Aumento de home office no setor público é retrocesso
Por O Globo
Brasil segue na contramão de governos que
reduzem trabalho remoto para elevar produtividade
O número de servidores públicos federais em regime remoto parcial ou integral cresceu 28% entre outubro de 2024 e maio deste ano. São 107,8 mil funcionários em home office. No setor privado, a tendência é oposta. A expansão no setor público conta com o apoio do governo e destoa do que acontece noutros países. Governos de diferentes linhas políticas têm endurecido as regras porque a produtividade do setor público é afetada negativamente. Na semana passada, todos os servidores federais canadenses em jornada híbrida passaram a ter de comparecer em seus locais de trabalho quatro dias por semana por decisão do primeiro-ministro Mark Carney, de centro-esquerda. A mesma regra foi adotada no início do mês na Califórnia, seguindo ordem do governador democrata Gavin Newsom. Ao voltar à Casa Branca, o republicano Donald Trump decretou o fim do trabalho remoto.
Não faltam boas razões para retomar o
presencial. No regime remoto, chefes de departamento percebem dificuldades de
comunicação e gestão de equipes, menor comprometimento organizacional, reuniões
menos produtivas, falta de motivação, problemas com tecnologia e barreiras na
transmissão de conhecimento entre funcionários mais experientes e novatos. Há
resistência à mudança porque uma parte dos servidores se acostumou com as
vantagens, como a comodidade de ficar em casa, a possibilidade de atender aos
filhos e a redução dos gastos com deslocamentos e alimentação. São eles que
exigem de seus sindicatos a manutenção e a expansão do teletrabalho.
No Brasil, o Ministério da Gestão tem a maior
parcela de funcionários em home office (67%). Em seguida, estão o Ministério da
Fazenda (56%), a Advocacia-Geral da União (53%) e o INSS (49%). O IBGE tem
buscado reduzir drasticamente o percentual, mas enfrenta resistência, com 27%
ainda em trabalho remoto. Até o momento, o governo tem se mantido em linha com
os sindicatos. Afirma que o trabalho remoto reduz a pressão por expansão de
áreas físicas, locação de imóveis e aquisição de equipamentos. Insiste que o
Programa de Gestão e Desempenho (PGD), ao substituir o controle de ponto
eletrônico pelo monitoramento de entrega de tarefas e cumprimento de metas,
garante a qualidade dos serviços. Na ponta receptora, porém, a sensação da
população é distinta.
Faltam pesquisas sobre os efeitos do home
office no setor público feitas por instituições independentes e com critérios
objetivos. A maioria das existentes se baseia em entrevistas com gestores e
servidores, muitos deles beneficiados pelo home office ou receosos de criar
inimizades com subalternos e colegas. Apesar disso, alguns indícios negativos
vêm à tona. Em relatório sobre o PGD publicado em 2025 com a participação de
119 responsáveis por instituições do governo, seis em dez discordaram que os
trabalhadores remotos têm um comprometimento maior, disseram não saber ou não
quiseram responder à questão. A soma dos que disseram não perceber aumento de produtividade,
não saber ou não responderam foi de 49%.
Em todas as áreas de atuação do governo, há
demandas não atendidas. Ao ceder à pressão dos sindicatos e permitir o aumento
do trabalho remoto entre os servidores, o governo do presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva ficou na contramão do que acontece no exterior e perdeu uma oportunidade
de elevar a produtividade do setor público.
Governo demonstra atenção ao ativar plano de
prevenção contra El Niño
Por O Globo
Ministério do Meio Ambiente deu 30 dias para
estados informarem o que farão para evitar tragédias climáticas
O governo fez bem ao estabelecer o prazo de
30 dias para que estados e o Distrito Federal informem seus planos de prevenção
e combate aos incêndios florestais que poderão ocorrer devido ao El Niño.
O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico,
já está em formação e deverá ganhar força no decorrer dos próximos meses,
segundo previsões dos principais serviços meteorológicos. O Ministério do Meio
Ambiente menciona um ponto-chave na decisão que estabeleceu o prazo: a
articulação dos planejamentos federal e estaduais com a finalidade de preservar
meio ambiente e áreas agrícolas, além de proteger a população.
Desde abril, o Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe) passou a alertar o governo sobre a intensidade do
fenômeno neste ano e no início do primeiro semestre de 2027. No Brasil, ele
provoca secas ao Norte e chuvas no Sul. É preciso, portanto, estar preparado
para incêndios e enchentes.
