessiva dos humores políticos de uma única superpotência é uma vulnerabilidade que o PIB brasileiro não precisa carregar

A iminência de um anúncio que pode sobretaxar em 25% as exportações brasileiras para os Estados Unidos coloca a diplomacia e a economia do país em estado de alerta. A investigação americana sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que mira desde a soberania do Pix até decisões judiciais sobre plataformas digitais, funciona como pretexto para a escalada protecionista da gestão de Donald Trump. O Palácio do Planalto trabalha com o realismo de que o tarifaço é o cenário mais provável. Diante de um líder cuja marca registrada é a imprevisibilidade transacional, o Brasil não pode abandonar a mesa de negociação, mas precisa calibrar sua estratégia externa.

O impacto potencial da medida não é desprezível. Estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que mais de 4 mil produtos exportados, de açúcar bruto e molduras de madeira a hidróxido de alumínio, podem ser severamente afetados. A retórica de Washington de que o Pix cria "vantagens competitivas desleais" contra bandeiras de cartões norte-americanas ignora o sucesso de um modelo de inclusão bancária aclamado globalmente. Tratar o sistema de pagamentos brasileiro ou decisões de tribunais soberanos como moeda de troca comercial é um erro que acabará punindo os próprios consumidores e indústrias americanas dependentes de insumos brasileiros.

A história recente demonstra que ceder ao pânico ou responder com retaliações intempestivas é o pior caminho. Em 2025, o próprio Donald Trump tentou erguer barreiras semelhantes que acabaram contidas pela Suprema Corte americana. A orientação do governo de manter o diálogo técnico, buscando ampliar exceções e mitigar alíquotas, demonstra a maturidade necessária para lidar com um parceiro volátil. O pragmatismo exige, porém, reconhecer os limites dessa interlocução. Tratar com uma Casa Branca que usa sanções unilaterais como ferramenta de coerção primária requer estômago frio e a clareza de que promessas de campanha ali se convertem rapidamente em tarifas alfandegárias.

O erro estratégico seria apostar todas as fichas na contenção de danos em Washington. O iminente tarifaço deve servir como o empurrão definitivo para que o Brasil acelere a diversificação de sua carteira de parceiros comerciais, estreitando laços com economias emergentes, consolidando espaço no Leste Asiático e destravando acordos há muito adormecidos. A dependência excessiva dos humores políticos de uma única superpotência é uma vulnerabilidade que o PIB brasileiro não precisa carregar. Negociar com Washington é um dever do presente. Construir alternativas é o único seguro contra o futuro.

Pix é o alvo dos Estados Unidos

Por O Povo (CE)

O governo brasileiro não pode deixar de aplicar uma política pública, que beneficia milhões de brasileiros, para favorecer meia dúzia de empresas financeiras

Hoje é o dia marcado pelo governo dos Estados Unidos para comunicar se a tarifa adicional de 25% será aplicada aos produtos brasileiros. A decisão acontece após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) ter concluído uma investigação com base na Seção 301 da lei de Comércio americana, propondo a sobretaxa.

No início de julho, o USTR realizou uma audiência pública em Washington para ouvir empresários de ambos os países sobre o assunto. O pré-candidato a presidente, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), falou no evento pedindo o adiamento da aplicação da sobretaxa devido ao período eleitoral, porém não se manifestou abertamente contra a nova tarifa.

O governo brasileiro optou por não falar durante o evento, enviando representantes. A explicação é que a audiência destinava-se a ouvir a sociedade civil, e que as negociações bilaterais vinham sendo realizadas entre equipes do Brasil e dos Estados Unidos.

Do ponto de vista técnico, o Brasil conseguiu mostrar a inexistência de justificativa plausível para considerar que os produtos brasileiros fazem "concorrência desleal" com a produção dos Estados Unidos. A mais gritante prova do argumento brasileiro é que, desde muito tempo, os EUA têm superávit comercial com o Brasil. Todos os itens apresentados pelo USTR foram respondidos da mesma forma: tecnicamente e sustentados por provas.

Sobrava, portanto, o Pix, um item considerado inegociável. Para o Brasil, visto como um caso de soberania do País, a quem cabe definir como organizar seu sistema de pagamentos. Inclusive as empresas americanas que operam no Brasil também podem usar Pix, sem restrições.

Para os Estados Unidos, o sistema provoca prejuízo aos bancos e bandeiras de cartões de crédito. No entanto, o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que o argumento não procede. Segundo ele, as possíveis perdas são compensadas pela abertura de novas contas e pelo aumento do volume de transações. Além do mais, o governo não pode deixar de aplicar uma política pública, que beneficia milhões de brasileiros, para favorecer meia dúzia de empresas financeiras.

Tudo indica que os EUA vão manter o tarifaço contra o Brasil. No máximo, serão incluídos mais produtos na lista de exceções, atendendo ao empresariado americano que se mostra contra a sobretarifação.

Frente a um resultado negativo é de se esperar a condenação uníssona de todos os setores da sociedade, principalmente do segmento político, a essa manobra do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Sem justificativa para o tarifaço, observa-se que a sua pretensão é submeter politicamente o Brasil, um país que ousa reafirmar sua soberania.

Não se trata, portanto, nesse caso, de um confronto de situação versus oposição, mas de separar que está verdadeiramente a favor dos brasileiros daqueles que capitulam a uma política que busca rebaixar o Brasil para servir aos desígnios de uma nação estrangeira.

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