Folha de S. Paulo
Desde o início do ano, real foi a moeda que
mais se valorizou entre as mais relevantes
Influxo de dólares ajudou a conter a inflação
de 2025 e deve ajudar de novo em 2026
O Brasil seria agora o "queridinho"
dos donos do dinheiro grosso do mundo, lê-se por aí, entre outras expressões
constrangedoras de cafonas e exageradas. A medida principal desse amor é a
valorização do real em relação ao dólar,
desde o início do ano a maior entre 35 moedas mais relevantes. O tutu está
entrando, pela finança e pelo comércio externo.
Convém prestar atenção a variações grandes da taxa de câmbio, que têm efeito político, pois batem em preços e juros. Bom lembrar também que muita vez essas variações têm pouco a ver com decisões tomadas aqui dentro. Desde o início de 2025, o real se valorizou basicamente porque os donos do dinheiro do mundo decidiram reorganizar suas aplicações.
A entrada de dólares tem achatado temores com
o grande
problema fiscal (déficit persistente, dívida que cresce sem limite).
Ignora a eleição
apertada entre candidatos muito diferentes a presidente. O
dinheiro grande vai se importar apenas quando souber do novo ministro da
Fazenda, no final do ano? Difícil antecipar razões, rapinas e desrazões do
capital.
Entre outros motivos da onda de valorização
de agora está a avaliação de que o Brasil viria a se estrepar menos com a
guerra. O país: 1) Exporta petróleo; 2) Tem matriz energética diversificada e
com muitos renováveis; 3) Exporta várias commodities, entre elas comida; 4) Tem
juros muito mais altos do que os do resto do mundo relevante; 5) Terá mais
receita fiscal, engordada pelos impostos do petróleo; 6) Está longe de zonas de
conflito; 7) Por comparação, tem política menos conturbada (pois é) e governo
mais estável.
A explicação parece razoável, depois de
sabermos que o real se valorizou, assim como ocorreu em 2025: meio análise de
obra feita. As previsões para taxa de câmbio, quase sempre muito furadas, eram
de dólar mais caro.
Desde o início de 2025, parece que quase 50%
da valorização do real se deveu à onda global de mudanças de fluxo de dinheiro
causada pelo descrédito dos EUA, obra de Donald Trump.
O restante seria devido em um terço à diferença de juros entre o Brasil e o
resto do mundo relevante, em particular os EUA; no mais, à
exportação de commodities.
"Parece". Há meios um pouco
diferentes de se fazer essa conta, que de resto é uma decomposição de motivos
baseada em dados disponíveis, não uma explicação cravada.
O preço do dólar está perto de R$ 5,06, na
média de abril até esta terça (21). Com um empurrãozinho extra, em termos reais
voltaríamos ao patamar de fevereiro de 2020, mês anterior ao do início dos
fechamentos da Covid. Entre as três dúzias de moedas mais relevantes, o real
levou o maior tombo no início da epidemia e quase sempre caído ficou, desde
então.
Entre fins de 2024 e janeiro de 2025, houve o
pico mundial recente do valor do dólar: era o cúmulo dos delírios otimistas com
a política
econômica de Trump. Desde meados de 2024, o descrédito da
política fiscal de Lula ajudava a derrubar o real (uns dois terços da queda de
2024 se deveram ao problema de gastos e dívida públicos). O efeito combinado
dessas duas pressões provocou um pânico no mercado brasileiro no final de 2024
e o Selicaço do Banco Central.
Ao longo de 2025, pegamos a onda de
valorização das moedas dos emergentes, que muito contribuiu para derrubar a
inflação; em 2026, estamos no alto dessa onda, que deve atenuar a carestia
causada pela guerra (combustíveis,
fertilizantes etc.). Deve salvar uns votos para Lula 4.
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