Os cientistas usam a temperatura da
superfície do Pacífico numa região batizada Niño 3.4 como termômetro do
fenômeno. Em 2024, a temperatura em Niño 3.4 subiu 2 °C, caracterizando um
evento de forte intensidade, que contribuiu para a enchente histórica no Rio
Grande do Sul, com mortes, desabrigados e destruição. Houve ainda secas na
Amazônia e no Pantanal, varridos por incêndios devastadores. Um balanço feito
pelo Monitor do Fogo do projeto MapBiomas revelou que 30,8 milhões de hectares
foram atingidos pelas chamas, área maior que a da Itália. Foi a maior área
queimada desde 2019. Além disso, 73% da região atingida era de vegetação
nativa, com destaque para florestas, que representaram 25% do que foi
calcinado. Entre janeiro e dezembro, queimaram 6,7 milhões de hectares de
pastagens usadas pela agropecuária, 15% mais que o estado da Paraíba.
O fenômeno em formação pode repetir o de 2024
ou alcançar intensidade maior. Na última aferição feita em Niño 3.4, divulgada
pelo Serviço Nacional do Tempo dos Estados Unidos, o termômetro já havia subido
1,2 °C, ante 0,9 °C em maio e entre 1,2°C e 1,7°C em junho. A tendência é de
alta. “Há 81% de probabilidade de um El Niño muito forte entre outubro e
dezembro, que poderá ser incluído entre os eventos recordes ocorridos desde
1950”, informou o serviço meteorológico americano.
No final de junho, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) chamou a atenção para a coincidência entre um El Niño destrutivo e a fragilidade da segurança alimentar no mundo, provocada por dificuldades ligadas ao aquecimento global. O cenário mundial ressalta ainda mais a importância da mobilização do governo no Brasil. É provável que, daqui para frente, o estado de alerta tenha de ser permanente.
PF aperta o cerco sobre Valdemar na farra das
emendas
Por Folha de S. Paulo
Velho conhecido dos escândalos políticos,
presidente do PL mobilizou mais de R$ 100 milhões da Câmara
Legislativo parece pouco interessado em
evitar que milhões de reais sejam manipulados por um cidadão que não possui
mandato
Valdemar
Costa Neto é velho conhecido dos escândalos políticos no
Brasil. O presidente do PL foi condenado no mensalão,
investigado na Lava Jato e indiciado na tentativa de golpe de Jair Bolsonaro
(PL). A ninguém surpreende, portanto, que seu nome apareça na farra das emendas
parlamentares.
De acordo com a Polícia
Federal, Valdemar, que não é deputado nem senador, vinha
direcionando recursos da Câmara conforme seus próprios interesses, "em
sintomas inequívocos do cometimento dos crimes de peculato" (desvio de
dinheiro público).
Ao todo, são 21 emendas sob suspeita, com
datas que variam de junho de 2024 a março de 2026 e somam R$ 119 milhões. Como
a PF acredita que o próprio Valdemar possa ter sido o beneficiário final dessa
dinheirama, o ministro Flávio Dino,
do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o
bloqueio de valor correspondente em bens do ex-deputado.
O presidente do PL se disse surpreso com a
decisão de Dino. Por meio de seus advogados, afirmou que o ministro "parte
de premissas frágeis, inferências subjetivas e de uma indevida criminalização
da atividade político-partidária".
De fato, no atual estágio da investigação,
ainda não se conhecem evidências de que as verbas parlamentares tenham
engordado os bolsos de Valdemar. E, sem dúvida, é possível que, na condição de
presidente do PL, ele estivesse apenas participando de debates relativos à
melhor destinação de certos recursos.
O problema com a explicação é que ela não dá
conta das mensagens interceptadas pela PF durante a Operação Transparência,
deflagrada em dezembro passado e que teve como alvo uma assessora ligada
a Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente
da Câmara dos
Deputados.
Nos diálogos, alguns servidores tratam as
emendas parlamentares como se fossem propriedade privada de Valdemar. Afirmam,
por exemplo, que ele não aceitaria mudanças nos destinos de recursos e
demonstram que o presidente do PL pode lançar o dinheiro de uma rubrica para
outra conforme sua conveniência.
O surrealismo do quadro salta aos olhos com
uma comparação. Em 2024, Valdemar —que não tinha mandato— indicou R$ 111,8
milhões em emendas, o que o
deixou à frente de 512 deputados no período. Apenas o então
presidente da Casa, Arthur Lira, teve ascendência sobre valor superior.
