terça-feira, 14 de abril de 2026

Húngaros revertem erosão da democracia, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Apesar de passar por período difícil, democracias continuam vivas

Caso húngaro se soma ao da Polônia, da Eslovênia e do Brasil

Viktor Orbán foi destronado pelo voto. Os relatos sobre a morte da democracia liberal são exagerados. É fato que esse sistema de governo já viveu dias mais brilhantes, mas é pouco provável que a atual maré recessiva leve a democracia à condição de espécie ameaçada. Substituí-la não é tarefa trivial. Nenhum sistema oferece melhor balanço de direitos individuais, responsividade à opinião pública e estabilidade política.

Orbán era o garoto-propaganda do iliberalismo. Foi ele quem escreveu o manual da erosão democrática, pelo qual líderes eleitos vão, em geral dentro da lei, enfraquecendo os freios e contrapesos a seu poder até que o Estado se torna mais autocrático do que democrático. Orbán levara esse movimento ao paroxismo. Ele gozava de amplo domínio sobre o Legislativo, o Judiciário e controlava os meios de comunicação. Mas não controlava tanto o eleitorado.

Após 16 anos no poder, o Fidesz, o partido de Orbán, sofreu uma surra histórica nas urnas. O futuro governo conseguiu a maioria de dois terços necessária para aprovar mudanças constitucionais. Vale lembrar que não foi só na Hungria que líderes autocráticos sofreram reveses. Algo parecido aconteceu na Polônia, na Eslovênia e, é claro, no Brasil.

Mas, se Orbán experimentara tanto sucesso como líder iliberal, por que aceitou abrir mão do poder? É justamente aí que reside a "mágica" da democracia. Ela não é virtuosa por favorecer a escolha de líderes competentes (muito pelo contrário), mas por facilitar a saída pacífica de governantes, especialmente os maus. Orbán, que é mais inteligente que a média dos candidatos a autocrata, calculou que perderia menos passando um tempo na oposição do que resistindo, por meio de violência ou golpe, à vontade popular e às sanções que sofreria no âmbito da União Europeia.

Ele continua a ser um político influente e poderá voltar pelas urnas. Trump e Netanyahu voltaram —a democracia é boa, mas não perfeita. E, no pior cenário, se vier a enfrentar processos, sabe que será bem recebido em Moscou.

 

 

 

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