terça-feira, 14 de abril de 2026

A extrema direita não é eterna, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

As lições, ou reflexões, que a derrota de Orbán na Hungria traz para o Brasil

A surpreendente derrota de um dos principais líderes da extrema direita, Viktor Orbán, da Hungria, traz ao menos quatro reflexões, ou lições, para um Brasil polarizado e em ano eleitoral. A Hungria é a Hungria, o Brasil é o Brasil, mas as guerras políticas assolam o mundo inteiro e os extremos avançam, ainda mais com internet e redes sociais.

Orbán “reinou” na Hungria por 16 longuíssimos anos e tornou-se um polo de atração e inspiração da extrema direita, aliando-se a Trump, de um lado, e Putin, de outro, inclusive para fóruns de caráter religioso que, por exemplo, animam Trump a atacar o papa Leão XIV como “fraco”. Por quê? Porque não é arrogante, autoritário e histriônico como ele próprio.

A primeira lição que a Hungria nos dá é que a extrema direita não é imbatível nem eterna. Um dia, a casa cai, sob o peso dos excessos e do autoritarismo tosco que geram indignação e manifestações por mudanças, liberdade, democracia. Não adianta Trump enviar seus principais assessores para interferir. Ele enviou J.D. Vance a favor de Orbán, e daí?

A segunda é o que já vivenciamos, ao deixar os 20 anos de ditadura militar para trás: derrubar regimes autoritários não é tarefa para um bloco só, é uma construção da esquerda, do centro e da direita mais civilizada, ou insatisfeita, em geral dissidentes do regime – como Péter Magyar, vitorioso na Hungria. A união faz a força.

A terceira, mais modesta, mas eficaz, é que, enquanto Orbán gastou a campanha tentando doutrinar os húngaros com ideologia, geopolítica, Trump e guerras, o vitorioso Magyar falou aos eleitores sobre o que realmente lhes interessa: educação, saúde, salários, combate à corrupção e, somando tudo, liberdade. Se vai cumprir e se vai dar certo, são outros quinhentos.

E, enfim, a quarta lição: eleição não se ganha de véspera e nunca se pode descartar um “outsider” (ou aventureiro, em bom português) nesses momentos de desencanto com a política, desconfiança nas instituições e indignação generalizada.

Magyar, advogado de 45 anos, deslumbrou-se com as ideias de Orbán desde criancinha, filiou-se ao partido dele na juventude e ocupou posições estratégicas no regime. Sua ex-mulher e atual inimiga, a também advogada Judit Varga, foi ministra da Justiça de Orbán.

De fiel aliado, Magyar se transformou em ferrenho opositor e, assim, criou seu próprio partido, canalizou a insatisfação popular para as urnas e, em dois anos, deu a cambalhota que derrubou Orbán para iniciar uma nova era na Hungria. Qual? Não se sabe. Aliás, esse é o “x do problema” de “outsiders” e aventureiros, não é, Wilson Witzel e Ibaneis Rocha?

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