É curiosa a situação: o Legislativo, que não
se faz de rogado quando sente necessidade de defender suas prerrogativas diante
dos outros Poderes, parece pouco interessado em evitar que milhões de reais
sejam manipulados por um cidadão que não possui representação parlamentar.
A aparente contradição talvez se explique
porque os mais variados deputados —e, vale acrescentar, presidentes de
partidos— beneficiam-se
com a farra das emendas, distribuídas com baixa transparência e
parca fiscalização. Se os legisladores não zelam pelo bom uso dos recursos
públicos, resta à PF e ao STF fazê-lo.
Alta letalidade policial, baixa
responsabilização
Por Folha de S. Paulo
Das 84 mortes em duas operações da PM
paulista, só 9,5% resultaram em denúncias do Ministério Público
Ademais, 8 de 16 agentes denunciados foram
absolvidos sumariamente; discrepâncias sugerem impunidade em casos de abuso no
uso da força
As operações Escudo e Verão, que
ocorreram no litoral paulista entre 2023 e 2024, foram as mais
letais da história da Polícia
Militar de São Paulo depois
do massacre do Carandiru em 1992, quando 111 pessoas foram mortas. Mas a
responsabilização dos agentes parece aquém do alto nível de letalidade.
Segundo levantamento realizado pela Folha,
das 84 mortes causadas por policiais nas duas ações, só 9,5%
resultaram em denúncias do Ministério
Público.
Trata-se de padrão recorrente no país. Estudo da
ONG Fórum Justiça do ano passado mostrou que apenas 9% dos
casos de mortes provocadas pelas forças de segurança, entre 2011 e 2023 em São
Paulo, foram denunciados pelo Ministério Público; no Rio de
Janeiro, a taxa no mesmo período foi ainda menor (3,7%).
Ademais, 8 dos 16 policiais denunciados por
ocorrências nas operações Escudo e Verão foram absolvidos sumariamente pela
Justiça —quando o juiz encerra o processo antes de submetê-lo ao tribunal do júri
por entender que já está claramente demonstrada alguma hipótese legal, como o
réu não ter sido o autor ou a conduta não constituir crime.
Na absolvição mais recente, referente à morte
do roupeiro Allan de Moraes Santos, desembargadores afirmaram que não havia
indício de ação deliberada dos réus, de intenção homicida nem de alteração da
cena.
Allan foi morto com seis tiros de pistola e
fuzil. Nas imagens das câmeras corporais, a pistola atribuída a ele pelos
policiais aparece no asfalto, mas o mesmo local havia sido filmado 50 segundos
antes, sem que a arma estivesse lá, segundo a Promotoria.
Em outros três casos, são fartas as alegações
de falhas processuais, como câmeras policiais descarregadas, disparos de fuzil
quando as vítimas já estavam rendidas e apagamento de imagens, entre outras.
Com a absolvição sumária, essas violações não serão analisadas.
No único caso em que houve decisão de
pronúncia para levar dois policiais a júri, as imagens das câmeras corporais
foram essenciais, ressaltando a importância do equipamento para conter
arbitrariedades, qualificar a atuação dos agentes e municiar investigações.
Por óbvio, nem todas as mortes ocorridas em operações policiais configuram homicídio doloso ou abusos no uso da força. Ainda assim, a grande discrepância entre o número de mortos e o de policiais denunciados e julgados sugere falhas na investigação e na responsabilização, além de um quadro de impunidade na abordagem da letalidade policial.
Decisão judicial se cumpre
Por O Estado de S. Paulo
Ao suspender as visitas de Flávio a Jair
Bolsonaro, Moraes não tornou o ex-presidente incomunicável, só respondeu à
violação das restrições impostas para a concessão da prisão domiciliar
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Alexandre de Moraes suspendeu as visitas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a
seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que, como todos sabem, cumpre em casa
a pena de mais de 27 anos de prisão a que foi condenado por tentar um golpe de
Estado, entre outros crimes. A medida foi tomada depois que Flávio divulgou em
suas redes sociais o conteúdo de uma carta escrita pelo apenado e dirigida “aos
brasileiros”, no dia 11 passado. A divulgação ocorreu no mesmo dia em que
Bolsonaro assinou o texto, razão pela qual o ministro ordenou que a defesa do
ex-presidente esclareça se ele tinha conhecimento prévio de que seu manifesto
político seria tornado público.
Moraes tomou a decisão correta. Há um princípio
elementar do Estado de Direito que antecede debates sobre penas, regimes de
cumprimento, privilégios no cárcere ou simpatias partidárias: decisão judicial
se cumpre. Pode-se recorrer dela, contestá-la em fóruns domésticos e
internacionais, criticá-la em artigos ou editoriais na imprensa. O que não se
admite, em hipótese alguma, é descumpri-la unilateralmente, como se a
constrição penal estivesse aberta à negociação ou, pior, ao exercício de um
imaginário direito cívico à insurreição. Fosse assim, seria a barbárie. Foi
esse primado civilizatório, e nada mais, que Moraes fez valer.
Deveria ser ocioso lembrar que o sr.
Bolsonaro foi condenado a quase três décadas de prisão, em regime inicial
fechado, por tentar arruinar a democracia brasileira. Ele só cumpre a pena em
prisão domiciliar por razão humanitária, em atenção ao seu quadro de saúde,
sabidamente delicado. Trata-se, portanto, de uma concessão excepcionalíssima do
Estado – e condicionada ao respeito estrito às restrições impostas pela
Justiça, entre as quais a proibição de uso de redes sociais, próprias ou de
terceiros.
Ressalte-se que Moraes foi cuidadoso. O
ministro não afirmou que Bolsonaro descumpriu uma restrição do regime
domiciliar, apenas questionou sua defesa. Quem a descumpriu flagrantemente foi
Flávio, tanto que, por ora, o atingido pela decisão do ministro foi o senador,
não seu pai.
Diferentemente dos irmãos, Flávio tem acesso
irrestrito a Bolsonaro porque figura formalmente como seu advogado, munido de
procuração. O busílis é que, na prática, Flávio jamais atuou como defensor do
pai em processo algum. A condição de “advogado” funciona como mero subterfúgio
para manter Bolsonaro politicamente ativo a despeito de sua condenação criminal
– um expediente ardiloso que já era objeto de crítica deste jornal há oito
anos, quando quem estava preso era Luiz Inácio Lula da Silva e, desde a
Superintendência da Polícia Federal de Curitiba, também tentava se manter ativo
no contexto de uma campanha eleitoral.
Uma leitura atenta e honesta da decisão de
Moraes desfaz a caricatura de “perseguição política” que aliados do ex-presidente
tentam desenhar. Não há, em nenhuma linha da decisão, proibição a que Bolsonaro
escreva cartas. Mais bem dito: Bolsonaro não está incomunicável. Está, sim,
sujeito a certas restrições de comunicação, às quais, de resto, estão sujeitos
todos os condenados por decisão judicial transitada em julgado. Bolsonaro pode
escrever quantas cartas quiser, para quem quiser, mas seu conteúdo deverá
passar pelo escrutínio prévio das autoridades. A prisão domiciliar, nesse
sentido, não difere essencialmente do regime fechado. Ademais, escrever uma
carta é uma coisa. Burlar as restrições de uso de redes sociais é outra.
Misturar as estações é ofender a inteligência alheia.
Diante da dúvida se Bolsonaro sabia ou não
que sua carta viria a público por meio das redes sociais de Flávio, Moraes
preferiu punir quem inequivocamente agiu – o senador – a mandar Bolsonaro de
volta para a Papuda. A sanção recaiu sobre o filho, não sobre o pai condenado,
uma prova de que a decisão do ministro foi proporcional ao que pôde ser apurado
até o momento, e não arbitrária.
Ao fim e ao cabo, pode-se discutir se é certo
ou não Jair Bolsonaro estar impedido de acessar suas redes sociais. O que não
se pode é ignorar a restrição de uso que está vigente por decisão judicial. E
decisão judicial se cumpre. É tão simples quanto isso.
Medidas contra bets são muito tímidas
Por O Estado de S. Paulo
As bets nem deveriam ter sido legalizadas.
Mas já que foram, sua publicidade deveria ser severamente limitada, o que as
novas regras do governo, embora positivas, não fazem
O governo endureceu as regras para a
publicidade das apostas esportivas. Todas as propagandas de bets deverão agora
exibir advertências informando que apostar pode causar dependência, faz perder
dinheiro e não é investimento. Também ficam proibidas peças publicitárias que
associem as apostas a sucesso financeiro, fonte de renda ou enriquecimento
fácil. As medidas representam um avanço e mostram que o Estado reconhece, de
forma clara, os riscos de uma atividade que nem deveria ter sido legalizada.
Nesse sentido, as medidas do governo são muito tímidas.
Nos últimos anos, o mercado de apostas online
cresceu sem freios. Enquanto a regulamentação patinava, empresas se instalaram
no País e multiplicaram patrocínios a clubes, campeonatos e programas
esportivos. Também transformaram influenciadores, atletas e celebridades em
vitrines permanentes de um negócio apresentado como entretenimento inofensivo.
O tsunami veio com a Copa do Mundo. Hoje, as pesquisas mostram o aumento do
endividamento das famílias, o crescimento dos casos de ludopatia, a pressão
sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e até o adiamento do ingresso de jovens no
ensino superior.
Mesmo assim, Executivo e Congresso ainda evitam
enfrentar o problema de frente. Se o próprio Estado considera necessário
obrigar as empresas a informar que apostar causa dependência, faz perder
dinheiro e não constitui investimento, fica difícil explicar por que as bets
continuam submetidas a regras de publicidade mais brandas que as de outros
produtos reconhecidamente nocivos.
Trata-se de impor à publicidade das bets
limites proporcionais aos danos que elas provocam. Foi essa lógica que
orientou, ao longo das últimas décadas, a restrição à propaganda de cigarros.
Ninguém proibiu o consumo. O que se reconheceu foi que produtos capazes de
causar prejuízos dessa dimensão à saúde pública não poderiam continuar sendo
promovidos como símbolos de sucesso, diversão ou qualidade de vida.
Não por acaso, a prefeitura do Rio de Janeiro
decidiu nesta semana proibir a publicidade de bets em espaços públicos sob sua
administração, uma iniciativa pontual, decerto movida por interesses
eleitorais, mas coerente com a necessidade de reduzir a exposição da população
às apostas.
No âmbito federal, porém, as apostas online
seguem sendo tratadas pelas autoridades com uma leniência difícil de
compreender. Sempre que se propõem restrições mais severas, as empresas
envolvidas alegam que isso abriria espaço para plataformas clandestinas e para
a atuação do crime organizado. Ora, essa justificativa é frágil. Se levada às
últimas consequências, serviria, no mínimo, para desaconselhar qualquer tipo de
controle sobre atividades potencialmente nocivas. Combater a ilegalidade é dever
permanente do Estado, não razão para deixar os consumidores expostos a um
mercado que o próprio governo reconhece como capaz de provocar dependência e
perdas financeiras.
Essa hesitação do poder político, por sua
vez, empurra o problema para o Supremo Tribunal Federal (STF). No segundo
semestre, a Corte deverá retomar o julgamento das ações que questionam a
constitucionalidade da Lei das Bets. Entre os temas em debate estão a proteção
de grupos vulneráveis, como beneficiários de programas sociais, e os limites de
uma atividade que, segundo a Procuradoria-Geral da República, possui caráter
predatório e compromete direitos fundamentais. O presidente do STF, Edson
Fachin, já associou o avanço das apostas ao crime organizado e classificou o
tema como um grave problema social e de segurança pública. Suas declarações
indicam que o tribunal dificilmente será permissivo.
O julgamento, porém, ainda está distante, e
seu resultado é incerto. Até lá, governo e Congresso não têm desculpa para
continuar adiando restrições muito mais severas à publicidade das bets. Não
basta alertar sobre os riscos de uma atividade reconhecidamente nociva enquanto
sua publicidade continua ocupando estádios, transmissões esportivas, redes
sociais e a rotina dos brasileiros quase sem limitações. O aviso é bem-vindo,
mas a tolerância já passou da hora de acabar.
Os Correios zombam do País
Por O Estado de S. Paulo
Estatal suspende parcialmente plano de
recuperação ao primeiro sinal de insatisfação dos empregados
A cada dia que passa, os Correios provam que
não chegaram à situação de penúria em que se encontram por acidente. Diante de
uma ameaça de greve por parte de seus funcionários, a primeira medida adotada
pela empresa foi a de suspender a execução de seu plano de reestruturação.
Estão adiadas, ao menos até o dia 31 de julho, a aplicação de medidas como o
fechamento de agências e a retirada de uma gratificação paga aos funcionários
que trabalham com atendimento ao público.
Seria cômico se não fosse trágico. O plano
foi a contrapartida que os Correios tiveram de apresentar ao governo para
conseguir um empréstimo de R$ 12 bilhões no fim do ano passado junto a cinco
bancos, sendo dois deles públicos. A empresa precisou registrar prejuízo por 14
trimestres consecutivos e encerrar 2025 com um rombo de R$ 8,5 bilhões para
aceitar se comprometer com a aplicação de medidas de ajuste que nem de longe
podem ser consideradas austeras, mas que já estão sob ameaça.
Entre dar aval a uma operação financeira
questionável sob o ponto de vista econômico-financeiro e arranjar espaço
adicional no Orçamento Geral da União para fazer um aporte emergencial de
recursos para salvar os Correios, a opção do Ministério da Fazenda parece ter
sido a de empurrar o problema com a barriga até segunda ordem – ou, pelo menos,
até as eleições presidenciais de outubro.
Foi uma aposta de risco, pois os Correios não
conseguem manter as aparências nem sob circunstâncias absolutamente
desfavoráveis para si mesmos. O aval não encerrou a pendenga, pois a empresa
ainda precisa de mais um empréstimo de R$ 7 bilhões a R$ 8 bilhões neste ano
para pagar as contas em dia. De que maneira a estatal espera convencer as
instituições financeiras de que terá condições de arcar com uma nova operação
dessa monta se abdica de parte do plano de reestruturação ao primeiro sinal de
insatisfação de seus empregados?
Ficou ainda mais feio para os servidores do
Tesouro Nacional, que deram aval a uma operação que terá de ser paga pela União
em caso de calote, ou seja, pelo contribuinte. Não por acaso, os gestores
entraram na mira do Tribunal de Contas da União (TCU), que questionou as
premissas financeiras que embasaram o fluxo de caixa que consta do plano de
recuperação que os Correios apresentaram ao Ministério da Fazenda durante as
negociações – e que acabaram de suspender parcialmente.
Se o primeiro empréstimo já gerou esse tipo
de problema, como os servidores terão condições de autorizar um segundo para
uma empresa que registrou um prejuízo de R$ 3,16 bilhões no primeiro trimestre
deste ano? Se o fechamento de agências e a retirada da gratificação já foram
suspensos sem que a greve sequer tenha começado, não se pode condenar quem
imagine que o programa de demissões voluntárias (PDV), a venda de imóveis
ociosos e a reformulação do generoso plano de saúde dos funcionários também o
serão caso a paralisação seja confirmada.
Qualquer empresa privada em situação semelhante já teria fechado as portas há muito tempo. Mas se os Correios zombam do País, é porque têm a certeza de que o governo Lula dá respaldo a esses absurdos.
Aposta alta nas empresas de IA traz risco
para economia mundial
Por Valor Econômico
Os investimentos em IA já somam mais de US$
1,2 trilhão desde o início de 2025, sendo US$ 725 bilhões só este ano
Os investidores deixaram a euforia de lado e
estão reavaliando se as promessas revolucionárias da inteligência artificial
darão retornos suficientes às empresas gigantes que a desenvolvem. Mas a
economia global terá um problema se o otimismo com a IA se transformar de
repente em pessimismo. O Banco de Compensações Internacionais (BIS) e o Fundo
Monetário Internacional (FMI) consideram a reversão das bolsas com as ações da
tecnologia e a continuidade da guerra entre EUA e Irã os dois maiores riscos
atuais. Os conflitos no Oriente Médio foram retomados e os rumos da IA podem
ter correção.
Os investimentos em IA já somam mais de US$
1,2 trilhão desde o início de 2025, sendo US$ 725 bilhões só este ano, mas os
riscos da corrida foram evidenciados pelo BIS. “Com gastos de capital cada vez
mais altos por pressão competitiva, o saldo líquido, descontados os custos de
investimento, declina para o setor como um todo e pode se tornar negativo em
cenários adversos”, adverte. O desapontamento com esses retornos pode, então,
cortar os financiamentos e transformar o boom de investimentos em um colapso,
“com efeito cascata sobre as condições financeiras”.
A IA está consumindo recursos das big techs a
grande velocidade. Gastos de capital hoje correspondem a 80% do fluxo de caixa
operacional (Valor, 13/7). As chamadas 7 Magníficas chegaram a uma fatia de um
terço das ações da S&P 500, mas, após a forte valorização nas bolsas
americanas, o salto das despesas de capital levou-as a lançar mão de dívidas
com avidez. Enquanto essas gigantes da tecnologia (Apple, Amazon, Microsoft,
Alphabet, Nvidia, Tesla e Meta) perderam US$ 2 trilhões em valor de mercado
desde outubro, a emissão de dívidas do grupo ultrapassou US$ 170 bilhões. Se
somadas outras empresas provedoras de infraestrutura da computação em nuvem, as
emissões chegam a US$ 230 bilhões, segundo dados do BIS.
A onda da IA puxou com força também as
empresas de chips concentradas na Ásia. Ações da TSMC de Taiwan e das coreanas
Samsung e SK Hynix mais que dobraram de valor em um semestre, um rally de US$
1,8 trilhão, após registrarem lucros 15 a 20 vezes maiores do que em 2025.
Os investidores puseram o pé no freio do
setor de IA e resolveram prudentemente voltar a diversificar suas aplicações.
As 7 Magníficas tiveram peso negativo para o S&P 500 no primeiro semestre.
A gigante Nvidia, com valor de mercado de US$ 5 trilhões, teve recentemente a
mesma relação preço-lucro que a empresa de chocolates Hershey (FT, Katie
Martin). Em junho, o índice de ações das empresas de tecnologia de informação
(TI) recuou 7,5%, diante da alta de 8% das ações do setor de saúde e de 6,7%
dos papéis do setor financeiro.
Igualmente importante como tendência foi o
comportamento dos títulos da dívida de longo prazo (10 anos) das líderes da IA,
que têm agora o pior comportamento dentre os papéis com grau de investimento,
em um movimento que reflete ceticismo dos investidores quanto a rentabilidade
dos gigantescos investimentos realizados. Eles estão se dando conta de que com
a rápida evolução de uma nova tecnologia de enormes potenciais, é arriscado
prever o futuro, quais empresas afinal assumirão a liderança e quais poderão
ficar pelo caminho. Há, além disso, dinheiro demais envolvido. O JP Morgan
calcula que as maiores do setor de IA precisarão de US$ 5 trilhões em 5 anos e
tanto elas como as provedoras de infraestrutura estão obtendo receitas na casa
dos 11 dígitos, (dezenas de bilhões), com gastos de 13 dígitos (trilhão de
dólares).
Avaliações mais realistas também atingiram o
setor de semicondutores, que dependem do boom de IA. O índice Kospi, de ações
coreanas, caiu 20% desde seu pico no semestre, com os estrangeiros vendendo US$
100 bilhões em ações de companhias como Samsung e SK. O risco de obsolescência
precoce do setor é grande. “O ritmo acelerado da inovação tecnológica também
aumenta o risco de que os atuais semicondutores de última geração, incluindo
chips de memória, se tornem obsoletos com a próxima onda de inovação”, afirma o
consultor Ed Yardeni (Valor, 13/7).
A febre do investimento em IA se disseminou
pelos mercados de crédito, nos quais os fundos de empréstimos diretos
quadruplicaram o crédito para IA e TI em 5 anos. Hoje representam 15% de seu
portfólio. A demanda por IA puxou o crescimento dos setores relacionados, não
só chips como também construção, engenharia, energia e outros. As empresas de
chips taiwanesas e coreanas passaram a ocupar uma fatia de 29% do MSCI Emerging
Markets. A exposição a ações das famílias americanas cresceu, enquanto os
papéis americanos hoje representam 64% do MSCI Global Index. Tudo isso aponta,
segundo o BIS, para o impacto global profundo e amplo que uma grande correção
nas ações de IA poderá ter, inclusive sobre o efeito riqueza que tem alimentado
o consumo americano.
Excesso de investimentos em tecnologias de fronteira no passado levaram as economias à recessão. É o que o BIS teme agora, embora isso seja mais um risco que realidade.
Pragmatismo contra as incertezas da gestão
Trump
Por Correio Braziliense
A dependência excessiva dos humores políticos
de uma única superpotência é uma vulnerabilidade que o PIB brasileiro não
precisa carregar
A iminência de um anúncio que pode sobretaxar
em 25% as exportações brasileiras para os Estados Unidos coloca a diplomacia e
a economia do país em estado de alerta. A investigação americana sob a Seção
301 da Lei de Comércio de 1974, que mira desde a soberania do Pix até decisões
judiciais sobre plataformas digitais, funciona como pretexto para a escalada
protecionista da gestão de Donald Trump. O Palácio do Planalto trabalha com o
realismo de que o tarifaço é o cenário mais provável. Diante de um líder cuja
marca registrada é a imprevisibilidade transacional, o Brasil não pode
abandonar a mesa de negociação, mas precisa calibrar sua estratégia externa.
O impacto potencial da medida não é
desprezível. Estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam
que mais de 4 mil produtos exportados, de açúcar bruto e molduras de madeira a
hidróxido de alumínio, podem ser severamente afetados. A retórica de Washington
de que o Pix cria "vantagens competitivas desleais" contra bandeiras
de cartões norte-americanas ignora o sucesso de um modelo de inclusão bancária
aclamado globalmente. Tratar o sistema de pagamentos brasileiro ou decisões de
tribunais soberanos como moeda de troca comercial é um erro que acabará punindo
os próprios consumidores e indústrias americanas dependentes de insumos
brasileiros.
A história recente demonstra que ceder ao
pânico ou responder com retaliações intempestivas é o pior caminho. Em 2025, o
próprio Donald Trump tentou erguer barreiras semelhantes que acabaram contidas
pela Suprema Corte americana. A orientação do governo de manter o diálogo
técnico, buscando ampliar exceções e mitigar alíquotas, demonstra a maturidade
necessária para lidar com um parceiro volátil. O pragmatismo exige, porém,
reconhecer os limites dessa interlocução. Tratar com uma Casa Branca que usa
sanções unilaterais como ferramenta de coerção primária requer estômago frio e
a clareza de que promessas de campanha ali se convertem rapidamente em tarifas
alfandegárias.
O erro estratégico seria apostar todas as fichas na contenção de danos em Washington. O iminente tarifaço deve servir como o empurrão definitivo para que o Brasil acelere a diversificação de sua carteira de parceiros comerciais, estreitando laços com economias emergentes, consolidando espaço no Leste Asiático e destravando acordos há muito adormecidos. A dependência excessiva dos humores políticos de uma única superpotência é uma vulnerabilidade que o PIB brasileiro não precisa carregar. Negociar com Washington é um dever do presente. Construir alternativas é o único seguro contra o futuro.
Pix é o alvo dos Estados Unidos
Por O Povo (CE)
O governo brasileiro não pode deixar de
aplicar uma política pública, que beneficia milhões de brasileiros, para
favorecer meia dúzia de empresas financeiras
Hoje é o dia marcado pelo governo dos Estados
Unidos para comunicar se a tarifa adicional de 25% será aplicada aos
produtos brasileiros. A decisão acontece após o Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR) ter concluído uma investigação com base na
Seção 301 da lei de Comércio americana, propondo a sobretaxa.
No início de julho, o USTR realizou uma
audiência pública em Washington para ouvir empresários de ambos os países sobre
o assunto. O pré-candidato a presidente, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
falou no evento pedindo o adiamento da aplicação da sobretaxa devido ao período
eleitoral, porém não se manifestou abertamente contra a nova tarifa.
O governo brasileiro optou por não
falar durante o evento, enviando representantes. A explicação é que a audiência
destinava-se a ouvir a sociedade civil, e que as negociações bilaterais vinham
sendo realizadas entre equipes do Brasil e dos Estados Unidos.
Do ponto de vista técnico, o Brasil conseguiu
mostrar a inexistência de justificativa plausível para considerar que os
produtos brasileiros fazem "concorrência desleal" com a produção dos
Estados Unidos. A mais gritante prova do argumento brasileiro é que, desde
muito tempo, os EUA têm superávit comercial com o Brasil. Todos os
itens apresentados pelo USTR foram respondidos da mesma forma: tecnicamente e
sustentados por provas.
Sobrava, portanto, o Pix, um item considerado
inegociável. Para o Brasil, visto como um caso de soberania do País, a quem
cabe definir como organizar seu sistema de pagamentos. Inclusive as empresas
americanas que operam no Brasil também podem usar Pix, sem restrições.
Para os Estados Unidos, o sistema provoca
prejuízo aos bancos e bandeiras de cartões de crédito. No entanto, o
ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que o argumento
não procede. Segundo ele, as possíveis perdas são compensadas pela abertura de
novas contas e pelo aumento do volume de transações. Além do mais, o governo
não pode deixar de aplicar uma política pública, que beneficia milhões de
brasileiros, para favorecer meia dúzia de empresas financeiras.
Tudo indica que os EUA vão manter o
tarifaço contra o Brasil. No máximo, serão incluídos mais produtos na lista de
exceções, atendendo ao empresariado americano que se mostra contra a sobretarifação.
Frente a um resultado negativo é de se
esperar a condenação uníssona de todos os setores da sociedade, principalmente
do segmento político, a essa manobra do presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump. Sem justificativa para o tarifaço, observa-se que a sua pretensão é
submeter politicamente o Brasil, um país que ousa reafirmar sua soberania.
Não se trata, portanto, nesse caso, de um confronto de situação versus oposição, mas de separar que está verdadeiramente a favor dos brasileiros daqueles que capitulam a uma política que busca rebaixar o Brasil para servir aos desígnios de uma nação estrangeira.

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